« Entendestes? Tendes alguma outra coisa a perguntar? Não? Então podemos descansar para partirmos amanhã, rumo a Cafarnaum. Eu devo ir ainda a um lugar, antes de começar a viagem para Jerusalém, pela Páscoa.
– Passaremos ainda por Arimateia? –pergunta Iscariotes.
– Não é certo. Depende dos…
Bateram na porta com violência.
– Quem é que pode ser a uma hora destas? –diz Pedro, levantando-se para abrir.
Apresenta-se João. Agitado, empoeirado, com claros sinais de pranto no rosto.
– Tu aqui? –gritam todos–. Mas, que foi que aconteceu?
Jesus, que se levantou, diz somente:
– Onde está a mãe?
João, indo para a frente, para ajoelhar-se aos pés do seu Mestre, estendendo os braços como para pedir socorro, diz:
– A mãe está bem, mas está em pranto como eu e como muitos outros, e Te pede que não andes acompanhando o Jordão pelo nosso lado. Ela me mandou voltar por isso, porque… porque João, o teu primo, está preso…
E João chora, enquanto um grande alvoroço se forma entre os presentes.
Jesus empalidece profundamente, mas não fica agitado. Ele diz somente:
– Levanta-te, e conta.
– Eu ia descendo com a mãe e as mulheres. Também Isaac e Timoneu estavam conosco. Três mulheres e três homens. Eu obedeci à tua ordem de levar Maria a João… ah! Tu bem sabias que era o último adeus!… Que devia ser o último adeus… O temporal de alguns dias atrás nos fez parar por umas poucas horas. Mas foi o suficiente para que João não pudesse mais ver Maria… Chegamos à hora sexta e ele já havia sido preso, ao cantar do galo…
– Onde? Como? Por quem? Na sua caverna? –todos perguntam, todos querem saber.
– Ele foi traído!… Usaram do teu Nome para traí-lo!
– Que horror! Mas, quem terá sido? –gritam todos.
João estremece, ao falar em voz baixa este horror, que nem o ar devia ouvir, e confessa:
– Por um dos discípulos dele…
O alvoroço chega ao auge. Uns maldizem, outros choram, outros, apavorados, ficam como estátuas.
180.8
João se agarra ao pescoço de Jesus, e grita:
– Eu temo por Ti! Por Ti! por Ti! Os santos têm os seus traidores, que pelo ouro se vendem, pelo ouro e por medo dos grandes, por sede de um prêmio, por… por obediência a satanás. Por mil, mil coisas. Oh! Jesus, Jesus, Jesus! Que dor! Ele foi o meu primeiro mestre! Foi o meu João que me levou a Ti!
– Está bem! Está bem! Nada Me acontecerá, por enquanto.
– E depois? E depois? Eu olho para mim… olho para vocês… fico com medo de todos, e até de mim. Deverá estar entre nós o teu traidor…
– Estás doido? Achas que não o reduziríamos a pedaços? –grita Pedro.
Iscariotes:
– Oh! Doido, de verdade! Eu é que não o serei, nunca. Mas, se eu me sentisse tão fraco, a ponto de chegar a sê-lo, eu me mataria. Melhor é fazer isso, do que ser homicida de Deus.
Jesus se livra do abraço apertado de João e sacode rudemente Iscariotes, dizendo:
– Não fiques aí blasfemando! Nada te poderá enfraquecer, se tu não o quiseres. Se isso acontecesse, trata de chorar, e não cometas um delito, além do deicídio. Quem por si mesmo se exaure de Deus, torna-se fraco.
180.9
Depois, volta para João, que está chorando com a cabeça sobre a mesa, e diz:
– Fala com ordem. Eu também estou sofrendo. Ele era o meu sangue e o meu Precursor.
– Eu só pude ver os discípulos, uma parte deles, consternados e furiosos contra o traidor. Os outros foram acompanhar João até à cadeia, para estarem perto dele na hora da morte.
– Mas, ele ainda não morreu… na outra vez, ele pôde fugir –assim procura confortá-lo Zelotes, que quer muito bem a João.
– Não morreu ainda. Mas vai morrer –responde o João.
– Sim. Morrerá. Ele o sabe, como Eu sei. Desta vez nada e ninguém o salvará. Quando será, Eu não sei. Só sei que não sairá vivo das mãos de Herodes.
– Sim, de Herodes. Ele tinha ido por aquela garganta, pela qual nós passamos, quando estávamos voltando para a Galileia, que fica entre os montes Hebal e Garizim, porque assim é que lhe falou o traidor: “O Messias está à morte, tendo sido assaltado por inimigos. E Ele está querendo ver-te para te confiar um segredo.” Ele foi com o traidor e mais alguns outros. Na sombra do vale estavam os homens armados de Herodes que o prenderam. Os outros fugiram, levando a notícia aos discípulos, que ficaram perto de Enon. Eles mal tinham acabado de chegar, quando cheguei eu com a mãe. O mais horrível é que se tratava de alguém das nossas cidades, e que os fariseus de Cafarnaum foram à frente do conluio para prendê-lo. Eles tinham estado com ele, dizendo que Tu tinhas sido seu hóspede, e que Tu estavas de partida para a Judeia… Ele não teria saído do seu refúgio, a não ser por causa de Ti…
180.10
Um silêncio sepulcral cai sobre a narração de João. Jesus parece estar esgotado, com os olhos de um azul bem escuro quase embaçados. Ele está de cabeça inclinada, com a mão ainda sobre o ombro de João, e sua mão está sendo sacudida por um leve tremor. Ninguém ousa falar.
Jesus rompe o silêncio:
– Vamos para a Judeia, por um outro caminho. Amanhã preciso ir a Cafarnaum. O quanto antes. Descansai. Eu vou subir entre as oliveiras. Preciso estar só.
Sai sem dizer nada.
– Certamente Ele vai chorar –murmura Tiago de Alfeu.
– Vamos acompanhá-lo, irmão –diz Judas Tadeu.
– Não. Deixai-o chorar. Nós somente, sairemos devagar, à escuta. Temo insídias em toda parte –responde Zelotes.
– Sim. Vamos. Nós pescadores iremos pela margem. Se alguém vier do lago, nós o veremos. Vós ide pelas oliveiras. Certamente Ele está em seu lugar de costume, perto da nogueira. Quando chegar a aurora, prepararemos as barcas para partirmos rapidamente. Que raça de serpentes! Eh! Eu disse! Fala, tu, agora rapaz! A Mãe está em lugar seguro?
– Oh! Sim! Também os pastores, discípulos de João, foram com ela… não veremos mais o nosso João!
– Cala-te! Cala-te! Parece-me o canto do cuco… Um precede o outro e… e…
– Pela Arca Santa! Calai-vos! Se falais ainda de desventuras para o Mestre, eu começo por vós, fazendo-vos sentir o sabor do meu remo nos rins! –grita Pedro, enfurecido–. Vós –diz ele depois aos que vão pelas oliveiras–, apanhai bastões, galhos grossos, pois lá no lenheiro há bastante, e espalhai-vos, armados com eles. O primeiro que se aproximar de Jesus para fazer mal a Ele, seja morto.
– Discípulos! Discípulos! É preciso tomar cuidado com os novos!
–exclama Filipe.
O novo discípulo se sente ferido, e pergunta:
– Estais dúvidando de mim? Ele me escolheu e me quis.
– De ti, não. Mas daqueles que são escribas e fariseus, e dos seus adoradores. De lá virá a ruína. Podeis crer.
Saem e se espalham, uns para o lado das barcas, outros por entre as oliveiras das colinas, e tudo termina.