35.1 O meu espírito vê a seguinte cena.
É noite. José dorme em sua cama no seu pequeno quarto. Um sono tranqüilo de quem descansa de muito trabalho, feito com honestidade e capricho.
Eu o vejo na escuridão do ambiente, rompida apenas por um pouco da luz do luar, que penetra por uma abertura da janela, encostada, mas não totalmente fechada, como se José tivesse calor ou quisesse ter aquele pouco de luz, para saber calcular o despontar da alvorada, levantando-se diligente. Ele está deitado de lado e, no sono, sorri, quem sabe a qual sonho que esteja tendo.
Mas, seu sorriso se transforma em preocupação. Ele suspira profundamente, como se faz quando se tem um pesadelo, e acorda sobressaltado. José se assenta sobre a cama, esfrega os olhos, e olha ao redor de si. Olha, depois, para a janela, por onde está entrando a claridade do luar. É noite alta, mas ele pega a roupa, que está estendida aos pés da cama e, continuando sentado sobre a mesma, a vai vestindo sobre a túnica branca de mangas curtas que ele trazia sobre a pele. Afastadas as cobertas, põe os pés no chão e procura as sandálias. Depois ele as calça e amarra. Põe-se em pé e vai até a porta, que está em frente de sua cama, não a que está de lado e que dá para o salão onde foram recebidos os Magos.
Ele bate à porta, de leve, só um toc-toc, com a ponta dos dedos. José deve ter ouvido que está sendo convidado a entrar, porque abre com cuidado a porta, e a torna a encostar, sem fazer barulho. Antes de ir até à porta, ele acendeu uma pequena candeia, de um só bico, e assim tem uma luz para poder andar. Ele entra. Mas, em um quarto pouco maior do que o seu, e no qual está uma caminha ao lado de um berço, ele vê uma luzinha já acesa; a chama vacilante, que está a um canto, parece uma estrelinha de uma luz tênue e dourada, que permite enxergar, mas sem incomodar quem estiver dormindo.
35.2 Maria, porém, não está dormindo. Ela está ajoelhada junto ao berço, vestida com sua veste clara, e está rezando, velando a Jesus que dorme tranqüilo, Jesus que tem a idade em que o vi na visão dos Magos. É uma criança de cerca de um ano, bonita, rósea e loira, que está dormindo, com a cabecinha de cabelos encaracolados afundada no travesseiro, e com uma mãozinha com o punho fechado, encostada na garganta.
– Não estás dormindo? –pergunta José, em voz baixa, e admirada–. Por que? Jesus não está bem?
– Oh, não! Ele está bem. Eu estou rezando. Mas certamente depois dormirei. Por que vieste, José?
Maria fala, permanecendo ajoelhada onde estava.
José fala em voz muito baixa, para não despertar o Menino, mas sua voz é agitada.
– Precisamos ir embora logo daqui. Mas logo! Prepara o baú e um saco com tudo o que puder caber nele. Eu vou preparar tudo o mais, e levarei o mais que puder. Ao romper da aurora, fugiremos. Eu faria isso até antes, mas preciso falar com a dona da casa…
– Mas, por que esta fuga?
– Depois, eu te falarei melhor. É por causa de Jesus. Um anjo me disse: “Pega o Menino e a mãe, e foge para o Egito.” Não percas tempo. Eu vou preparar o que puder.
35.3 Não há necessidade de dizer a Maria que não perca tempo. Assim que ela ouviu falar de anjo, de Jesus e de fuga, compreendeu que está em perigo o seu Filho, pôs-se em pé, branca como se tivesse um rosto de cera, com uma mão posta sobre o coração, angustiada. Logo começou a mover-se, desembaraçada e ligeira, e a arrumar as roupas no baú e num grande saco, que ela estendeu sobre o leito, e que ainda não foi usado. Certamente está aflita, mas não perde a cabeça, e faz tudo apressadamente, mas com ordem. De vez em quando, ao passar por perto do berço, olha para o Menino, que está dormindo sem saber de nada.
– Estás precisando de ajuda? –pergunta-lhe José, de vez em quando, pondo a cabeça para dentro da porta, que está entreaberta.
– Não, obrigada –responde sempre Maria.
Somente quando o saco está cheio, e fica pesado, é que ela chama José para ajudá-la a fechá-lo e levantá-lo da cama. Mas José não quer ser ajudado e faz tudo sozinho, pegando o grande volume, e levando-o para o seu quartinho.
– Pego também as cobertas de lã? –pergunta Maria.
– Pega o mais que puderes. Porque o que ficar estará perdido. Por isso, o mais que puderes, apanha-o! Para nós vai ser bom, porque… porque teremos pela frente uma longa viagem, Maria!…
José fica muito sentido, ao ter que dizer isso. Pode-se imaginar como está Maria. Suspirando, ela vai dobrando suas colchas e as de José e ele as amarra com uma corda:
– Vamos deixar os acolchoados e as esteiras –diz ele, enquanto amarra as colchas–. Ainda que eu levasse três burrinhos, não posso sobrecarregá-los demais. Temos que fazer uma longa e incômoda viagem, uma parte pelas montanhas, e outra pelo deserto. Cobre bem Jesus. As noites serão frias tanto nas montanhas, como no deserto. Apanhei os presentes dos Magos, porque eles nos serão úteis lá embaixo. Tudo o que eu tiver gastarei para comprar os dois burrinhos. Nós não podemos mandá-los de volta, e por isso eu preciso adquiri-los. Eu vou, sem ficar esperando o romper da aurora. Sei onde procurá-los. Tu, acabas de preparar tudo.
E sai. Maria recolhe ainda alguns objetos e, depois de ter ido ver Jesus, sai e volta com duas pequenas vestes que parecem estar ainda úmidas, talvez tenham sido lavadas no dia anterior. Ela as dobra e envolve em um pano e as ajunta com as outras coisas. Já não há mais nada.
Ela olha ao redor e vê um brinquedo de Jesus em um canto: é uma ovelhinha entalhada em madeira. Ela a pega com um soluço, e a beija. A madeira está com os sinais dos dentinhos de Jesus, e as orelhas da ovelhinha estão mordiscadas. Maria acaricia aquele objeto sem valor, feito com uma madeira clara e comum, mas que para ela é de grande valor, porque lhe fala do afeto de José por Jesus e lhe fala também do seu Menino. Por isso o põe também junto com as outras coisas sobre o baú já fechado.