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Apóstolos

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EMF 186.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, tendo atravessado o lago de noroeste para sudeste, recomenda a Pedro que faça o desembarque perto de Hipos. Pedro obedece sem discutir, descendo com a barca até a foz de um riozinho, que a primavera e o último temporal fizeram que ficasse cheio e barulhento, e que desemboca no lago, passando por uma garganta áspera e rochosa, como é a costa toda nesta região. Os empregados cuidam da segurança das barcas — há um deles em cada barca — e recebem a ordem de ficarem esperando até a tarde, para voltarem a Cafarnaum.

– E ficai como peixes com quem vos interroga –aconselha Pedro–. A quem vos perguntar onde está o Mestre, respondei firmes: “Eu não sei.” E a quem quiser saber para onde Ele foi, dizei o mesmo. Tudo é verdade. Vós não sabeis.

Separam-se, e Jesus começa a subida por um íngreme caminho, que cada vez mais se eleva, por entre os rochedos, até ficar quase a pino. Os apóstolos o acompanham por aquele caminho difícil, até chegarem ao alto da escarpa, que se estende por um planalto coberto de carvalhos, debaixo dos quais muitos porcos estão pastando.

EMF 186.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus começa a subida por um íngreme caminho, que cada vez mais se eleva, por entre os rochedos, até ficar quase a pino. Os apóstolos o acompanham por aquele caminho difícil, até chegarem ao alto da escarpa, que se estende por um planalto coberto de carvalhos, debaixo dos quais muitos porcos estão pastando.

– Que animais fedorentos! –exclama Bartolomeu–. Eles nos impedem a passagem…

– Não. Não nos impedem. Há lugar para todos –responde calmamente Jesus.

Afinal, os guardas dos porcos, vendo os israelitas, procuram juntar os animais debaixo dos carvalhos, deixando livre o caminho. E os apóstolos passam, fazendo mil caretas, por entre as sujeiras deixadas pelos porcos, que estão continuamente fuçando, já bem gordos e procurando engordar ainda mais.

Jesus passou, sem conversar com ninguém, mas apenas dizendo aos pastores da manada:

– Deus vos pague por vossa gentileza.

Os guardas, pobre gente pouco menos suja do que os seus porcos, mas, em compensação, muito mais magra do que eles, estão olhando, espantados, o que está acontecendo e depois cochicham entre eles. Um deles diz:

– Não é israelita?

E a isto os outros respondem:

– Não estás vendo as vestes com franjas?

O grupo dos apóstolos se reúne, agora que todos já podem andar em grupo, indo por uma vereda bem mais larga.

EMF 186.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Aquela não será Gamala? –pergunta Zelotes.

– Sim, é Gamala. Tu a conheces? –diz Jesus.

– Eu estive lá, quando eu estava fugitivo em certa noite, já faz muito tempo. Depois veio a lepra, e eu não saí mais dos sepulcros.

– Até aqui foste perseguido? –pergunta Pedro.

– Eu estava vindo da Síria, para onde tinha ido em busca de proteção. Mas me descobriram e somente a fuga para estas terras me podia livrar de ser capturado. Depois, fui descendo devagar, mas sempre ameaçado, cheguei ao deserto de Tecué, e de lá — já leproso — fui para o vale dos mortos. Assim a lepra me livrou dos inimigos…

– Eles eram pagãos, não é? –pergunta Iscariotes.

– Quase todos. Poucos hebreus para os negócios, e depois uma mistura de crenças, ou de incredulidades, para dizer tudo. Mas eles não foram maus para com o fugitivo.

– Lugares de bandidos! Que gargantas! –exclamam muitos.

– Sim. Mas, podeis acreditar que mais bandidos há do outro lado

–diz João, ainda impressionado com a prisão do Batista.

– Do outro lado há bandidos, mesmo entre aqueles que querem levar nome de justos –termina o seu irmão.

EMF 186.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Ao passo que vós virastes para o outro lado os vossos rostos, porque tínheis que passar pelo meio daqueles animais.

– Mas eles são imundos…

– O pecador o é muito mais. Os animais são feitos assim e não são culpados de o serem. Mas o homem sim é responsável por tornar-se imundo com o pecado.

– Mas, então, por que é que por nós foram classificados como animais imundos[1]? –pergunta Filipe.

– Já uma vez fiz menção disso. Nessa ordem há uma razão sobrenatural, e outra natural. A primeira é para ensinar ao povo eleito a saber viver, tendo sempre presente a lembrança de sua eleição e a dignidade do homem, até mesmo em uma ação comum, como o comer. O homem selvagem come de tudo. Basta encher a barriga. O homem pagão, mesmo que não seja um selvagem, também come de tudo, sem pensar que a alimentação exagerada e refinada fomenta vícios e tendências que aviltam o homem. Os pagãos chegam até a se deixarem levar a este frenesi de prazer que, para eles, é quase uma religião.

Os mais cultos entre vós sabem das festas obscenas em honra dos deuses deles e que degeneram em uma orgia de libidinagem. O filho do povo de Deus deve saber conter-se e, na obediência e na prudência, aperfeiçoar-se a si mesmo, tendo sempre presente a sua origem e o seu fim: Deus e o Céu.

A razão natural nos diz que não devemos excitar o sangue com alimentos que conduzem a calores indignos do homem, ao qual não se nega que possa ter um amor, até carnal, mas ele deve temperá-lo sempre com o frescor da alma, que tende para o Céu, e fazer, por isso, um amor, e não uma sensualidade, daquele sentimento que une o homem à companheira, na qual ele deve ver a sua semelhante, e não uma fêmea. Mas os pobres animais não são culpados de serem porcos, nem dos efeitos que a carne dos porcos pode, a longo prazo, produzir no sangue. Menos culpados ainda, são os homens que tomam conta dos porcos. Se forem honestos, que diferença haverá, na outra vida, entre estes e o escriba que vive inclinado sobre os livros, mas que, infelizmente, não aprende, por meio deles, a ser bom? Em verdade, Eu vos digo, que veremos guardadores de por cos entre os justos, e escribas entre os injustos.

Detalhe

Porque é que os porcos foram declarados impuros? Jesus respondeu a esta pergunta depois de os apóstolos terem mostrado a sua repugnância por estes animais.

Anotação

Os porcos são descritos como impuros em Levítico 11,7 e Deuteronómio 14,8. De um modo mais geral, a classificação dos animais limpos e impuros, bem como as respectivas prescrições, encontram-se em Génesis 7,2-3; Levítico 11 e Deuteronómio 14,3-21. Ver a altercação entre Pedro e um estalajadeiro em EMV 292.1.

Livro do Levítico 11, 7

Lv 11, 7: Comoo porco, que tem o chifre dividido e a pata fendida, mas não rumina, será para vós imundo.

Deuteronómio 14, 8

Dt 14, 8 : Há também o porco, que tem o chifre dividido, mas não rumina; será imundo para ti. Não comereis a sua carne, nem tocareis nos seus cadáveres.

Livro do Génesis 7, 2-3

Gn 7, 2-3 : De todos os animais limpos, tomarás contigo sete pares, machos e fêmeas, e de todos os animais que não são limpos, tomarás dois, um macho e a sua fêmea; sete pares de aves do céu, machos e fêmeas, para manter viva a sua raça sobre a face de toda a terra.

Livro do Levítico 11

Lv 11: O Senhor falou a Moisés e a Aarão, dizendo-lhes: "Fala aos filhos de Israel e dize-lhes:

Estes são os animais que comereis de todos os animais que há sobre a terra: comereis todo o animal que tem o chifre dividido e a pata fendida e que rumina. Mas não comereis nenhum animal que só rumine ou que só tenha o chifre dividido. Como o camelo, que rumina, mas cujo chifre não se divide, será para vós imundo. Como a jerboa, que rumina, mas não tem o chifre dividido: será imunda para vós. Como a lebre, que rumina, mas não tem o chifre dividido: será imunda para vós. Como o porco, que tem o chifre dividido e a pata fendida, mas não rumina, será para vós imundo. 8Não comereis a sua carne, nem tocareis nos seus cadáveres; serão para vós imundos.

Estes são os animais que comereis de tudo o que há nas águas: tudo o que tem barbatanas e escamas nas águas, quer no mar quer nos rios, comereis. Mas tudo o que não tem barbatanas e escamas, quer no mar quer nos rios, de todos os animais que se movem nas águas e de todos os seres vivos que nelas existem, achareis abominável. Serão para vós uma abominação; não comereis a sua carne, e os seus cadáveres serão para vós uma abominação. Tudo o que há nas águas, sem barbatanas nem escamas, é para vós uma abominação.

E estas são as aves que abominareis; não serão comidas, porque são abomináveis: a águia, a águia-pesqueira e o abutre: o milhafre e toda a espécie de falcões; toda a espécie de corvos; a avestruz, o milhafre, a gaivota e toda a espécie de falcões; o mocho, o corvo-marinho e a coruja; o cisne, o pelicano e o abutre-barbudo; a cegonha, toda a espécie de garças; a poupa e o morcego.

Todos os insectos alados que andam sobre quatro patas são para vós uma abominação. Mas de todos os insectos alados que andam sobre quatro patas, comereis os que têm patas por cima das pernas, para poderem saltar sobre a terra. Estes são os que comereis: toda a espécie de gafanhotos, toda a espécie de solham, toda a espécie de hargol, toda a espécie de hagab. Todo o animal alado de quatro patas é para vós uma abominação.

Também estes vos tornarão imundos: quem tocar no seu cadáver ficará imundo até à tarde, e quem tirar qualquer parte do seu cadáver lavará as suas vestes e ficará imundo até à tarde.

Todo o animal que tiver o chifre fendido, mas não tiver patas fendidas nem ruminar, será para vós imundo; quem tocar nele será imundo. E dos quadrúpedes, tudo o que anda sobre a planta dos pés vos será impuro; quem tocar no seu cadáver será impuro até à tarde; e quem levar o seu cadáver lavará as suas vestes e será impuro até à tarde. Estes animais ser-vos-ão impuros.

Entre os pequenos animais que rastejam sobre a terra, estes são os que vos serão impuros: a doninha, o rato e todas as espécies de lagartos; o musaranho, o camaleão, a salamandra, o lagarto verde e a toupeira. Estas são as coisas impuras para vós entre os répteis: quem tocar nelas quando estiverem mortas ficará impuro até à tarde. Tudo o que cair sobre os mortos será impuro: utensílio de madeira, roupa, pele, pano de saco, tudo o que usardes; pô-lo-eis em água e ficará impuro até à tarde, depois da qual ficará limpo. Se alguma coisa cair no meio de qualquer vasilha de barro, tudo o que estiver no meio da vasilha ficará impuro, e tu quebrarás a vasilha. Qualquer alimento preparado com água será contaminado; qualquer bebida usada, seja qual for o recipiente em que estiver contida, será contaminada. Todos os objectos sobre os quais cair alguma coisa do seu cadáver serão contaminados; o forno e o vaso com a sua tampa serão destruídos; serão contaminados e considerá-los-eis como contaminados. Mas as fontes e as cisternas, onde se formam as poças de água, permanecerão puras; mas quem tocar no cadáver ficará impuro. Se algum dos seus cadáveres cair sobre a semente que se há-de semear, a semente ficará pura; mas, se se tiver deitado água sobre a semente e algum dos seus cadáveres cair sobre ela, considerá-la-eis imunda.

Se um dos animais que comerdes morrer, quem tocar no seu cadáver ficará impuro até à tarde. Quem comer do seu cadáver lavará as suas vestes e ficará impuro até à tarde; quem transportar o seu cadáver lavará as suas vestes e ficará impuro até à tarde.

Todo o réptil que se arrasta sobre a terra é para vós uma abominação; não se comerá. Não comereis nenhum animal que se arrasta sobre a terra, nem o que rasteja sobre o ventre, nem o que anda sobre quatro pés, nem o que anda sobre muitos pés, porque são para vós uma abominação.

Não vos torneis abomináveis por causa de todos estes répteis; não vos torneis impuros por causa deles; sereis contaminados por eles. Porque eu sou Javé, vosso Deus; santificai-vos e sede santos, porque eu sou santo; e não vos contaminareis com todos os répteis que se arrastam sobre a terra. Porque eu sou Javé, que vos fiz subir da terra do Egito para ser o vosso Deus. Sereis santos, porque eu sou santo. "Esta é a lei relativa aos quadrúpedes, às aves, a todos os seres vivos que se movem na água e a tudo o que se arrasta sobre a terra, para que saibas distinguir entre o que é impuro e o que é limpo, entre os animais que se podem comer e os que não se podem comer.

Deuteronómio 14, 3-21

Não comerás nada de abominável. Estes são os animais que podes comer: o boi, a ovelha e a cabra; o veado, a gazela e o gamo; o íbex, o antílope, o boi selvagem e a cabra selvagem. Podes comer qualquer animal que tenha um chifre fendido e uma pata fendida e que rumine. Mas não comereis nenhum animal que só rumine, ou que só tenha o chifre fendido e a pata fendida, como o camelo, a lebre e o coelho, que ruminam, mas não têm o chifre fendido; serão para vós imundos; e como o porco, que tem o chifre fendido, mas não rumina; será para vós imundo. Não comereis a sua carne, nem tocareis nos seus cadáveres.

Estes são os animais que comereis de todos os que estão nas águas: tudo o que tem barbatanas e escamas comereis; mas tudo o que não tem barbatanas nem escamas não comereis; é para vós imundo. Poderás comer qualquer ave limpa. Estas são as que não podereis comer: a águia, a águia-pesqueira e o abutre; o falcão, o milhafre e toda a espécie de açor; toda a espécie de corvo; a avestruz, a coruja, a gaivota e toda a espécie de gavião; o mocho, a íbis e a coruja; o pelicano, o corvo-marinho e o mergulhão; 18a cegonha e toda a espécie de garça; a poupa e o morcego. 19Todos os insectos alados são impuros para vós; não podem ser comidos. Deves comer todas as aves limpas. Não comereis nenhum animal morto. Dá-lo-ás a comer ao estrangeiro que está dentro das tuas portas, ou vendê-lo-ás ao estrangeiro, pois és um povo santo para Javé, teu Deus. Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.

EMF 186.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Mas que desmoronamento é este?

Todos se afastam daquele lado do monte, porque pedras e terriço vêm rolando ou dando saltos pelo declive e, assombrados, olham em torno de si.

– Eis, Eis! Eis lá! Dois… completamente nus… eles vêm vindo para nós, e gesticulam. São doidos…

– Ou endemoninhados –responde Jesus a Iscariotes, que viu primeiro os dois possessos que vinham vindo para Jesus.

EMF 186.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Arranjai umas vestes a estes. Não podem ficar assim.

O Zelotes abre um saco e dá uma de suas vestes. Tomé dá a outra. Os dois estão ainda um pouco aturdidos, como se tivessem acabado de sair de um sono pesado, cheio de pesadelos.

– Dai-lhes alimento. Que voltem a viver como homens.

E, enquanto os dois comem pão com azeitonas que lhes é dado e bebem do frasco de Pedro, Jesus os observa.

Detalhe

Jesus acaba de libertar dois possessos.

EMF 187.1-3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus se despede das barcas, dizendo: “Não voltarei atrás” e, acompanhado pelos seus, através da região que parecia muito fértil, vista da margem oposta, dirige-se para um monte, que aparece na direção sudoeste.

Os apóstolos vão indo em silêncio, falando um com o outro, somente com os olhos, pouco entusiasmados com o caminho pelo meio dessa região bonita, mas selvagem, cheia de carriços que se agarram aos pés, de caniços que fazem chover sobre as cabeças uma chuvinha do orvalho que ficou retido pelas fendas por entre suas folhas; de caroços de frutas secas, que lhes batem no rosto; de salgueiros frágeis que batem por toda parte nos corpos dos viandantes, fazendo-lhescócegas; de traidoras passagens no terreno, onde há ervas que parecem ter nascido em um solo sólido, mas, ao invés disso, escondem poças d’água nas quais os pés afundam, pois elas não são mais que uns aglomerados de rabos-de-raposa e de outras amarantáceas, nascidas em pequenos charcos e tão cerradas, que escondem o elemento em que nasceram.

Jesus, do lugar em que está, parece alegrar-se com todo aquele verde de mil tons, com todas aquelas flores, pelas quais eles passam roçando, ou que estão erguidas e se agarram às outras para subir, que soltam delicados festões cobertos de graciosos convólvulos de uma cor rosa-malva tênue ou formam um tapete azul muito bonito para as milhares de corolas de miosótis palustres, que abrem seus cálices perfeitos em corolas brancas, róseas ou azuis, por entre as largas folhas chatas dos nenúfares. Jesus admira os penachos dos caniços do brejo, sedosos e cor de pérola e se inclina alegre para observar a delicadeza dos rabos-de-raposa, que formam um véu de esmeralda sobre as águas. Jesus para, extasiado, diante dos ninhos que os pequenos pássaros constróem, com um ir e vir feliz, acompanhado de trilos, de pulos, de um cansaço contente, dos flocos de lã arrancada às sebes que, por sua vez, as tinham arrancado dos rebanhos, que por ali passaram… Ele parece a pessoa mais feliz que possa haver. Onde está o mundo com as suas maldades, falsidades, dores e insídias? O mundo está do lado de lá deste oásis verde e florido, onde tudo é perfumado, tudo brilha, tudo ri e canta. Aqui está a terra criada pelo Pai e não profanada pelo homem, e aqui pode-se até esquecer o homem.

187.2

Ele quer repartir sua felicidade com os outros. Mas não encontra um terreno propício. Os corações estão cansados e exacerbados, cheios de tanta má vontade que a querem revirar sobre as coisas e até sobre o Mestre, com um mutismo fechado, semelhante àquele ar parado, que precede um temporal. Somente o primo Tiago, o Zelote e João se interessam pelo que interessa a Jesus. Pois os outros não são mais do que… uns ausentes, para não dizer hostis. Talvez, para não murmurar, fazem silêncio entre si. Mas, por dentro, cada um deve estar falando, até demais.

Uma mais viva exclamação de admiração, diante da jóia viva que é um pequeno pombo do mato, que vem voando e trazendo para a companheira um peixinho cor de prata, é justo aquilo que os faz abrir as bocas.

Jesus diz:

– Mas, poderá haver coisa mais gentil?

Pedro responde:

– Talvez mais gentil não… mas eu Te garanto que mais cômoda é a barca. Aqui estamos também na umidade e, em compensação, não temos comodidade…

– Eu preferiria ir pela estrada caravaneira, a ir… por este jardim, se é que Te agrada chamá-lo assim, e estou completamente de acordo com Simão –diz Iscariotes.

– A estrada caravaneira, vós não a quisestes –responde Jesus.

– É certo. Mas eu não teria entregado os pontos aos gerasenos. Eu teria ido embora de lá, mas teria continuado do outro lado do rio, indo por Gadara, por Pela, e por ali abaixo, sempre para baixo –resmunga Bartolomeu.

E o seu grande amigo Filipe termina:

– As estradas, afinal, são de todos, e por elas poderíamos caminhar nós também.

– Amigos, amigos! Eu estou tão aflito, estou tão enojado… Não aumenteis meus sofrimentos com as vossas mesquinharias! Deixai-me procurar um pouco de consolo nas coisas que não sabem odiar…

A censura, doce em sua tristeza, toca os apóstolos.

– Tens razão, Mestre. Nós somos indignos de Ti. Perdoa a nossa estultice. Tu és capaz de ver a beleza, porque és santo e olhas com os olhos do coração. Nós, carniça, sentimos somente esta carniça… Mas, não repares. Podes crer que, ainda que estivéssemos em um paraíso, sem Ti estaríamos tristes. Mas, contigo… oh, é sempre mais belo para o coração. Somente os nossos membros é que se recusam

–murmuram muitos.

187.3

– Daqui a pouco, sairemos daqui e encontraremos um chão mais cômodo, ainda que menos fresco –promete Jesus.

– Aonde iremos, precisamente? –pergunta Pedro.

– Levar a Páscoa aos que sofrem. Há tempo que o queria fazer. Mas não pude. Eu o teria feito, ao voltar da Galileia. Agora, que me obrigam a andar por caminhos não escolhidos por nós, Eu vou abençoar os pobres amigos de Jonas.

– Mas assim vamos perder tempo! A Páscoa já está perto! Sempre nos atrasamos por diversas causas.

E um outro coro de lamentações se levanta até o céu. Não sei como Jesus pode ter tanta paciência… E, sem censurar a ninguém, Ele diz:

– Eu vos peço. Não me crieis obstáculos! Compreendei minha necessidade de amar e de ser amado. Só tenho este conforto na terra: o amor e fazer a vontade de Deus.

– E vamos por aqui? Não seria melhor irmos para Nazaré?

– Se Eu vos tivesse proposto isso, vós vos teríeis revoltado. Ninguém pensará que estou por estes lugares, e faço-o por vós que… tendes medo.

– Medo? Ah! Isso, não. Estamos prontos até a combater por Ti.

– Pedi ao Senhor que não vos faça passar por uma prova. Eu sei que sois rixentos, invejosos, tendes o desejo de ofender a quem Me ofende, de mortificar o próximo. Tudo isso Eu sei. Mas que sejais corajosos, isso não sei. Por Mim, Eu teria caminhado até sozinho e pelos caminhos comuns, e nada me teria acontecido, porque ainda não é a hora. Mas tenho piedade de vós. E tenho obediência para com minha mãe e também isto: não quero causar desgosto ao fariseu Simão. E não lho causarei. Mas eles causarão desgosto a Mim.

– E daqui para onde iremos? Eu não tenho prática nestes lugares –diz Tomé.

– Chegaremos ao Tabor, iremos ao lado dele por um trecho e, passando perto de Endor, iremos a Naim, e de lá iremos pela planície de Esdrelon. Não tenhais medo!… Doras, o filho de Doras e Jocanã já estão em Jerusalém.

EMF 187.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– E daqui para onde iremos? Eu não tenho prática nestes lugares –diz Tomé.

– Chegaremos ao Tabor, iremos ao lado dele por um trecho e, passando perto de Endor, iremos a Naim, e de lá iremos pela planície de Esdrelon. Não tenhais medo!… Doras, o filho de Doras e Jocanã já estão em Jerusalém.

187.4

– Oh! Como deve ser bonito! Dizem que do cume, do ponto mais alto, se pode avistar o Grande Mar, o de Roma. Isso me agrada muito! Vais levar-nos a vê-lo?

João faz a pergunta, com o seu rosto de menino bom levantado para Jesus.

– Por que é que te agrada tanto vê-lo? –pergunta Jesus, acariciando-o.

– Não sei. Porque é grande, e não se vê o seu fim… Ele me faz pensar em Deus… Quando estivemos no Líbano, eu vi o mar pela primeira vez, porque nunca tinha estado a não ser ao longo do Jordão ou então em nosso pequeno mar… e chorei de emoção. Que azul! Quanta água! E sua água não extravasa nunca!… Que coisa maravilhosa! E os astros, que fazem caminhos de luz sobre o mar… Oh! Não riais de mim! Fiquei olhando o caminho de ouro do Sol até ficar ofuscado, o caminho de prata da Lua até não ter mais nos olhos senão aquele candor fixo, e via como eles se iam dissipando e sumindo ao longe, muito longe. E aqueles dois caminhos falavam comigo. Eles me diziam: “É Deus que está naquelas lonjuras sem fim, e estes são os caminhos de fogo e de pureza que uma alma deve seguir, a fim de ir para Deus. Vem. Mergulha no infinito, remando por estes dois caminhos e encontrarás o Infinito.”

– És um poeta, João –diz admirado Tadeu.

– Não sei se isto é poesia. Só sei que acende o coração.

– Mas tu já viste o mar também em Cesareia e Ptolomaida, e bem de perto. Nós estávamos à beira dele. Não vejo necessidade de fazer uma viagem tão grande para ir ver outra água do mar. Afinal, nós nascemos na água… –observa Tiago de Zebedeu.

– E nela estamos ainda agora, infelizmente! –exclama Pedro que, tendo-se distraído por uns instantes, para ficar ouvindo João, não viu uma poça traiçoeira, e nela tomou um verdadeiro banho…

Todos se riem, a começar pelo próprio Pedro.

Mas João responde:

– É verdade. Mas, visto lá de cima, ele é mais belo. Podemos ver mais e mais longe. Ficamos pensando com mais profundidade e amplitude… Ficamos desejando, sonhando…

E, em verdade, João já está sonhando… Olha para a frente e sorri ao seu sonho. Parece uma rosa cor de carne, coberta por um orvalho miudinho, a tal ponto sua pele lisa e clara de jovem louro se torna da cor de um veludo purpurino e se cobre de um leve suor, que a torna ainda mais parecida com uma pétala de rosa.

– Que queres? Com que estás sonhando? –pergunta Jesus, em voz baixa, ao seu predileto, e parece um pai que interroga docemente um querido filhinho, que lhe está contando um doce sonho seu. Fala exatamente à alma de João, Jesus, tão doce no interrogar, para não estragar o sonho do seu amoroso discípulo.

– Eu quero andar por aquele mar infinito… ir a outras terras que estão para lá dele… Eu quero ir para falar de Ti… Estou sonhando… sonhando em ir até Roma, até a Grécia, até os lugares escuros, para levar-lhes a luz… de modo que os que vivem nas trevas, venham a ter contato contigo e vivam em comunhão contigo, ó Luz do mundo… Sonho um mundo melhor… para fazê-lo melhor por meio do conhecimento de Ti, isto é, por meio do conhecimento do Amor, que torne bons, puros, que torne heróico um mundo que se possa amar em teu Nome e — acima do pecado, da carne, do vício da mente, acima do ouro, acima de todas as coisas, — exalte o teu Nome, a tua Fé, a tua Doutrina… sonho de estar eu com estes meus irmãos, indo pelo mar de Deus, Te levando por estradas de luz… como, há tempo, Tua mãe te trouxe dos Céus para nós… Sonho… sonho que sou um menino que, não conhecendo nada mais que o amor, permanece sereno, até quando vai de encontro aos tormentos… e canta para dar coragem aos adultos, que ficam pensando demais, e vai adiante… ao encontro da morte, com um sorriso… ao encontro da glória, com a humildade de quem não sabe bem o que está fazendo e que só sabe ir até Ti, Amor.

Os apóstolos ficaram com a respiração parada, durante a extática confissão de João… Firmes no lugar em que estavam, olham para o mais jovem, que está falando com os olhos velados pelas pálpebras, como por um véu lançado sobre o ardor que sobe do coração e olham para Jesus, que se transfigura na alegria de reencontrar-se tão completo no seu discípulo…

Quando João se cala, ficando um pouco inclinado, — e faz-nos lembrar a graça da Anunciação da Humilde Virgem em Nazaré — Jesus o beija na fronte, dizendo:

– Iremos ver o mar, para fazer-te sonhar ainda com a vinda do meu Reino ao mundo.

EMF 187.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Eu quero andar por aquele mar infinito… ir a outras terras que estão para lá dele… Eu quero ir para falar de Ti… Estou sonhando… sonhando em ir até Roma, até a Grécia, até os lugares escuros, para levar-lhes a luz… de modo que os que vivem nas trevas, venham a ter contato contigo e vivam em comunhão contigo, ó Luz do mundo… Sonho um mundo melhor… para fazê-lo melhor por meio do conhecimento de Ti, isto é, por meio do conhecimento do Amor, que torne bons, puros, que torne heróico um mundo que se possa amar em teu Nome e — acima do pecado, da carne, do vício da mente, acima do ouro, acima de todas as coisas, — exalte o teu Nome, a tua Fé, a tua Doutrina… sonho de estar eu com estes meus irmãos, indo pelo mar de Deus, Te levando por estradas de luz… como, há tempo, Tua mãe te trouxe dos Céus para nós… Sonho… sonho que sou um menino que, não conhecendo nada mais que o amor, permanece sereno, até quando vai de encontro aos tormentos… e canta para dar coragem aos adultos, que ficam pensando demais, e vai adiante… ao encontro da morte, com um sorriso… ao encontro da glória, com a humildade de quem não sabe bem o que está fazendo e que só sabe ir até Ti, Amor.

Os apóstolos ficaram com a respiração parada, durante a extática confissão de João… Firmes no lugar em que estavam, olham para o mais jovem, que está falando com os olhos velados pelas pálpebras, como por um véu lançado sobre o ardor que sobe do coração e olham para Jesus, que se transfigura na alegria de reencontrar-se tão completo no seu discípulo…

Quando João se cala, ficando um pouco inclinado, — e faz-nos lembrar a graça da Anunciação da Humilde Virgem em Nazaré — Jesus o beija na fronte, dizendo:

– Iremos ver o mar, para fazer-te sonhar ainda com a vinda do meu Reino ao mundo.

Detalhe

João de Zebedeu fala.

EMF 187.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Senhor… depois disseste que vamos para Endor. Contenta, então, também a mim… para que passe a minha amargura pelo julgamento daquele menino… –diz Iscariotes.

– Oh! Ainda pensas naquilo? –pergunta Jesus.

– Sempre. Eu me senti diminuído aos teus olhos e aos dos companheiros. Fico pensando em que estareis pensando…

– Como esquentas a cabeça por nada! Eu nem me lembrava mais daquela inépcia, e certamente os outros também não. E tu no-lo vens recordar. És um menino acostumado às caricias e a palavra duma criança pareceu a teus olhos a condenação dum juiz. Mas não é esta a palavra que deves temer, e sim as tuas ações e o juízo de Deus. Mas, a fim de persuadir-te que continuas a ser-me caro como antes e como sempre, Eu te digo que te irei contentar. Que queres ir ver em Endor? É um pobre lugar colocado entre penhascos…

– Leva-me até lá, e eu te direi.

– Está bem. Mas toma cuidado, para não sofreres depois por isso…

– Se para este não pode ser um sofrimento ir ver o mar, a mim não pode fazer mal ir ver Endor.

– Ver?… Não. Mas é o desejo daquilo que se procura ver, ao ver, é que pode fazer mal. Mas iremos lá…

E retomam a estrada, dirigindo-se para o Tabor, cujo vulto já vai aparecendo cada vez mais perto, enquanto o seu solo se vai despojando daquela sua aparência palustre e se tornando sólido e de vegetação mais rara, deixando lugar para outras árvores mais altas, ou moitas de clematites e de cardos, que estão rindo com suas folhas novas e suas flores precoces.