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Notas do tema

Vida cristã

Página 220 de 267

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EMF 188.7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Saem das ruínas e começam a descer pelo caminho por onde vieram. O homem caolho ainda está ali.

– Ainda estás aqui? –pergunta Jesus, como se não estivesse vendo o rosto vermelho pelas muitas lágrimas derramadas.

– Eu estou aqui. Se me permites, eu Te acompanho. Preciso dizer-te uma coisa…

– Vem, então, comigo. Que queres dizer-me?

– Jesus… Eu acho que para ter força de falar e de fazer a magia santa de mudar a mim mesmo, de chamar à vida a minha alma morta, como a pitonisa evocou Samuel para Saul, eu devo dizer o teu Nome, tão doce como o teu olhar, santo como a tua voz. Tu me deste uma vida nova, e ela está ainda informe, ainda incapaz de nada, como a de um recém-nascido, que acaba de ser gerado. Agita-se ainda entre os apertos duma casca malvada. Ajuda-me a sair da minha morte.

– Sim, amigo.

– Eu… eu reconheci que tenho ainda um pouco de humanidade em meu coração. Não sou totalmente uma fera, e ainda posso amar e ser amado, perdoar e ser perdoado. O teu amor, o teu amor que é perdão, me ensina isso. Não é verdade que é assim?

– Sim, amigo.

– Então… leva-me contigo. Eu era Félix! Que ironia! Mas Tu me darás um novo nome. Para que o passado fique realmente morto. Eu Te acompanharei como um cão vagabundo, que finalmente achou um dono. Serei o teu escravo, se quiseres. Mas, não me deixes sozinho…

– Sim, amigo.

– Que nome pões em mim?

– Um nome de que Eu gosto muito: João. Porque tu és a graça que o Senhor faz.

– Me tomas contigo?

– Por enquanto, sim. Depois me acompanharás com os discípulos. Mas, e a tua casa?

– Eu não tenho mais casa. Deixarei para os pobres tudo o que tenho. Dá-me somente amor e pão.

– Vem.

Detalhe

Exemplo de um homem que vem ter com Jesus depois de ter falado com ele.

Anotação

Invoca a minha alma morta como a feiticeira invocou Samuel para Saul: no Primeiro Livro de Samuel, capítulo 28. Para mais pormenores, remetemos para esta nota.

O meu nome era Félix: Félix é a palavra latina para "feliz".

EMF 188.9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Toma. Esta é a chave da minha casa. Eu vou-me embora para sempre. Eu te agradeço, porque tu és meu benfeitor. Tu me deste de novo a família. Faze do que é meu tudo que quiseres… e cuida dos meus frangos. Não os maltrates. Todos os sábados, vem um romano comprar os ovos… Eles te darão alguma vantagem… Trata bem das minhas galinhazinhas… e Deus te pague por isso.

O velhinho está assombrado. Ele pega a chave e fica de boca aberta.

Jesus diz:

– Sim, faze como ele diz e Eu também te ficarei agradecido. Em nome de Jesus, Eu te abençôo.

– O Nazareno! Então, és Tu! Misericórdia! Eu falei com o Senhor! Mulheres, mulheres! Homens! O Messias está entre nós!

Ele grita como uma águia e as pessoas vem correndo, de todos os lados.

– Abençoa! Abençoa! –gritam todos.

E outros dizem:

– Fica conosco!

E outros ainda:

– Aonde vais? Pelo menos, dize-nos aonde vais.

– Vou a Naim. Ficar aqui Eu não posso.

– Nós vamos Te acompanhar. Estás de acordo?

– Vinde. E a quem fica, paz e bênção.

Encaminham-se para a estrada mestra. E vão por ela.

Detalhe

Jean d'En-Dor deixa tudo para trás e dá a chave da sua casa a um velhote. O velhote apercebe-se de que Jesus é o Messias.

EMF 188.10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O homem, que caminha próximo a Jesus, e que se sente cansado sob o seu saco, atrai a curiosidade de Pedro.

– Mas, que há de tão pesado aí dentro? –ele pergunta.

– Minhas roupas… e alguns livros… Os meus amigos, depois dos frangos. Não pude separar-me. E pesam.

– É, a ciência pesa! E se pesa! E a quem ela agrada, então!

– Foram os livros que não deixaram que eu ficasse doido.

– É! Deves mesmo querer-lhes bem. Mas, que livros são?

– Filosofia, história, poesia grega e romana…

– Bonitos, bonitos. Devem ser bonitos. Mas achas que vais poder andar com eles nas costas?

– Talvez eu consiga até separar-me deles. Mas, tudo de uma vez, não se pode fazer, não é mesmo, Messias?

– Chama-me Mestre. Sim. Não se pode. Mas Eu vou arrumar um lugar onde poderás dar abrigo aos teus amigos, os livros. Eles te poderão servir para discutires com os pagãos sobre Deus.

– Oh! Como tens o pensamento livre de toda restrição!

Jesus sorri, e Pedro exclama:

– Mas, sem dúvida alguma. Ele é a própria Sabedoria!

– E a Bondade, podes crer. E tu és culto?

– Eu? Oh! Sou muito culto. Eu já distingo uma carpa de uma sardinha e a minha cultura para ai. Eu sou pescador, meu amigo!

E Pedro se ri, humilde e sincero.

– Sê um homem honesto. Esta é uma ciência que cada um por si aprende. Mas é muito difícil de se conseguir. Tu me agradas.

– Tu também me agradas. Porque és sincero. Até em te acusares. Eu perdôo tudo, ajudo a todos. Mas sou um inimigo desapiedado dos falsos. Eles me dão arrepios.

– Tens razão. O falso é um delinquente.

– Um delinquente. Assim disseste. Dize-me, não terás confiança em mim, para me entregares um pouco esse saco? E, fica certo de que eu não vou fugir com os livros… Tu me pareces estar muito cansado.

– Vinte anos de trabalho na mina acabam com a gente. Mas, por que queres cansar-te tu?

– Porque o Mestre nos ensinou a amar-nos como irmãos. Dá aqui. E segura estes meus trapos. O meu é leve. Nele não há história, nem poesia. A minha história, a minha poesia é diferente do que falaste: é Ele, o meu Jesus, o nosso Jesus.

Anotação

Vou arranjar-vos um lugar para guardarem os vossos amigos, os livros. Poderão ser-te úteis quando falares de Deus com os pagãos. Alusão a Antioquia da Síria, onde João de En-Dor foi obrigado a exilar-se, mas onde, com a ajuda de Síntique, foi fundada a futura comunidade cristã descrita nos Actos dos Apóstolos.

EMF 189.1-5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Naim devia ter uma certa importância nos tempos de Jesus. Não é uma cidade muito grande, mas bem construída, fechada dentro do seu cinturão de muros. Ela se estende por uma colina risonha, de pouca altitude, e é uma ramificação do pequeno Hermon que, do alto, domina uma planície muito fértil, que se vai alargando para a direção do noroeste[1].

Para quem vem de Endor, chega-se até aqui, depois de ter passado a vau um pequeno rio, que deve ser um afluente do Jordão. Mas daqui não se vê mais o Jordão, e nem mesmo o seu vale, porque algumas colinas o escondem, fazendo um arco, que parece um ponto de interrogação virado para leste.

Jesus para lá se dirige, por uma estrada mestra, que liga as regiões do lago ao Hermon e aos seus povoados. Atrás de Jesus vão caminhando muitos dos habitantes de Endor, conversando animadamente uns com os outros.

A distância que separa o grupo dos apóstolos dos muros já é bem reduzida: no máximo uns duzentos metros. E, já que a estrada mestra vai em linha reta, rumo a uma das portas da cidade, e como essa porta está escancarada, pois já é pleno dia, pode-se ver logo o que está acontecendo do outro lado dos muros. E é assim que Jesus, que estava conversando com os apóstolos e com o novo convertido, vê que, por entre um grande barulho de carpideiras e de semelhantes conjuntos orientais, vem chegando um cortejo fúnebre.

– Vamos lá ver, Mestre? –dizem muitos. E, do meio dos habitantes de Endor, muitos já se precipitaram para ir ver.

– Vamos nós também –diz Jesus, condescendendo.

– Oh! deve ser um rapaz, porque, olha só quantas flores e fitas estão sobre o caixão –diz Judas de Keriot a João.

– Ou então será uma virgem –responde João.

– Não. É certo que se trata de um jovenzinho, por causa das cores que eles colocaram no caixão. Além disso, faltam os mirtos… –diz Bartolomeu.

O funeral vai saindo para fora dos muros. Seja o que for que estiver no caixão, que vai sustentado no alto sobre os ombros dos portadores, é o que não se pode ver. Presume-se que lá esteja um corpo estendido, com suas faixas, e coberto com um lençol, pois pelo que as saliências revelam pode-se compreender que é o corpo de alguém que já tinha chegado ao ponto mais alto de seu crescimento, porque é um corpo do comprimento do caixão.

Ao lado do caixão, uma mulher de véu, amparada por parentas ou amigas, vai caminhando e chorando. É o único choro verdadeiro, no meio dessa comédia de choronas. E, quando uma pedra faz que um dos portadores tropece, ou um ressalto do solo faz que se sacuda o caixão, a mãe geme: “Oh! Não! Ide devagar! Sofreu tanto este meu menino!”, e levanta sua mão trêmula para acariciar a beira do caixão, — fazer mais que isso ela não pode — e, não podendo fazer nada mais, ela beija os véus ondulantes e as fitas, que o vento de vez em quando agita, e que passam rolando por aquele vulto imóvel.

– Aquela é a mãe –diz Pedro, todo compungido e já com o brilho de uma lágrima em seus olhos atentos e bons.

Mas ele não é o único que está com lágrimas nos olhos por causa daquela tristeza. Também Zelotes, André e João, e até o sempre alegre Tomé, estão com os olhos brilhando. Todos, todos mesmo, estão comovidos. Judas Iscariotes murmura:

– Se fosse eu! Oh! Pobre de minha mãe…

189.2

Jesus, cujos olhos são de uma doçura perturbadora, de tão profundos que são, vai indo para perto do caixão.

A mãe, que já está soluçando mais forte, porque o cortejo já está quase chegando junto ao sepulcro aberto, O afasta com violência, ao ver que Jesus procura tocar no caixão. No seu delírio, quem saberia de que ela está com medo? Ela grita:

– É meu! –e, com uns olhos de louca, olha para Jesus.

– Eu sei, mãe. É teu.

– É o meu filho único. Por que logo ele é que foi morrer, ele que era bom e querido e a minha alegria de viúva? Por quê?

Aí a multidão das carpideiras aumenta o seu choro pago, para fazerem coro com a mãe, que continua a dizer:

– Por que ele, e não eu? Não é justo que quem gerou veja perecer a sua semente. A semente precisa viver, porque senão, para que terá servido que estas vísceras se tenham rasgado para darem à luz um homem? –e bate em seu próprio ventre, feroz e desatinada.

– Não faças assim! Não chores, mãe.

Jesus a segura pelas mãos, com um forte aperto, e as prende com sua esquerda, enquanto, com a direita, toca no caixão, dizendo aos portadores:

– Parai e ponde o caixão no chão.

Os portadores obedecem, abaixando a caminha, que fica apoiada no chão por seus quatro pés.

Jesus agarra o lençol, que está cobrindo o morto e o joga para trás, deixando descoberto o cadáver. A mãe externa sua dor, gritando o nome de seu filho e parece-me que ela está dizendo:

– Daniel!

Jesus, sempre conservando as mãos maternas na sua, se endireita, mostra-se imponente, no fulgor de seus olhares como quando Ele opera seus maiores milagres, e, abaixando a mão direita, ordena, com toda a força de sua voz:

– Jovenzinho, Eu te digo: Levanta-te!

189.3

O morto, do jeito que estava enfaixado, levanta-se e se assenta sobre a caminha e chama:

– Mamãe!

Ele a chama com a voz gaguejante e assustada de uma criança espavorida.

– Ele é teu, mulher. Eu o entrego em nome de Deus. Ajuda-o a livrar-se da mortalha. E sede felizes.

E Jesus dá sinais de que vai retirar-se dali. Mas, como? A multidão o detém junto ao catre, sobre o qual está inclinada a mãe, que está enfiando os dedos por entre as faixas, para ir mais depressa, porque o lamento de seu menino continua a implorar-lhe:

– Mamãe! Mamãe!

Por fim, a mortalha foi desfeita, desfeitas foram as faixas, já a mãe e o filho podem abraçar-se, e o fazem sem dar atenção aos bálsamos que se vão colando neles, e que a mãe vai tendo que tirar do querido rosto, das queridas mãos, usando as faixas, e depois, não tendo com que revesti-lo, a mãe tira o seu próprio manto e o envolve nele, e tudo o que ela faz vai servindo ao mesmo tempo para acariciá-lo…

189.4

Jesus olha para ela… olha para este quadro de amor que se formou ao lado da caminha, que agora já não é mais fúnebre, e chora.

Judas Iscariotes vê esse pranto e pergunta:

– Por que estás chorando, Senhor?

Jesus vira o rosto para ele, e diz:

– Estou pensando em minha mãe…

O breve colóquio faz que a mulher volte ao seu Benfeitor. Ela pega pela mão o filho e o segura, porque ele está como alguém que ainda não acabou de sair de um torpor, continuando este em seus membros, e ela se ajoelha, dizendo:

– Tu também, meu filho. Vamos bendizer a este Santo, que te restituiu à vida e à tua mãe –e se inclina para beijar a veste de Jesus, enquanto a multidão dá hosanas a Deus e ao seu Messias, já conhecido como quem ele é, porque os apóstolos e os habitantes de Endor tomaram eles próprios a incumbência de dizer quem é aquele que operou o milagre.

E a multidão toda, então, exclama:

– Bendito seja o Deus de Israel. Bendito seja o Messias, que é o seu Enviado. Bendito seja Jesus, Filho de Davi. Um grande Profeta surgiu entre nós! Deus verdadeiramente veio visitar o seu povo! Aleluia! Aleluia!

189.5

Finalmente, Jesus consegue escapar daquele aperto, e entrar na cidade. A multidão o acompanha, e o persegue, exigente em seu amor.

Chega correndo um homem, e saúda a Jesus com uma profunda inclinação:

– Eu te peço que pares em minha casa.

– Não posso. A Páscoa me proíbe qualquer parada, além daquelas que estão marcadas.

– Daqui a pouco é o pôr-do-sol, e hoje e sexta-feira…

– É exatamente ao pôr-do-sol que Eu preciso chegar à minha etapa. Mas Eu te agradeço da mesma forma. E não me detenhas…

– Mas eu sou o sinagogo.

– E com isto queres dizer que tens este direito. Homem: bastava que Eu me atrasasse uma hora e aquela mãe não teria reavido o filho. Eu vou aonde outros infelizes me estão esperando. Não atrases com egoísmo a alegria deles. Eu virei, com certeza, outra vez e ficarei contigo em Naim mais dias. Agora, deixa-me ir.

O homem não insiste mais. E somente diz:

– Está dito. Eu fico Te esperando.

– Sim. A paz esteja contigo e com os moradores de Naim. E também à vós de Endor paz e bênção. Voltai para vossas casas. Deus vos falou por meio do milagre. Fazei que entre vós aconteçam, por força do amor, muitas ressurreições para o bem em todos os corações.

Houve um último coro de hosanas. Depois a multidão deixa Jesus ir, e Ele atravessa diagonalmente a cidade, indo sair na campina, tomando caminho para Esdrelon.

Anotação

Evangelho de Lucas 7, 11-17

Lc 7,11-17 : Jesus foi para uma cidade chamada Naim. Acompanhavam-no os seus discípulos e uma grande multidão. Chegou perto da porta da cidade, no momento em que levavam um defunto para ser sepultado; era filho único, e sua mãe era viúva. Uma grande multidão da cidade acompanhava a mulher. Quando o Senhor viu a mulher, teve compaixão dela e disse-lhe: "Não chores. Aproximou-se e tocou no caixão; os carregadores pararam e Jesus disse: "Jovem, ordeno-te que te levantes. Então o morto levantou-se e começou a falar. E Jesus devolveu-o à sua mãe. Todos ficaram aterrorizados e deram glória a Deus, dizendo: "Surgiu entre nós um grande profeta, e Deus visitou o seu povo". E esta notícia sobre Jesus espalhou-se por toda a Judeia e por toda a região.

EMF 189.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus olha para ela… olha para este quadro de amor que se formou ao lado da caminha, que agora já não é mais fúnebre, e chora.

Judas Iscariotes vê esse pranto e pergunta:

– Por que estás chorando, Senhor?

Jesus vira o rosto para ele, e diz:

– Estou pensando em minha mãe…

O breve colóquio faz que a mulher volte ao seu Benfeitor. Ela pega pela mão o filho e o segura, porque ele está como alguém que ainda não acabou de sair de um torpor, continuando este em seus membros, e ela se ajoelha, dizendo:

– Tu também, meu filho. Vamos bendizer a este Santo, que te restituiu à vida e à tua mãe –e se inclina para beijar a veste de Jesus, enquanto a multidão dá hosanas a Deus e ao seu Messias, já conhecido como quem ele é, porque os apóstolos e os habitantes de Endor tomaram eles próprios a incumbência de dizer quem é aquele que operou o milagre.

E a multidão toda, então, exclama:

– Bendito seja o Deus de Israel. Bendito seja o Messias, que é o seu Enviado. Bendito seja Jesus, Filho de Davi. Um grande Profeta surgiu entre nós! Deus verdadeiramente veio visitar o seu povo! Aleluia! Aleluia!

Detalhe

Jesus acaba de ressuscitar um jovem dos mortos. A mãe apressa-se a tirar o sudário e as ligaduras.

Anotação

Evangelho de Lucas 7, 11-17

Lc 7,11-17 : Jesus foi para uma cidade chamada Naim. Acompanhavam-no os seus discípulos e uma grande multidão. Chegou perto da porta da cidade, no momento em que levavam um defunto para ser sepultado; era filho único, e sua mãe era viúva. Uma grande multidão da cidade acompanhava a mulher. Quando o Senhor a viu, teve compaixão dela e disse-lhe: "Não chores". Aproximou-se e tocou no caixão; os carregadores pararam e Jesus disse: "Jovem, ordeno-te que te levantes. Então o morto levantou-se e começou a falar. E Jesus devolveu-o à sua mãe. Todos ficaram aterrorizados e deram glória a Deus, dizendo: "Surgiu entre nós um grande profeta, e Deus visitou o seu povo". E esta notícia sobre Jesus espalhou-se por toda a Judeia e por toda a região.

Palavras-chave

EMF 191.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Mas um deles, já um tanto idoso, que segura a seu lado um menino de uns dez anos, está comendo e chorando.

– Por que, pai, estás fazendo assim? –pergunta Jesus.

– Porque a tua bondade é demais…

O homem de Endor diz, então, com aquela sua voz gutural:

– É verdade… e faz chorar. Mas é um choro sem amargura…

– É sem amargura. É verdade. E depois… eu quereria uma coisa. Este meu choro é também um desejo.

– Que queres, pai?

– Estás vendo este menino? É meu neto. Veio ficar comigo depois da avalanche deste inverno. Doras nem ficou sabendo que ele veio ficar comigo, porque eu o faço viver como se fosse um animal, no mato, e só aos sábados é que o vejo. Se Doras o descobrir, ou o expulsará, ou o porá a trabalhar… e, então, ele vai ser tratado pior do que um animal de carga, este pobre herdeiro do meu sangue… Pela Páscoa o mandarei com Miqueias a Jerusalém, para se tornar filho da Lei… e depois?… É o filho da minha filha…

– Mas, em vez disso, não o darias a Mim? Não chores. Eu tenho muitos amigos, homens honestos, santos e sem filhos. Eles o educarão santamente, no meu Caminho…

– Oh! Senhor! Desde que ouvi falar de Ti, eu desejei isso. E eu pedia ao santo Jonas, ele que sabe o que quer dizer pertencer a este patrão, que salvasse o meu neto desta morte…

– Menino, tu irias comigo?

– Sim, meu Senhor. E não te darei aborrecimentos.

– Então está bem.

191.4

– Mas… a quem é que o vais dar? –pergunta Pedro, puxando Jesus pela manga–. A Lázaro mais este?

– Não, Simão. Mas, há tantos sem filhos…

– Entre eles, também eu…

O rosto de Pedro parece até ficar mais afilado, pelo desejo.

– Simão, Eu já te disse[1]. Tu deves ser o “pai” de todos os filhos que Eu vou te deixar como herança. Contudo, não deves estar preso a nenhum filho teu próprio. Mas, não fiques contrariado com isso. Tu és muito necessário ao Mestre, para que o Mestre possa afastar-te de Si, por causa de algum afeto. Eu sou exigente, Simão. Sou exigente, mais do que um esposo muito ciumento. Eu te amo com toda a predileção e te quero ter todo para Mim e de Mim.

– Está bem, Senhor… Está bem… Seja feito como Tu queres.

O pobre Pedro é heróico em sua adesão a esta vontade de Jesus.

– Será o filho da minha nascente Igreja. Não está bem? De todos e de ninguém. Será o “nosso” menino. Ele nos acompanhará, quando as distâncias o permitirem, ou virá a nós, e os tutores dele serão os pastores, eles que em todos os meninos amam ao “seu” menino Jesus. Vem cá, menino. Como te chamas?

– Jabé de João, e sou de Judá –diz com segurança o menino.

– Sim, nós somos judeus –confirma o velho–. Eu trabalhava nas terras de Doras, na Judeia, e minha filha se casou com um homem daqueles lados. Ele estava trabalhando nos bosques, perto de Arimateia, e, neste inverno…

– Eu vi o triste acontecimento[2].

– O menino salvou-se, porque naquela noite ele estava na casa de um parente distante… verdadeiramente ele tem esse nome, Senhor. Eu disse isso logo à minha filha: “Por que há de ser este? Não te lembras mais do antigo?” Mas o marido quis chamá-lo assim, e ficou sabendo Jabé.

– “O menino invocará o Senhor, e o Senhor o abençoará, e dilatará os seus confins e a mão do Senhor está sobre a mão dele, e ele não será oprimido pelo mal.” Isto lhe concederá o senhor, para te consolar a ti, pai, aos espíritos dos mortos, e confortar o órfão.

Anotação

"Simão, eu disse-te", em EMV 104,5. A última menção de Lázaro está relacionada com o acontecimento relatado em EMV 172.11.

"Eu vi a catástrofe", em EMV 139.2.

"Porquê este nome? Não te lembras do antigo? "(...) "O menino invocará o Senhor e o Senhor abençoá-lo-á e alargará as suas fronteiras; a mão do Senhor está na sua mão e ele não será mais sobrecarregado pela desgraça. " A citação é retirada de 1 Crónicas 4, 9-10.

Primeiro livro das Crónicas 4, 9-10

1 Cr 4, 9-10: Yabesh foi mais honrado do que os seus irmãos. A sua mãe deu-lhe o nome de Yabesh (ou seja, Na Tristeza), dizendo "Yabesh invocou o Deus de Israel, dizendo: "Se me abençoares, alargarás o meu território, a tua mão estará comigo e afastarás de mim a desgraça, para que a minha angústia termine." E Deus concedeu-lhe o que ele tinha pedido.

EMF 191.5-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

(...) Escutai a parábola, que eu criei para vós.

Há tempo, havia um homem muito rico. As roupas mais bonitas eram as dele e, em seus hábitos de púrpura e de bisso, ele se pavoneava pelas praças e em sua casa, respeitado pelos cidadãos como o homem mais poderoso da cidade, e pelos amigos que o estimulavam em sua soberba, para disso tirarem alguma vantagem. Suas salas estavam abertas todo dia para esplêndidos banquetes nos quais a multidão dos convidados, todos eles ricos e, portanto não necessitados, se inclinavam, em adoração diante do rico Epulão. Seus banquetes eram célebres pela abundância de alimentos e de vinhos excelentes.

Mas naquela mesma cidade havia um mendigo, um grande mendigo. Grande em sua miséria, como o outro era grande em sua riqueza. Mas, por debaixo da crosta da miséria humana do mendigo Lázaro, estava escondido um tesouro ainda maior do que a miséria dele e do que a riqueza de Epulão. Esse tesouro era a santidade verdadeira de Lázaro. Ele nunca havia transgredido a Lei, nem mesmo impelido pela necessidade e, sobretudo, tinha obedecido ao preceito do amor para com Deus e para com o próximo. Ele, como sempre fazem os pobres, aproximava-se da porta dos ricos para pedir uma esmola e não morrer de fome. E cada tarde, ele ia até à porta de Epulão, esperando receber dele pelo menos as migalhas dos pomposos banquetes que se davam nas riquíssimas salas. Ele se deitava na rua, perto da porta e ficava esperando pacientemente. Mas se Epulão percebia que ele estava lá, mandava que o expulsassem, porque aquele corpo coberto de feridas, desnutrido, com roupas rasgadas, era uma coisa muito triste para ser vista pelos convidados. Assim dizia Epulão. Na verdade, porém, era porque aquela vista de miséria e de bondade era uma reprovação contínua para ele. Mais compassivos do que ele, eram os seus cães, bem alimentados, usando colares preciosos, que se aproximavam do pobre Lázaro e lhe lambiam as chagas, ganindo de alegria pelas carícias que ele lhes fazia, e que chegavam até a levar-lhe dos sobejos das ricas mesas, e assim Lázaro se ia recuperando da desnutrição com o que lhe levavam aqueles animais, pois, se dependesse do homem, ele já estaria morto, já que o homem não lhe permitia nem mesmo entrar nas salas, depois do banquete, para recolher as migalhas caídas das mesas.

191.6

Um dia Lázaro morreu. Ninguém ficou sabendo disso na terra, ninguém o chorou. Epulão, até pelo contrário, se alegrou por não ver naquele dia, nem depois, aquela miséria que ele dizia ser “uma vergonha” junto à soleira de sua casa. Mas no Céu os Anjos perceberam isso. E, em seu último suspiro, em sua choupana pobre e necessitada de tudo, estavam presentes as coortes celestes que, em meio a um fulgurar de luzes, recolheram a alma dele, levando-a, com cântico de hosanas, ao seio de Abraão.

Pouco tempo depois, morreu Epulão. Oh! Que funerais faustosos! A cidade toda, que soubera de sua agonia e se aglomerava na praça em que ficava a morada dele, ou para que se notasse que era amiga daquele “grande”, ou por curiosidade, por algum interesse junto aos herdeiros, foi unir-se ao pesar da família, e os uivos subiram ao céu, e com os uivos do luto os elogios mentirosos feitos ao “grande”, ao “benfeitor”, ao “justo” que havia morrido.

Mas, poderá a palavra do homem mudar o juízo de Deus? Poderá alguma apologia humana cancelar tudo o que está escrito no livro da Vida? Não, não pode. O que está julgado, julgado está, o que foi escrito, escrito está. E, mesmo tendo um enterro solene, Epulão teve o seu espírito sepultado no inferno.

E, então, naquele cárcere horrível, bebendo e comendo fogo e trevas, encontrando ódio e torturas por toda parte e em todos os instantes daquela eternidade, ele levantou os olhos ao Céu. Ao Céu, que ele tinha podido entrever[4], no meio de um esplendor fulgurante, em uma fração de minuto, e cuja beleza indizível se lhe fazia agora presente, para ser tormento, entre os tormentos atrozes. E viu, lá no alto, a Abraão. Ele estava lá longe, mas fúlgido, bem-aventurado… e em seu seio, também fúlgido e bem-aventurado, estava o pobre Lázaro, que outrora fora desprezado, quando era repulsivo, miserável, e agora?… E agora, cheio da beleza da luz de Deus e de sua santidade, rico de amor de Deus, e admirado, não pelos homens, mas pelos Anjos de Deus.

Então, Epulão gritou gemendo: “Pai Abraão, tem dó de mim! Manda Lázaro, pois não posso esperar que tu mesmo o faças, que ele molhe a ponta do dedo dele na água, e venha pousá-lo sobre a minha língua, para refrescá-la, porque eu estou numa grande aflição, por causa deste fogo, que está me queimando!”

Abraão lhe respondeu: “Recorda-te, meu filho, que tu tiveste todos os bens em vida, enquanto que Lázaro teve todos os males. Ele ainda soube fazer do mal um bem, enquanto tu não soubeste de teus bens fazer nada que não fosse mal. Por isso, é justo que agora ele seja aqui consolado e que tu sofras. Além disso, não é mais possível fazer o que pedes. Os santos estão espalhados pela terra, para que os homens deles tirem alguma vantagem. Mas, quando, não obstante essa vizinhança o homem continua a ser o que é, — no teu caso, um demônio — aí é inútil recorrer depois aos santos. Agora, nós estamos separados. As ervas nos campos estão misturadas. Mas desde que foram cortadas pela foice, ficam separadas as boas das más. Assim é que acontece convosco e conosco. Estivemos juntos na terra, e nos expulsastes e nos atormentastes de todos os modos e, indo contra o amor, vós esquecestes de nós. Agora estamos separados. Entre vós e nós há um abismo tão grande, que os que quiserem passar daqui para vós não o podem fazer; nem vós que aí estais, podeis atravessar o tremendo abismo, para virdes até nós.”

191.7

Epulão, chorando mais fortemente, gritou: “Pelo menos, ó pai santo, manda, eu to peço, manda que Lázaro vá à casa de meu pai. Eu tenho cinco irmãos. Eu nunca compreendi o amor, nem mesmo para com meus parentes. Mas agora, agora eu compreendo que coisa horrível é não sermos amados. Além disso, aqui onde estou só existe ódio, e agora é que compreendo, por aquele instante de tempo em que minha alma pôde ver a Deus, o que é o Amor. Não quero que os meus irmãos venham a sofrer o que eu estou sofrendo.

Eu fico aterrorizado por causa deles, pois eles levam a vida que eu levei. Oh! Manda lázaro dizer-lhes onde eu estou e porque aqui estou e que o inferno existe, e é atroz, e que quem não ama a Deus e ao próximo vem para o inferno. Manda-o! Para que, em tempo, eles se precavenham, e não tenham que vir para cá, para este lugar de eterno tormento.”

Mas Abraão lhe respondeu: “Os teus irmãos têm Moisés e os Profetas. Que eles os ouçam.”

E, com um gemido de alma torturada, respondeu Epulão: “Oh! Pai Abraão! Se um morto for falar com eles, ficarão mais impressionados… Escuta-me! Tem piedade!”

Mas Abraão disse: “Se eles não quiseram escutar a Moisés e aos Profetas, não acreditarão, nem que alguém ressuscite dos mortos, por uma hora, para ir dizer a eles palavras de Verdade. E, além disso, não é justo que um bem-aventurado deixe o meu seio, para ir receber ofensas dos filhos do inimigo. O tempo das injúrias para ele já passou. Agora ele está na paz, e aí fica, por ordem de Deus, que vê a inutilidade de uma tentativa de conversão para aqueles que não crêem nem na palavra de Deus, e não a põem em prática.”

Esta é a parábola, cujo sentido é tão claro, que nem precisa de explicação.

Anotação

No seu ditado de 2 de agosto de 1943, Jesus refere-se a este malvado rico como Epulon, nome dos sacerdotes encarregados de organizar os banquetes na Roma antiga, que o original deste episódio utiliza "Epulone" como equivalente de malvado rico.

"Voltou os olhos para o Céu que vislumbrara". Entenda-se como Maria Valtorta comentou numa cópia dactilografada: "Voltou os olhos para o limbo dos santos que vislumbrara... e cuja beleza pacífica era já indizível...

"Naquele segundo em que a minha alma vislumbrou Deus" deve ser entendido no sentido de "no momento do juízo particular", como nota Maria Valtorta numa cópia dactilografada.

Evangelho de Lucas 16,19-31

Lc 16,19-31: "Havia um homem rico, vestido de púrpura e linho fino, que dava banquetes sumptuosos todos os dias. Do lado de fora da sua porta estava um pobre chamado Lázaro, coberto de chagas. Ele teria gostado de comer o que caía da mesa do rico, mas os cães vinham lamber-lhe as chagas. Assim, o pobre morreu e os anjos levaram-no para junto de Abraão. O rico também morreu e foi sepultado.

Quando estava no Hades, era torturado e, ao levantar os olhos, viu Abraão ao longe e Lázaro perto dele. Então gritou: "Pai Abraão, tem piedade de mim e manda Lázaro molhar a ponta do seu dedo na água para me refrescar a língua, pois estou a sofrer muito nesta fornalha. - Meu filho", respondeu Abraão, "lembra-te: tu recebeste a felicidade durante a tua vida, e Lázaro recebeu a desgraça durante a sua. Agora ele encontra aqui consolação, e tu encontras sofrimento. E, além disso, foi criado um grande abismo entre vós e nós, de modo que aqueles que querem passar para vós não podem, e daí também não podem passar para nós". O rico respondeu: "Pois bem, Pai, peço-te que mandes Lázaro para a casa de meu pai. Pois tenho cinco irmãos; deixa-o dar testemunho dele a eles, para que não venham também para este lugar de tortura!" Abraão disse-lhe: "Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam! - Ele respondeu: "Não, Pai Abraão, mas se alguém de entre os mortos vier ter com eles, converter-se-ão". Abraão respondeu: "Se eles não ouvirem Moisés e os Profetas, pode ser que alguém ressuscite dos mortos: eles não se deixarão convencer."""