EMF 26.4
O Evangelho como me foi revelado
Citação
Eu sou a serva de Deus, e os servos não discutem as ordens que recebem. Eles vão executá-las, José, ainda quando os fazem chorar sangue.
Notas do tema
Conforto de leitura
EMF 26.4
Eu sou a serva de Deus, e os servos não discutem as ordens que recebem. Eles vão executá-las, José, ainda quando os fazem chorar sangue.
EMF 26.5
Tudo o que fazes está bem, José. Tu és o chefe da casa, e eu sou tua serva.
– Não. Eu sou o teu servo. Eu sou o feliz servo do meu Senhor, que está crescendo em teu ventre. Tu és bendita entre todas as mulheres de Israel.
disse Maria ao seu marido:
EMF 26.5
– (...) Como poderei eu receber a Deus em minha casa? A Deus em meus braços? Isso me fará morrer de alegria. Eu nunca poderei ousar nem tocar nele!…
– Tu bem que o poderás, José, como eu o poderei pela graça de Deus.
– Mas tu és tu. Eu sou um pobre homem, o mais pobre dos filhos de Deus!…
– Jesus vem ao mundo por nós, que somos os pobres, para fazer-nos ricos em Deus, Ele vem a nós dois, porque somos os mais pobres e reconhecemos que o somos. Alegra-te, José. A estirpe de Davi já tem o Rei que esperava, e a nossa casa se tornou mais faustosa do que o palácio de Salomão, porque aqui será o céu e nós dividiremos com Deus o segredo de paz que mais tarde os homens saberão. Crescerá entre nós, e os nossos braços serão o berço do Redentor, que irá crescendo, e as nossas fadigas dar-lhe-ão um pão… Oh! José! Ouviremos a voz de Deus, a chamar-nos de “pai” e de “mãe”! Oh!…
E Maria chora de alegria. Um choro de felicidade! Enquanto isso, José, ajoelhado agora aos pés dela, chora, com a cabeça quase escondida na ampla veste de Maria, que desce, em muitas dobras, por sobre os simples ladrilhos do pavimento do pequeno quarto.
A visão termina aqui.
interroga-se José:
EMF 26.6
Maria diz:
– Ninguém interprete de modo errado a minha palidez. Ela não era causada por nenhum medo humano. Conforme o modo de tratar dos homens, eu deveria ter de esperar o apedrejamento. Mas eu não tinha medo disso. Eu sofria por causa de José. Também o pensamento de que ele podia me acusar, não me perturbava por mim mesma. A única coisa que me desagradava era que ele pudesse, se insistisse na acusação, faltar com a caridade. Quando o vi, o sangue me foi todo ao coração, por causa disso. Era aquele um momento em que um justo poderia ter ofendido a justiça, ofendendo a caridade. E, que um justo cometesse uma falta, logo este que não cometia faltas, isso me teria causado uma dor muito grande.
EMF 26.7
Se eu não tivesse sido humilde até o extremo limite, como eu disse a José, não teria merecido trazer em mim Aquele que, para cancelar a soberba da raça, sendo Deus, Se aniquilava até à humilhação de fazer-se homem.
EMF 27.1
27.1 Vejo ainda a casa de Nazaré e o pequeno quarto onde habitualmente Maria toma as suas refeições. Agora ela está trabalhando em uma tela branca. Pára seu trabalho para acender um candeeiro, porque a tarde vem chegando, e ela não está mais enxergando bem, com essa luz esverdeada que está entrando pela porta semi-aberta, do lado do pomar. Maria também fecha a porta.
Vejo como já está volumosa de corpo. Mas ainda muito bonita. Seu passo é sempre ligeiro, e gentis são todos os seus gestos. Não há nada daquele peso próprio da mulher, que está perto de dar à luz. Só no rosto é que ela está mudada. Agora é “a mulher.” Antes, no tempo da Anunciação, era uma jovenzinha de rosto sereno e inocente: um rosto inocente de criança. Depois, na casa de Isabel, no momento do nascimento do Batista, seu rosto já se apresentava com uma graça mais madura. Agora é um rosto sereno, mas docemente majestoso, da mulher que atingiu sua plena perfeição na maternidade.
Não faz lembrar mais a sua querida “Annunziata” de Florença, pai. Quando eu era pequena, a reconhecia ali.
Agora, o rosto está mais longo e magro, e os olhos mais pensativos e maiores. Em suma, é como Maria hoje no Céu. Porque ela retomou o aspecto e a idade do momento em que nasceu o Salvador.
A sua eterna juventude, a qual não só não conheceu a corrupção mortal, mas nem mesmo murchou com o passar dos anos. O tempo não teve ação sobre ela, a nossa rainha e mãe do Senhor, que criou o tempo. Nos tormentos da Paixão (tormentos que começaram para ela muito antes, pois eu diria que começaram desde o início da evangelização de Jesus) ela apareceu envelhecida, mas esse envelhecimento era como um véu colocado pela dor sobre a sua incorruptível pessoa. De fato, desde o momento em que reencontra Jesus ressuscitado, ela se torna novamente a criatura cheia de vida e perfeita, que era antes da Paixão, como se tendo beijado as Santíssimas Chagas, tivesse bebido nelas um elixir de juventude, que anulou a ação do tempo e, mais ainda do que isto, anulou a ação da dor. Também há oito dias que eu vi a descida do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, vi Maria “extraordinariamente bela, e de repente rejuvenecida”, como escrevi, e como tinha escrito antes: “Ela parece um anjo azul.” Os anjos não conhecem velhice. São eternamente belos com eterna juventude, do eterno presente que é Deus e que eles refletem em si.
A juventude angélica de Maria, o anjo azul, se completa e atinge a idade perfeita (idade que ela levou consigo para os céus, e que conservará para sempre em seu santo corpo glorificado, quando o Espírito adorna a sua esposa, coroando-a diante dos olhos de todos) Agora ela não está mais no segredo de um quarto desconhecido pelo mundo, sendo testemunhada apenas por um arcanjo.
Quis fazer esta digressão, porque me pareceu necessária. Agora volto à descrição.
Maria, pois, tornou-se verdadeiramente “mulher”, cheia de dignidade e de graça. Até seu sorriso é diferente, por sua doçura e majestade. Como é bela!
Descrição física de Marie
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27.1 Vejo ainda a casa de Nazaré e o pequeno quarto onde habitualmente Maria toma as suas refeições. Agora ela está trabalhando em uma tela branca. Pára seu trabalho para acender um candeeiro, porque a tarde vem chegando, e ela não está mais enxergando bem, com essa luz esverdeada que está entrando pela porta semi-aberta, do lado do pomar. Maria também fecha a porta.
Vejo como já está volumosa de corpo. Mas ainda muito bonita. Seu passo é sempre ligeiro, e gentis são todos os seus gestos. Não há nada daquele peso próprio da mulher, que está perto de dar à luz. Só no rosto é que ela está mudada. Agora é “a mulher.” Antes, no tempo da Anunciação, era uma jovenzinha de rosto sereno e inocente: um rosto inocente de criança. Depois, na casa de Isabel, no momento do nascimento do Batista, seu rosto já se apresentava com uma graça mais madura. Agora é um rosto sereno, mas docemente majestoso, da mulher que atingiu sua plena perfeição na maternidade.
Não faz lembrar mais a sua querida “Annunziata” de Florença, pai. Quando eu era pequena, a reconhecia ali.
Agora, o rosto está mais longo e magro, e os olhos mais pensativos e maiores. Em suma, é como Maria hoje no Céu. Porque ela retomou o aspecto e a idade do momento em que nasceu o Salvador.
A sua eterna juventude, a qual não só não conheceu a corrupção mortal, mas nem mesmo murchou com o passar dos anos. O tempo não teve ação sobre ela, a nossa rainha e mãe do Senhor, que criou o tempo. Nos tormentos da Paixão (tormentos que começaram para ela muito antes, pois eu diria que começaram desde o início da evangelização de Jesus) ela apareceu envelhecida, mas esse envelhecimento era como um véu colocado pela dor sobre a sua incorruptível pessoa. De fato, desde o momento em que reencontra Jesus ressuscitado, ela se torna novamente a criatura cheia de vida e perfeita, que era antes da Paixão, como se tendo beijado as Santíssimas Chagas, tivesse bebido nelas um elixir de juventude, que anulou a ação do tempo e, mais ainda do que isto, anulou a ação da dor. Também há oito dias que eu vi a descida do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, vi Maria “extraordinariamente bela, e de repente rejuvenecida”, como escrevi, e como tinha escrito antes: “Ela parece um anjo azul.” Os anjos não conhecem velhice. São eternamente belos com eterna juventude, do eterno presente que é Deus e que eles refletem em si.
A juventude angélica de Maria, o anjo azul, se completa e atinge a idade perfeita (idade que ela levou consigo para os céus, e que conservará para sempre em seu santo corpo glorificado, quando o Espírito adorna a sua esposa, coroando-a diante dos olhos de todos) Agora ela não está mais no segredo de um quarto desconhecido pelo mundo, sendo testemunhada apenas por um arcanjo.
Quis fazer esta digressão, porque me pareceu necessária. Agora volto à descrição.
Maria, pois, tornou-se verdadeiramente “mulher”, cheia de dignidade e de graça. Até seu sorriso é diferente, por sua doçura e majestade. Como é bela!
27.2 José vem entrando. Parece que está vindo da cidade, porque está entrando pela porta da casa, e não da oficina. Maria levanta a cabeça e sorri para ele. José retribui ao sorriso dela. Mas parece que ele faz isso como quem está cansado, preocupado. Maria observa isso. Depois, ela se levanta para pegar o manto, que José está tirando, o dobra e o coloca sobre um baú.
José se assenta junto à mesa. Apóia um cotovelo sobre a mesa e a cabeça sobre a palma da mão, enquanto com a outra mão, alisa a barba, muito pensativo.
– Tens algum pensamento que te atormenta? –pergunta-lhe Maria–. Posso te consolar?
– Tu me consolas sempre, Maria. Mas desta vez o meu grande pensamento és… tu.
– Eu, José? O que é?
– Colocaram um edito sobre a porta da sinagoga. Está ordenado o recenseamento de todos os palestinos. E é preciso que cada um vá recensear-se em seu lugar de origem. Nós temos que ir a Belém…
27.3 – Oh! –interrompe Maria, pondo uma mão sobre o ventre.
– Isso te assusta, não é?
– Não, José. Não é isso. Penso nas Sagradas Escrituras: Raquel, mãe de Benjamim e mulher de Jacó, da qual nascerá a Estrela: o Salvador. Raquel está sepultada em Belém, da qual está escrito: “E tu, Belém Efrata, és a menor entre as terras de Judá, mas de ti sairá o Dominador.” É o Dominador que foi prometido, da estirpe de Davi. Ele vai nascer lá…
– Achas… achas que já chegou o tempo? E, então, como faremos?
José está completamente perturbado. Ele olha para Maria com dois olhos cheios de piedade.
Ela percebe isso, e sorri. Sorri, mais para si mesma, do que para ele. É um sorriso que parece dizer: “É um homem justo, sim, mas um homem. E vê as coisas como homem. Pensa como homem. Tem compaixão dele, minha alma, e guia-o para que possa ver como homem espiritual.” Mas a bondade de Maria a leva a tranqüilizá-lo. Não mente, porém afasta a sua preocupação:
– Não sei, José. O tempo está muito perto. Mas não poderia o Senhor fazê-lo chegar mais devagar, para te livrar dessa preocupação? Ele pode tudo. Não tenhas medo.
– Mas, e a viagem? Depois, pensa só na multidão que se vai aglomerar… Encontraremos bom alojamento? E poderemos fazer tudo, a tempo de voltar? E se… se tivesses de dar à luz por lá, como é que faríamos? Nós não temos casa em Belém… Não conhecemos ninguém lá…
– Não tenhas medo. Tudo irá sair bem. Deus faz que os animais encontrem uma toca para darem cria. Queres que Ele não faça que achemos um lugar para o nascimento do seu Messias? Nós confiamos Nele. Não é verdade? Sempre confiamos Nele. Quanto mais forte é a provação, mais confiamos. Como duas crianças, colocamos nossas mãos na Sua de Pai. Ele nos guia. Estamos completamente entregues a Ele. Olha como nos conduziu até aqui com amor. Um pai, por melhor que seja, não poderia tê-lo feito com maior cuidado. Somos seus filhos e seus servos. Façamos a Sua vontade. Nada de mal nos pode acontecer. Até mesmo esse edito é da vontade Dele. Pois, afinal, quem é César? Apenas um instrumento de Deus. Desde quando o Pai decidiu perdoar ao homem, Ele dispôs os fatos com antecedência, para que o seu Cristo nascesse em Belém. Esta, a menor das cidades de Judá, ainda não existia, e já a sua glória estava planejada. A fim de que essa glória se realize, e a palavra de Deus não seja desmentida, com o nascimento do Messias noutro lugar, bem longe daqui surgiu um poderoso, que nos dominou, e que agora, que o mundo está em paz, quer saber quantos são os seus súditos. Oh! O que é toda esta nossa pequena fadiga, se pensarmos na beleza deste momento de paz? Pensa, José. Um tempo em que não há ódio no mundo! Mas que pode ser ainda mais feliz, ao surgir a “Estrela”, cuja luz é divina, e cujo influxo é redenção? Oh! Não tenhas medo, José. Se as estradas são inseguras e a multidão de gente torna difícil a nossa passagem, os anjos nos defenderão, e abrirão caminho para nós. Não propriamente para nós, mas para o Rei deles. Se não encontramos abrigo, eles nos farão uma tenda com suas asas. Nada nos acontecerá de mal. Não pode acontecer: Deus está conosco.
27.4 José olha para ela, e a ouve extasiado. As rugas de sua fronte parecem diminuir, e seu sorriso volta. Ele se levanta, já sem cansaço e sem desânimo. Sorri.
– Bendita és tu, ó sol do meu espírito! Bendita és tu, que sabes ver tudo através da graça, da qual estás cheia! Então, não percamos tempo. Pois é preciso partir quanto antes e… voltar sem demora, porque aqui já está tudo pronto para o… para o…
– Para o nosso Filho, José. Isso é o que deve ser aos olhos do mundo, lembra-te bem disso! O Pai encobriu com mistério esta sua vinda, e nós não devemos levantar o véu do mistério. Jesus fará isso, quando chegar a hora…
A beleza do rosto, do olhar, da expressão e da voz de Maria, quando pronuncia o nome de “Jesus”, é indescritível. É em êxtase. E, com este êxtase, cessa a visão.
Lucas 2:1-3:
Naqueles dias, saiu um decreto do imperador Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo - este primeiro recenseamento teve lugar quando Quirino era governador da Síria. - E todos foram ser recenseados, cada um na sua própria cidade.
EMF 27.2-4
27.2 José vem entrando. Parece que está vindo da cidade, porque está entrando pela porta da casa, e não da oficina. Maria levanta a cabeça e sorri para ele. José retribui ao sorriso dela. Mas parece que ele faz isso como quem está cansado, preocupado. Maria observa isso. Depois, ela se levanta para pegar o manto, que José está tirando, o dobra e o coloca sobre um baú.
José se assenta junto à mesa. Apóia um cotovelo sobre a mesa e a cabeça sobre a palma da mão, enquanto com a outra mão, alisa a barba, muito pensativo.
– Tens algum pensamento que te atormenta? –pergunta-lhe Maria–. Posso te consolar?
– Tu me consolas sempre, Maria. Mas desta vez o meu grande pensamento és… tu.
– Eu, José? O que é?
– Colocaram um edito sobre a porta da sinagoga. Está ordenado o recenseamento de todos os palestinos. E é preciso que cada um vá recensear-se em seu lugar de origem. Nós temos que ir a Belém…
27.3 – Oh! –interrompe Maria, pondo uma mão sobre o ventre.
– Isso te assusta, não é?
– Não, José. Não é isso. Penso nas Sagradas Escrituras: Raquel, mãe de Benjamim e mulher de Jacó, da qual nascerá a Estrela: o Salvador. Raquel está sepultada em Belém, da qual está escrito: “E tu, Belém Efrata, és a menor entre as terras de Judá, mas de ti sairá o Dominador.” É o Dominador que foi prometido, da estirpe de Davi. Ele vai nascer lá…
– Achas… achas que já chegou o tempo? E, então, como faremos?
José está completamente perturbado. Ele olha para Maria com dois olhos cheios de piedade.
Ela percebe isso, e sorri. Sorri, mais para si mesma, do que para ele. É um sorriso que parece dizer: “É um homem justo, sim, mas um homem. E vê as coisas como homem. Pensa como homem. Tem compaixão dele, minha alma, e guia-o para que possa ver como homem espiritual.” Mas a bondade de Maria a leva a tranqüilizá-lo. Não mente, porém afasta a sua preocupação:
– Não sei, José. O tempo está muito perto. Mas não poderia o Senhor fazê-lo chegar mais devagar, para te livrar dessa preocupação? Ele pode tudo. Não tenhas medo.
– Mas, e a viagem? Depois, pensa só na multidão que se vai aglomerar… Encontraremos bom alojamento? E poderemos fazer tudo, a tempo de voltar? E se… se tivesses de dar à luz por lá, como é que faríamos? Nós não temos casa em Belém… Não conhecemos ninguém lá…
– Não tenhas medo. Tudo irá sair bem. Deus faz que os animais encontrem uma toca para darem cria. Queres que Ele não faça que achemos um lugar para o nascimento do seu Messias? Nós confiamos Nele. Não é verdade? Sempre confiamos Nele. Quanto mais forte é a provação, mais confiamos. Como duas crianças, colocamos nossas mãos na Sua de Pai. Ele nos guia. Estamos completamente entregues a Ele. Olha como nos conduziu até aqui com amor. Um pai, por melhor que seja, não poderia tê-lo feito com maior cuidado. Somos seus filhos e seus servos. Façamos a Sua vontade. Nada de mal nos pode acontecer. Até mesmo esse edito é da vontade Dele. Pois, afinal, quem é César? Apenas um instrumento de Deus. Desde quando o Pai decidiu perdoar ao homem, Ele dispôs os fatos com antecedência, para que o seu Cristo nascesse em Belém. Esta, a menor das cidades de Judá, ainda não existia, e já a sua glória estava planejada. A fim de que essa glória se realize, e a palavra de Deus não seja desmentida, com o nascimento do Messias noutro lugar, bem longe daqui surgiu um poderoso, que nos dominou, e que agora, que o mundo está em paz, quer saber quantos são os seus súditos. Oh! O que é toda esta nossa pequena fadiga, se pensarmos na beleza deste momento de paz? Pensa, José. Um tempo em que não há ódio no mundo! Mas que pode ser ainda mais feliz, ao surgir a “Estrela”, cuja luz é divina, e cujo influxo é redenção? Oh! Não tenhas medo, José. Se as estradas são inseguras e a multidão de gente torna difícil a nossa passagem, os anjos nos defenderão, e abrirão caminho para nós. Não propriamente para nós, mas para o Rei deles. Se não encontramos abrigo, eles nos farão uma tenda com suas asas. Nada nos acontecerá de mal. Não pode acontecer: Deus está conosco.
27.4 José olha para ela, e a ouve extasiado. As rugas de sua fronte parecem diminuir, e seu sorriso volta. Ele se levanta, já sem cansaço e sem desânimo. Sorri.
– Bendita és tu, ó sol do meu espírito! Bendita és tu, que sabes ver tudo através da graça, da qual estás cheia! Então, não percamos tempo. Pois é preciso partir quanto antes e… voltar sem demora, porque aqui já está tudo pronto para o… para o…
– Para o nosso Filho, José. Isso é o que deve ser aos olhos do mundo, lembra-te bem disso! O Pai encobriu com mistério esta sua vinda, e nós não devemos levantar o véu do mistério. Jesus fará isso, quando chegar a hora…
A beleza do rosto, do olhar, da expressão e da voz de Maria, quando pronuncia o nome de “Jesus”, é indescritível. É em êxtase. E, com este êxtase, cessa a visão.
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Amar não é satisfazer-nos a nós mesmos, buscando a sensualidade e outras vantagens. Amar é contentar a quem amamos, acima daquelas coisas dos sentidos, que gostaríamos de ter e usar, dando ao espírito da pessoa que amamos aquela ajuda de que ela tem necessidade, a fim de que sempre possa ter as suas asas abertas, para voar pelos céus da esperança e da paz.
EMF 28.1-6
28.1 Vejo uma estrada mestra. Nela há muita gente. Também burrinhos que vão carregando utensílios domésticos e pessoas. Burrinhos que voltam. As pessoas esporam suas cavalgaduras, e quem vai a pé anda depressa, porque está fazendo frio.
O ar está limpo e seco, e o céu sereno, mas no ar há um ventinho cortante, característico do pleno inverno. O campo, depois das colheitas, parece mais vasto, os pastos estão com a erva baixa e tostada pelos ventos do inverno; por eles as ovelhas procuram um pouco de alimento e buscam os raios do sol surgindo, pouco a pouco. Elas estão muito juntas umas das outras, porque também estão com frio e balem, levantando o focinho e olhando para o sol, como se lhe quisessem dizer: “Vem logo, que está fazendo frio!” O terreno é cheio de ondulações, que vão se tornando cada vez mais nítidas. Na verdade, este é um lugar de colinas. Aqui há vales cheios de árvores e de encostas, há pequenos vales e morros. A estrada passa pelo meio, e se dirige para sudeste.
Maria está sobre um burrinho cinzento. Está toda enrolada no pesado manto. Na dianteira da sela está aquele instrumento, já visto na viagem para Hebron, e por cima, está o baú com as coisas mais essenciais.
José vai caminhando, ao lado do burrinho de Maria, segurando a rédea.
– Estás cansada? –pergunta ele de vez em quando.
Maria olha para ele, sorrindo, e diz:
– Não.
Mas, na terceira vez, ela acrescenta:
– Tu, sim, que estás caminhando, é que deves estar cansado.
– Oh! Eu? Para mim isso não é nada. O que penso é que se eu tivesse achado um outro jumento, podias estar com mais comodidade e andar um pouco mais. Mas eu não achei. Agora todos estão precisando de cavalgaduras. Tem coragem! Daqui a pouco, estaremos em Belém. Atrás daquele monte está Efrata.
Calam-se. A virgem, quando não está falando, parece recolher-se em uma oração interior. Sorri, com um sorriso manso, por algum pensamento passageiro e, olhando as pessoas, parece não as estar vendo, isto é, não as distingue, se trata-se de um homem, uma mulher, um velho, um pastor, um rico ou um pobre. O que ela vê são só pessoas.
– Estás com frio? –pergunta José, porque o vento começa a soprar.
– Não, obrigada.
Mas José não se fia no que ela diz. Toca com as mãos os pés dela, que vão pendurados aos lados do burrinho, calçados com sandálias, e que mal se vêem apontar por debaixo da longa veste. A José eles devem estar parecendo frios, porque ele sacode a cabeça, pega numa coberta que ia levando a tiracolo e com ela envolve as pernas de Maria. Ele a estende também sobre o regaço, de maneira que as mãos dela fiquem bem quentes por debaixo da coberta e do manto.
28.2 Encontram-se com um pastor, que está atravessando a estrada com o seu rebanho, passando do pasto da direita para a esquerda. José se inclina para dizer-lhe alguma coisa. O pastor responde que sim. José pára o burrinho, e depois o vai puxando pelo pasto, atrás do rebanho. O pastor apanha uma tosca escudela de um alforje e, depois de tirar o leite de uma ovelha grande, que está com as tetas cheias, o dá na escudela a José, que o oferece a Maria.
– Deus vos abençoe aos dois –diz Maria–. A ti pelo teu amor, e a ti pela tua bondade. Eu rezarei por ti.
– Estais vindo de longe?
– De Nazaré –responde José.
– E para onde ides?
– Para Belém.
– É uma viagem longa para uma mulher nesse estado. É tua esposa?
– É minha esposa.
– Já têm lugar onde ficar em Belém?
– Não.
– A coisa está feia! Belém está cheia de gente vinda de toda parte, para o recenseamento ou de passagem para outro lugar. Não sei se encontrareis alojamento. Tens conhecimento do lugar?
– Não muito.
– Pois bem… eu vou te ensinar… por causa dela (e acena para Maria). Procura o albergue. Ele deve estar cheio. Mas eu falo nele somente para que vos sirva como ponto de referência. Ele fica numa praça, a maior praça da cidade. Vai-se até lá por esta estrada mestra. Não há engano. O albergue tem uma fonte na frente, e é largo e baixo, com um grande portão. Ele estará cheio. Mas, se não encontrardes lugar no albergue nem nas casas, dai a volta por detrás do albergue, para o rumo do campo. No monte há estrebarias, que às vezes servem para os mercadores que vão a Jerusalém e deixam lá seus animais, quando não acham lugar no albergue. São estrebarias, entendeis? Estão no monte e são úmidas, frias e sem porta. Mas sempre são um refúgio, pois a mulher não pode ficar pela estrada. Talvez lá encontreis um lugar… e feno para se poder dormir e também para o jumento. E que Deus vos acompanhe.
– E Deus te dê alegria –responde Maria.
José por sua vez responde:
– A paz esteja contigo.
28.3 Retomam a estrada. Um vale bem maior se faz ver do alto do morro que acabam de galgar. No vale, para cima e para baixo, pelos declives suaves que o circundam, aparecem casas e mais casas. É Belém.
– Eis-nos, afinal, na terra de Davi, Maria. Agora descansarás, pois me pareces tão cansada…
– Não. Eu pensava… estou pensando…
Maria agarra a mão de José e lhe diz com um alegre sorriso:
– Acho que o tempo chegou mesmo!
– Deus de misericórdia! Como vamos fazer?
– Não tenhas medo, José. Procura ficar firme. Não vês como eu estou calma?
– Mas estás sofrendo muito.
– Oh! não. Estou cheia de alegria. Uma alegria tal, e tão forte, tão bela, tão incontrolável, que o meu coração está batendo forte, e me está dizendo: “Ele está nascendo! Ele está nascendo!” A cada batida, ele diz isso. É o meu Menino, que está batendo à porta do meu coração, e está dizendo: “mamãe, eu estou aqui e vim te dar o beijo de Deus.” Oh! Que alegria meu José!
Mas José não se sente invadido por aquela alegria dela. Ele está pensando na necessidade urgente de encontrar um abrigo, e aperta o passo. De porta em porta, vai pedindo um abrigo. Nada. Tudo ocupado. Chegam ao albergue. Está cheio, até por baixo dos pórticos rústicos, que circundam o grande pátio interno, com gente que acampou por ali.
José deixa Maria sobre o burrinho, dentro do pátio, e sai procurando pelas outras casas. Volta desanimado. Não se acha nada. O rápido escurecer deste tempo de inverno já começa a se estender sobre a terra. José vai suplicar ao albergador. Suplica aos viajantes, e lhes diz que eles são homens e estão com saúde, e que aqui há uma mulher que está para dar à luz um filho, e que eles tenham piedade. Mas nada.
Neste lugar está também um rico fariseu, que olha para José e Maria com um manifesto desprezo e, quando Maria se aproxima dele, ele se desvia dela, como se estivesse chegando perto uma leprosa. José olha para ele, e um rubor de desdém lhe sobe ao rosto. Maria pousa a mão sobre o pulso de José, para acalmá-lo, e lhe diz:
– Não insistas! Vamos. Deus providenciará.
28.4 Saem e vão acompanhando o muro do albergue. Dobram para uma estradinha encaixada entre o muro e uns casebres. Andam por detrás do albergue. Procuram. Acham umas grutas parecidas com umas adegas mais que uns estábulos de tão baixas e úmidas que são. As mais bonitas já estão ocupadas. José sente-se prostrado.
– Escuta, ó galileu! –grita-lhe um velho que vem vindo por detrás–. Lá no fundo, por baixo daquele desmoronamento, existe uma toca. Quem sabe ninguém a tenha ocupado ainda.
Eles se apressam para chegarem àquela “toca.” É mesmo uma toca. Por entre os escombros da construção em ruína, há uma abertura depois da qual aparece uma gruta, que nada mais é do que uma escavação feita no monte. Parecem ser os fundamentos de antiga construção que ficaram servindo de teto aos entulhos escorados por troncos de árvores.
Para ver melhor, pois no lugar há muito pouca luz, José pega a isca e o fuzil e acende uma lampadinha, que ele tira do alforje, trazido por ele a tiracolo. Entra e é saudado por um mugido.
– Vem, Maria. Está vazia. Aí dentro há somente um boi.
José sorri e diz:
– É melhor do que nada.
28.5 Maria apeia do burrinho e entra.
José pendurou a lampadinha em um prego fincado em um dos troncos que estão ali como escoras. Por todos os lados a gruta está cheia de teias de aranha. O solo é de terra batida e todo cheio de buracos, de pedrinhas, de detritos, excrementos e coberto com fragmentos de palha. Lá no fundo, o boi se vira e fica olhando com seus olhos mansos, enquanto o feno está pendente de seus beiços. Dentro da gruta há também um assento rústico e duas pedras a um canto, perto de uma fresta. A cor enegrecida daquele canto nos diz que lá dentro se costuma acender fogo.
Maria se aproxima do boi. Ela está com frio. Põe as mãos no pescoço do boi, para sentir a temperatura. O boi muge, e deixa-se ser tocado. Parece estar compreendendo. Mesmo quando José o afasta dali para tirar mais feno da manjedoura e fazer uma cama para Maria. A manjedoura é dupla isto é, onde o boi come e, mais acima, numa espécie de prateleira está outro feno de reserva. José apanha um punhado deste feno. O boi o deixa fazer tudo isso. José arranja um lugar também para o burrinho que, cansado e com fome, logo se põe a comer.
José descobre por ali também um cântaro emborcado e todo amassado. Sai com este cântaro porque lá fora já descobriu um riacho. Volta trazendo água para o burrinho. Depois, apanha um feixe de ramos que está posto num canto, procura varrer um pouco o chão. Em seguida, estende o feno. Faz com ele uma enxerga, perto do boi, no canto que está mais enxuto e resguardado. Mas percebe que o feno está úmido, e dá um suspiro. Passa, então, a procurar acender o fogo e, com uma paciência de Jó, vai enxugando o feno, aos punhados, conservando-o perto da fonte de calor.
Maria, sentada no banco, está cansada e olha sorrindo. Está tudo pronto. Maria se acomoda melhor sobre o feno fofo, com as costas apoiadas em um tronco, José completa… as alfaias, estendendo o seu manto como uma cortina sobre a abertura que serve de porta. É um resguardo muito precário. Depois, oferece pão e queijo à virgem, e lhe dá água de um cantil para beber.
– Dorme agora –lhe diz ele–. Eu ficarei acordado para não deixar o fogo apagar. Por sorte, temos ainda lenha; esperemos que ela dure e seja boa para o fogo. Assim poderemos economizar azeite para a candeia.
Maria se estende, obediente. José a cobre com o manto da própria Maria e com a coberta que ele havia posto sobre os pés dela.
– Mas tu… ficarás com frio, tu.
– Não, Maria. Eu estou perto do fogo. Procura descansar. Amanhã tudo será melhor.
Maria fecha os olhos sem insistir. José se acomoda em seu canto, sobre o banco, com uns gravetos ao lado. São poucos. Não creio que durem para muito tempo.
Na gruta estão colocados assim: Maria à direita, com as costas para a porta, meio escondida pelo tronco e pelo corpo do boi, que está deitado sobre um estrado de palha. José está à esquerda, virado para a porta, portanto em diagonal, tendo o rosto voltado para o fogo, e as costas para Maria. Mas ele, de vez em quando, se vira para olhar para ela, e a vê quieta, como se estivesse dormindo. José vai quebrando devagar os seus gravetos, jogando, um por um, sobre o pequeno fogo, a fim de que não se apague, para que produza alguma luz e para que a lenha dure mais. Não se vê mais do que uma claridade, ora mais viva, ora mais fraca, vinda do fogo, que está se apagando, e naquela penumbra, só se destaca mesmo a brancura do boi, do rosto e das mãos de José. Tudo o mais é apenas uma massa confusa dentro da pesada penumbra.
28.6 – Não há ditado –diz Maria–. A visão fala por si mesma. A vós compete compreender a lição de caridade, humildade e pureza que emana dela. Descansa. Descansa velando, como eu velava, esperando Jesus. Ele virá trazer-te a Sua paz.
Lucas 2:4-5:
José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia, para a cidade de David, chamada Belém. Porque ele era da casa e da linhagem de David. Foi registar-se com Maria, que lhe tinha sido dada em casamento e que estava grávida.