Jesus vai, pois, pelo meio das messes. O dia está quente. A região, deserta. Não se vê um homem pelos campos. Só espigas maduras e árvores aqui e ali. Sol, grãos, passarinhos, lagartixas, moitas verdes, com as folhas imóveis no ar tranquilo: isto é o que eu vejo ao redor de Jesus. Para os lados das duas extremidades da estrada mestra, que Jesus vai percorrendo, e que é como uma fita poeirenta e deslumbrante, por entre o ondular dos trigais, há de um lado um pequeno povoado e do outro uma fazenda. Nada mais.
Todos vão andando em silêncio, sob o intenso calor. Eles tiraram seus mantos, mas certamente ainda estão sentindo calor como antes, pois estão com roupas de lã, ainda que leves. Só Jesus, os dois primos e Judas Iscariotes é que estão vestidos de linho branco ou cânhamo. Com certeza, a veste de Jesus e a de Iscariotes são de linho branco. As outras, dos filhos de Alfeu, pela sua espessura me parecem mais pesadas do que as de linho e são tingidas com uma cor de marfim carregada, justamente como a que tem o cânhamo, quando não alvejado. Os outros vão como de costume, enxugando o suor com o pano de linho, que lhes serve de véu para a cabeça.
Chegam a um pequeno grupo de árvores, em uma encruzilhada. Param debaixo daquela sombra e, com avidez, bebem de seus odres.
– Está quente, como se tivesse sido tirada do fogo –resmunga Pedro.
– Se aqui houvesse pelo menos um riacho. Mas nada, nada! –suspira Bartolomeu–. Daqui a pouco, não tenho mais nada.
– Estou quase dizendo que é melhor a montanha –geme Tiago de Zebedeu, congestionado pelo calor.
– Melhor do que tudo é a barca. Fresca, cômoda, limpa ah!
O coração de Pedro se lembra do seu lago e de sua barca.
– Todos vós tendes razão. Mas os pecadores estão tanto na montanha, como na planície. Se não nos tivessem expulsado de Águas Belas, e nos perseguido, vindo atrás de nós, Eu teria vindo aqui entre os meses de Tebet e Shebat. Mas, logo estaremos andando ao longo da beira-mar. Lá o ar é temperado pelo vento do largo –anima-os Jesus.
– Eh! Precisamos disso. Aqui estamos parecendo uns peixes que estão morrendo. Mas, como fazem os trigais para estarem tão bonitos, se não há água? –pergunta Pedro.
– Por aqui há águas subterrâneas. Elas conservam úmido o terreno –explica Jesus.
– Melhor seria que estivessem do lado de cima, do que no de baixo. Que vou fazer com elas, se estão debaixo da terra? Eu não sou uma raiz! –diz o impetuoso Pedro, enquanto todos se riem.
Mas depois Judas Tadeu fica sério, e diz:
– É egoísta o solo, como o são os ânimos e é árido também. Se nos tivessem deixado parar naquele lugar e passar lá o sábado, teríamos sombra, água e repouso. Mas eles nos expulsaram…
– Até alimento teríamos tido. Mas nem isto. Eu estou com fome. Se aqui houvesse frutas. Mas as árvores frutíferas estão perto das casas. E quem é que vai até elas? Se todos forem do mesmo humor que aqueles de lá… –diz Tomé, acenando para o povoado que deixaram atrás, a leste.
– Toma o meu alimento. Eu nunca tenho muita fome –diz Zelotes.
– Tomai também o meu –diz Jesus–. Quem estiver com mais fome, coma.
Mas, tendo sido postos juntos os alimentos de Jesus, de Zelotes e de Natanael, vê-se que dão uma pequena quantidade e os olhos assustados de Tomé e também os dos jovens, estão dizendo isso. Mas eles se calam, e vão pondo na boca os pequeninos pedaços.
Zelotes, com paciência, vai até um ponto, onde uma parte verde sobre o terreno queimado faz pensar que lá haja umidade. E, de fato, no fundo do leito seco de um rio, há ainda um fio d’água, que em breve está para desaparecer. Zelotes dá um grito para os que estão longe, a fim de que eles vão àquele refrigério, e lá se vão todos, correndo, passando pela sombra descontinua das árvores crescidas à margem do fio d’água, que já está quase enxuto, e lá eles podem refrescar os pés poeirentos, lavar o rosto suado e, mesmo antes de encher seus odres já vazios e deixá-los depois dentro d’água, na parte em que está sombreada, para conservar a água fresca. Assentam-se depois aos pés de uma árvore e, cansados, põem-se a cochilar.
216.3
Jesus olha para eles com amor e compaixão e meneia a cabeça
Surpreende-o nessa atitude, Zelotes, o qual tinha ido beber mais uma vez e pergunta-lhe:
– Que tens, Mestre?
Jesus se levanta, vai até Zelotes e, passando o braço ao redor dele, o vai levando consigo até debaixo de uma outra árvore, e lhe diz:
– Que Eu tenho? Estou aflito por causa do vosso cansaço. Se Eu não soubesse o que estou fazendo de vós, não teria mais paz, por vos estar dando tantos incômodos.
– Incômodos? Não, Mestre! É a nossa alegria! Tudo perde o valor, quando viemos contigo. Estamos todos felizes, podes crer. Ninguém está com saudades, ninguém…
– Cala-te, Simão. A humanidade até nos bons reclama. E, humanamente falando, não deixais de ter razão de reclamar. Eu vos tirei de vossas casas, de vossas famílias, dos vossos negócios, e vós viestes, pensando que acompanhar-me seria uma coisa bem diferente…Mas a vossa reclamação de agora, a vossa reclamação interior, se acalmará um dia e só então compreendereis que terá sido bom ter andado no meio das neblinas e do barro, no meio da poeira e ao calor do sol, perseguidos, cheios de sede, cansados, sem alimento, atrás de um Mestre perseguido, desamado, caluniado…e mais coisas ainda. Tudo, então vos irá parecer belo! Porque, então, pensareis de um outro modo e vereis tudo esclarecido por outra luz. E me bendireis por vos ter conduzido pelo meu caminho difícil…
– Estás triste, Mestre. E o mundo pode justificar a tua tristeza. Mas, nós não. Nós estamos todos contentes…
– Todos? Tens certeza disso?
– Pensas tu em outra coisa?
– Sim, Simão. Em outra coisa. Tu estás sempre contente. Tu compreendeste. Muitos outros, não. Estás vendo aqueles que estão dormindo? Sabes quantos pensamentos eles estão esgaravatando, até durante o sono? E também todos aqueles que estão entre os discípulos? Crês tu que eles são fiéis, até tudo se consumar?
Olha: vamos jogar aquela velha brincadeira, que certamente já brincaste, tu também, quando eras menino (e Jesus apanha uma flor seca de dente-de-leão, bem redonda, de um pé que se ergue por entre as pedras, e que já ficou completamente maduro. Leva-a delicadamente até perto da boca, sopra-a, e a flor se desmancha em minúsculos para-quedas, que ficam voando pelo ar, vagueando, cada um com o seu guarda-sol para cima, e a prumo, preso por um pequenino cabo.) Estás vendo? Olha… Quantos são os que tornaram a cair em meus braços, como se estivessem enamorados de Mim? Podes contá-los… São vinte e três. Eles eram pelo menos três vezes mais. E os outros? Olha. Uns ainda estão vagueando, outros já caíram por serem mais pesados, outros sobem, porque são orgulhosos com seus penachos de prata, outros caem na lama, que nós fizemos com os nossos odres, Somente… Olha, olha… Até dos vinte e três, que estavam sobre os meus joelhos, sete lá se foram. Bastou aquele zangão chegar até aqui com o seu vôo, para fazê-los sair voando também!… O que eles temiam? Ou por quem é que foram seduzidos? Talvez pelo ferrão, ou pelas belas cores pretas e amarelas, ou pela garbosa aparência, pelas asas iridescentes… Eles lá se foram… Lá se foram, atrás de alguma beleza mentirosa… Simão, assim vai acontecer com os meus discípulos. Uns, por serem irrequietos, outros, por inconstância, outros por pesadume, outros por orgulho, outros por leviandade, outros porque gostam da lama, outros por medo ou por ingenuidade ir-se-ão embora. Crês tu que todos aqueles que agora me dizem “Eu vou contigo”, que Eu os encontrarei a meu lado, na hora decisiva da minha missão? Eram certamente mais de setenta os penachinhos da flor seca de dente-de-leão, que o Pai criou para Mim… e agora em meus braços há só sete, porque os outros lá se foram, levados por esta onda de vento, que fez dizer sim aos pedúnculos mais leves. Assim vai ser. E fico pensando nas lutas que há em vós para que me sejais fiéis.
216.4
Vem aqui, Simão. Vamos ali olhar aquelas libélulas, que estão dançando a flor d’água. A não ser que prefiras ir descansar.
– Não, Mestre. As tuas palavras me entristecem. Mas eu espero que o leproso curado, o homem perseguido, ao qual Tu deste a reabilitação, o solitário ao qual tu deste uma companhia, o necessitado de afeto ao qual abriste o Céu e o mundo, a fim de que ele encontrasse e desse amor, não te abandonarão…