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Notas da palavra-chave

Pedro e Judas

Tema: A comitiva de Jesus · Página 3 de 4

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EMF 180.2-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

« Eu era rico e poderoso. Se Deus não tivesse querido me conservar para algum fim seu, eu teria perecido no desespero, ao ser perseguido e leproso. Eu teria me enfurecido contra mim próprio… Mas, ao contrário, sobre o meu desabamento completo desceu uma riqueza nova, que eu nunca antes tinha possuído: a riqueza de uma persuasão: “Deus existe!” Primeiro, Deus… Sim, eu tinha fé, eu era um fiel israelita. Mas era uma fé formal. Parecia que o prêmio da fé fosse sempre inferior às minhas virtudes. Eu me permiti até discutir com Deus, porque me julgava ainda alguma coisa sobre a terra. Simão Pedro tem razão. Eu também estava construindo uma torre de Babel com louvores a mim mesmo e com as satisfações do meu eu. Quando tudo desabou em cima de mim, e me tornei um verme esmagado pelo peso de toda esta inutilidade humana, aí eu não discuti mais com Deus, mas comigo mesmo, com este louco eu, e acabei por demolí-lo. E, quanto mais eu fazia isso, abrindo a estrada para o que eu penso ser Deus imanente em nosso ser de criaturas terrestres, aí eu adquiria uma força, uma riqueza nova. A certeza de que eu não estava só e de que Deus velava pelo homem vencido pelo homem e pelo mal.

– Segundo o teu modo de ver, que é que pensas que é Deus, quando dizes: “o Deus imanente em nosso ser de criaturas terrestres”? Que queres dizer? Eu não te compreendo, dizer isso me parece uma heresia. Deus é aquele que nós conhecemos através da Lei e dos Profetas. Não existe outro –diz, um tanto severo, Judas Iscariotes.

– Se João estivesse aqui, ele te explicaria melhor do que eu. Mas eu vou falar-te como sei. Deus é aquele que conhecemos através da Lei e dos Profetas. É verdade. Mas, em que o conhecemos? Como?

Judas de Alfeu dispara:

– Pouco e mal. Ainda que o conhecessem os Profetas, que sobre ele escreveram para nós. Nós temos de Deus uma ideia confusa que transpira dos escombros do que foi acumulado pelas seitas…

– Seitas? Mas de que estás falando? Nós não temos seitas. Nós somos filhos da Lei. Todos –diz Iscariotes, indignado e agressivo.

– Os filhos das leis. Não da Lei. Há uma pequena diferença. Do singular para o plural. Mas na realidade: nós somos filhos daquilo que criamos, e não daquilo que Deus nos deu –rebate Tadeu.

– As leis nasceram da Lei –diz Iscariotes.

– Também as doenças nascem de nosso corpo, e não me quererás dizer que elas sejam coisas boas –replica Tadeu.

– Mas, deixai-me saber que é que é o Deus imanente do Simão Zelotes.

O Iscariotes, não tendo podido rebater à observação de Judas de Alfeu, procura levar a questão para o ponto de partida.

180.3

Simão Zelotes diz:

– Os nossos sentidos sempre precisam de um termo para compreenderem uma ideia. Cada um de nós, falo de nós que cremos, crê por força de fé no Altíssimo, Senhor e Criador, Deus Eterno que está no Céu. Mas todos os seres também precisam desta fé nua, virgem, incorpórea, que é suficiente para os anjos, que vêem e amam a Deus espiritualmente, compartilhando com Ele a natureza espiritual, tendo a capacidade de ver a Deus. Mas nós precisamos criar para nós uma figura de Deus, figura essa que é feita das qualidades essenciais que damos a Deus, para podermos dar, então, um nome à sua perfeição absoluta, infinita. Quanto mais a alma se concentra, mais consegue chegar à exatidão no conhecimento de Deus. Eis aqui o que eu digo: o Deus imanente. Eu não sou um filósofo. Talvez tenha usado mal a palavra. Mas, em resumo, para mim o Deus imanente é o sentir, perceber Deus em nosso espírito, sentí-lo e percebê-lo, já não mais como uma ideia abstrata, mas como uma real presença, doadora de uma fortaleza e de uma paz nova.

– Está bem. Mas como é que o sentias? Que diferença há entre sentir pela fé e sentir pela imanência? –pergunta, um pouco irônico, Iscariotes.

– Deus é segurança, rapaz. Quando tu o sentes, como diz Simão com aquela palavra que eu não entendo literalmente, mas cujo sentido eu entendo — e podes crer que o nosso mal é entender somente a letra, e não o espírito das palavras de Deus — quer dizer que consegues captar, não só o conceito da majestade terrível, mas da paternidade dulcíssima de Deus. Quer dizer que percebes o seguinte: quando todo o mundo te julgar e condenar com injustiça, Um só, Ele, o Eterno que é Pai, não te julgará, mas te absolverá e consolará. Quer dizer que sentes que, quando o mundo todo te odeiar, tu sentirás em ti um amor maior do que o mundo todo. Quer dizer que, mesmo estando segregado em um cárcere, ou em um deserto, sentirás sempre que Um te fala, e te diz: ‘Sejas santo, para que sejas como o teu Pai.’ Quer dizer que pelo amor para com este Deus Pai, que finalmente se chega a sentir tal, se aceita, se trabalha, se toma ou se deixa, sem medidas humanas, pensando somente em pagar amor com amor, em copiar ao mais próximoDeus com suas próprias ações –diz Pedro.

– Tu és um soberbo! Copiar Deus! Isso não te é permitido –sentencia Iscariotes.

– Não é soberba. O amor leva à obediência. Copiar Deus me parece um modo de obedece-lhe, pois Deus diz que nos fez à sua imagem e semelhança –replica Pedro.

– Ele nos fez. Nós não devemos ir acima disso.

– És um infeliz se pensas assim, caro rapaz. Tu te esqueces de que nós somos decaídos e que Deus quer recolocar-nos no ponto em que estávamos.

180.4

Jesus toma a palavra:

– Ainda mais do que isso, Pedro, Judas e vós todos. Ainda mais. A perfeição de Adão era ainda suscetível de crescimentopelo amor que o teria levado à imagem sempre mais exata do seu Criador. Adão, sem a mancha do pecado, teria sido como um limpidíssimo espelho de Deus. Por isso, Eu digo: “Sede perfeitos, como perfeito é o Pai que está nos Céus.” Como o Pai. Portanto, como Deus. Pedro falou muito bem. Simão falou muito bem também. Eu vos peço que vos recordeis das palavras deles e as apliqueis às vossas almas.

A mulher de Pedro quase que desmaia pela alegria de ouvir que seu marido é elogiado. Ela chora, atrás do seu véu, tranquila e feliz. Pedro parece que está para ter um ataque de apoplexia, de tão vermelho que ficou.

Detalhe

Simão, o Zelota, toma a palavra. A questão da fé é abordada em 180.3.

EMF 195.1-3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O céu está ameaçando chuva, e Pedro me parece Eneias invertido, porque ele, em vez de estar levando embora o próprio pai, tem sobre os ombros o pequeno Jabé, bem coberto agora com o capote de Pedro. A cabecinha se vê aparecer acima da cabeça branca de Pedro, que está com os braços do pequeno ao redor de seu pescoço e rindo, enquanto vai chapinhando nas pequenas poças de água barrenta.

– Podia nos ter poupado esta –murmura Iscariotes, nervoso por causa da água que cai do céu e da que o chão espirra em sua roupa.

– Ora! Poderíamos estar livres de muitas coisas! –responde João de Endor, fitando bem o belo Judas com o seu olho único que, eu creio, vale por dois.

– Que queres dizer?

– Pretendo dizer que é inútil exigir que os elementos tenham cuidado conosco, quando nós não o temos com os nossos semelhantes e em assuntos bem mais graves do que umas duas gotas de água ou algum salpico de lama.

– É verdade. Mas eu gosto de entrar na cidade bem arrumado e limpo. Tenho muitas amizades entre os grandes.

– Toma cuidado, então, para não levares algum tombo.

– Estás querendo provocar-me?

– Naão! Mas eu sou um velho mestre e… um velho aluno. Desde que nasci, estou aprendendo. Primeiro, eu aprendi a vegetar, depois fui observando a vida, depois conheci as amarguras da vida, procurei exercitar-me inutilmente numa justiça, a de ir “sozinho” contra Deus e contra a sociedade. Deus me castigou com o remorso, a sociedade com os grilhões e, por isso justiçado, por fim, acabei sendo eu. Mas agora eu aprendi, estou aprendendo a “viver.” Agora, sendo mestre e aluno, bem podes entender que me seja natural ficar repetindo as lições.

– Mas eu sou apóstolo…

– E eu sou um infeliz, eu sei, e não deveria tomar a liberdade de permitir-me ensinar a ti. Mas, vê bem: ninguém nunca sabe o que é que vai ser. Eu pensava que iria morrer como um honesto e venerado pedagogo em Chipre, e me tornei um homicida e um encarcerado. Mas, quando eu puxava minha faca para tirar vingança e quando arrastava minhas correntes odiando o universo, se alguém me tivesse dito que eu iria virar um discípulo do Santo, teria ficado em dúvida quanto à sanidade mental de quem o tivesse dito. E, no entanto, tu estás vendo! Por isso, quem sabe se a ti, apóstolo, eu não poderia dar alguma boa lição. Lição dada pela minha experiência. Não pela minha santidade. Eu nem penso nisso.

– Tem razão aquele romano de chamar-te de Diógenes.

– Está bem. Mas porém Diógenes procurava um homem e não o encontrou. E eu, mais feliz do que ele, encontrei uma serpente onde pensava que estivesse uma mulher e um cuco onde eu pensava que estivesse um homem amigo. Mas, depois de ter andado vagando durante tantos anos e de me ter tornado louco ao verificar isso, encontrei o Homem, o Santo.

– Eu não conheço outra sabedoria, a não ser a de Israel.

– Se assim é, já tens com que salvar-te. Mas é que agora tens também a ciência, a Sabedoria de Deus.

– É a mesma coisa.

– Oh! Não. É como um dia nublado, comparado a um cheio de sol.

– Afinal, o que queres é ensinar-me? Eu não tenho desejo disso.

– Deixa-me falar! Antes, falava aos meninos: eram distraídos. Depois, às sombras: me maldiziam. Depois eu falei aos frangos: eram já melhores do que os dois primeiros, muito melhores. Agora, eu falo comigo mesmo, porque ainda não posso falar com Deus. Por que queres impedir que o faça? Eu só tenho meia vista, uma vida estragada nas minas, um coração doente há tantos anos. Deixa, pelo menos, que não fique estéril a minha mente.

– Jesus é Deus.

– Eu sei disso, eu creio. Mais do que tu. Porque eu renasci por obra dele, e tu não. Mas, por mais que Ele seja o Bom, é sempre Ele: é Deus e o pobre infeliz que eu sou não ousa tratá-lo com a familiaridade com que tu o tratas. Fala-lhe a minha alma… mas o lábio não ousa. A alma, eu penso que Ele a ouça em seus prantos de reconhecimento e de penitente amor.

195.2

É verdade, João, Eu ouço a tua alma –diz Jesus, entrando no meio da conversa dos dois. Judas enrubesce de vergonha e o homem de Endor, de alegria–. Eu ouço a tua alma, é verdade. E também o trabalho da tua mente. Disseste bem. Quando estiveres formado em Mim, ficarás muito alegre por teres sido mestre e aluno atento. Fala, fala, até contigo mesmo…

– Uma vez, Mestre, e não há muito tempo, me disseste que não é bom ficar falando com seu próprio eu –observa, impertinente, Judas.

– É verdade. Eu o disse[1]. Mas foi porque tu estavas fazendo murmuração com o teu próprio eu. Este homem não fica murmurando: ele medita, e com boa intenção. Ele não faz mal.

– Em resumo: eu estou errado! –diz Judas, agressivo.

– Não. O que tens são sombras no coração. Mas nem sempre se pode estar sereno. Os camponeses desejam a chuva. É uma caridade rezar para que ela venha. Também esta é uma caridade. Mas olha: eis um belo arco-íris que de Atarot termina o seu arco em Ramá. Estamos já além de Atarot: o triste e grande vale foi superado. Aqui está tudo cultivado, tudo está sorrindo por baixo deste sol, que vem rasgando as nuvens. Quando estivermos em Ramá, já estaremos a trinta e seis estádios de Jerusalém. Nós a veremos de novo depois daquela colina, que marca o lugar onde houve aquela horrenda libidinagem, cometida pelos gabaonitas[2]. Uma coisa horrível é a mordida da carne, Judas…

Judas não responde, mas se afasta dali, chapinhando com raiva pelas pequenas poças de água suja.

195.3

– Mas, que é que ele tem hoje? –pergunta Bartolomeu.

– Cala-te, antes que Simão de Jonas ouça. Evitemos discussões e… não exasperemos Simão. Ele está tão feliz com o seu menino!

– Sim, Mestre. Mas não fica bem. Eu vou dizer-lhe.

– Ele é jovem, Natanael. Tu também o foste…

– Sim… mas… Ele não deve faltar-te com o respeito!

E, sem querer, ele levanta a voz.

Aí Pedro chega:

– Que está acontecendo? Quem é que falta com o respeito? Será o novo discípulo? –e olha para João de Endor, que se havia retirado discretamente, logo que compreendeu que Jesus estava corrigindo o discípulo, e está agora conversando com Tiago de Alfeu e Simão Zelotes.

– Nem por sombra! Ele é respeitoso como uma menina.

– Ah! Está bem. Senão… era o olho dele que corria perigo. Então… então, é Judas…

– Escuta. Simão, não poderias ir cuidar do teu pequeno? Tu o tiraste de mim, e ainda queres preocupar-te com uma conversação amigável entre Mim e Natanael. Não te parece que queres preocupar-te com coisas demais?

Jesus sorri de um modo tão sereno, que Pedro fica na dúvida sobre o seu juízo. Ele olha para Bartolomeu… mas este já levantou o rosto aquilino e está perscrutando o céu… Pedro sente cair a suspeita.

O aparecimento da Cidade, já bem perto, visível agora em toda a sua beleza de colinas, de oliveiras, de casas, e especialmente pelo Templo, esta vista que deve ter sido sempre causa de emoção e de orgulho para os israelitas, acaba por distraí-lo completamente.

Detalhe

Barthélémy e Pierre intervêm mais em EMV 195.3, na sequência do que acontece em EMV 195.1-2.

Anotação

- Este romano tem razão em chamar-te Diógenes. Em 192.6.

- É verdade, eu disse-o. Em EMV 183.1.

Quando chegarmos a Ramá, estaremos a trinta e seis estádios de Jerusalém. 36 x 185 m = 6,6 km.

Gibeá ou Gibeá: No tempo dos juízes, um homem idoso convidou um levita de Efraim e a sua concubina para passarem a noite com ele. Pouco depois, alguns homens de Ghibae, malandros, cercaram a casa, exigindo que o levita lhes fosse entregue para poderem ter relações com ele. O velho ofereceu-lhes a sua filha, mas eles recusaram. O levita deu-lhes a sua concubina. Abusaram dela toda a noite, de tal modo que ela morreu de manhã. Pedaços do seu corpo foram enviados para as tribos de Israel como sinal da sua infâmia (Juízes 19:15-30). Como a tribo de Benjamim ficou do lado dos homens culpados de Gibeá, as outras tribos entraram em guerra contra eles. Por duas vezes sofreram pesadas perdas antes de finalmente derrotarem os benjaminitas e entregarem Gibeá ao fogo (Juízes 20).

EMF 196.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– E os outros amores? –perguntam juntos Simão Zelotes e o homem de Endor.

– O primeiro da segunda série, é o do próximo. Na realidade, é o quarto em potência. Segue o amor à ciência. Depois vem o amor ao trabalho.

– E basta?

– E basta.

– Mas há ainda muitos outros amores! –exclama Judas Iscariotes

– Não. Há outras fomes. Mas não são amores. São desamores. São a negação de Deus e a negação do homem. Por isso, não podem ser amores, visto que são negações, e a negação é o ódio.

– Se eu me nego a consentir no mal, isso é ódio? –pergunta Iscariotes.

– Infelizes de nós! Mas tu és mais capcioso do que um escriba. Queres dizer-me o que tens? Será o ar fino da Judeia que te está beliscando os nervos como uma caimbra? –exclama Pedro.

– Não. Eu gosto de instruir-me e de ter muitas ideia s, mas claras. Aqui é fácil falar e logo com os escribas. Não quero ficar sem argumentos.

– E achas que podes, no momento em que precisares, puxar para fora o fio da cor de que estás precisando do saco que vais atulhando com todos estes trapos? –pergunta Pedro.

– Trapos, as palavras do Mestre? Estás blasfemando!

– Ora, não me queiras parecer escandalizado. Na boca do Senhor não são trapos; mas, uma vez que sejam mal usadas por nós, tornam-se tais. Experimenta tu pôr um linho fino na mão de um menino… Não leva muito tempo, ele já será um trapo sujo e imprestável. Isto acontece conosco… Agora se pretendes pescar, no momento bom, um trapinho que te interessa, entre este trapinho e o que é sujo, não sei aonde poderás chegar.

– Não penses nisso. Esses assuntos são meus…

– Oh! Está certo. que não penso. Já tenho que pensar muito nos meus. E depois!… Eu me contento que não prejudiques o Mestre. Porque, neste caso, pensarei também nos teus assuntos…

– Quando eu lhe prejudicar, tu farás assim. Mas isso não acontecerá nunca, porque eu sei fazer as coisas… Eu não sou um ignorante…

– Mas eu o sou, sei disso. Mas, justamente porque sei, não fico acumulando nada, para o ficar ostentando, quando chega o bom momento. Mas nessa hora eu me recomendo a Deus e Deus me ajudará por amor ao seu Messias, de quem eu sou o último dos servos e o mais fiel.

– Fiéis somos todos nós! –rebate, arrogante, Judas.

– Oh! Malvado! Por que ofendes o meu pai? Ele é velho e bom. Não deves. És um homem mau e me causas medo –diz Jabé, muito sério, rompendo o silêncio atento em que estava.

– Já são dois! –diz em voz baixa Tiago de Zebedeu, dando uma cotovelada em André.

Ele falou baixo, mas Iscariotes ouviu.

– Vê, Mestre, se as palavras do estulto menino de Magdala não terão deixado um sinal? –diz Judas aceso de raiva.

Detalhe

Jesus acaba de falar dos diferentes poderes do amor. Primeiro, o amor de Deus, depois o amor paterno e materno, depois o amor conjugal.

Anotação

Vedes, Mestre, se as palavras daquele louco de Magdala deixaram alguma recordação? disse Judas, vermelho de despeito. Judas está a falar de Benjamim de Magdala (ver EMV 184). Judas já estava preocupado com estas palavras em EMV 187.

EMF 198.7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Eu disse: veste vermelha e cinta verde. Ficará muito bem. Pelo menos melhor do que a cor que ele tem agora.

– Vermelho ficará muito bem. Também Jesus estava vestido de vermelho. Mas eu diria que ficaria melhor sobre o vermelho uma cinta vermelha, ou pelo menos, bordada em vermelho –diz Maria com doçura.

– Eu dizia assim, porque estou vendo como Judas, que é moreno, fica muito bem com aquelas fitas verdes sobre o hábito vermelho…

– Mas elas não são verdes, amigo –diz, rindo, Iscariotes.

– Não? Então, de que cor são?

– Esta cor é chamada “veio de ágata.”

– E, que queres que eu entenda disso?! A mim me pareceu verde. É a cor que eu vejo nas folhas!

Maria intervém com benignidade:

– Simão tem razão. É exatamente a cor que as folhas tomam, com as primeiras chuvas de Tisri…

– Aí está! E, assim como as folhas são verdes, eu dizia que era verde –termina, contente, Pedro.

A Virgem Suave fez haver paz e alegria até numa pequena coisa como esta.

Detalhe

Peter fala sobre as roupas de Marziam para a sua festa de passagem à maioridade.

EMF 200.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O tempo passa… Ouvem-se as vozes dos apóstolos, que estão de volta… André chega correndo:

– Mestre, precisas de mim?

– Sim. Vem cá. Ninguém precisará saber disso, mas a ti é justiça que se o diga. André, obrigado em nome de Deus e de uma alma.

– Obrigado? Por quê?

– Não estás sentindo este perfume? É a lembrança da Mulher Velada. Ela veio. Está salva.

André fica vermelho como um morango, cai de joelhos e não acha palavras… Por fim, ele diz:

– Agora, estou contente. Bendito seja o Senhor!

– Sim. Levanta-te. Não digas aos outros que ela veio.

– Guardarei silêncio, Senhor.

– Agora vai. Escuta: está aí ainda Judas de Simão?

– Sim, ele quis vir conosco… contando… muitas mentiras. Por que é que ele faz assim, Senhor?

– Porque é um jovem viciado. Dize-me a verdade: vós brigastes com ele?

– Não. O meu irmão se sente feliz demais com o seu menino, para ter vontade de brigar. E os outros… Tu sabes… são mais prudentes. Com certeza, em nossos corações ficamos muito aborrecidos. Mas depois da ceia ele vai embora… Outros amigos… diz ele. Oh! e despreza as meretrizes!…

– Sê bom, André. Tu também deves estar feliz esta tarde…

– Sim, Mestre. Eu também tenho a minha invisível, mas doce paternidade. Eu já me vou.

EMF 200.7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Passa mais algum tempo, e depois sobem em grupo os apóstolos com o menino e João de Endor. Acompanham-nos as mulheres, com os diversos pratos e as luzes. Por último, vem Lázaro com Simão. Logo que entram na sala, exclamam:

– Ah! Era daqui que saía! –e farejam o ar saturado de um perfume de rosas, saturado, por mais escancaradas que estejam as portas–. Mas, quem foi que perfumou assim esta sala? Terá sido Marta? –perguntam muitos.

– Minha irmã não saiu de casa hoje, depois do jantar, responde Lázaro.

– Quem terá sido, então? Algum sátrapa assírio? –caçoa Pedro.

– O amor de uma redimida –diz Jesus, sério.

– Ela podiaela ter poupado esta inútil exibição de redenção e dar tudo o que gastou aos pobres. Eles são tantos e sabem que nós lhes damos. Eu não tenho mais nem um vintém, diz, irritado, Iscariotes. E ainda temos que comprar o cordeiro, alugar a sala para o Cenáculo e…

– Mas eu vos ofereci tudo!… –diz Lázaro.

– Mas não é justo. O rito perde a beleza. A Lei diz: “Tomarás o cordeiro para ti e tua casa.” Não diz: “Aceitarás o cordeiro.”

Bartolomeu se vira, de repente, abre a boca, mas logo a fecha. Pedro fica vermelho, pelo esforço feito para calar-se. Mas Zelotes, que está em sua casa, acha que pode falar, e diz:

– Essas são sutilezas rabínicas… Eu te peço que deixes de lado isso tudo e, em compensação, conserves o respeito para com o meu amigo Lázaro.

– Muito bem, Simão! –Pedro — se não fala — é capaz de explodir–. Muito bem. Parece-me também que aqui se esqueçe um pouco demais de que só o Mestre tem o direito de ensinar…

Pedro diz aquelas palavras “que aqui se esquece”, com um esforço verdadeiramente heróico, para não dizer: “que Judas se esquece”.

– É verdade… mas estou nervoso. Desculpa, Mestre.

– Sim. Eu também te respondo. A gratidão é uma grande virtude. Eu sou muito grato a Lázaro. Assim como aquela redimida foi grata a Mim. Eu espalho sobre Lázaro o perfume da minha bênção, também por aqueles, entre os meus discípulos, que não sabem fazer isso. Eu, chefe de todos vós. A mulher derramou a meus pés o perfume de sua alegria de ser salva. Ela reconheceu o Rei, e veio ao Rei, antes de muitos outros, sobre os quais o Rei tem feito a efusão de muito mais amor do que sobre ela. Deixai que ela faça o que fez, e não a critiqueis. Ela não poderá estar presente à minha aclamação, nem à minha unção. A cruz dela já está em suas costas. Pedro, tu disseste que parecia ter passado por aqui algum sátrapa assírio. Em verdade, Eu te digo que, nem mesmo o incenso dos Magos, tão puro e precioso, era mais suave do que este. A essência deste foi dissolvida no pranto, e por isso é que ela é tão penetrante: a humildade sustém o amor e o torna perfeito. Vamos sentar-nos à mesa, amigos…

E, com o oferecimento da refeição, cessa a visão.

Detalhe

Aglaia apresenta-se a Jesus e deita perfume na sala, como sinal da sua conversão. Quando os apóstolos sobem as escadas, ela já tinha saído.

Anotação

Livro do Êxodo 12, 3

Ex 12, 3: Fala a toda a congregação de Israel e dize-lhe: No décimo dia deste mês, cada homem tome um cordeiro para cada família, um cordeiro para cada casa

EMF 201.2-3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Estamos aqui, Mestre! –saúda Tomé, que está com Filipe e Bartolomeu do outro lado da Porta.

– Judas não está? E por que estás tão cedo aqui? –perguntam muitos.

– Não. Nós estamos aqui desde cedo, por medo de que Tu antecipasses tua vinda. Mas ele não foi visto. Ontem eu o encontrei com o escriba Sadoc, sabes, José? Aquele velho magro, que tem uma verruga por baixo do olho. E havia também outros… que eram jovens. Eu lhe gritei: “Eu te saúdo, Judas.” Mas ele não me respondeu, fingindo não me conhecer. Eu disse: “Que terá ele?”, e fui andando até alguns metros atrás dele. Aí ele se separou de Sadoc, ao lado do qual ele parecia um levita, e lá se foi com os outros da sua idade que… certamente não eram levitas… E agora não está aqui. Mas ele sabia que havíamos combinado que viríamos para cá!

Filipe não diz nada. Bartolomeu aperta os lábios, até quase fazê-los desaparecer, como que para opor uma barreira ao julgamento que lhe quer sair do coração.

– Bem, bem! Vamos para a frente assim mesmo! Eu não vou chorar certamente pela ausência dele –diz Pedro.

– Vamos esperar mais um pouco. Ele pode ter ficado detido no caminho –diz sério Jesus.

Encostam-se a um muro, em sua parte sombreada, as mulheres em um grupo, e os homens em outro. Todos estão com vestes de festa. Pedro, então, está um verdadeiro luxo, ostentando um chapéu novo em folha, branco como a neve, e seguro por uns passamanes bordados em vermelho e ouro. Ele está com a sua melhor veste, cor de granada, muito escura, adornada com um cinturão novo, como o é também o galão do chapéu, e do cinturão está pendurada a faca na bainha, como se fosse um punhal, com o punho burilado, a bainha de latão toda trabalhada com furinhos, através dos quais brilha o aço lustroso da lâmina. Também os outros estão mais ou menos armados assim. Só Jesus está sem armas, vestido com uma veste de linho muito alva e com um manto azul flor-de-lis, certamente tecido por Maria no inverno. Margziam está vestido com uma veste de cor vermelho-pálida, com um galão de cor mais escura à altura da garganta, na orla da veste e nos pulsos, e um galão igualmente bordado, à altura da cintura e das bordas do manto, que vai, porém, sendo levado dobrado sobre o braço pelo menino, que o acaricia muito contente, levantando, de vez em quando, um rostinho, sorridente por um lado… e preocupado pelo outro… Também Pedro vai segurando com cuidado um embrulho, que está em sua mão.

201.3

Passa o tempo e Judas não aparece.

– Ele não se dignou… –resmunga Pedro, e talvez fosse continuar a falar mais, mas o apóstolo João diz:

– Talvez ele nos esteja esperando junto à Porta Dourada…

Vão para o Templo. Mas Judas não está com eles.

José de Arimateia já perdeu a paciência. Ele diz:

– Vamos.

EMF 201.7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Como está feliz Pedro com o seu menino, perfeito israelita agora! A tal ponto, que nem vê a ruga que atravessa a fronte de Jesus. Até o ponto, que nem nota o silêncio opressivo dos companheiros. É somente na sala da casa de José, — quando o menino, à pergunta ritual sobre o que ele vai fazer no futuro, declara: “Vou ser pescador como meu pai” — aí é que, entre lágrimas, Pedro cai em si e compreende…

– Mas… Judas pôs uma gota de veneno nesta festa… E Tu estás magoado, Mestre… e os outros estão também tristes por isso. Perdoai-me, vós todos, por não ter eu visto isso antes. Ah! aquele Judas!…

O suspiro dele, creio que está em todos os corações… Mas Jesus, para tirar o veneno, se esforça para sorrir e diz:

– Não fiques magoado Simão. Só está faltando a tua mulher nesta festa… e Eu estava pensando também nela, tão boa e sacrificada sempre. Mas logo ela vai ter a sua alegria inesperada e como será bem acolhida! Pensemos no bem que ainda há no mundo. Vem. Então Margziam respondeu bem? Eu já sabia antes…

José torna a entrar, depois de ter dado ordens aos seus criados:

– Eu vos agradeço a todos –ele diz–, por me terdes rejuvenescido com esta cerimônia e por me terdes dado a honra de ter em minha casa o Mestre, sua mãe, os parentes e vós, caros condiscípulos. Vinde para o jardim. Aí fora há um ar bom e flores…

E tudo termina.

Detalhe

Marziam acaba de passar o seu exame de maioridade.

EMF 203.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Um entre vós sofreu muito nestes dias. Sofreu por um ato não merecido, e sofreu pelo esforço que fez sobre si mesmo, para conter a indignação que aquele ato provocou. Sim, Simão de Jonas, vem aqui. Não houve nenhum frêmito do teu coração honesto, que por Mim tenha ficado desconhecido, e não houve sofrimento teu de que Eu não tenha participado contigo. Eu e os teus companheiros…

– Mas Tu, Senhor, foste muito mais ofendido do que eu! E esse era para mim um sofrimento muito maior, não, muito mais sensível… nem mesmo… mais… mais… Eis: que Judas tenha tido nojo de participar da minha festa me fez mal a mim, como homem. Mas ter que ver que estavas entristecido, aí é que sofri o dobro… Mas devo dizer e, se o faço por soberba, dize-o a mim, devo dizer que sofri com minha alma… e isso faz que soframos mais.

– Não é soberba, Simão. Sofreste espiritualmente, porque Simão de Jonas, pescador da Galileia, se está transformando no Pedro de Jesus, Mestre do espírito, pelo qual também os seus discípulos se tornam ativos e sábios no espírito. É por esse teu progresso na vida do espírito, e por esse vosso progredir, que Eu vos quero esta noite ensinar a oração. Quanto estais mudados, desde aquela parada solitária[2] para cá!

– Todos Senhor? –pergunta Bartolomeu, um pouco incrédulo.

– Compreendo o que queres dizer… Mas Eu falo agora a vós onze, não a outros.

– Mas, que tem Judas de Simão, Mestre? Nós não o compreendemos mais. Ele parecia tão mudado e agora, desde que nós deixamos o lago… –diz desolado André.

– Cala-te, meu irmão. A chave do mistério eu a tenho. Nele se apegou um pedacinho de Belzebu. Ele foi procurá-lo na caverna de Endor, para maravilhar-se, e… ficou servido. O Mestre disse naquele dia… Em Gamala os demônios entraram nos porcos… Em Endor, os demônios saídos daquele infeliz, que era João, entraram nele… Compreende-se… compreende-se… Deixa-me dizê-lo, Mestre! Já está aqui em cima, na garganta, e se eu não o disser, ele não sai e eu vou envenenar-me com ele…

– Simão, sê bom!

– Sim, Mestre… eu te garanto que não serei indelicado com ele. Mas digo e penso que, sendo Judas um viciado, — todos nós já entendemos isso — é um pouco semelhante ao porco… e compreende-se que os demônios escolheram de boa vontade os porcos para serem… as casas para as quais se mudaram. Eis, já o disse.

– Tu dizes que é assim? –pergunta Tiago de Zebedeu.

– E que outra coisa queres que seja? Não houve nenhuma razão para se tornar tão intratável. Pior do que em Águas Belas! Lá eu ainda podia pensar que era o lugar e a estação que o fizessem ficar nervoso. Mas agora…

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– Há uma outra razão, Simão…

– Dize qual é, Mestre. Eu ficarei contente se puder mudar de opinião a respeito do companheiro.

– Judas é ciumento. É inquieto por ciúme.

– Ciumento? De quem? Não tem mulher e, mesmo que a tivesse, e ainda que fosse com as mulheres, eu creio que nenhum de nós teria desprezo para com o condiscípulo…

– É ciumento de Mim. Considera: Judas se alterou depois de Endor e depois de Esdrelon. Ou seja, quando viu que Eu me ocupei com João e Jabé. Mas agora João, principalmente João, vai-se afastar, passando de Mim para Isaac e verás que ele voltará a ficar alegre e bom.

– É… Está bem. Mas, não me quererás dizer que ele não está tomado por algum demoniozinho… E, sobretudo… Não, o digo! E mais que tudo, não me quererás dizer que ele melhorou nos últimos meses. Ciumento eu também era no ano passado… Eu não teria querido ninguém mais além de nós seis, — os primeiros seis, — Te recordas? Agora… Agora… deixa-me invocar a Deus somente uma vez, como testemunha do meu pensamento. Agora digo que me sinto feliz, quanto mais aumentam os discípulos ao redor de Ti. Oh! eu quereria ter todos os homens para trazê-los a Ti, e todos os meios para poder acudir a quem tem necessidade de Ti, a fim de que não seja a miséria que crie obstáculos a quem quiser vir a Ti. Deus está vendo se eu estou dizendo a verdade. Mas, por que sou assim agora? Porque eu me deixei mudar por Ti. Ele… não mudou. Pelo contrário… olha lá, Mestre… Um demoniozinho tomou conta dele…

– Não o digas. Não o penses. Reza para que ele sare. O ciúme é uma doença…

– Doença que, a teu lado se cura, se o quisermos. Ah! Eu vou suportá-lo, por causa de Ti… Mas, que fadiga!…

– Por ela te dei como prêmio o menino. E agora vou te ensinar a rezar…

– Oh! Sim, meu irmão. Vamos falar disso… e o meu homônimo seja lembrado só como alguém que tem necessidade disso. Parece-me que ele já está recebendo o seu castigo: Neste momento ele não está conosco! –diz Judas Tadeu.

Detalhe

O sofrimento de Simão Pedro perante os ciúmes de Judas e dos Iscariotes em relação a João de Endor. Alguns dos apóstolos intervêm durante esta troca.

Anotação

O meu homónimo: Judas e Jude são o mesmo nome próprio, mesmo que os franceses tenham usado formas diferentes.