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EMF 188.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– És israelita? –pergunta o homem.

– Sim.

– Eu também, ou quase, ainda que não pareça. Mas estive muito tempo em outras cidades e apanhei os costumes! Que estes tolos por aí condenam. Sou melhor que os outros. Mas eles me chamam de demônio, porque eu leio muito, crio galinhas, que vendo aos romanos e sei curar por meio de ervas. Quando jovem, por causa de uma mulher, me agarrei com um romano, — naquele tempo eu estava em Cíntio — e o apunhalei. Ele morreu, eu lá perdi um olho e o que eu possuía e fui condenado ao cárcere por muitos anos… para sempre. Mas eu sabia curar, e curei a filha do guarda. Isto valeu-me a amizade dele e um pouco de liberdade. Eu usei dela para fugir. Eu fiz mal, porque o homem certamente teve que perder a vida por causa da minha fuga. Mas a liberdade parece mais bela enquanto somos prisioneiros…

– Então, não é bela depois?

– Não. É melhor o cárcere, onde estamos sós, do que o contato com homens que não nos concedem estar sós, e que estão ao redor de nós para odiar-nos…

– Tu estudaste os filósofos?

– Eu era mestre em Cíntio… Eu era prosélito…

– E agora?

– Agora sou nada. Vivo na realidade. E odeio, como fui e estou sendo odiado.

– Quem é que te odeia?

– Todos e Deus em primeiro lugar. Ela era minha mulher… e Deus permitiu que ela me traísse e arruinasse. Eu era livre e respeitado e Deus permitiu que eu me tornasse um presidiário. O abandono de Deus e a injustiça dos homens fez desaparecer Aquele e estes. Aqui não há mais nada… –E bate na cabeça e no peito–. Isto é, aqui na cabeça está o pensamento, o saber. É aqui que não há mais nada –e cospe com desprezo.

– Estás enganado. Aí tens ainda duas coisas.

– Quais?

– A lembrança e o ódio. Tira-os.

188.4

Sejas verdadeiramente vazio… e Eu te darei uma coisa nova para pôr aí.

– Que é?

– O amor.

– Ah! Ah! Ah! Tu me fazes rir. Há trinta e cinco anos que eu não ria mais, meu homem. Desde que eu tive a prova de que a mulher estava me traindo com o romano mercador de vinhos. O amor! O amor a mim! É como se eu jogasse jóias aos meus frangos! Eles morreriam de indigestão, se não conseguissem passá-las adiante junto com as fezes. Comigo é a mesma coisa. O teu amor seria para mim um peso, se eu não pudesse digeri-lo…

– Não, homem! Não digas isso!

Jesus lhe põe a mão sobre o ombro, verdadeira e manifestamente aflito.

O homem olha para Ele, com o seu único olho, e o que ele vê naquele rosto, de tão grande doçura e beleza, o faz emudecer e mudar de expressão. Do sarcasmo ele passa para uma seriedade profunda, e desta para uma verdadeira tristeza. Ele inclina a cabeça, e depois, pergunta com uma voz diferente:

– Quem és?

– Jesus de Nazaré, o Messias.

– Tu?!

– Eu. Não sabias nada sobre Mim, tu que lês tanto?

– Eu sabia… Mas não que estavas vivo, e não… oh! sobretudo eu não sabia disto! Não sabia que eras bom para com todos… assim… até com os assassinos… Perdoa tudo o que eu te disse… a respeito de Deus e do amor… Agora compreendo porque é que me queres dar o amor… Porque sem o amor o mundo é um inferno, e Tu, o Messias, queres fazer dele um paraíso.

– Um paraíso em todos os corações. Dá-me a lembrança e o ódio, que te tornam doente, e deixa que Eu ponha em teu coração o amor.

– Oh! Se eu te houvesse conhecido antes. Mas, quando eu matava, certamente não tinhas nascido… Mas depois… depois, quando fiquei livre, como livre é a serpente da floresta, eu vivi para envenenar com o meu ódio.

– Mas fizeste também coisas boas. Não disseste que curavas por meio de ervas?

– Sim. Para que me tolerassem. Mas, quantas vezes lutei com a vontade de envenenar por meio de filtros!… Estás vendo? Eu vim me refugiar aqui porque… aqui é um lugar onde nada se sabe do mundo, e que o mundo também não conhece. É um lugar maldito. Noutros lugares eu era odiado e odiava, e tinha medo de ser reconhecido… Mas eu sou mau.

– Tens ainda uma mágoa por teres feito mal ao guarda da prisão. Não vês que tens ainda alguma bondade? Não és mau… Estás somente com uma grande ferida aberta, e ninguém a cura… A tua bondade foge dela, como o sangue das feridas. Mas, se houver quem cuide de ti e cure a tua ferida, meu pobre irmão, a tua bondade — não mais eliminada à medida que se forma — cresceria em ti…

O homem chora de cabeça inclinada, mas sem o mínimo sinal de que está chorando. Só Jesus, que vai caminhando ao lado dele, é que o vê. Mas não lhe diz mais nada.

Detalhe

Jesus está a falar com um homem zarolho que acabou de conhecer. O seu nome é Félix e está cheio de ódio a Deus e aos homens.

Anotação

Tantas vezes lutei contra o desejo de envenenar com poções!... O filtro serve para limpar um líquido das suas impurezas. Uma poção é uma bebida mágica geralmente utilizada para obter amor.

EMF 188.7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Saem das ruínas e começam a descer pelo caminho por onde vieram. O homem caolho ainda está ali.

– Ainda estás aqui? –pergunta Jesus, como se não estivesse vendo o rosto vermelho pelas muitas lágrimas derramadas.

– Eu estou aqui. Se me permites, eu Te acompanho. Preciso dizer-te uma coisa…

– Vem, então, comigo. Que queres dizer-me?

– Jesus… Eu acho que para ter força de falar e de fazer a magia santa de mudar a mim mesmo, de chamar à vida a minha alma morta, como a pitonisa evocou Samuel para Saul, eu devo dizer o teu Nome, tão doce como o teu olhar, santo como a tua voz. Tu me deste uma vida nova, e ela está ainda informe, ainda incapaz de nada, como a de um recém-nascido, que acaba de ser gerado. Agita-se ainda entre os apertos duma casca malvada. Ajuda-me a sair da minha morte.

– Sim, amigo.

– Eu… eu reconheci que tenho ainda um pouco de humanidade em meu coração. Não sou totalmente uma fera, e ainda posso amar e ser amado, perdoar e ser perdoado. O teu amor, o teu amor que é perdão, me ensina isso. Não é verdade que é assim?

– Sim, amigo.

– Então… leva-me contigo. Eu era Félix! Que ironia! Mas Tu me darás um novo nome. Para que o passado fique realmente morto. Eu Te acompanharei como um cão vagabundo, que finalmente achou um dono. Serei o teu escravo, se quiseres. Mas, não me deixes sozinho…

– Sim, amigo.

– Que nome pões em mim?

– Um nome de que Eu gosto muito: João. Porque tu és a graça que o Senhor faz.

– Me tomas contigo?

– Por enquanto, sim. Depois me acompanharás com os discípulos. Mas, e a tua casa?

– Eu não tenho mais casa. Deixarei para os pobres tudo o que tenho. Dá-me somente amor e pão.

– Vem.

E Jesus se vira, chamando os apóstolos:

– Meus amigos, e especialmente tu, Judas, recebei o meu “obrigado.” Por meio de ti, por meio de vós, uma alma vem para Deus. Aqui está o novo discípulo. Vem conosco até que possamos confiá-lo aos irmãos discípulos. Ficai felizes por terdes encontrado um coração, e bendizei a Deus comigo.

Muito felizes, na verdade, não parecem ter ficado os doze. Mas fazem cara boa, por obediência e cortesia.

– Se me permites, eu vou na frente. Encontrar-me-às na soleira da casa.

– Então, vai.

O homem parte, correndo. Parece ser outro.

– E agora, que estamos sós, Eu vos ordeno, isto Eu vos ordeno, que sejais bons para com ele, e não faleis do seu passado, seja lá a quem for. Quem falasse, ou quem faltasse à caridade para com o irmão redimido, seria, no mesmo instante, rejeitado por Mim. Entendestes bem? E, vede como o Senhor é bom! Tendo vindo até aqui por um fim humano, Ele ainda nos concede que voltemos daqui tendo obtido um fato sobrenatural. Oh! Eu me alegro pela alegria que há agora lá no Céu por causa do novo convertido.

Detalhe

João de En-Dor converte-se e Jesus apresenta-o aos Doze, que não ficam muito satisfeitos. Jesus agradece especialmente a Judas, porque foi por causa dele que chegaram a esta aldeia e o conheceram.

Anotação

Ordeno-vos que sejais bondosos com ele e que não faleis do seu passado a ninguém. Foi o que Judas Iscariotes fez, denunciando ao Sinédrio a presença de um escravo de galé (João de En-Dor) e de uma escrava fugitiva (Síntique). Este facto obrigou-os a exilarem-se em Antioquia da Síria. Cf. EMV 314 ss.

EMF 188.9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Toma. Esta é a chave da minha casa. Eu vou-me embora para sempre. Eu te agradeço, porque tu és meu benfeitor. Tu me deste de novo a família. Faze do que é meu tudo que quiseres… e cuida dos meus frangos. Não os maltrates. Todos os sábados, vem um romano comprar os ovos… Eles te darão alguma vantagem… Trata bem das minhas galinhazinhas… e Deus te pague por isso.

O velhinho está assombrado. Ele pega a chave e fica de boca aberta.

Jesus diz:

– Sim, faze como ele diz e Eu também te ficarei agradecido. Em nome de Jesus, Eu te abençôo.

– O Nazareno! Então, és Tu! Misericórdia! Eu falei com o Senhor! Mulheres, mulheres! Homens! O Messias está entre nós!

Ele grita como uma águia e as pessoas vem correndo, de todos os lados.

– Abençoa! Abençoa! –gritam todos.

E outros dizem:

– Fica conosco!

E outros ainda:

– Aonde vais? Pelo menos, dize-nos aonde vais.

– Vou a Naim. Ficar aqui Eu não posso.

– Nós vamos Te acompanhar. Estás de acordo?

– Vinde. E a quem fica, paz e bênção.

Encaminham-se para a estrada mestra. E vão por ela.

Detalhe

Jean d'En-Dor deixa tudo para trás e dá a chave da sua casa a um velhote. O velhote apercebe-se de que Jesus é o Messias.

EMF 189.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Naim devia ter uma certa importância nos tempos de Jesus. Não é uma cidade muito grande, mas bem construída, fechada dentro do seu cinturão de muros. Ela se estende por uma colina risonha, de pouca altitude, e é uma ramificação do pequeno Hermon que, do alto, domina uma planície muito fértil, que se vai alargando para a direção do noroeste[1].

Para quem vem de Endor, chega-se até aqui, depois de ter passado a vau um pequeno rio, que deve ser um afluente do Jordão. Mas daqui não se vê mais o Jordão, e nem mesmo o seu vale, porque algumas colinas o escondem, fazendo um arco, que parece um ponto de interrogação virado para leste.

Jesus para lá se dirige, por uma estrada mestra, que liga as regiões do lago ao Hermon e aos seus povoados. Atrás de Jesus vão caminhando muitos dos habitantes de Endor, conversando animadamente uns com os outros.

A distância que separa o grupo dos apóstolos dos muros já é bem reduzida: no máximo uns duzentos metros. E, já que a estrada mestra vai em linha reta, rumo a uma das portas da cidade, e como essa porta está escancarada, pois já é pleno dia, pode-se ver logo o que está acontecendo do outro lado dos muros. E é assim que Jesus, que estava conversando com os apóstolos e com o novo convertido, vê que, por entre um grande barulho de carpideiras e de semelhantes conjuntos orientais, vem chegando um cortejo fúnebre.

– Vamos lá ver, Mestre? –dizem muitos. E, do meio dos habitantes de Endor, muitos já se precipitaram para ir ver.

– Vamos nós também –diz Jesus, condescendendo.

– Oh! deve ser um rapaz, porque, olha só quantas flores e fitas estão sobre o caixão –diz Judas de Keriot a João.

– Ou então será uma virgem –responde João.

– Não. É certo que se trata de um jovenzinho, por causa das cores que eles colocaram no caixão. Além disso, faltam os mirtos… –diz Bartolomeu.

O funeral vai saindo para fora dos muros. Seja o que for que estiver no caixão, que vai sustentado no alto sobre os ombros dos portadores, é o que não se pode ver. Presume-se que lá esteja um corpo estendido, com suas faixas, e coberto com um lençol, pois pelo que as saliências revelam pode-se compreender que é o corpo de alguém que já tinha chegado ao ponto mais alto de seu crescimento, porque é um corpo do comprimento do caixão.

Ao lado do caixão, uma mulher de véu, amparada por parentas ou amigas, vai caminhando e chorando. É o único choro verdadeiro, no meio dessa comédia de choronas. E, quando uma pedra faz que um dos portadores tropece, ou um ressalto do solo faz que se sacuda o caixão, a mãe geme: “Oh! Não! Ide devagar! Sofreu tanto este meu menino!”, e levanta sua mão trêmula para acariciar a beira do caixão, — fazer mais que isso ela não pode — e, não podendo fazer nada mais, ela beija os véus ondulantes e as fitas, que o vento de vez em quando agita, e que passam rolando por aquele vulto imóvel.

– Aquela é a mãe –diz Pedro, todo compungido e já com o brilho de uma lágrima em seus olhos atentos e bons.

Mas ele não é o único que está com lágrimas nos olhos por causa daquela tristeza. Também Zelotes, André e João, e até o sempre alegre Tomé, estão com os olhos brilhando. Todos, todos mesmo, estão comovidos. Judas Iscariotes murmura:

– Se fosse eu! Oh! Pobre de minha mãe…

Detalhe

Os dois Tiago, Mateus, Filipe e Judas não são mencionados nesta passagem, mas estão presentes. Vão para Naim.

Anotação

- Oh, deve ser uma criança, porque podes ver quantas flores e fitas estão na maca", diz Judas a João.

- Ou talvez seja uma virgem", responde João.

- Não, deve ser um rapazinho, por causa das cores que usaram, e não há murtas...", diz Bartolomeu.

Tudo isto indica os ritos funerários da época. Judas da Judeia e Bartolomeu da Galileia identificam-nos da mesma forma.

EMF 190.1-3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Começou o pôr do Sol com um céu avermelhado, na hora em que Jesus já ia também começando a ver os campos de Jocanã.

– Apressemos o passo, meus amigos, antes que o sol desapareça. E tu, Pedro, vai, com o teu irmão, avisar aos nossos amigos, os de Doras.

– Eu vou lá, sim, também para poder ver se o filho está mesmo fora.

Pedro diz a palavra “filho” de tal modo, que só ela vale por um longo discurso. E lá se vai.

Enquanto isso, Jesus vai andando mais devagar, olhando ao seu redor, para ver se enxerga algum dos camponeses de Jocanã. Mas só se vêem os campos férteis, com as espigas já bem formadas.

Finalmente, lá do lugar do trabalho, onde estão limpando o vinhedo, levanta-se um rosto suado, e de lá vem um grito:

– Oh! Senhor bendito! –e o camponês sai correndo para fora do vinhedo e vai prostrar-se diante de Jesus.

– A paz esteja contigo, Isaías!

– Oh! Até de meu nome te recordas?

– Eu o tenho escrito no coração. Levanta-te. Onde estão os teus companheiros?

– Estão lá pelos pomares. Mas vou avisá-los agora mesmo. Vais ser nosso hóspede, não é? O patrão não está e poderemos fazer-te uma festa. E, depois, um pouco pelo medo, um pouco pela alegria se tornou melhor. Imagina! Ele até nos deu o cordeiro este ano e nos permitiu ir ao Templo! Ele nos deu apenas seis dias… mas nós correremos pela estrada… Nós também em Jerusalém… Imagina só!…. E devemos isso a Ti.

O homem subiu até o sétimo céu, pela alegria de ter sido tratado como homem e como israelita.

– Eu nada fiz, que eu saiba… –diz Jesus sorrindo.

– Como, não? Pois fizeste. Doras, e depois os campos de Doras e estes, ao contrário, tão bonitos este ano! Jocanã soube da tua vinda, e ele não é bobo. Ele tem medo e… e tem medo.

– De quê?

– Medo de que lhe aconteça o que aconteceu a Doras, tanto em sua vida como em seus bens. Já viste os campos de Doras?

– Estou vindo de Naim…

– Então, não viste. Estão todos arruinados (O homem diz isso em voz baixa, mas destacando bem as palavras, como quem quer confidenciar uma coisa horrível em segredo). Todos arruinados. Não há feno, nem cereais, nem frutas. As videiras secaram, os pomares secaram… Morto… Tudo está morto… como em Sodoma e Gomorra… Vem, vem, que te mostro tudo.

– Não é preciso. Eu vou até aqueles camponeses…

– Mas não estão mais lá. Então, não ficaste sabendo? Ele os espalhou, ou mandou embora a todos, Doras, filho de Doras, e os que ele espalhou pelos outros lugares das campinas deles têm a obrigação de não falar de Ti, sob pena de açoites… Ora, que não falem de Ti! Vai ser difícil! Até Jocanã nos disse isso.

– Que foi que ele disse?

– Ele disse assim: “Eu não quero ser tão estulto como Doras, e não vos digo: ‘Não quero que faleis do Nazareno’. Seria inútil, porque vós o faríeis do mesmo modo, e eu não vos quero perder, matando-vos como uns animais debaixo dos açoites. Mas eu vos digo: ‘Sede bons, como certamente o Nazareno vos ensina, e dizei-lhe que eu vos trato bem’. Pois eu não quero ser também um amaldiçoado.” Ele está vendo bem o que está acontecendo com estes campos, depois que Tu os abençoaste, e o que são aqueles outros campos, depois que Tu os amaldiçoaste.

190.2

Oh! Ali estão aqueles que me araram o campo[1]… –e o homem vai correndo ao encontro de Pedro e André.

Mas Pedro o saúda brevemente, e continua o seu caminho, depois grita:

– Oh! Mestre! Não há mais nenhum. São todos rostos novos. Tudo está devastado. Em verdade, ele poderia até deixar de ter camponeses por aqui. Aqui é pior do que no Mar Salgado!…

– Eu sei. Isaías me disse.

– Mas, vem ver! Que vista!…

Jesus o contenta, dizendo primeiro a Isaías:

– Agora estarei convosco. Avisa aos companheiros. E não vos incomodeis. Comida, Eu tenho. Basta-nos um feneiro para dormirmos e o vosso amor. Eu irei logo.

A vista dos campos de Doras é realmente desoladora. Campos e prados áridos e nus, secos os vinhedos, destruídas as folhagens e os frutos nas árvores por milhões de insetos de toda espécie. Também perto da casa o jardim-pomar mostra o aspecto desolado de um bosque que está morrendo. Os camponeses andam para cá e para lá, arrancando ervas más, esmagando lagartas, lesmas e semelhantes, sacudindo os ramos e segurando por debaixo deles bacias cheias de água, para afogar as pequenas borboletas, os pulgões e outros parasitas, que estão por cima das folhas que sobraram, e que chupam a planta até fazê-la morrer. Procuram um sinal de vida nos sarmentos dos vinhedos. Mas estes se despedaçam de secos, mal são tocados e, às vezes, se quebram na base, como se uma serra lhes tivesse cortado as raízes. O contraste com os campos de Jocanã, com os vinhedos e pomares dele, é muito forte; a desolação dos campos malditos sempre se torna mais violenta, se for comparada com a fertilidade dos outros.

– Quão pesada é a mão do Deus do Sinai –murmura Simão Zelotes.

Jesus faz um sinal como para dizer: “Oh, se é!” Mas não diz nada. Somente faz esta pergunta:

– Como é que aconteceu isto?

Um dos camponeses responde por entre dentes:

– Toupeiras, gafanhotos, vermes… Mas, vai-te! O vigia é fiel a Doras… Não queiras nos prejudicar…

Jesus dá um suspiro, e vai-se embora.

Outro camponês diz, ficando inclinado para escorar uma macieira, na esperança de salvá-la:

– Nós iremos a Ti amanhã… quando o vigia for para Jezrael fazer a oração… iremos à casa de Miqueias…

Jesus faz um gesto de benção, e se vai.

190.3

Quando ele chega de volta à encruzilhada, lá estão todos os camponeses de Jocanã, festivos, felizes, e rodeiam o seu Mestre, levando-o às suas pobres casas.

– Viste o que há por lá?

– Eu vi. Amanhã virão os camponeses de Doras.

– Está bom, enquanto as hienas vão rezar… Fazemos assim todos os sábados… e falamos sobre Ti, pelo que ficamos sabendo por Jonas, por Isaac, que frequentemente vem nos ver, e pelo discurso de Tirsi. O que sabemos, falamos. Porque não se pode deixar de falar de Ti. E, quanto mais falamos, tanto mais se sofre e é proibido fazer isso. Aqueles pobres… cada sábado bebem a vida. Mas nesta planície, quantos há que tem necessidade de saber, pelo menos saber de Ti, e que não podem vir até aqui…

– Eu pensarei também neles. E vós, sede benditos, pelo que estais fazendo.

O Sol vai entrando, enquanto Jesus também entra numa cozinha esfumaçada. Começa o repouso do sábado.

Anotação

"O homem corre ao encontro de Pedro e André. Cf. EMV 109.4: Pedro e André, Tiago e João, que tomaram o lugar dos lavradores para poderem escutar a palavra de Jesus.

O Deus do Sinai tem uma mão pesada. Uma referência direta às palavras de Jesus em EMV 109.12.

Falamos de Ti, com o que aprendemos de Jonas, de Isaac, que vem muitas vezes ter connosco, e do teu discurso em Tisri. Cf. EMV 109.5.

EMF 190.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Quando ele chega de volta à encruzilhada, lá estão todos os camponeses de Jocanã, festivos, felizes, e rodeiam o seu Mestre, levando-o às suas pobres casas.

– Viste o que há por lá?

– Eu vi. Amanhã virão os camponeses de Doras.

– Está bom, enquanto as hienas vão rezar… Fazemos assim todos os sábados… e falamos sobre Ti, pelo que ficamos sabendo por Jonas, por Isaac, que frequentemente vem nos ver, e pelo discurso de Tirsi. O que sabemos, falamos. Porque não se pode deixar de falar de Ti. E, quanto mais falamos, tanto mais se sofre e é proibido fazer isso. Aqueles pobres… cada sábado bebem a vida. Mas nesta planície, quantos há que tem necessidade de saber, pelo menos saber de Ti, e que não podem vir até aqui…

– Eu pensarei também neles. E vós, sede benditos, pelo que estais fazendo.

Detalhe

Jesus encontra-se com os camponeses de Yokhanan.

Anotação

Falamos de Ti, com o que aprendemos de Jonas, de Isaac, que vem muitas vezes ter connosco, e do teu discurso em Tisri. Cf. EMV 109.5.

EMF 191.1-9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Entrega a Miqueias o tanto de dinheiro com que amanhã ele possa reembolsar tudo o que hoje ele tomou emprestado dos camponeses desta zona –diz Jesus a Judas Iscariotes, que vem administrando os… bens comuns.

Depois, Jesus chama André e João, e os manda a dois pontos, dos quais se pode ver a estrada, ou as estradas que vêm de Jezrael. Chama em seguida a Pedro e Simão, e os manda ir ao encontro dos camponeses de Doras, com a ordem de detê-los perto do limite das duas propriedades. Por fim, Ele diz a Tiago e Judas:

– Apanhai os alimentos e vinde.

Os camponeses de Jocanã os acompanham: mulheres, homens e crianças, levando os homens duas pequenas ânforas. Pequenas é um modo de dizer, e devem estar cheias de vinho. Elas são mais do que ânforas, são, antes, grandes jarras, contendo mais ou menos uns dez litros cada uma. (Peço sempre que não tomem as minhas medidas como artigos de fé). Vão até o lugar onde um viçoso vinhedo, que já está coberto de folhas novas, marca o fim das propriedades de Jocanã. Para lá há um largo fosso conservado cheio d’água, sabe Deus com que trabalho.

– Estás vendo? Jocanã entrou em litígio com Doras por causa disto. Jocanã dizia: “A culpa é do teu pai, de estar tudo arruinado. Se não queria adorá-lo, pelo menos o devia temer, e não ficar provocando-o.” E Doras urrava e parecia um demônio, e dizia: “Tu ainda salvaste tuas terras por causa deste fosso. Os bichos não puderam atravessá-lo…” E Jocanã dizia: “E, então, como é que tens agora tantas ruínas, quando antes os teus campos eram os mais belos de Esdrelon? Isso é o castigo de Deus, podes crer. Vós passastes da medida. Esta água? Sempre aí esteve. Mas não foi ela que me salvou.” E Doras urrava: “Isto prova que Jesus é um demônio.” “É um justo”, urrava Jocanã. E foram andando para a frente mais um pouco, enquanto tiveram fôlego, e depois Jocanã fez, com grandes despesas, uma derivação de águas da torrente e uma escavação para procurar outras águas no solo, e fazer toda uma série de fossos no limite entre ele e o parente, e mandou fazê-los mais fundos, e a nós disse o que te dissemos ontem… Afinal, ele está feliz com tudo o que aconteceu. Ele tinha muita inveja de Doras… Agora, ele espera poder comprar tudo, porque Doras acabará vendendo tudo por dois vinténs.

191.2

Jesus ouve com benignidade todas essas confidências e, ao mesmo tempo, vai atendendo aos pobres camponeses de Doras, que não tardam a chegar e a se prostrarem no chão, logo que vêem Jesus, que está abrigado à sombra de uma árvore.

– A paz a vós, amigos. Vinde. Hoje a sinagoga é aqui e Eu sou o sinagogo. Mas antes quero ser o vosso pai de família. Sentai-vos ao redor de Mim, para que Eu vos dê algum alimento. Hoje tendes convosco o esposo, e façamos um banquete de núpcias.

Jesus, então, descobre uma cesta, e dela vai tirando pães, que Ele vai distribuindo aos espantados camponeses de Doras e, de uma outra cesta, vai tirando os alimentos que pôde encontrar: queijos, verduras, que Ele mandou cozinhar e um pequeno cabrito ou cordeirinho, cozido inteiro, e que Ele vai repartindo com os pobres infelizes. Depois, despeja o vinho no cálice rústico, e o faz circular para que todos bebam.

– Mas por quê? Mas por quê? E eles? –dizem os de Doras, mostrando os de Jocanã.

– Eles já receberam.

– Mas, que despesa! Como pudeste?

– Ainda há gente boa em Israel –diz Jesus sorrindo.

– Mas hoje é sábado…

– Agradecei a este homem –diz Jesus, mostrando o homem de Endor–. Foi ele quem procurou o cordeiro. Tudo o mais foi fácil conseguir.

Os pobrezinhos estavam devorando — esta é a palavra — um alimento que fazia tempo que não viam.

191.3

Mas um deles, já um tanto idoso, que segura a seu lado um menino de uns dez anos, está comendo e chorando.

– Por que, pai, estás fazendo assim? –pergunta Jesus.

– Porque a tua bondade é demais…

O homem de Endor diz, então, com aquela sua voz gutural:

– É verdade… e faz chorar. Mas é um choro sem amargura…

– É sem amargura. É verdade. E depois… eu quereria uma coisa. Este meu choro é também um desejo.

– Que queres, pai?

– Estás vendo este menino? É meu neto. Veio ficar comigo depois da avalanche deste inverno. Doras nem ficou sabendo que ele veio ficar comigo, porque eu o faço viver como se fosse um animal, no mato, e só aos sábados é que o vejo. Se Doras o descobrir, ou o expulsará, ou o porá a trabalhar… e, então, ele vai ser tratado pior do que um animal de carga, este pobre herdeiro do meu sangue… Pela Páscoa o mandarei com Miqueias a Jerusalém, para se tornar filho da Lei… e depois?… É o filho da minha filha…

– Mas, em vez disso, não o darias a Mim? Não chores. Eu tenho muitos amigos, homens honestos, santos e sem filhos. Eles o educarão santamente, no meu Caminho…

– Oh! Senhor! Desde que ouvi falar de Ti, eu desejei isso. E eu pedia ao santo Jonas, ele que sabe o que quer dizer pertencer a este patrão, que salvasse o meu neto desta morte…

– Menino, tu irias comigo?

– Sim, meu Senhor. E não te darei aborrecimentos.

– Então está bem.

191.4

– Mas… a quem é que o vais dar? –pergunta Pedro, puxando Jesus pela manga–. A Lázaro mais este?

– Não, Simão. Mas, há tantos sem filhos…

– Entre eles, também eu…

O rosto de Pedro parece até ficar mais afilado, pelo desejo.

– Simão, Eu já te disse[1]. Tu deves ser o “pai” de todos os filhos que Eu vou te deixar como herança. Contudo, não deves estar preso a nenhum filho teu próprio. Mas, não fiques contrariado com isso. Tu és muito necessário ao Mestre, para que o Mestre possa afastar-te de Si, por causa de algum afeto. Eu sou exigente, Simão. Sou exigente, mais do que um esposo muito ciumento. Eu te amo com toda a predileção e te quero ter todo para Mim e de Mim.

– Está bem, Senhor… Está bem… Seja feito como Tu queres.

O pobre Pedro é heróico em sua adesão a esta vontade de Jesus.

– Será o filho da minha nascente Igreja. Não está bem? De todos e de ninguém. Será o “nosso” menino. Ele nos acompanhará, quando as distâncias o permitirem, ou virá a nós, e os tutores dele serão os pastores, eles que em todos os meninos amam ao “seu” menino Jesus. Vem cá, menino. Como te chamas?

– Jabé de João, e sou de Judá –diz com segurança o menino.

– Sim, nós somos judeus –confirma o velho–. Eu trabalhava nas terras de Doras, na Judeia, e minha filha se casou com um homem daqueles lados. Ele estava trabalhando nos bosques, perto de Arimateia, e, neste inverno…

– Eu vi o triste acontecimento[2].

– O menino salvou-se, porque naquela noite ele estava na casa de um parente distante… verdadeiramente ele tem esse nome, Senhor. Eu disse isso logo à minha filha: “Por que há de ser este? Não te lembras mais do antigo[3]?” Mas o marido quis chamá-lo assim, e ficou sabendo Jabé.

– “O menino invocará o Senhor, e o Senhor o abençoará, e dilatará os seus confins e a mão do Senhor está sobre a mão dele, e ele não será oprimido pelo mal.” Isto lhe concederá o senhor, para te consolar a ti, pai, aos espíritos dos mortos, e confortar o órfão.

191.5

E agora, que já separamos as necessidades do corpo das necessidades da alma, com um ato de amor ao menino, escutai a parábola, que eu criei para vós.

Há tempo, havia um homem muito rico. As roupas mais bonitas eram as dele e, em seus hábitos de púrpura e de bisso, ele se pavoneava pelas praças e em sua casa, respeitado pelos cidadãos como o homem mais poderoso da cidade, e pelos amigos que o estimulavam em sua soberba, para disso tirarem alguma vantagem. Suas salas estavam abertas todo dia para esplêndidos banquetes nos quais a multidão dos convidados, todos eles ricos e, portanto não necessitados, se inclinavam, em adoração diante do rico Epulão. Seus banquetes eram célebres pela abundância de alimentos e de vinhos excelentes.

Mas naquela mesma cidade havia um mendigo, um grande mendigo. Grande em sua miséria, como o outro era grande em sua riqueza. Mas, por debaixo da crosta da miséria humana do mendigo Lázaro, estava escondido um tesouro ainda maior do que a miséria dele e do que a riqueza de Epulão. Esse tesouro era a santidade verdadeira de Lázaro. Ele nunca havia transgredido a Lei, nem mesmo impelido pela necessidade e, sobretudo, tinha obedecido ao preceito do amor para com Deus e para com o próximo. Ele, como sempre fazem os pobres, aproximava-se da porta dos ricos para pedir uma esmola e não morrer de fome. E cada tarde, ele ia até à porta de Epulão, esperando receber dele pelo menos as migalhas dos pomposos banquetes que se davam nas riquíssimas salas. Ele se deitava na rua, perto da porta e ficava esperando pacientemente. Mas se Epulão percebia que ele estava lá, mandava que o expulsassem, porque aquele corpo coberto de feridas, desnutrido, com roupas rasgadas, era uma coisa muito triste para ser vista pelos convidados. Assim dizia Epulão. Na verdade, porém, era porque aquela vista de miséria e de bondade era uma reprovação contínua para ele. Mais compassivos do que ele, eram os seus cães, bem alimentados, usando colares preciosos, que se aproximavam do pobre Lázaro e lhe lambiam as chagas, ganindo de alegria pelas carícias que ele lhes fazia, e que chegavam até a levar-lhe dos sobejos das ricas mesas, e assim Lázaro se ia recuperando da desnutrição com o que lhe levavam aqueles animais, pois, se dependesse do homem, ele já estaria morto, já que o homem não lhe permitia nem mesmo entrar nas salas, depois do banquete, para recolher as migalhas caídas das mesas.

191.6

Um dia Lázaro morreu. Ninguém ficou sabendo disso na terra, ninguém o chorou. Epulão, até pelo contrário, se alegrou por não ver naquele dia, nem depois, aquela miséria que ele dizia ser “uma vergonha” junto à soleira de sua casa. Mas no Céu os Anjos perceberam isso. E, em seu último suspiro, em sua choupana pobre e necessitada de tudo, estavam presentes as coortes celestes que, em meio a um fulgurar de luzes, recolheram a alma dele, levando-a, com cântico de hosanas, ao seio de Abraão.

Pouco tempo depois, morreu Epulão. Oh! Que funerais faustosos! A cidade toda, que soubera de sua agonia e se aglomerava na praça em que ficava a morada dele, ou para que se notasse que era amiga daquele “grande”, ou por curiosidade, por algum interesse junto aos herdeiros, foi unir-se ao pesar da família, e os uivos subiram ao céu, e com os uivos do luto os elogios mentirosos feitos ao “grande”, ao “benfeitor”, ao “justo” que havia morrido.

Mas, poderá a palavra do homem mudar o juízo de Deus? Poderá alguma apologia humana cancelar tudo o que está escrito no livro da Vida? Não, não pode. O que está julgado, julgado está, o que foi escrito, escrito está. E, mesmo tendo um enterro solene, Epulão teve o seu espírito sepultado no inferno.

E, então, naquele cárcere horrível, bebendo e comendo fogo e trevas, encontrando ódio e torturas por toda parte e em todos os instantes daquela eternidade, ele levantou os olhos ao Céu. Ao Céu, que ele tinha podido entrever[4], no meio de um esplendor fulgurante, em uma fração de minuto, e cuja beleza indizível se lhe fazia agora presente, para ser tormento, entre os tormentos atrozes. E viu, lá no alto, a Abraão. Ele estava lá longe, mas fúlgido, bem-aventurado… e em seu seio, também fúlgido e bem-aventurado, estava o pobre Lázaro, que outrora fora desprezado, quando era repulsivo, miserável, e agora?… E agora, cheio da beleza da luz de Deus e de sua santidade, rico de amor de Deus, e admirado, não pelos homens, mas pelos Anjos de Deus.

Então, Epulão gritou gemendo: “Pai Abraão, tem dó de mim! Manda Lázaro, pois não posso esperar que tu mesmo o faças, que ele molhe a ponta do dedo dele na água, e venha pousá-lo sobre a minha língua, para refrescá-la, porque eu estou numa grande aflição, por causa deste fogo, que está me queimando!”

Abraão lhe respondeu: “Recorda-te, meu filho, que tu tiveste todos os bens em vida, enquanto que Lázaro teve todos os males. Ele ainda soube fazer do mal um bem, enquanto tu não soubeste de teus bens fazer nada que não fosse mal. Por isso, é justo que agora ele seja aqui consolado e que tu sofras. Além disso, não é mais possível fazer o que pedes. Os santos estão espalhados pela terra, para que os homens deles tirem alguma vantagem. Mas, quando, não obstante essa vizinhança o homem continua a ser o que é, — no teu caso, um demônio — aí é inútil recorrer depois aos santos. Agora, nós estamos separados. As ervas nos campos estão misturadas. Mas desde que foram cortadas pela foice, ficam separadas as boas das más. Assim é que acontece convosco e conosco. Estivemos juntos na terra, e nos expulsastes e nos atormentastes de todos os modos e, indo contra o amor, vós esquecestes de nós. Agora estamos separados. Entre vós e nós há um abismo tão grande, que os que quiserem passar daqui para vós não o podem fazer; nem vós que aí estais, podeis atravessar o tremendo abismo, para virdes até nós.”

191.7

Epulão, chorando mais fortemente, gritou: “Pelo menos, ó pai santo, manda, eu to peço, manda que Lázaro vá à casa de meu pai. Eu tenho cinco irmãos. Eu nunca compreendi o amor, nem mesmo para com meus parentes. Mas agora, agora eu compreendo que coisa horrível é não sermos amados. Além disso, aqui onde estou só existe ódio, e agora é que compreendo, por aquele instante de tempo em que minha alma pôde ver a Deus, o que é o Amor. Não quero que os meus irmãos venham a sofrer o que eu estou sofrendo.

Eu fico aterrorizado por causa deles, pois eles levam a vida que eu levei. Oh! Manda lázaro dizer-lhes onde eu estou e porque aqui estou e que o inferno existe, e é atroz, e que quem não ama a Deus e ao próximo vem para o inferno. Manda-o! Para que, em tempo, eles se precavenham, e não tenham que vir para cá, para este lugar de eterno tormento.”

Mas Abraão lhe respondeu: “Os teus irmãos têm Moisés e os Profetas. Que eles os ouçam.”

E, com um gemido de alma torturada, respondeu Epulão: “Oh! Pai Abraão! Se um morto for falar com eles, ficarão mais impressionados… Escuta-me! Tem piedade!”

Mas Abraão disse: “Se eles não quiseram escutar a Moisés e aos Profetas, não acreditarão, nem que alguém ressuscite dos mortos, por uma hora, para ir dizer a eles palavras de Verdade. E, além disso, não é justo que um bem-aventurado deixe o meu seio, para ir receber ofensas dos filhos do inimigo. O tempo das injúrias para ele já passou. Agora ele está na paz, e aí fica, por ordem de Deus, que vê a inutilidade de uma tentativa de conversão para aqueles que não crêem nem na palavra de Deus, e não a põem em prática.”

Esta é a parábola, cujo sentido é tão claro, que nem precisa de explicação.

191.8

Aqui verdadeiramente viveu, conquistando a santidade de um novo Lázaro, meu Jonas, cuja glória diante de Deus é evidente, pela proteção que ele dá a quem espera Nele. A vós sim, Jonas pode vir, como protetor e amigo, e virá se fordes sempre bons. Eu desejaria, e vos digo o que Eu disse[5] a ele na primavera passada, Eu desejaria ajudar-vos a todos até com bens materiais, mas não posso, e esta é a minha dor. Eu só posso mostrar-vos o Céu. Não posso senão ensinar-vos a grande sabedoria da resignação e prometer-vos o Reino futuro. Não odieis nunca, por nenhuma razão. O ódio é forte no mundo. Mas o ódio tem sempre um limite. Já o amor não tem limite, nem de poder, nem de tempo. Amai, pois, a fim de que possais possuí-lo para a vossa defesa e conforto nesta terra, e como um prêmio no Céu. É melhor serdes Lázaros do que Epulões, podeis acreditar. Procurai chegar a crer nisto e sereis bem-aventurados.

Não queirais ver no castigo destes campos uma palavra de ódio, ainda que os fatos o podiam justificar. Não leiais mal o milagre. Eu sou o Amor, e não o teria ferido. Mas, visto que o Amor não podia dobrar o Epulão cruel, Eu o abandonei à Justiça, e ela fez a vingança do mártir Jonas, e dos seus irmãos. Vós aprendei isto do milagre. Que a Justiça está sempre vigilante, até quando parece estar ausente, e que, sendo Deus o Senhor de todas as criaturas, pode servir-se, para a aplicação da Justiça, das mais pequeninas delas, como as lagartas e as formigas para morderem o coração do cruel e do avarento e fazê-lo morrer, ao vomitar o veneno que o sufoca.

191.9

Eu vos abençôo agora. Mas por vós rezarei em cada nova aurora. E tu, pai, não tenhas mais preocupações com o cordeiro que me confias. Eu o trarei a ti, de vez em quando, para que possas alegrar-te em vê-lo crescendo na sabedoria e na bondade pelos caminhos de Deus. Será o teu cordeiro desta tua pobre Páscoa, o mais agradável dos cordeiros apresentados ao altar do Senhor. Jabé, saúda a teu velho pai, depois vem ao teu Salvador, ao teu Bom Pastor, A paz esteja convosco!

– Oh! Mestre! Bom Mestre! Vais deixar-nos!…

– Sim. É doloroso. Mas não fica bem que o guarda vos encontre aqui. Eu vim aqui justamente para evitar punições. Obedecei por amor ao Amor, que vos aconselha.

Os infelizes se levantam com lágrimas nos olhos e vão para a sua cruz. Jesus os abençoa ainda e depois, com a mão do menino na sua e com o homem de Endor do outro lado, volta pelo mesmo caminho por onde veio à casa de Miqueias, acompanhado por André e por João que, tendo feito o seu turno de guarda, vão unir-se aos coirmãos.

Anotação

"Simão, eu disse-te", em EMV 104,5. A última menção de Lázaro está relacionada com o acontecimento relatado em EMV 172.11.

"Eu vi a catástrofe", em EMV 139.2.

"Porquê este nome? Não te lembras do antigo? "(...) "O menino invocará o Senhor e o Senhor abençoá-lo-á e alargará as suas fronteiras; a mão do Senhor está na sua mão e ele não será mais sobrecarregado pela desgraça. A citação é de 1 Crónicas 4,9-10: "Yabesh foi mais honrado do que os seus irmãos. A sua mãe deu-lhe o nome de Yabesh (ou seja, Na tristeza), dizendo: "Yabesh invocou o Deus de Israel, dizendo: "Se de facto me abençoares, alargarás o meu território, a tua mão estará comigo e afastarás de mim a desgraça, para que a minha angústia acabe." E Deus concedeu-lhe o que ele tinha pedido.

No seu ditado de 2 de agosto de 1943, Jesus descreve este mau rico como Epulão, nome dos sacerdotes encarregados de organizar os banquetes na Roma antiga, que o original deste episódio utiliza "Epulone" como equivalente de mau rico.

"Voltou os olhos para o Céu que vislumbrara". Entenda-se como Maria Valtorta comentou numa cópia dactilografada: "Voltou os olhos para o limbo dos santos que vislumbrara... e cuja beleza pacífica era já indizível...

"Naquele segundo em que a minha alma vislumbrou Deus" deve ser entendido no sentido de "no momento do juízo particular", como nota Maria Valtorta numa cópia dactilografada.

Gostaria de o fazer, e digo-vos o que lhe disse na primavera passada. Em EMV 89.1.

EMF 192.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Param em um lugar, que eu ouço chamar de Magedo, para aí tomarem alimento e descanso, ao lado de uma fonte muito fresca e barulhenta por causa da grande quantidade de água que dela brota em uma bacia de pedra escura. Mas ninguém do lugar se interessa por aqueles viandantes, que são anônimos entre os muitos outros peregrinos, mais ou menos ricos, que vão indo a pé ou em seus burrinhos e mulas, rumo a Jerusalém, para a Páscoa. Já há aí um ar de festa e muitos meninos, que estão entre os peregrinos, vão muito contentes, com o pensamento na cerimônia da maioridade.

Dois rapazinhos, de condições abastadas, que vieram brincar perto da fonte, enquanto aí está Jabé com Pedro, que o traz consigo, agradando-o com mil coisinhas, perguntam ao rapazinho:

– Tu também estás indo para te tornares filho da Lei?

Jabé responde timidamente:

– Sim –mas vai esconder-se quase por detrás de Pedro.

– Este é o teu pai? Tu és pobre, não é?

– Eu sou pobre, sim.

Os dois meninos, talvez filhos de fariseus, ficam olhando para ele de um modo irônico e curioso, e dizem:

– Logo se vê.

E de fato se vê… Sua roupinha é bem mísera! Talvez o menino cresceu, mas, não obstante que a orla da veste de cor marron desbotada pelas intempéries, tenha sido desfeita, o vestido mal chega a metade de suas perninhas morenas, deixando assim bem descobertos os pés mal calçados com duas desconformes sandálias, presas aos pés por umas cordinhas, que os devem torturar bastante.

Os meninos, desapiedados por aquele egoísmo próprio de muitos meninos e pela crueldade dos meninos que não são bons, dizem:

– Oh! Então não terás uma roupa nova para a tua festa! Mas nós, sim!… Não é, Joaquim? A minha é toda vermelha, com capa da mesma cor. Ele tem a dele da cor do céu e teremos sandálias com fivelas de prata, um cinto precioso e um talete, seguro por uma lâmina de ouro e…

– … e um coração de pedra, digo eu –dispara Pedro, que acabou de refrescar seus pés e de apanhar água para todos os odres–. Vós sois maus, rapazinhos. A cerimônia e a veste não valem nem uma rã, se o coração não for bom. Eu prefiro o meu menino. Saí soberbos! Ide para os ricos e tende respeito para com quem é pobre e honesto.

192.4 Vem, Jabé. Esta água é boa para os teus pezinhos cansados. Vem, que eu te lavo. Depois tu caminharás melhor. Oh! Estas cordinhas, como te fizeram mal! Não deves caminhar mais. Eu te levarei nos braços, até chegarmos a Enganim. Lá eu vou encontrar um vendedor de sandálias e comprar para ti um par de sandálias novas.

E Pedro lava e enxuga aqueles pezinhos que, há tempo, não recebiam tantas carícias.

O menino olha para ele, fica dúvidando, mas acaba encurvando-se sobre o homem, que lhe está atando as sandálias, e o abraça com os seus bracinhos descarnados, e diz:

– Como és bom! –e o beija sobre os cabelos grisalhos.

Pedro fica comovido. Ele se assenta no chão, lá mesmo na terra molhada, do jeito que está, e põe o menino em seu colo, dizendo:

– Então, chama-me de “pai.”

Forma-se um conjunto cheio de ternura. Jesus se aproxima com os outros. Mas antes, os dois orgulhozinhos de há pouco, que lá tinham permanecido como curiosos, perguntam:

– Então, ele não é teu pai?

– Para mim, ele é pai e mãe –diz com firmeza Jabé.

– Sim, querido. Disseste bem: pai e mãe. E, meus caros senhorinhos, eu vos garanto que ele não irá mal vestido para a cerimônia. Terá ele também uma veste de rei, vermelha como o fogo, e com um cinto verde como a erva e um talo pequeno branco como a neve.

Ainda que a mistura não seja de todo harmoniosa, contudo ela espanta os dois vaidosos, e os põe em fuga.

– Que estás fazendo, Simão, aí no molhado? –pergunta Jesus com um sorriso.

– No molhado? Ah! Sim. Agora é que eu percebi. Que é que estou fazendo? Eu me faço cordeiro de novo, com a inocência no coração. Ah! Mestre! Mestre! Bem! Vamos andando. Mas me deves deixar fazer assim com este pequeno. Depois, o cederei. Mas, enquanto não for um verdadeiro israelita, é meu.

– Mas, sim. E tu serás dele sempre o tutor como um velho pai. Está bem assim? Vamos, para podermos estar à tarde em Enganim, sem precisarmos fazer o menino correr demais.

– Eu o levo. Minha rede pesa mais do que ele. Ele não pode caminhar assim, com estas duas solas furadas. Vem.

E, carregando-se com o seu filhinho, Pedro retoma feliz o seu caminho, cada vez mais sombreado, por entre bosques de várias frutas, subindo suavemente pelas colinas das quais a vista se espraia por sobre a fértil planície de Esdrelon.

Anotação

Teremos sandálias com fivelas de prata, um cinto precioso e um thalet preso por uma lâmina de ouro e... Taleth ou Talit: Xaile de oração com que os judeus cobrem a cabeça. Geralmente tem faixas coloridas e é debruado com tzitsit (franjas).