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Notas da palavra-chave

Simão-Pierre - Simão de Jonas (apóstolo)

Tema: Personagens principais e secundárias · Página 21 de 26

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EMF 196.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A manhã do sábado foi ocupada, na maior parte do tempo, em restaurar os corpos cansados e limpar as roupas cheias de poeira e amarrotadas pela viagem. Nas amplas cisternas do Getsêmani, que a água da chuva foi enchendo, e no Cedron, cujas águas cantam ao bater nas pedras, espumando, cheio como ele está pelas chuvas dos últimos dias, há tanta água que é um verdadeiro convite a quem a vê. Por isso, os peregrinos, um depois do outro, sem terem medo da água fria, descem para mergulhar e depois, tornando a vestir-se da cabeça aos pés, com os cabelos ainda um pouco corridos, por causa da água da torrente, tiram água das cisternas para despejá-la em tanques de bom tamanho, onde estão as roupas, separadas pelas cores.

– Oh! Muito bem –diz contente Pedro–. Ali elas já ficarão menos sujas e Maria as poderá lavar com menos cansaço. –(Suponho que seja a mulher que mora no Getsêmani)–. Só tu, pequenino, não podes mudar de roupa. Mas amanhã…

De fato, o menino tem uma vestezinha limpa, tira-a de sua sacolinha, uma sacolinha que mal daria para o enxoval de uma boneca, de tão pequena que é. Mas a vestezinha que ele tirou, está ainda mais desbotada e rasgada do que a outra e Pedro olha para ela preocupado e murmurando:

– Como é que eu vou fazer para levá-lo pela cidade? Eu poderia dividir em duas a minha capa, porque com uma capa… ele se cobriria todo.

Jesus, que ouviu este solilóquio paterno, diz:

– É melhor fazer que ele descanse agora. Esta tarde iremos a Betânia…

– Mas eu quero comprar a roupa para ele. Eu lhe prometi…

– Tu o farás com certeza. Mas é melhor aconselhar-se antes com a mãe. Tu sabes… as mulheres… têm mais capacidade do que nós nas compras… e ela se sentirá feliz por ocupar-se com um menino… Vós ireis juntos!

A ideia de ir junto com Maria fazer as compras arrebata o apóstolo taté o sétimo céu. Não sei se Jesus lhe expressou todo o seu pensamento, ou se omitiu uma parte , ou seja, aquela que tivesse dito que a mãe tem um gosto mais apurado para evitar certos conjuntos horríveis de cores. Mas o fato é que Ele consegue o seu escopo sem precisar deixar aborrecido seu Pedro.

EMF 196.2-9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus está passeando e observando Jabé, que alegre está brincando com João e com os mais jovens. Também Iscariotes, depois de passada a sua raiva de ontem, está alegre e brincando. Os mais velhos observam e sorriem.

– Que dirá a tua mãe deste menino? –pergunta Bartolomeu.

– Eu acho que Ela dirá: “É muito fraquinho” –diz Tomé.

– Oh! Não. Ela dirá: “Pobre menino” –responde Pedro.

– Ela Te dirá, pelo contrário: “Estou contente, porque Tu o amas”

–objeta Filipe.

– A mãe nunca teria dúvidado disso. Mas eu creio que Ela não dirá nada. Ela o receberá em seu coração –diz Zelotes.

– E Tu, Mestre, que dizes que Ela dirá?

– Ela fará o que vós estais dizendo. Mas muitas coisas, ou melhor, todas Ela as pensará, e ao beijá-lo dirá só: “Que tu sejas bendito!”, e cuidará dele como se fosse um passarinho que caiu do ninho.

196.3

Um dia, Ela me contou o que aconteceu, quando Ela era uma menininha. Ainda não tinha três anos, porque ainda não estava no Templo, e seu coração se partia de amor, produzindo, como a flor ou a azeitona esmagadas na prensa, todos os seus óleos ou os seus perfumes. E, em seu delírio de amor, dizia à sua mãe que queria ser virgem para agradar mais ao Salvador, mas que teria gostado de ser pecadora, para poder ser salva e ficava quase chorando, porque a mãe não a compreendia e não sabia dizer-lhe como é que se pode ser “pura” e “pecadora”, ao mesmo tempo. Quem a tranquilizou foi seu pai, que lhe mostrou um pequeno passarinho, que ele tinha conseguido salvar quando estava em perigo, à beira de uma fonte. O pai, então, com o passarinho, criou uma parábola[2], dizendo-lhe que Deus a tinha salvado de um modo antecipado e que, por isso, Ela lhe devia dar graças duas vezes. E a pequena Virgem de Deus, a grandíssima Virgem Maria, exerceu pela primeira vez sua maternidade espiritual sobre aquele pequeno ser caído do ninho, que Ela pôde lançar ao vôo, quando ficou forte, mas que nunca mais abandonou o jardim de Nazaré e lá ficou ainda, consolando com seus vôos e seus pios, a triste casa e os tristes corações de Ana e de Joaquim, quando Maria esteve no Templo. O passarinho morreu pouco antes da morte de Ana… Ele tinha cumprido sua tarefa…

196.4

Minha mãe tinha feito voto de virgindade por amor. Mas tinha, sendo uma criatura perfeita, a maternidade no sangue e no espírito. Porque a mulher foi feita para ser mãe. E é até uma aberração, quando ela se faz de surda aos apelos desse instinto, que é amor de segunda potência…

Pouco a pouco, os outros foram chegando para perto.

– Que queres dizer, Senhor, quando falas de amor de segunda potência? –pergunta Judas Tadeu.

– Meu irmão, há muitos amores e de diversas potências. Há um amor de primeira potência: é o que se dá a Deus. Depois, o amor de segunda potência: é esse amor materno, ou paterno, porque, se o primeiro é todo espiritual, este é espiritual em duas partes, e carnal por uma. É verdade que no homem se mistura, sim, o sentimento afetivo humano, mas sempre predomina o superior, porque um pai e uma mãe, sadia e santamente tais, não dão somente alimento e carícias à carne de seu filho, mas também alimento e amor à mente e ao espírito dele. E, tanto é verdade o que digo que quem se dedica à infância, ainda que seja apenas para instruí-la, acaba por amá-la como sua carne.

– De fato, eu amava muito aos meus discípulos –diz João de Endor.

– Já compreendi que devias ter sido um bom mestre, ao ver como tratas Jabé.

O homem de Endor se inclina, e beija a mão de Jesus, sem dizer nada.

– Continua, por favor, a tua classificação dos amores –pede-lhe Zelotes.

– Existe o amor pela companheira: é um amor de terceira potência, porque é feito — falo sempre dos sadios e santos amores — pela metade de espírito e pela metade de carne. O homem para a esposa é um mestre e um pai, além de esposo. e a mulher, para o esposo, é um anjo e uma mãe, além de esposa. Estes são os três amores mais elevados.

196.5

– E o amor ao próximo? Não estás enganado? Ou terás esquecido dele? –pergunta Iscariotes.

Os outros olham espantados para ele e ameaçadores por causa da observação que ele fez.

Mas Jesus, placidamente, responde:

– Não, Judas. Mas presta atenção. Deus há de ser amado porque é Deus e, por isso, não há necessidade de explicação para persuadir a prestar esse amor. Ele é o que é, ou seja: o Tudo; e o homem é o nada, que se torna participante do Tudo pela alma que nele foi infundida pelo Eterno — sem a alma, o homem seria um dos muitos animais brutos, que vivem na terra, nas águas e no ar — e que deve adorá-lo por dever, e para merecer sobreviver no Tudo, isto é, para merecer fazer parte do Povo santo de Deus no Céu, cidadão da Jerusalém, que não conhecerá profanações e destruições, nunca mais.

O amor do homem, e especialmente o da mulher, aos filhos, é indicado como uma ordem nas palavras de Deus a Adão e Eva, depois de tê-los abençoado, vendo que havia feito “coisa boa”, naquele longínquo sexto dia, o primeiro sexto dia da criação. E Ele lhes disse: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra…”

Vejo a tua não formulada objeção e respondo assim dado que na criação, antes da culpa, tudo era regulado e baseado no amor, essa multiplicação dos filhos teria sido amor, um amor santo, puro, poderoso e perfeito. E Deus o deu como primeira ordem, ao homem: “Crescei e multiplicai-vos.” Amai, pois, depois de Mim, aos vossos filhos. O amor, como agora existe, esse amor atual gerador de filhos, antes não existia. A malícia não existia e não existia a execrável fome da sensualidade. O homem amava a mulher, e a mulher ao homem, de um modo natural, não natural segundo a natureza como nós a entendemos, ou melhor, como vós homens a entendeis, mas segundo a natureza de filhos de Deus: sobrenaturalmente[3].

Que doces os primeiros dias de amor entre os dois, que eram irmãos, porque nascidos do mesmo Pai, e que, no entanto, eram esposos, e que, ao se amarem, olhavam um para o outro com os olhos inocentes de dois gêmeos no berço; e o homem sentia um amor de pai para com sua companheira “osso de seus ossos e carne de sua carne”, assim como é o filho em relação a seu pai. E a mulher conhecia a alegria de ser filha, isto é, protegida por um amor bem alto, porque sentia ter em si alguma coisa daquele maravilhoso homem que a amava, com inocência e angélico ardor, nos belos prados do Éden!

Depois, na ordem dos mandamentos dados por Deus, com um sorriso para os seus queridos pequeninos, vem aquilo que o próprio Adão, dotado pela Graça de uma inteligência, que só era menor que a de Deus, decreta, falando da companheira do homem, e nela, de todas as mulheres, o decreto do pensamento de Deus, que se refletia nítido no tenro espelho do espírito de Adão, e florescia no pensamento e na palavra: “O homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne.”

Se não houvesse os três pilares dos três amores acima referidos, teríamos podido ter o amor ao próximo? Não. Não o teríamos podido. O amor a Deus torna Deus amigo, e ensina o amor. Quem não ama a Deus, que é bom, com toda a certeza não pode amar ao próximo que, em sua maior parte, é defeituoso. Se não houvesse amor conjugal e paternidade no mundo, não teríamos o próximo, porque os próximos são os filhos nascidos dos homens. Estás persuadido disso?

– Sim, Mestre. Eu não havia refletido.

– De fato, é difícil voltar atrás, subindo para as nascentes. O homem já está pregado, há muitos séculos e milênios, na lama, e aquelas nascentes estão bem lá nos cumes! A primeira delas é uma nascente que vem de um abismo de altura: É Deus… Mas Eu vos tomo pela mão e vos levo às nascentes. Eu sei onde elas estão…

196.6

– E os outros amores? –perguntam juntos Simão Zelotes e o homem de Endor.

– O primeiro da segunda série, é o do próximo. Na realidade, é o quarto em potência. Segue o amor à ciência. Depois vem o amor ao trabalho.

– E basta?

– E basta.

– Mas há ainda muitos outros amores! –exclama Judas Iscariotes

– Não. Há outras fomes. Mas não são amores. São desamores. São a negação de Deus e a negação do homem. Por isso, não podem ser amores, visto que são negações, e a negação é o ódio.

– Se eu me nego a consentir no mal, isso é ódio? –pergunta Iscariotes.

– Infelizes de nós! Mas tu és mais capcioso do que um escriba. Queres dizer-me o que tens? Será o ar fino da Judeia que te está beliscando os nervos como uma caimbra? –exclama Pedro.

– Não. Eu gosto de instruir-me e de ter muitas ideia s, mas claras. Aqui é fácil falar e logo com os escribas. Não quero ficar sem argumentos.

– E achas que podes, no momento em que precisares, puxar para fora o fio da cor de que estás precisando do saco que vais atulhando com todos estes trapos? –pergunta Pedro.

– Trapos, as palavras do Mestre? Estás blasfemando!

– Ora, não me queiras parecer escandalizado. Na boca do Senhor não são trapos; mas, uma vez que sejam mal usadas por nós, tornam-se tais. Experimenta tu pôr um linho fino na mão de um menino… Não leva muito tempo, ele já será um trapo sujo e imprestável. Isto acontece conosco… Agora se pretendes pescar, no momento bom, um trapinho que te interessa, entre este trapinho e o que é sujo, não sei aonde poderás chegar.

– Não penses nisso. Esses assuntos são meus…

– Oh! Está certo. que não penso. Já tenho que pensar muito nos meus. E depois!… Eu me contento que não prejudiques o Mestre. Porque, neste caso, pensarei também nos teus assuntos…

– Quando eu lhe prejudicar, tu farás assim. Mas isso não acontecerá nunca, porque eu sei fazer as coisas… Eu não sou um ignorante…

– Mas eu o sou, sei disso. Mas, justamente porque sei, não fico acumulando nada, para o ficar ostentando, quando chega o bom momento. Mas nessa hora eu me recomendo a Deus e Deus me ajudará por amor ao seu Messias, de quem eu sou o último dos servos e o mais fiel.

– Fiéis somos todos nós! –rebate, arrogante, Judas.

– Oh! Malvado! Por que ofendes o meu pai? Ele é velho e bom. Não deves. És um homem mau e me causas medo –diz Jabé, muito sério, rompendo o silêncio atento em que estava.

– Já são dois! –diz em voz baixa Tiago de Zebedeu, dando uma cotovelada em André.

Ele falou baixo, mas Iscariotes ouviu.

– Vê, Mestre, se as palavras do estulto menino de Magdala não terão deixado um sinal? –diz Judas aceso de raiva.

196.7

– Mas não seria mais bonito continuar a lição do Mestre, em vez de ficarmos parecendo uns cabritos irritados? –pergunta o pacífico Tomé.

– É verdade, Mestre. Continua a falar-nos de tua mãe. É tão cheia de luz a sua infância. Ela nos torna a alma virgem por reflexo e eu, um pobre pecador, tenho tanta necessidade disso! –exclama Mateus.

– Que é que Eu vos devo dizer? Há tantos episódios, um mais doce do que o outro…

– Ela os contou?

– Alguns. Mas muitos mais José: foi a mais bela narração feita a Mim quando criança, e também Alfeu de Sara, que era pouco mais velho que minha mãe e foi amigo dela nos breves anos em que ela esteve em Nazaré.

– Oh! Então, conta… –suplica-lhe João.

Todos se põem ao redor dele, sentados à sombra das oliveiras, com Jabé no centro, olhando fixamente para Jesus, como se estivesse ouvindo uma paradisíaca lenda.

– Eu vos falarei da lição de castidade que deu minha mãe, poucos dias antes de ir para o Templo, ao seu pequeno amigo e a muitos outros.

Havia-se casado naquele dia uma moça de Nazaré, parente de Sara, e Joaquim e Ana também tinham sido convidados para a festa das núpcias.Com eles foi a pequena Maria que, junto com outras crianças, tinha o encargo de jogar pétalas desfolhadas sobre caminho da esposa. Dizem que era belíssima de pequena, e todos a disputavam, depois da festiva entrada da noiva. Era muito difícil ver Maria, porque ela vivia sempre em casa, pois gostava muito de uma pequena gruta que dizia ser a “dos seus esponsais”, mais do que qualquer outro lugar. Por isso, quando era vista — loura, rosada e graciosa —, era cumulada de carícias. Chamavam-na de “A Flor de Nazaré”, ou então “A Pérola da Galileia”, ou ainda “A Paz de Deus”, lembrando o enorme arco-íris, que se tinha formado, de repente, ao primeiro vagido dela. E ela era, de fato, tudo o que diziam e mais ainda. É a Flor do Céu e da Criação, é a Pérola do Paraíso, e a Paz de Deus… Sim, a Paz. Eu sou o Pacífico, porque sou Filho do Pai e filho de Maria: A Paz Infinita e a Paz Suave.

Naquele dia todos a queriam beijar e tomar no colo. E ela, esquivando-se aos beijos e aos contatos, disse com uma delicada gravidade: “Eu vos peço: Não me amarroteis.” Eles pensaram que Ela estava falando de sua veste de linho, cingida à cintura com uma faixa azul, e também nos pequenos pulsos, no pescoço, ou então da pequena grinalda com florzinhas azuis com que Ana a tinha coroado, para conservar em seu lugar os cachinhos do cabelo.

E, assim pensando, eles lhe garantiram que não amarrotariam nem a veste nem a grinalda.

Mas ela, segura, como uma pequena mulher de três anos, de pé, no meio de um círculo de adultos, disse-lhes séria: “Não estou pensando no que se repara. Estou falando da minha alma. Ela é de Deus. E não quer ser tocada, a não ser por Deus.” Então lhe disseram: “Nós beijamos a ti, não a tua alma.” E Ela: “O meu corpo é templo da alma, e o sacerdote nele é o espírito. O povo não é admitido no recinto sacerdotal. Eu vo-lo peço. Não entreis no recinto de Deus.”

Alfeu, que já tinha então mais de oito anos, e que a amava muito, encontrando-a perto da pequena gruta, ocupada em apanhar flores, lhe perguntou: “Maria, quando fores mulher, não me quererias como esposo?” Nele ainda estava viva a lembrança da festa de núpcias à qual estivera presente. E ela: “Eu te amo muito. Mas, não olho para ti como para um homem. Vou dizer-te um segredo. Eu só vejo a alma dos vivos. Aquela eu amo de todo o coração. Mas, nada mais eu vejo senão Deus, como ‘Verdadeiro Vivente’ ao qual poderei entregar-me a mim mesma.”

Aí está um episódio.

– “Verdadeiro Vivente!” Sabes que esta é uma palavra profunda!

–exclama Bartolomeu.

E Jesus, com humildade e com um sorriso:

– Ela era a mãe da Sabedoria.

– Era?… Mas não estava só com três anos?

– Era. Desde a sua concepção, eu já vivia nela, sendo eu Deus[4] , em sua Unidade e Trindade perfeitíssima.

196.8

– Mas, desculpa-me se eu, um culpado, ouso falar: então Joaquim e Ana sabiam que Ela era a virgem escolhida? –pergunta Judas Iscariotes.

– Eles não sabiam.

– E então, como é que Joaquim pôde dizer que Deus a tinha salvado com antecipação? Isto não se refere ao privilegio dela quanto à culpa?

– Refere-se. Mas Joaquim falava pela boca de Deus, como todos os profetas. Ele também não compreendeu a sublime verdade sobrenatural, que o espírito punha em seus lábios. Porque Joaquim era um justo. A ponto de merecer aquela paternidade. E era um homem humilde. Pois não há justiça onde existe soberba. Ele era justo e humilde. Consolou a filha por seu amor de pai. Instruiu-a pela sabedoria de sacerdote, pois ele o era, na qualidade de tutor da Arca de Deus. Ele a consagrou como Pontífice, com o mais honroso dos títulos: “A sem Mancha.” Dia virá em que um outro já encanecido sacerdote dirá ao mundo: “Ela é a concebida sem pecado”, e entregará ao mundo dos crentes esta verdade, como um artigo de fé incontestável, para que no mundo que virá, um mundo que se irá afundando sempre mais numa situação cinzenta e nebulosa, de heresias e de vícios, possa brilhar, plenamente conhecida, a Toda Bela de Deus, coroada de estrelas, vestida com a luz da Lua, que é menos pura que a Dela, apoiada sobre os astros, Rainha de todo Criado e do Incriado. Porque Deus-Rei tem Maria por Rainha, no seu Reino.

– Então, Joaquim era um profeta?

– Era um justo. Sua alma disse como um eco, aquilo que Deus dizia à sua alma amada por Deus.

196.9

– Quando iremos a esta “Mamãe”, Senhor? –pergunta, com uns olhos cheios de desejo, Jabé.

– Hoje de tarde. Que dirás a ela, quando a vires?

– “Eu te saúdo, mãe do Salvador.” Está bem assim?

– Muito bem, confirma Jesus, acariciando-o.

– Mas hoje não vamos ao Templo? –pergunta Filipe.

– Antes de irmos para Betânia, iremos ao Templo. E tu ficarás aqui. Não é verdade?

– Sim, Senhor.

A mulher de Jonas, guarda do olival, que veio se aproximando pouco a pouco, diz:

– Por que não o levas? O menino está desejando isso.

Jesus a fita com insistência, sem dizer nada.

A mulher compreende e diz:

– Já compreendi. Mas devo ter ainda uma pequena capa, a do Marcos. Vou buscá-la –e sai correndo, depressa.

Jabé puxa João por uma manga:

– Os mestres serão muito exigentes?

– Oh! Não. Não tenhas medo. Depois não é para hoje. Em poucos dias, estando com a mãe, serás mais sábio do que um doutor –encoraja-o João.

Os outros ouvem e sorriem diante da apreensão de Jabé.

– Mas quem é que vai apresentá-lo, como se fosse pai dele? –pergunta Mateus.

– Eu. É natural. A não ser que… o mestre queira apresentá-lo

–diz Pedro.

– Não, Simão. Não farei isso. Deixo para ti essa honra.

– Obrigado, Mestre. Mas estarás lá Tu também?

– Certamente. Todos estaremos lá. É o “nosso” menino…

Maria de Jonas está de volta, com uma capa roxo-escura, ainda em boas condições. Mas, que cor! Ela mesma o diz:

– Marcos não a quis mais usar por que a cor não lhe agradava.

Com toda a razão. A capa é horrorosa! E o pobre Jabé, já de cor azeitonada como é, parece um afogado, vestido com aquele roxo… Mas ele não se vê… e por isso está feliz com aquela capa, com a qual vai poder enfeitar-se como adulto..

– A refeição está pronta, Mestre. A servente tirou agora mesmo o cordeiro do espeto.

– Então, vamos.

E, descendo do lugar onde estão, entram na ampla cozinha para a refeição.

Anotação

Ele contou-lhe a parábola do passarinho: Ver o paradoxo do "pecador por amor" expresso pelo Sem Pecado e a parábola do passarinho: ver EMV 7.5.

Ele é Aquele que é, ou seja, o Todo; e o homem é o nada que se torna parte do Todo graças à alma infundida nele pelo Eterno. "Parte" foi corrigido (de acordo com a explicação dada na nota da EMV 167.9) para "participante" numa cópia dactilografada; acrescenta-se no fim da página: "Se a alma sabe permanecer em estado de graça, assim deificada, não por identidade de substância, mas por elevação à ordem sobrenatural. "

Nota da EMV 167: "Parcela de Deus" parece ter sido alterado para parcela nascida de Deus por uma correção pouco clara de Maria Valtorta numa cópia dactilografada, à qual acrescentou a seguinte nota: A palavra "parcela" não deve ter o significado de "parte de Deus" infundida em nós, mas de "lugar do trono", "assento" infundido ou "espirado" (pelo "sopro de vida" de que fala o Génesis 2,7) por Deus, ou seja, coisa de Deus vinda de Deus para o homem. São Tomás de Aquino chama-lhe "uma capacidade de Deus" que Deus enche de si mesmo, para que todos possamos participar na sua vida divina".

Esta explicação de Maria Valtorta (e o texto deEMV 10.9) deve ser tida em conta sempre que a obra fala da alma como "parte" ou "partícula" de Deus.

Pode ser relacionado com as notas de EMV 4.6, EMV 54.5, EMV 165.4, EMV 170.4, EMV 365.16, EMV 444.4, EMV 463.4, EMV 524.7, EMV 537.11.

"Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra... "Segundo o Génesis 1:28.

O homem amou a mulher e a mulher amou o homem, naturalmente, não naturalmente segundo a natureza como nós a entendemos, ou melhor, como vós homens a entendeis, mas segundo a natureza dos filhos de Deus: sobrenaturalmente. "Sobrenaturalmente": Maria Valtorta anota numa cópia dactilografada: sem que a desordem da malícia se una ou mesmo "se substitua" às leis ordenadas de Deus, inerentes à multiplicação e ao povoamento da terra. Acrescenta à margem: Enquanto o homem permaneceu nesta ordem, não nasceu nele o veneno da tríplice concupiscência que o tornou delirante, depois rebelde, finalmente caído.

O homem sentia o amor de um pai pela sua companheira "osso dos seus ossos e carne da sua carne", como uma criança sente pelo seu pai. Segundo o Génesis 2, 23.

"O homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à sua mulher, e os dois serão uma só carne. "Segundo Génesis 2, 24.

Livro do Génesis 1, 28

Gn 1, 28: Deus abençoou-os e disse-lhes: "Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a, dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os seres vivos que se movem sobre a terra".

Livro do Génesis 2, 23-24

Gn 2, 23-24 : E o homem disse: "Esta é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Esta chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem. Por isso, o homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à sua mulher, e eles serão uma só carne.

EMF 196.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– E os outros amores? –perguntam juntos Simão Zelotes e o homem de Endor.

– O primeiro da segunda série, é o do próximo. Na realidade, é o quarto em potência. Segue o amor à ciência. Depois vem o amor ao trabalho.

– E basta?

– E basta.

– Mas há ainda muitos outros amores! –exclama Judas Iscariotes

– Não. Há outras fomes. Mas não são amores. São desamores. São a negação de Deus e a negação do homem. Por isso, não podem ser amores, visto que são negações, e a negação é o ódio.

– Se eu me nego a consentir no mal, isso é ódio? –pergunta Iscariotes.

– Infelizes de nós! Mas tu és mais capcioso do que um escriba. Queres dizer-me o que tens? Será o ar fino da Judeia que te está beliscando os nervos como uma caimbra? –exclama Pedro.

– Não. Eu gosto de instruir-me e de ter muitas ideia s, mas claras. Aqui é fácil falar e logo com os escribas. Não quero ficar sem argumentos.

– E achas que podes, no momento em que precisares, puxar para fora o fio da cor de que estás precisando do saco que vais atulhando com todos estes trapos? –pergunta Pedro.

– Trapos, as palavras do Mestre? Estás blasfemando!

– Ora, não me queiras parecer escandalizado. Na boca do Senhor não são trapos; mas, uma vez que sejam mal usadas por nós, tornam-se tais. Experimenta tu pôr um linho fino na mão de um menino… Não leva muito tempo, ele já será um trapo sujo e imprestável. Isto acontece conosco… Agora se pretendes pescar, no momento bom, um trapinho que te interessa, entre este trapinho e o que é sujo, não sei aonde poderás chegar.

– Não penses nisso. Esses assuntos são meus…

– Oh! Está certo. que não penso. Já tenho que pensar muito nos meus. E depois!… Eu me contento que não prejudiques o Mestre. Porque, neste caso, pensarei também nos teus assuntos…

– Quando eu lhe prejudicar, tu farás assim. Mas isso não acontecerá nunca, porque eu sei fazer as coisas… Eu não sou um ignorante…

– Mas eu o sou, sei disso. Mas, justamente porque sei, não fico acumulando nada, para o ficar ostentando, quando chega o bom momento. Mas nessa hora eu me recomendo a Deus e Deus me ajudará por amor ao seu Messias, de quem eu sou o último dos servos e o mais fiel.

– Fiéis somos todos nós! –rebate, arrogante, Judas.

– Oh! Malvado! Por que ofendes o meu pai? Ele é velho e bom. Não deves. És um homem mau e me causas medo –diz Jabé, muito sério, rompendo o silêncio atento em que estava.

– Já são dois! –diz em voz baixa Tiago de Zebedeu, dando uma cotovelada em André.

Ele falou baixo, mas Iscariotes ouviu.

– Vê, Mestre, se as palavras do estulto menino de Magdala não terão deixado um sinal? –diz Judas aceso de raiva.

Detalhe

Jesus acaba de falar dos diferentes poderes do amor. Primeiro, o amor de Deus, depois o amor paterno e materno, depois o amor conjugal.

Anotação

Vedes, Mestre, se as palavras daquele louco de Magdala deixaram alguma recordação? disse Judas, vermelho de despeito. Judas está a falar de Benjamim de Magdala (ver EMV 184). Judas já estava preocupado com estas palavras em EMV 187.

EMF 196.9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Quando iremos a esta “Mamãe”, Senhor? –pergunta, com uns olhos cheios de desejo, Jabé.

– Hoje de tarde. Que dirás a ela, quando a vires?

– “Eu te saúdo, mãe do Salvador.” Está bem assim?

– Muito bem, confirma Jesus, acariciando-o.

– Mas hoje não vamos ao Templo? –pergunta Filipe.

– Antes de irmos para Betânia, iremos ao Templo. E tu ficarás aqui. Não é verdade?

– Sim, Senhor.

A mulher de Jonas, guarda do olival, que veio se aproximando pouco a pouco, diz:

– Por que não o levas? O menino está desejando isso.

Jesus a fita com insistência, sem dizer nada.

A mulher compreende e diz:

– Já compreendi. Mas devo ter ainda uma pequena capa, a do Marcos. Vou buscá-la –e sai correndo, depressa.

Jabé puxa João por uma manga:

– Os mestres serão muito exigentes?

– Oh! Não. Não tenhas medo. Depois não é para hoje. Em poucos dias, estando com a mãe, serás mais sábio do que um doutor –encoraja-o João.

Os outros ouvem e sorriem diante da apreensão de Jabé.

– Mas quem é que vai apresentá-lo, como se fosse pai dele? –pergunta Mateus.

– Eu. É natural. A não ser que… o mestre queira apresentá-lo

–diz Pedro.

– Não, Simão. Não farei isso. Deixo para ti essa honra.

– Obrigado, Mestre. Mas estarás lá Tu também?

– Certamente. Todos estaremos lá. É o “nosso” menino…

Maria de Jonas está de volta, com uma capa roxo-escura, ainda em boas condições. Mas, que cor! Ela mesma o diz:

– Marcos não a quis mais usar por que a cor não lhe agradava.

Com toda a razão. A capa é horrorosa! E o pobre Jabé, já de cor azeitonada como é, parece um afogado, vestido com aquele roxo… Mas ele não se vê… e por isso está feliz com aquela capa, com a qual vai poder enfeitar-se como adulto..

– A refeição está pronta, Mestre. A servente tirou agora mesmo o cordeiro do espeto.

– Então, vamos.

E, descendo do lugar onde estão, entram na ampla cozinha para a refeição.

Detalhe

Jesus acaba de falar da Virgem Maria.

EMF 197.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Pedro está realmente solene, quando entra, em seu papel de pai, no recinto do Templo, segurando Jabé pela mão. Ele parece ter ficado mais alto, de tão empertigado que vai indo.

Atrás, em grupo, vão entrando todos os outros. Jesus é o último, entretido em uma séria conversa com João de Endor, que parece estar com vergonha de entrar no Templo.

Pedro pergunta ao seu protegido:

– Nunca estiveste aqui?

E tem por resposta esta frase:

– Quando eu nasci, pai. Mas não me lembro de nada.

O que faz Pedro rir à vontade, e ele repete a resposta para os seus companheiros que se riem também, dizendo bonachões e chistosos:

– Talvez estavas dormindo, e por isso… –ou então: –Somos todos como tu. Não nos lembramos de quando viemos até aqui, depois de termos nascido.

Anotação

Pedro pergunta ao seu pequeno protegido: "Nunca estiveste lá?", ao que ele responde: "Quando nasci, pai, mas não me lembro. Para a cerimónia da sua apresentação no Templo e para a purificação da sua mãe.

EMF 197.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Enquanto isso, Pedro se esforça para explicar ao pequeno as coisas mais dignas de serem observadas no Templo, mas chama em seu socorro outros mais cultos, especialmente Bartolomeu e Simão, porque ele se acha bem à vontade com estes anciãos, nesse seu papel de pai.

Eles estão perto do gazofilácio para fazerem as suas ofertas, quando José de Arimateia os chama:

– Vós estais aqui? Desde quando? –diz ele depois das saudações recíprocas.

– Desde ontem à tarde.

– E o Mestre?

– Está ali com um novo discípulo. Daqui a pouco, virá.

José olha para o menino, e pergunta a Pedro:

– É teu netinho?

– Não… Sim… Afinal, não é nada do meu sangue, mas muito na fé e tudo no amor.

– Não te entendo bem…

– É um órfãozinho… mas nada do meu sangue. Um discípulo… porém muito na fé. Um filho… porém tudo no amor. O Mestre o acolheu… e eu o acaricio. Deve tornar-se maior de idade por estes dias…

– Já tem doze anos? Tão pequenino?

– É… mas o Mestre o dirá… José, tu és bom… um dos poucos bons que há aqui dentro… Dize-me uma coisa: estarias disposto a ajudar-me a resolver este problema? Tu sabes… eu o estou apresentando como se fosse meu filho. Mas eu sou galileu e tenho em mim uma lepra feia…

– Lepra? –exclama José, apavorado e afastando-se.

– Não tenhas medo!… Estou com a lepra de ser de Jesus! E é a mais odiosa para os do Templo, a não ser para poucas exceções.

– Naão! Não digas isso!

– É verdade e está dita. Por isso, eu temo que eles tratarão com crueldade o pequeno, por causa de mim e de Jesus! Pois eu não sei como é que ele sabe a Lei, o Hagadã e o Midrashot. Jesus diz que ele sabe bem…

– Ora! mas se é Jesus quem o diz! Não tenhas medo!

– Bem que gostariam dar-me um aborrecimento! aqueles!

– Vejo que queres muito bem a este pequeno. Tu o tens sempre contigo?

– Eu não posso!… Vivo caminhando… O menino é pequeno e franzino…

– Mas eu iria de boa vontade contigo… –diz Jabé, que ficou mais confiante pelas palavras carinhosas de José.

Pedro está radiante de alegria… Mas ainda diz:

– O Mestre diz que não se deve, e não o faremos… Mas, de qualquer maneira, nós nos veremos… José… tu me ajudas?

– Mas, como não? Eu irei contigo. Diante de mim, não cometerão injustiças. Quando iremos?

197.4

Oh! Mestre! Dá-me a tua bênção!

– A paz esteja contigo, José. Tenho muito prazer em ver-te, e com boa saúde

– Eu também, Mestre, e também os amigos te verão com alegria. Estás no Getsêmani?

– Estava. Depois da oração, irei para Betânia.

– À casa de Lázaro?

– Não. À casa de Simão. Estou também com minha mãe, com a mãe dos meus irmãos e a de João e Tiago. Irás lá ver-me?

– Ainda perguntas?! Grande alegria e grande honra. Eu te agradeço por isso. Eu irei com vários amigos!…

– Vai devagar, José, com, esses amigos!… –aconselha Simão Zelotes.

– Oh! Vós já os conheceis. A prudência diz: “Que as paredes não ouçam.” Mas, quando vós os virdes, compreendereis que são amigos.

– Então…

– Mestre, Simão de Jonas estava me falando sobre a cerimônia do pequeno. Tu chegaste na hora em que eu lhe estava perguntando quando pretendeis realizá-la. Eu também quero estar lá.

– Será na quarta-feira, antes da Páscoa. Quero que ele faça a sua Páscoa, já como filho da Lei.

– Muito bem. Está entendido. Eu virei apanhar-vos em Betânia. Mas, na segunda-feira eu virei com os amigos.

– Está dito.

– Mestre, eu vou deixar-te. A paz esteja contigo. Está na hora do incenso.

– Adeus, José. A paz esteja contigo.

Anotação

Não sei como é que ele conhece a Lei, a Halakhah, a Haggadah e os Midrashim. Jesus diz que sabe o suficiente... Para salvaguardar a Lei, a base religiosa e jurídica da comunidade judaica, os rabinos, após o exílio, rodearam-na de uma exegese chamada Midrash (Interpretação). Os midrashim são comentários sobre passagens das Escrituras. Entre os autores de renome destas tradições midráshicas contam-se Hillel, Schammei e Gamaliel.

Midrash também se refere ao ramo do conhecimento rabínico que lida com as regras da lei tradicional (escrita), em oposição à Mishnah (tradição oral). Esta interpretação da Lei Mosaica deu origem a novas prescrições, regras de conduta a seguir no culto e na lei (as Halâkoth). A interpretação das partes históricas do Pentateuco deu origem a histórias e lendas(a Haggadah). No entanto, em nome da Lei Mosaica, estes midrashim só podiam ser transmitidos oralmente de geração em geração, embora a sua autoridade acabasse por ser quase igual à da Lei.

O tempo do incenso. O incenso era queimado no Templo de manhã e à noite, como prescrito em Êxodo 30:7-8.

Livro do Êxodo 30, 7-8

Ex 30, 7-8: Quando Aarão vier acender as lâmpadas todas as manhãs, queimará incenso sobre elas. E quando for acender as lâmpadas ao pôr do sol, voltará a queimar incenso nelas. De geração em geração, o incenso subirá perpetuamente diante do Senhor.

EMF 198.1-10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Através da sombreada estrada, que liga o Monte das Oliveiras a Betânia, — e eu poderia dizer que o monte chega com suas ramificações verdes até às campinas de Betânia — Jesus com os seus vai caminhando solícito, para a cidade de Lázaro. Ele ainda não entrou, mas já está sendo reconhecido, e os estafetas voluntários vão correndo por todos os lados, a fim de darem notícia de sua chegada. Por causa deles, eis que, por um lado, vão-se pondo em movimento Lázaro com Maximino, Isaac com Timoneo e José do outro; em terceiro lugar vem vindo Marta com Marcela e esta levanta seu véu para curvar-se e beijar a veste de Jesus e logo depois vão chegando Maria de Alfeu com Maria Salomé, que prestam sua veneração ao Mestre e depois abraçam seus filhos e, enquanto o pobre Jabé sempre levado pela mão de Jesus, agitado por todos estes que chegam de todos os lados, observa espantado e João de Endor, sentindo-se um estranho, vai para trás do grupo e fica separado, eis que vem se aproximando pelo caminho que conduz à casa de Simão, a mãe.

Jesus abandona a mão de Jabé e, delicadamente, vai deixando para trás os amigos, apressando-se em ir ao encontro dela. As conhecidas palavras rasgam os ares, e ressoam, como um solo de amor, pelo meio do murmúrio da multidão: “Filho!”; “Mamãe!” E se beijam, mas no beijo de Maria vê-se a ânsia de quem ficou temendo por muito tempo e agora — desfazendo-se o terror que a infernizou —, sente o cansaço pelo esforço feito, mede em toda a sua extensão o perigo em que incorreu…

Jesus a acaricia, Ele que compreende e diz:

– Além do meu anjo, Eu tinha o teu, mãe, a velar sobre Mim. Assim, nada de mal me podia acontecer.

– Louvores sejam dados ao Senhor. Mas Eu sofri tanto!

– Eu queria vir mais depressa, mas tive que fazer outro caminho, para obedecer a ti. E foi bom, porque a tua ordem, minha mãe, como sempre, floresceu para produzir o bem.

– Foi a tua obediência, Filho!

– Foi a tua ordem sábia, minha mãe…

E sorriem como dois enamorados.

Mas, será possível que esta mulher seja a mãe deste Homem? Onde estão os dezesseis anos de diferença? O frescor e a graça do rosto e do corpo virginal fazem de Maria a irmã do seu Filho, que está na plenitude de sua belíssima virilidade.

– E não me perguntas por que é que tudo floresceu para produzir um bem? –pergunta-lhe Jesus, sempre sorrindo.

– Eu sei que meu Jesus não esconde nada de mim.

– Mamãe querida!

E a beija de novo…

As pessoas se conservaram longe, à distancia de alguns metros, e fazem como se não estivessem observando aquela cena. Mas eu tenho certeza que nenhum desses olhos, que parecem estar olhando para outro lado, deixe de estar olhando, de soslaio para uma cena de tão grande suavidade.

198.2

Quem está olhando, mais que todos é Jabé, que Jesus deixou, quando foi abraçar sua mãe, e que ficou sozinho porque, desde que começaram a atropelar-se com perguntas e respostas, não prestaram mais atenção no pobre menino… Ele fica olhando, olhando, depois inclina a cabeça, luta contra o choro… mas, enfim, não aguenta mais e explode em um choro, gemendo: “Mamãe! Mamãe!”

Todos, então, e, em primeiro lugar, Jesus e Maria, e todos os outros, procuram remediar o caso e saber quem é o menino. Maria de Alfeu chega e também Pedro — eles estavam juntos — e ambos dizem:

– Por que estás chorando?

Mas antes que, em seu forte pranto, Jabé possa achar fôlego para falar, Maria já correu e o tomou nos braços, dizendo:

– Sim, meu filhinho, é a mamãe! Não chores mais… desculpa, se eu não te vi antes. Aqui está, meus amigos, o meu filhinho…

Compreende-se que Jesus, naqueles poucos metros que andou até o menino, deve ter dito a Maria: “É um pobre orfãozinho que Eu tomei comigo.” E todo o resto Maria compreendeu logo.

O menino ainda está chorando, mas agora menos inconsolável e, visto que Maria o tem nos braços e o beija, acaba até por sorrir, com o seu rostinho banhado pelo pranto.

– Vem cá, que eu te enxugo todas estas lágrimas. Não deves chorar mais. Dá-me um beijo…

Jabé… não desejava senão aquilo, e, depois de receber tantas carícias até de homens barbudos, ele se aconchega agora no calor do afeto, beijando a face lisa de Maria.

198.3

Mas Jesus saiu procurando e já avistou João de Endor, e vai buscá-lo lá em seu cantinho afastado. E, enquanto todos os outros apóstolos saúdam Maria, Jesus chega até perto dela, segurando pela mão João de Endor, e diz:

– Eis, mãe, o outro discípulo. Estes dois filhos, foi a tua ordem que os conseguiu.

– A tua obediência, meu Filho –repete Maria, e depois cumprimenta o homem, dizendo–: A paz esteja contigo.

O homem, o rústico e inquieto homem de Endor, que já mudou tanto, desde aquela manhã em que um capricho de Iscariotes levou Jesus até Endor, acaba agora de despojar-se do seu passado, enquanto se inclina para Maria. Eu acho que é assim, de tal forma o rosto que se levanta, depois daquela profunda inclinação, aparece sereno, verdadeiramente “pacificado.”

198.4

Põem-se todos a caminho da casa de Simão. Maria, com Jabé nos braços, Jesus, segurando pela mão João de Endor, e depois, ao redor e atrás ,estão Lázaro e Marta, os apóstolos com Maximino, Isaac, José e Timoneu.

Entram na casa, em cuja soleira o velho servo de Simão venera a Jesus e a seu patrão.

– A paz esteja contigo José, e com esta casa –diz Jesus, levantando a mão para abençoar, depois de tê-la posto sobre a cabeça já branca do velho servo.

Lázaro e Marta, depois da primeira alegria, ficaram um pouco tristes e Jesus pergunta:

– Por que, amigos?

– Porque Tu não estás conosco e porque todos vêm a Ti, menos a alma que nós quereríamos que fosse tua.

– Animai-vos com paciência, na esperança e na oração. Além disso, Eu estou convosco. Esta casa!… Esta casa não é mais do que o ninho, ao qual o Filho do Homem voará todos os dias para os queridos amigos, que estão tão perto no espaço, mas que, considerando-se sobrenaturalmente o assunto, estão infinitamente mais perto no amor. Vós estais no meu coração, e Eu estou no vosso. Pode-se estar mais perto do que estando assim? Mas, nesta tarde, estaremos juntos. Vinde sentar-vos à minha mesa.

– Oh! pobre de mim! E eu fico aqui me balançando. Vem cá, Salomé. Temos muito que fazer!

O grito de Maria de Alfeu faz todos sorrirem, enquanto a boa parenta de Jesus se levanta prontamente para ir ao seu trabalho.

Mas Marta logo lhe diz:

– Não te preocupes, Maria, pela comida. Eu vou dar ordens. Tu, prepara somente as mesas. Eu vou te mandar cadeiras suficientes e tudo mais que for preciso. Vem Marcela. Eu volto logo, Mestre.

198.5

– Eu vi José de Arimateia, Lázaro. Segunda-feira ele vai vir aqui com uns amigos.

– Oh! Então, naquele dia serás meu!

– Sim. Ele vem para estarmos juntos, mas também para combinarmos uma cerimônia, que diz respeito a Jabé. João: leva o menino para o terraço. Ele vai se divertir.

João de Zebedeu, sempre obediente, levanta-se logo do seu lugar e, pouco depois, já se ouve a voz do menino e o barulho de seus pezinhos, no terraço que está ao redor da casa.

– O menino –explica Jesus à mãe, aos amigos, às mulheres, entre as quais está Marta, que andou voando para não perder nem um minuto da alegria de estar perto do Mestre–, é neto de um dos camponeses de Doras. Eu passei por Esdrelon…

– É verdade que os campos estão uma desolação, e que ele os quer vender?

– Que estão uma desolação, estão. Quanto à venda, não estou sabendo. Um dos camponeses de Jocanã me falou do assunto. Mas não sei se é coisa certa.

– Se ele os vendesse… eu os compraria de boa vontade, para ter neles um abrigo para Ti, também dentro daquele ninho de serpentes.

– Não sei se conseguirás. Jocanã está disposto a ficar com eles.

– Isso veremos… Mas, continua o que ias dizendo. De que camponeses se trata? Os que tinha antes, ele os esparramou todos.

– É verdade. Os de agora estão vindo de suas terras na Judeia, pelo menos o velho, que é parente do menino. O menino era mantido no bosque, como um animal selvagem, a fim de que Doras não o visse… e esteve lá desde o inverno…

– Oh! pobre menino! Mas por quê?

As mulheres estão todas comovidas.

– Porque o pai e a mãe dele ficaram sepultados pela avalancha nas vizinhanças de Emaús. Todos: o pai, a mãe e os irmãozinhos. Ele ficou vivo, porque não estava em casa. Levaram-no para a casa do avô. Mas, que podia fazer um camponês de Doras? Tu, Isaac, falaste de Mim, como de um salvador, também para este caso.

– Eu fiz mal, Senhor? –pergunta humildemente Isaac.

– Fizeste bem. Deus assim queria. O velho me deu o menino, que está até para tornar-se maior de idade por estes dias.

– Oh! pobrezinho! Tão pequeno, com doze anos?! O meu Judas tinha quase o dobro de altura, quando estava nesta idade… E Jesus? Que flor! –diz Maria de Alfeu.

E Salomé:

– Meus filhos também eram bem mais fortes!

Marta murmura:

– De fato, é bem pequenino! Eu pensava que nem tivesse ainda dez anos.

– É isso. A fome é bruta. E ele deve ter passado fome desde que nasceu. Agora, então… Que é que o velho lhe iria dar, se lá todos estão morrendo de fome? –diz Pedro.

– Sim, ele sofreu muito. Mas ele é muito bom e inteligente. Eu o tomei para consolar o velho e o menino.

198.6

– Tu o vais adotar? –pergunta Lázaro.

– Não. Não posso.

– Então, eu fico com ele.

Pedro vê desvanecer-se sua esperança, e solta um bem claro e verdadeiro gemido:

– Senhor! Tudo para ele?

Jesus sorri:

– Lázaro, tu já fizeste tanto e Eu te sou agradecido por isso. Mas este menino não o posso confiar a ti. É o “nosso menino.” De todos nós. É a alegria dos apóstolos e do Mestre. Além disso, aqui ele cresceria no meio da riqueza. E Eu lhe quero dar de presente o meu manto real: “a honesta pobreza.” Aquela que o Filho do homem quis para Si, para poder aproximar-se de todas as grandes misérias, sem humilhar ninguém. Tu tiveste, há pouco tempo, um presente meu…

– Ah! sim. O velho patriarca e sua filha. Muito ativa a mulher e o velho é muito bom.

– Onde estão eles agora? Quero dizer: em que lugar?

– Estão aqui, em Betânia. Achas que eu iria afastar de mim a bênção que me enviaste? A mulher trabalha com o linho. O trabalho com ele exige mãos ligeiras e experientes. O velho, visto que ele só quer mesmo é trabalhar, eu o mandei tomar conta das colmeias. Ontem — não é verdade, mana? — ele estava com a barba toda cor de ouro. As abelhas, tendo enxameado, tinham-se agarrado todas àquele barba e ele estava conversando com elas, como com umas filhas. Ele está feliz.

– Eu faço ideia! Que tu sejas bendito! –diz Jesus.

– Obrigado, Mestre.

198.7

Mas aquele menino vai fazer-te gastar! Tu me permitirás, pelo menos…

– Eu estou pensando em sua veste para a festa –grita Pedro.

Todos se riem da impulsividade do grito.

– Está bem. Mas haverá necessidade também de outras roupas. Simão, sê bom. Eu também não tenho filhos. Deixa que eu e Marta nos consolemos, tratando das pequenas vestes a serem feitas.

Pedro, tendo sido assim rogado, de repente se comove, e diz:

– As vestes… sim. Mas a veste para quarta-feira, dela eu trato. O Mestre já me prometeu, e até disse que eu devo ir com a mãe comprá-la amanhã.

Pedro diz tudo isso por medo de que haja alguma mudança em seu desfavor.

Jesus sorri, e diz:

– Sim, mãe. Eu te peço que vás amanhã com Simão. Senão, este homem acaba morrendo de aflição. Tu o aconselharás na escolha.

– Eu disse: veste vermelha e cinta verde. Ficará muito bem. Pelo menos melhor do que a cor que ele tem agora.

– Vermelho ficará muito bem. Também Jesus estava vestido de vermelho. Mas eu diria que ficaria melhor sobre o vermelho uma cinta vermelha, ou pelo menos, bordada em vermelho –diz Maria com doçura.

– Eu dizia assim, porque estou vendo como Judas, que é moreno, fica muito bem com aquelas fitas verdes sobre o hábito vermelho…

– Mas elas não são verdes, amigo –diz, rindo, Iscariotes.

– Não? Então, de que cor são?

– Esta cor é chamada “veio de ágata.”

– E, que queres que eu entenda disso?! A mim me pareceu verde. É a cor que eu vejo nas folhas!

Maria intervém com benignidade:

– Simão tem razão. É exatamente a cor que as folhas tomam, com as primeiras chuvas de Tisri…

– Aí está! E, assim como as folhas são verdes, eu dizia que era verde –termina, contente, Pedro.

A Virgem Suave fez haver paz e alegria até numa pequena coisa como esta.

198.8

– Quereis chamar o pequeno? –pede Maria.

E o menino chega logo, junto com João.

– Como te chamas? –pergunta Maria, acariciando-o.

– Eu sou… eu era Jabé. Mas agora estou esperando o nome…

– Tu o estás esperando?

– Sim. Jabé está querendo um nome que queira dizer que Eu o salvei. Tu procurarás esse nome, minha mãe. Um nome de amor e salvação.

Maria fica pensando… e depois diz:

– Marjiziam (Maarhgziam). Tu és a pequena gota do mar dos salvados de Jesus. Agrada-te? Assim ele faz pensar em mim e na Salvação.

– É muito bonito –diz contente o menino.

– Mas, este, não é um nome de mulher? –pergunta Bartolomeu.

– Com um L no fim, em lugar do M, quando este esboço de homem se tornar um adulto, podereis mudar o seu nome em nome de homem. Por enquanto, vai levar o nome que lhe deu a Mamãe. Está bem?

O menino diz que sim, e Maria o acaricia.

A cunhada lhe pergunta:

– Esta lã é bonita –e toca na capinha de Jabé–, mas tem uma cor! Que achas? Eu a tingirei de vermelho escuro. Ficará bem.

– Amanhã de tarde faremos isso. Porque amanhã é que ele vai receber sua veste nova. Agora não podemos tirar esta.

Marta diz:

– Virias comigo, menino? Te levo aqui perto, para ver muitas coisas e depois retornamos aqui…

Jabé não recusa. Ele nunca recusa nada… mas parece que está com um pouco de medo de ir com uma mulher quase desconhecida. Ele diz, entre tímido e delicado:

– João poderia ir comigo?

– Sem dúvida!

E lá se vão.

198.9

E, enquanto eles estão ausentes, as conversações entre os vários grupos continuam. São narrações, comentários, suspiros por causa da dureza humana.

Isaac conta tudo o que ele pôde ficar sabendo do Batista. Há quem diga que ele está em Maqueronte, e quem diga que está em Tiberíades. Os discípulos ainda não voltaram…

– Mas, eles não o haviam acompanhado?

– Sim. Mas, perto de Doco, os captores atravessaram o rio com o prisioneiro e não se sabe se depois subiram para o lago ou se desceram para Maqueronte. João, Matias e Simeão puseram-se em seu encalço, para saberem, e certamente não o abandonarão.

– E tu, Isaac, com certeza não abandonarás este novo discípulo. Por enquanto, ele está comigo. Quero que faça a Páscoa comigo.

– Eu a farei em Jerusalém, na casa da Joana. Ela me viu, e me ofereceu um quarto para mim e os meus companheiros. Todos irão este ano. E estaremos com Jônatas.

– Virão também os do Líbano?

– Também. Mas talvez não poderão vir os discípulos de João.

– Sabes que virão os de Jocanã?

– É verdade? Estarei junto à porta, junto aos sacerdotes que fazem as imolações. Eu os verei e levarei comigo.

– Podes esperá-los, lá pela última hora. Pois eles têm, um tempo contado. Mas têm o cordeiro.

– Eu também. Magnífico! Foi Lázaro quem o deu. Imolaremos este; e o outro, o deles, servir-lhes-á para a volta.

198.10

– Está entrando de novo Marta com João e o menino, vestido este com uma pequena veste de linho branco e uma sobreveste vermelha. Sobre o braço traz umo manto também vermelho.

– Estás reconhecendo isto, Lázaro? Estás vendo como tudo serve?

Os dois irmãos sorriem.

Jesus diz:

– Eu te agradeço, Marta.

– Oh! Senhor meu! Eu tenho a mania de ficar guardando tudo. Eu a herdei de minha mãe. Tenho ainda muitas vestes do meu irmão. Muito queridas, porque foram tocadas pela minha mãe. De vez em quando, eu tiro uma parte delas para algum menino. Agora, vou dá-la a Margziam. São um pouco compridas, mas podem ser encurtadas. Lázaro, quando se tornou maior de idade, não as quis mais… Um bonito capricho, próprio de crianças… e que venceu porque minha mãe adorava o seu Lázaro.

A irmã o acaricia com amor e Lázaro pega sua belíssima mão, beija-a e diz:

– E tu, não?

Sorriem um para o outro.

– Foi providencial isto –observam muitos.

– Sim, o meu capricho deu bom resultado. Talvez me será perdoado por isso.

A ceia está pronta, e cada um vai para o seu lugar…

EMF 199.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Como te chamas?

– Margziam.

– Ah! Mais esta! Bendita a minha Maria! Ela podia ter-te dado um nome mais fácil!

– É quase como o dela! –exclama Salomé.

– Sim. Mas o dela é mais simples. Ele não tem aquelas três letras no meio… Três são demais…

Iscariotes acabou de entrar, e diz:

– Ela pôs o nome certo, em seu significado, segundo a linguagem antiga, não adulterada.

– Está bem. Mas é difícil, e eu tiro uma delas, e digo Marziam. Assim é mais fácil e o mundo não virá abaixo por isso. Não é verdade, Simão?

E Pedro, que ia passando diante da janela, conversando com João de Endor, se aproxima, e diz:

– Que desejas?

– Estava dizendo que eu chamo o menino de Marziam. É mais fácil.

– Tens razão, mulher. Se a mãe me permite, eu também o chamarei assim. Mas, como estás bem! Mas, eu também, hein? Olhem só!

De fato, ele está todo escovado, barbeado nas faces, com cabelos e barba alinhados e untados, a veste não amarrotada, as sandálias parecendo novas, de tão limpas e tornadas brilhantes, não sei com quê. As mulheres o admiram, e ele se ri contente.

O menino acabou de comer, e sai para ir andar com o seu grande amigo, a quem ele dá sempre o nome de “Pai.”

Detalhe

Marie d'Alphée pergunta ao jovem Marziam como é que ele se chama.

Anotação

"Como é que te chamas?

- Marziam.

- Estou a ver! Mas a minha bem-aventurada Maria podia ter-te dado um nome mais fácil!

- É quase o dela! exclama Salomé.

- Sim, mas o dela é mais simples. Não tem aquelas três consoantes no meio... Três é demasiado...". MaRGZiam, simplificado para Marziam na nova tradução, de acordo com o que Maria de Alfeu e Pedro exprimem no resto do texto.

"Ela tomou o nome exato pelo que significava, de acordo com a língua antiga". O hebraico, sem dúvida, uma vez que o aramaico (uma língua muito próxima) se tinha tornado a língua comum no tempo de Jesus. Esta proximidade é perfeitamente captada na reflexão de Salomé. Conhecemos também esta proximidade pela oração de Jesus na cruz: Elôi, elôi, lama sabachthani, uma citação aramaica ligeiramente diferente em Mateus 27,46 e Marcos 15,34. Mas esta proximidade não exclui as diferenças, pois o capítulo 8 do livro de Neemias relata que os exilados que regressavam a Jerusalém ouviram a Torá lida "na língua antiga", mas não a compreenderam: foi preciso traduzi-la.

EMF 199.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eis Jesus que vem da casa de Lázaro, junto com o mesmo e, ao menino que vai correndo ao seu encontro, Ele diz:

– A paz esteja entre nós, Margziam. Demo-nos o beijo da paz.

Lázaro, saudado pelo menino, dá-lhe um docinho.

Todos se reúnem ao redor de Jesus. Também, Maria, revestida com uma veste de lã cor de turquesa, sobre a qual cai um amplo manto mais escuro, vem vindo sorridente em direção de seu Filho.

– Podemos ir então –diz Jesus–. Tu, Simão, com minha mãe e o menino, se é que estás mesmo disposto a gastar, ainda mais agora que Lázaro já proveu a tudo.

– Mas, sem dúvida! E depois… poderei dizer que pude, pelo menos uma vez, caminhar ao lado de tua mãe. Uma grande honra.

– Então, vai. E tu, Simão, me acompanharás. Vamos aos teus amigos leprosos…

– De verdade, Mestre? Nesse caso, se me permites, irei na frente correndo, para reuni-los. Depois me encontrarás. Já sabes onde eles estão…

– Está bem. Vai. Os outros façam o que quiserem. Estais todos livres até quarta-feira pela manhã. Nesse dia, à hora terça, estajam todos junto à Porta Dourada.

– Eu irei contigo, Mestre –diz João.

– Eu também –diz Tiago, irmão dele.

– E nós também –dizem os dois primos.

– Eu irei também –diz Mateus e, com ele, André.

– E eu? Eu gostaria de ir também… mas tenho que ir às compras, e não posso ir convosco… –diz o Pedro, na dúvida entre duas vontades.

– Pode-se fazer tudo. Primeiro, vamos aos leprosos e, nesse ínterim, minha mãe vai com o menino a uma casa amiga em Ofel. Depois nós a encontraremos, e tu vais com ela, enquanto Eu e os outros vamos à casa de Joana. Nos reuniremos no Getsêmani para a refeição, e depois, perto do pôr do sol, estaremos aqui.

– Eu, se me permites, vou à casa de alguns amigos… –diz Judas Iscariotes.

– Mas Eu já disse. Fazei o que quiserdes.

– Então, vou ver meus pais. Talvez meu pai já tenha vindo. Se tiver, eu o trarei a Ti –diz Tomé.

– E nós dois, que achas, Filipe? Poderíamos ir à casa do Samuel.

– Disseste bem –responde ele a Bartolomeu.

– E tu, João? –pergunta Jesus ao homem de Endor–. Preferes ficar aqui, para pôr em ordem os teus livros, ou ir comigo?

– Na verdade, eu gostaria de ir contigo… Meus livros… já me agradam menos. Prefiro ler em Ti, o livro vivo.

– Então, vem. Adeus, Lázaro, a…

– Mas, eu vou também. Minhas pernas estão um pouco melhor, e eu te deixarei depois da visita aos leprosos e irei esperar-te em Getsêmani.

– Vamos. A paz esteja convosco, mulheres.

Até às vizinhanças de Jerusalém, vão indo todos juntos. Depois, eles se separam, indo Iscariotes, por sua própria conta, entrando na cidade provavelmente por aquela porta que fica perto da fortaleza Antônia, enquanto que Tomé, com Filipe e Natanael, andam ainda algumas dezenas de metros com Jesus e os companheiros e depois entram na cidade pelo subúrbio de Ofel junto com Maria e o menino.

Anotação

Tu, Simão, vais acompanhar-me até aos teus amigos leprosos ... Simão, o Zelota, é um antigo leproso, curado por Jesus.

Estão todos livres até quarta-feira de manhã. À hora da Tarde, todos vão para a Porta Dourada. Esta porta dá diretamente para o Templo, vindo de Betânia e do Getsémani.

Entretanto, a minha mãe e a criança vão para uma casa amiga em Ofel. Este bairro fica a sul do Templo e, portanto, a leste da cidade.

O que achas, Filipe, de irmos os dois para casa de Samuel? Provavelmente Samuel, o noivo de Anália.

Ele deve entrar na cidade pelo portão perto da Torre Antónia. O portão de Peixes.

EMF 199.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Pedro vai indo com Maria, todo feliz. Os dois estão segurando o menino pela mão, e parecem uma pequena família feliz. Muitos se viram e olham para eles. Jesus observa como eles vão andando, e sorri.

– Simão está feliz –exclama Zelotes.

– Por que estás sorrindo, Mestre? –pergunta Tiago de Zebedeu.

– Porque naquele grupo estou vendo uma grande promessa.

– Que promessa, Irmão? Que estás vendo? –pergunta Tadeu.

– Vejo o seguinte: Que poderei ir-me embora tranquilo, quando chegar a hora. Que não preciso temer pela minha Igreja. Ela, então, ainda estará pequena, como Margziam. Mas nela estará minha mãe, segurando-a assim pela mão e a fazer para com ela as vezes da mãe, e nela estará Pedro, fazendo as vezes do Pai. Em sua mão honesta e cheia de calos, posso colocar sem preocupações, a mão da minha Igreja nascente. Ele lhe dará a força da sua proteção. E minha mãe, a força do seu amor. E a Igreja crescerá… como Margziam… Ele é verdadeiramente o menino-símbolo! Deus abençoe minha mãe, meu Pedro e o menino deles e nosso! Agora, vamos à casa de Joana…