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Notas do tema

A comitiva de Jesus

Página 125 de 153

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EMF 188.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O homem não diz mais nada e fica onde está, enquanto Jesus com os seus, tendo conseguido passar por umas grandes pedras, que certamente eram pedaços de muros bem fortes, espantando os lagartos e outros animais feios, entram em uma grande gruta de paredes enfumaçadas, com grafitos nas pedras, representando ainda os signos do zodíaco e histórias semelhantes. Em um canto enfumaçado há uma cavidade, e em baixo um buraco, como se fosse um esgoto para escoamento de líquidos. Os morcegos decoram o forro com seus grandes cachos, que causam arrepios, e um mocho, espantado pela luz do facho que Tiago acendeu, para ver se está pisando sobre escorpiões e víboras, — se sente incomodado e agita suas asas acolchoadas, fechando bem seus olhos atingidos por aquela luz. Ele está empoleirado dentro da cavidade e um fedor de ratos mortos, de doninhas, de passarinhos em putrefação a seus pés mistura-se com o mau cheiro do estrume e do solo úmido.

– Um belo lugar, na verdade! –diz Pedro–. Era melhor o teu Tabor e o teu mar, rapaz!

E depois, virando-se para Jesus:

– Procura contentar logo Judas, porque aqui… não é bem a sala real de Antipas!

– Vamos logo. Que é mesmo que queres saber? –pergunta a Judas de Keriot.

Detalhe

Judas queria ir a En-Dor, onde Saul consultou uma feiticeira no livro de Samuel.

EMF 188.7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Saem das ruínas e começam a descer pelo caminho por onde vieram. O homem caolho ainda está ali.

– Ainda estás aqui? –pergunta Jesus, como se não estivesse vendo o rosto vermelho pelas muitas lágrimas derramadas.

– Eu estou aqui. Se me permites, eu Te acompanho. Preciso dizer-te uma coisa…

– Vem, então, comigo. Que queres dizer-me?

– Jesus… Eu acho que para ter força de falar e de fazer a magia santa de mudar a mim mesmo, de chamar à vida a minha alma morta, como a pitonisa evocou Samuel para Saul, eu devo dizer o teu Nome, tão doce como o teu olhar, santo como a tua voz. Tu me deste uma vida nova, e ela está ainda informe, ainda incapaz de nada, como a de um recém-nascido, que acaba de ser gerado. Agita-se ainda entre os apertos duma casca malvada. Ajuda-me a sair da minha morte.

– Sim, amigo.

– Eu… eu reconheci que tenho ainda um pouco de humanidade em meu coração. Não sou totalmente uma fera, e ainda posso amar e ser amado, perdoar e ser perdoado. O teu amor, o teu amor que é perdão, me ensina isso. Não é verdade que é assim?

– Sim, amigo.

– Então… leva-me contigo. Eu era Félix! Que ironia! Mas Tu me darás um novo nome. Para que o passado fique realmente morto. Eu Te acompanharei como um cão vagabundo, que finalmente achou um dono. Serei o teu escravo, se quiseres. Mas, não me deixes sozinho…

– Sim, amigo.

– Que nome pões em mim?

– Um nome de que Eu gosto muito: João. Porque tu és a graça que o Senhor faz.

– Me tomas contigo?

– Por enquanto, sim. Depois me acompanharás com os discípulos. Mas, e a tua casa?

– Eu não tenho mais casa. Deixarei para os pobres tudo o que tenho. Dá-me somente amor e pão.

– Vem.

E Jesus se vira, chamando os apóstolos:

– Meus amigos, e especialmente tu, Judas, recebei o meu “obrigado.” Por meio de ti, por meio de vós, uma alma vem para Deus. Aqui está o novo discípulo. Vem conosco até que possamos confiá-lo aos irmãos discípulos. Ficai felizes por terdes encontrado um coração, e bendizei a Deus comigo.

Muito felizes, na verdade, não parecem ter ficado os doze. Mas fazem cara boa, por obediência e cortesia.

– Se me permites, eu vou na frente. Encontrar-me-às na soleira da casa.

– Então, vai.

O homem parte, correndo. Parece ser outro.

– E agora, que estamos sós, Eu vos ordeno, isto Eu vos ordeno, que sejais bons para com ele, e não faleis do seu passado, seja lá a quem for. Quem falasse, ou quem faltasse à caridade para com o irmão redimido, seria, no mesmo instante, rejeitado por Mim. Entendestes bem? E, vede como o Senhor é bom! Tendo vindo até aqui por um fim humano, Ele ainda nos concede que voltemos daqui tendo obtido um fato sobrenatural. Oh! Eu me alegro pela alegria que há agora lá no Céu por causa do novo convertido.

Detalhe

João de En-Dor converte-se e Jesus apresenta-o aos Doze, que não ficam muito satisfeitos. Jesus agradece especialmente a Judas, porque foi por causa dele que chegaram a esta aldeia e o conheceram.

Anotação

Ordeno-vos que sejais bondosos com ele e que não faleis do seu passado a ninguém. Foi o que Judas Iscariotes fez, denunciando ao Sinédrio a presença de um escravo de galé (João de En-Dor) e de uma escrava fugitiva (Síntique). Este facto obrigou-os a exilarem-se em Antioquia da Síria. Cf. EMV 314 ss.

EMF 188.8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Chegam diante da casa. Na soleira, com uma veste escura e limpa e uma capa nas mesmas condições, com um par de sandálias novas e um saco de bom tamanho nas costas, lá está o homem. Ele fecha a porta e depois — coisa estranha em um homem que se poderia julgar de todo insensível — ele pega uma pequena galinha branca, talvez a predileta, que se agacha mansinha nas mãos dele e a beija, chora, e depois a põe no chão.

– Vamos… e perdoa-me. Mas estes meus frangos me amaram. Eu falava com eles… e eles me entendiam…

– Eu também te entendo… e te amo. Muito. Eu te darei todo o amor que, durante trinta e cinco anos, o mundo te negou…

– Oh! Eu sei. Eu o estou sentindo! Por isso, eu vou. Mas tem compaixão do homem que… que ama um animal… que lhe foi mais fiel do que o homem…

– Sim… sim. Não penses mais no passado. Terás muito o que fazer! E, com a tua experiência, farás muito bem. Simão, vem cá, e tu, Mateus. Estás vendo? Este foi mais do que um prisioneiro, foi um leproso. Este foi um pecador. A estes Eu amo, porque sabem compreender os pobres corações… Não é verdade?

– Pela tua bondade, Senhor. Mas, podes crer, amigo, que tudo se anula no servi-lo. Só a paz permanece –diz Zelotes.

– Sim. A paz e uma nova juventude ocupam o lugar onde estava uma velhice de vício e de ódio. Eu era publicano. Mas agora sou apóstolo. Temos diante de nós o mundo. E estamos instruídos sobre ele. Não somos mais os rapazes levianos, que passam perto do fruto danoso e da planta que se inclina, e não vemos a realidade. Nós sabemos. Podemos evitar o mal, e ensinar os outros a evitá-lo. E sabemos endireitar o que está inclinado. Porque sabemos que alívio foi termos sido socorridos. E sabemos quem socorre: É Ele, diz Mateus.

– É verdade! É verdade! Vós Me ajudareis. Obrigado. É como se eu passasse de um lugar escuro e fétido para o ar livre, de um prado todo florido… Eu experimentei uma alegria semelhante, quando saí, já livre, finalmente livre, depois de vinte anos de cárcere e de um trabalho brutal nas minas de Anatólia, e me encontrei, — eu havia fugido numa tarde tempestuosa — encontrei-me no alto de um monte áspero, mas aberto, cheio de sol, ao alvorecer, e coberto de bosques odoríferos… A liberdade! Mas agora é mais ainda. Tudo em mim se dilata! Fazia quinze anos que eu já estava sem os grilhões… E agora eles caíram!…

Detalhe

João de En-Dor tinha acabado de se converter. Jesus consolou-o e depois chamou Simão, o Zelota, e Mateus, que conseguiram compreender o homem.

Anotação

Extrato do Dictionnaire des lieux de l'Evangile tel qu'il m'est révélé, p. 19. Jean d'Endor, um condenado evadido, recorda os seus "vinte anos de prisão e de trabalho esgotante nas minas da Anatólia" (...) "nas minas de chumbo e nas pedreiras de mármores preciosos". Trata-se de uma referência notável, uma vez que as minas da Anatólia são famosas pela extração de cobre, chumbo e mármore desde a Antiguidade. Estão na origem da lenda do rei Midas e da fama de Creso. Ainda hoje, a Turquia é considerada o país por excelência do mármore branco, e as suas minas de chumbo são famosas (as minas de Gümüşhane e Karasu). Num comentário, Jesus justifica o uso da palavra Anatólia em vez de Bitínia e Mísia.

A Anatólia, também conhecida como Ásia Menor em latim, é a península no extremo ocidental da Ásia, correspondente à atual Turquia.

EMF 188.10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O homem, que caminha próximo a Jesus, e que se sente cansado sob o seu saco, atrai a curiosidade de Pedro.

– Mas, que há de tão pesado aí dentro? –ele pergunta.

– Minhas roupas… e alguns livros… Os meus amigos, depois dos frangos. Não pude separar-me. E pesam.

– É, a ciência pesa! E se pesa! E a quem ela agrada, então!

– Foram os livros que não deixaram que eu ficasse doido.

– É! Deves mesmo querer-lhes bem. Mas, que livros são?

– Filosofia, história, poesia grega e romana…

– Bonitos, bonitos. Devem ser bonitos. Mas achas que vais poder andar com eles nas costas?

– Talvez eu consiga até separar-me deles. Mas, tudo de uma vez, não se pode fazer, não é mesmo, Messias?

– Chama-me Mestre. Sim. Não se pode. Mas Eu vou arrumar um lugar onde poderás dar abrigo aos teus amigos, os livros. Eles te poderão servir para discutires com os pagãos sobre Deus.

– Oh! Como tens o pensamento livre de toda restrição!

Jesus sorri, e Pedro exclama:

– Mas, sem dúvida alguma. Ele é a própria Sabedoria!

– E a Bondade, podes crer. E tu és culto?

– Eu? Oh! Sou muito culto. Eu já distingo uma carpa de uma sardinha e a minha cultura para ai. Eu sou pescador, meu amigo!

E Pedro se ri, humilde e sincero.

– Sê um homem honesto. Esta é uma ciência que cada um por si aprende. Mas é muito difícil de se conseguir. Tu me agradas.

– Tu também me agradas. Porque és sincero. Até em te acusares. Eu perdôo tudo, ajudo a todos. Mas sou um inimigo desapiedado dos falsos. Eles me dão arrepios.

– Tens razão. O falso é um delinquente.

– Um delinquente. Assim disseste. Dize-me, não terás confiança em mim, para me entregares um pouco esse saco? E, fica certo de que eu não vou fugir com os livros… Tu me pareces estar muito cansado.

– Vinte anos de trabalho na mina acabam com a gente. Mas, por que queres cansar-te tu?

– Porque o Mestre nos ensinou a amar-nos como irmãos. Dá aqui. E segura estes meus trapos. O meu é leve. Nele não há história, nem poesia. A minha história, a minha poesia é diferente do que falaste: é Ele, o meu Jesus, o nosso Jesus.

Anotação

Vou arranjar-vos um lugar para guardarem os vossos amigos, os livros. Poderão ser-te úteis quando falares de Deus com os pagãos. Alusão a Antioquia da Síria, onde João de En-Dor foi obrigado a exilar-se, mas onde, com a ajuda de Síntique, foi fundada a futura comunidade cristã descrita nos Actos dos Apóstolos.

EMF 189.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Naim devia ter uma certa importância nos tempos de Jesus. Não é uma cidade muito grande, mas bem construída, fechada dentro do seu cinturão de muros. Ela se estende por uma colina risonha, de pouca altitude, e é uma ramificação do pequeno Hermon que, do alto, domina uma planície muito fértil, que se vai alargando para a direção do noroeste[1].

Para quem vem de Endor, chega-se até aqui, depois de ter passado a vau um pequeno rio, que deve ser um afluente do Jordão. Mas daqui não se vê mais o Jordão, e nem mesmo o seu vale, porque algumas colinas o escondem, fazendo um arco, que parece um ponto de interrogação virado para leste.

Jesus para lá se dirige, por uma estrada mestra, que liga as regiões do lago ao Hermon e aos seus povoados. Atrás de Jesus vão caminhando muitos dos habitantes de Endor, conversando animadamente uns com os outros.

A distância que separa o grupo dos apóstolos dos muros já é bem reduzida: no máximo uns duzentos metros. E, já que a estrada mestra vai em linha reta, rumo a uma das portas da cidade, e como essa porta está escancarada, pois já é pleno dia, pode-se ver logo o que está acontecendo do outro lado dos muros. E é assim que Jesus, que estava conversando com os apóstolos e com o novo convertido, vê que, por entre um grande barulho de carpideiras e de semelhantes conjuntos orientais, vem chegando um cortejo fúnebre.

– Vamos lá ver, Mestre? –dizem muitos. E, do meio dos habitantes de Endor, muitos já se precipitaram para ir ver.

– Vamos nós também –diz Jesus, condescendendo.

– Oh! deve ser um rapaz, porque, olha só quantas flores e fitas estão sobre o caixão –diz Judas de Keriot a João.

– Ou então será uma virgem –responde João.

– Não. É certo que se trata de um jovenzinho, por causa das cores que eles colocaram no caixão. Além disso, faltam os mirtos… –diz Bartolomeu.

O funeral vai saindo para fora dos muros. Seja o que for que estiver no caixão, que vai sustentado no alto sobre os ombros dos portadores, é o que não se pode ver. Presume-se que lá esteja um corpo estendido, com suas faixas, e coberto com um lençol, pois pelo que as saliências revelam pode-se compreender que é o corpo de alguém que já tinha chegado ao ponto mais alto de seu crescimento, porque é um corpo do comprimento do caixão.

Ao lado do caixão, uma mulher de véu, amparada por parentas ou amigas, vai caminhando e chorando. É o único choro verdadeiro, no meio dessa comédia de choronas. E, quando uma pedra faz que um dos portadores tropece, ou um ressalto do solo faz que se sacuda o caixão, a mãe geme: “Oh! Não! Ide devagar! Sofreu tanto este meu menino!”, e levanta sua mão trêmula para acariciar a beira do caixão, — fazer mais que isso ela não pode — e, não podendo fazer nada mais, ela beija os véus ondulantes e as fitas, que o vento de vez em quando agita, e que passam rolando por aquele vulto imóvel.

– Aquela é a mãe –diz Pedro, todo compungido e já com o brilho de uma lágrima em seus olhos atentos e bons.

Mas ele não é o único que está com lágrimas nos olhos por causa daquela tristeza. Também Zelotes, André e João, e até o sempre alegre Tomé, estão com os olhos brilhando. Todos, todos mesmo, estão comovidos. Judas Iscariotes murmura:

– Se fosse eu! Oh! Pobre de minha mãe…

Detalhe

Os dois Tiago, Mateus, Filipe e Judas não são mencionados nesta passagem, mas estão presentes. Vão para Naim.

Anotação

- Oh, deve ser uma criança, porque podes ver quantas flores e fitas estão na maca", diz Judas a João.

- Ou talvez seja uma virgem", responde João.

- Não, deve ser um rapazinho, por causa das cores que usaram, e não há murtas...", diz Bartolomeu.

Tudo isto indica os ritos funerários da época. Judas da Judeia e Bartolomeu da Galileia identificam-nos da mesma forma.

EMF 189.1-5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Naim devia ter uma certa importância nos tempos de Jesus. Não é uma cidade muito grande, mas bem construída, fechada dentro do seu cinturão de muros. Ela se estende por uma colina risonha, de pouca altitude, e é uma ramificação do pequeno Hermon que, do alto, domina uma planície muito fértil, que se vai alargando para a direção do noroeste[1].

Para quem vem de Endor, chega-se até aqui, depois de ter passado a vau um pequeno rio, que deve ser um afluente do Jordão. Mas daqui não se vê mais o Jordão, e nem mesmo o seu vale, porque algumas colinas o escondem, fazendo um arco, que parece um ponto de interrogação virado para leste.

Jesus para lá se dirige, por uma estrada mestra, que liga as regiões do lago ao Hermon e aos seus povoados. Atrás de Jesus vão caminhando muitos dos habitantes de Endor, conversando animadamente uns com os outros.

A distância que separa o grupo dos apóstolos dos muros já é bem reduzida: no máximo uns duzentos metros. E, já que a estrada mestra vai em linha reta, rumo a uma das portas da cidade, e como essa porta está escancarada, pois já é pleno dia, pode-se ver logo o que está acontecendo do outro lado dos muros. E é assim que Jesus, que estava conversando com os apóstolos e com o novo convertido, vê que, por entre um grande barulho de carpideiras e de semelhantes conjuntos orientais, vem chegando um cortejo fúnebre.

– Vamos lá ver, Mestre? –dizem muitos. E, do meio dos habitantes de Endor, muitos já se precipitaram para ir ver.

– Vamos nós também –diz Jesus, condescendendo.

– Oh! deve ser um rapaz, porque, olha só quantas flores e fitas estão sobre o caixão –diz Judas de Keriot a João.

– Ou então será uma virgem –responde João.

– Não. É certo que se trata de um jovenzinho, por causa das cores que eles colocaram no caixão. Além disso, faltam os mirtos… –diz Bartolomeu.

O funeral vai saindo para fora dos muros. Seja o que for que estiver no caixão, que vai sustentado no alto sobre os ombros dos portadores, é o que não se pode ver. Presume-se que lá esteja um corpo estendido, com suas faixas, e coberto com um lençol, pois pelo que as saliências revelam pode-se compreender que é o corpo de alguém que já tinha chegado ao ponto mais alto de seu crescimento, porque é um corpo do comprimento do caixão.

Ao lado do caixão, uma mulher de véu, amparada por parentas ou amigas, vai caminhando e chorando. É o único choro verdadeiro, no meio dessa comédia de choronas. E, quando uma pedra faz que um dos portadores tropece, ou um ressalto do solo faz que se sacuda o caixão, a mãe geme: “Oh! Não! Ide devagar! Sofreu tanto este meu menino!”, e levanta sua mão trêmula para acariciar a beira do caixão, — fazer mais que isso ela não pode — e, não podendo fazer nada mais, ela beija os véus ondulantes e as fitas, que o vento de vez em quando agita, e que passam rolando por aquele vulto imóvel.

– Aquela é a mãe –diz Pedro, todo compungido e já com o brilho de uma lágrima em seus olhos atentos e bons.

Mas ele não é o único que está com lágrimas nos olhos por causa daquela tristeza. Também Zelotes, André e João, e até o sempre alegre Tomé, estão com os olhos brilhando. Todos, todos mesmo, estão comovidos. Judas Iscariotes murmura:

– Se fosse eu! Oh! Pobre de minha mãe…

189.2

Jesus, cujos olhos são de uma doçura perturbadora, de tão profundos que são, vai indo para perto do caixão.

A mãe, que já está soluçando mais forte, porque o cortejo já está quase chegando junto ao sepulcro aberto, O afasta com violência, ao ver que Jesus procura tocar no caixão. No seu delírio, quem saberia de que ela está com medo? Ela grita:

– É meu! –e, com uns olhos de louca, olha para Jesus.

– Eu sei, mãe. É teu.

– É o meu filho único. Por que logo ele é que foi morrer, ele que era bom e querido e a minha alegria de viúva? Por quê?

Aí a multidão das carpideiras aumenta o seu choro pago, para fazerem coro com a mãe, que continua a dizer:

– Por que ele, e não eu? Não é justo que quem gerou veja perecer a sua semente. A semente precisa viver, porque senão, para que terá servido que estas vísceras se tenham rasgado para darem à luz um homem? –e bate em seu próprio ventre, feroz e desatinada.

– Não faças assim! Não chores, mãe.

Jesus a segura pelas mãos, com um forte aperto, e as prende com sua esquerda, enquanto, com a direita, toca no caixão, dizendo aos portadores:

– Parai e ponde o caixão no chão.

Os portadores obedecem, abaixando a caminha, que fica apoiada no chão por seus quatro pés.

Jesus agarra o lençol, que está cobrindo o morto e o joga para trás, deixando descoberto o cadáver. A mãe externa sua dor, gritando o nome de seu filho e parece-me que ela está dizendo:

– Daniel!

Jesus, sempre conservando as mãos maternas na sua, se endireita, mostra-se imponente, no fulgor de seus olhares como quando Ele opera seus maiores milagres, e, abaixando a mão direita, ordena, com toda a força de sua voz:

– Jovenzinho, Eu te digo: Levanta-te!

189.3

O morto, do jeito que estava enfaixado, levanta-se e se assenta sobre a caminha e chama:

– Mamãe!

Ele a chama com a voz gaguejante e assustada de uma criança espavorida.

– Ele é teu, mulher. Eu o entrego em nome de Deus. Ajuda-o a livrar-se da mortalha. E sede felizes.

E Jesus dá sinais de que vai retirar-se dali. Mas, como? A multidão o detém junto ao catre, sobre o qual está inclinada a mãe, que está enfiando os dedos por entre as faixas, para ir mais depressa, porque o lamento de seu menino continua a implorar-lhe:

– Mamãe! Mamãe!

Por fim, a mortalha foi desfeita, desfeitas foram as faixas, já a mãe e o filho podem abraçar-se, e o fazem sem dar atenção aos bálsamos que se vão colando neles, e que a mãe vai tendo que tirar do querido rosto, das queridas mãos, usando as faixas, e depois, não tendo com que revesti-lo, a mãe tira o seu próprio manto e o envolve nele, e tudo o que ela faz vai servindo ao mesmo tempo para acariciá-lo…

189.4

Jesus olha para ela… olha para este quadro de amor que se formou ao lado da caminha, que agora já não é mais fúnebre, e chora.

Judas Iscariotes vê esse pranto e pergunta:

– Por que estás chorando, Senhor?

Jesus vira o rosto para ele, e diz:

– Estou pensando em minha mãe…

O breve colóquio faz que a mulher volte ao seu Benfeitor. Ela pega pela mão o filho e o segura, porque ele está como alguém que ainda não acabou de sair de um torpor, continuando este em seus membros, e ela se ajoelha, dizendo:

– Tu também, meu filho. Vamos bendizer a este Santo, que te restituiu à vida e à tua mãe –e se inclina para beijar a veste de Jesus, enquanto a multidão dá hosanas a Deus e ao seu Messias, já conhecido como quem ele é, porque os apóstolos e os habitantes de Endor tomaram eles próprios a incumbência de dizer quem é aquele que operou o milagre.

E a multidão toda, então, exclama:

– Bendito seja o Deus de Israel. Bendito seja o Messias, que é o seu Enviado. Bendito seja Jesus, Filho de Davi. Um grande Profeta surgiu entre nós! Deus verdadeiramente veio visitar o seu povo! Aleluia! Aleluia!

189.5

Finalmente, Jesus consegue escapar daquele aperto, e entrar na cidade. A multidão o acompanha, e o persegue, exigente em seu amor.

Chega correndo um homem, e saúda a Jesus com uma profunda inclinação:

– Eu te peço que pares em minha casa.

– Não posso. A Páscoa me proíbe qualquer parada, além daquelas que estão marcadas.

– Daqui a pouco é o pôr-do-sol, e hoje e sexta-feira…

– É exatamente ao pôr-do-sol que Eu preciso chegar à minha etapa. Mas Eu te agradeço da mesma forma. E não me detenhas…

– Mas eu sou o sinagogo.

– E com isto queres dizer que tens este direito. Homem: bastava que Eu me atrasasse uma hora e aquela mãe não teria reavido o filho. Eu vou aonde outros infelizes me estão esperando. Não atrases com egoísmo a alegria deles. Eu virei, com certeza, outra vez e ficarei contigo em Naim mais dias. Agora, deixa-me ir.

O homem não insiste mais. E somente diz:

– Está dito. Eu fico Te esperando.

– Sim. A paz esteja contigo e com os moradores de Naim. E também à vós de Endor paz e bênção. Voltai para vossas casas. Deus vos falou por meio do milagre. Fazei que entre vós aconteçam, por força do amor, muitas ressurreições para o bem em todos os corações.

Houve um último coro de hosanas. Depois a multidão deixa Jesus ir, e Ele atravessa diagonalmente a cidade, indo sair na campina, tomando caminho para Esdrelon.

Anotação

Evangelho de Lucas 7, 11-17

Lc 7,11-17 : Jesus foi para uma cidade chamada Naim. Acompanhavam-no os seus discípulos e uma grande multidão. Chegou perto da porta da cidade, no momento em que levavam um defunto para ser sepultado; era filho único, e sua mãe era viúva. Uma grande multidão da cidade acompanhava a mulher. Quando o Senhor viu a mulher, teve compaixão dela e disse-lhe: "Não chores. Aproximou-se e tocou no caixão; os carregadores pararam e Jesus disse: "Jovem, ordeno-te que te levantes. Então o morto levantou-se e começou a falar. E Jesus devolveu-o à sua mãe. Todos ficaram aterrorizados e deram glória a Deus, dizendo: "Surgiu entre nós um grande profeta, e Deus visitou o seu povo". E esta notícia sobre Jesus espalhou-se por toda a Judeia e por toda a região.

EMF 189.1-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O funeral vai saindo para fora dos muros. Seja o que for que estiver no caixão, que vai sustentado no alto sobre os ombros dos portadores, é o que não se pode ver. Presume-se que lá esteja um corpo estendido, com suas faixas, e coberto com um lençol, pois pelo que as saliências revelam pode-se compreender que é o corpo de alguém que já tinha chegado ao ponto mais alto de seu crescimento, porque é um corpo do comprimento do caixão.

Ao lado do caixão, uma mulher de véu, amparada por parentas ou amigas, vai caminhando e chorando. É o único choro verdadeiro, no meio dessa comédia de choronas. E, quando uma pedra faz que um dos portadores tropece, ou um ressalto do solo faz que se sacuda o caixão, a mãe geme: “Oh! Não! Ide devagar! Sofreu tanto este meu menino!”, e levanta sua mão trêmula para acariciar a beira do caixão, — fazer mais que isso ela não pode — e, não podendo fazer nada mais, ela beija os véus ondulantes e as fitas, que o vento de vez em quando agita, e que passam rolando por aquele vulto imóvel.

– Aquela é a mãe –diz Pedro, todo compungido e já com o brilho de uma lágrima em seus olhos atentos e bons.

Mas ele não é o único que está com lágrimas nos olhos por causa daquela tristeza. Também Zelotes, André e João, e até o sempre alegre Tomé, estão com os olhos brilhando. Todos, todos mesmo, estão comovidos. Judas Iscariotes murmura:

– Se fosse eu! Oh! Pobre de minha mãe…

189.2

Jesus, cujos olhos são de uma doçura perturbadora, de tão profundos que são, vai indo para perto do caixão.

A mãe, que já está soluçando mais forte, porque o cortejo já está quase chegando junto ao sepulcro aberto, O afasta com violência, ao ver que Jesus procura tocar no caixão. No seu delírio, quem saberia de que ela está com medo? Ela grita:

– É meu! –e, com uns olhos de louca, olha para Jesus.

– Eu sei, mãe. É teu.

– É o meu filho único. Por que logo ele é que foi morrer, ele que era bom e querido e a minha alegria de viúva? Por quê?

Aí a multidão das carpideiras aumenta o seu choro pago, para fazerem coro com a mãe, que continua a dizer:

– Por que ele, e não eu? Não é justo que quem gerou veja perecer a sua semente. A semente precisa viver, porque senão, para que terá servido que estas vísceras se tenham rasgado para darem à luz um homem? –e bate em seu próprio ventre, feroz e desatinada.

– Não faças assim! Não chores, mãe.

Jesus a segura pelas mãos, com um forte aperto, e as prende com sua esquerda, enquanto, com a direita, toca no caixão, dizendo aos portadores:

– Parai e ponde o caixão no chão.

Os portadores obedecem, abaixando a caminha, que fica apoiada no chão por seus quatro pés.

Jesus agarra o lençol, que está cobrindo o morto e o joga para trás, deixando descoberto o cadáver. A mãe externa sua dor, gritando o nome de seu filho e parece-me que ela está dizendo:

– Daniel!

Jesus, sempre conservando as mãos maternas na sua, se endireita, mostra-se imponente, no fulgor de seus olhares como quando Ele opera seus maiores milagres, e, abaixando a mão direita, ordena, com toda a força de sua voz:

– Jovenzinho, Eu te digo: Levanta-te!

189.3

O morto, do jeito que estava enfaixado, levanta-se e se assenta sobre a caminha e chama:

– Mamãe!

Ele a chama com a voz gaguejante e assustada de uma criança espavorida.

– Ele é teu, mulher. Eu o entrego em nome de Deus. Ajuda-o a livrar-se da mortalha. E sede felizes.

E Jesus dá sinais de que vai retirar-se dali. Mas, como? A multidão o detém junto ao catre, sobre o qual está inclinada a mãe, que está enfiando os dedos por entre as faixas, para ir mais depressa, porque o lamento de seu menino continua a implorar-lhe:

– Mamãe! Mamãe!

Por fim, a mortalha foi desfeita, desfeitas foram as faixas, já a mãe e o filho podem abraçar-se, e o fazem sem dar atenção aos bálsamos que se vão colando neles, e que a mãe vai tendo que tirar do querido rosto, das queridas mãos, usando as faixas, e depois, não tendo com que revesti-lo, a mãe tira o seu próprio manto e o envolve nele, e tudo o que ela faz vai servindo ao mesmo tempo para acariciá-lo…

189.4

Jesus olha para ela… olha para este quadro de amor que se formou ao lado da caminha, que agora já não é mais fúnebre, e chora.

Judas Iscariotes vê esse pranto e pergunta:

– Por que estás chorando, Senhor?

Jesus vira o rosto para ele, e diz:

– Estou pensando em minha mãe…

Detalhe

Jesus encontra um cortejo fúnebre. A mãe do jovem está destroçada.

EMF 190.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Já viste os campos de Doras?

– Estou vindo de Naim…

– Então, não viste. Estão todos arruinados (O homem diz isso em voz baixa, mas destacando bem as palavras, como quem quer confidenciar uma coisa horrível em segredo). Todos arruinados. Não há feno, nem cereais, nem frutas. As videiras secaram, os pomares secaram… Morto… Tudo está morto… como em Sodoma e Gomorra… Vem, vem, que te mostro tudo. (...) Oh! Ali estão aqueles que me araram o campo… –e o homem vai correndo ao encontro de Pedro e André.

Mas Pedro o saúda brevemente, e continua o seu caminho, depois grita:

– Oh! Mestre! Não há mais nenhum. São todos rostos novos. Tudo está devastado. Em verdade, ele poderia até deixar de ter camponeses por aqui. Aqui é pior do que no Mar Salgado!…

– Eu sei. Isaías me disse.

– Mas, vem ver! Que vista!…

A vista dos campos de Doras é realmente desoladora. Campos e prados áridos e nus, secos os vinhedos, destruídas as folhagens e os frutos nas árvores por milhões de insetos de toda espécie. Também perto da casa o jardim-pomar mostra o aspecto desolado de um bosque que está morrendo. Os camponeses andam para cá e para lá, arrancando ervas más, esmagando lagartas, lesmas e semelhantes, sacudindo os ramos e segurando por debaixo deles bacias cheias de água, para afogar as pequenas borboletas, os pulgões e outros parasitas, que estão por cima das folhas que sobraram, e que chupam a planta até fazê-la morrer. Procuram um sinal de vida nos sarmentos dos vinhedos. Mas estes se despedaçam de secos, mal são tocados e, às vezes, se quebram na base, como se uma serra lhes tivesse cortado as raízes. O contraste com os campos de Jocanã, com os vinhedos e pomares dele, é muito forte; a desolação dos campos malditos sempre se torna mais violenta, se for comparada com a fertilidade dos outros.

– Quão pesada é a mão do Deus do Sinai –murmura Simão Zelotes.

Jesus faz um sinal como para dizer: “Oh, se é!” Mas não diz nada. Somente faz esta pergunta:

– Como é que aconteceu isto?

Um dos camponeses responde por entre dentes:

– Toupeiras, gafanhotos, vermes… Mas, vai-te! O vigia é fiel a Doras… Não queiras nos prejudicar…

Jesus dá um suspiro, e vai-se embora.

Detalhe

Jesus fala com Isaías, um camponês de Yokhanan.

Anotação

"O homem corre ao encontro de Pedro e André. Cf. EMV 109.4: Pedro e André, Tiago e João, que tomaram o lugar dos lavradores para poderem ouvir a palavra de Jesus.

Falamos de Ti, com o que aprendemos de Jonas, de Isaac, que vem muitas vezes ter connosco, e do teu discurso em Tisri. Cf. EMV 109.5.

O Deus do Sinai tem uma mão pesada. Referência direta às palavras de Jesus em EMV 109.12.