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Notas do tema

A vida pública de Jesus Cristo na EMV

Página 53 de 66

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EMF 178.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A margem já está à vista, quando, depois de muito trabalho, um homem de meia idade e de condição civil consegue aproximar-se do Mestre e, para lhe chamar a atenção, toca em seu ombro.

Jesus se vira e para, dizendo:

– Que queres?

– Eu sou escriba. Mas o que há nas tuas palavras não pode ser comparado a nada de tudo o que há em nossos preceitos. Eu me senti conquistado por elas. Mestre, eu não Te deixo mais. Seguirte-ei para onde fores. Qual é o teu caminho?

– O caminho do Céu.

– Não é desse caminho que eu estou falando. O que estou perguntando é: Para onde vais? Depois destas, quais são as tuas casas, para que eupossa encontrar-Te sempre?

– As raposas têm suas tocas e os pássaros do ar os seus ninhos. Mas o Filho do Homem não tem onde possa pousar a cabeça. A minha casa é o mundo, por toda parte onde houver espíritos necessitados de instrução, ou misérias para aliviar, ou pecadores para redimir.

– Por toda parte, então?

– É como disseste. Poderias tu, doutor de Israel, fazer o que por amor de Mim estão fazendo estes pequeninos? Aqui o que se exige é sacrifício e obediência, caridade para com todos, espírito de adaptação em tudo e com todos. Porque a condescendência atrai. Porque, quem deseja curar, precisa inclinar-se sobre cada ferida. Depois teremos a pureza do Céu. Mas aqui ainda estamos na lama, e é preciso tirar da lama, na qual estamos pisando, as vítimas que estão submersas. Não cinjas as vestes, nem encurte-as porque em algum lugar a lama está mais funda. A pureza deve estar em nós. Estejamos saturados dela, de tal modo que em nós nada mais possa entrar. Podes fazer tudo isso?

– Pelo menos, deixa-me experimentar.

– Experimenta. Eu rezarei para que sejas capaz.

Anotação

Evangelho de Mateus 8, 18-22

Mt 8,18-22 : Quando Jesus viu uma multidão à sua volta, deu ordem para passar para o outro lado. Aproximou-se dele um escriba e disse: "Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores. Mas Jesus disse-lhe: "As raposas têm covis, as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.

Evangelho de Lucas 9, 57-58

Lc 9, 57-58 : No caminho, um homem disse a Jesus: "Seguir-te-ei para onde quer que fores". Jesus respondeu-lhe: "As raposas têm covis e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.

EMF 178.3.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus põe-se de novo em movimento e, atraído por dois olhos estãovoltados para Ele, diz a um jovem alto e robusto, que tinha parado para deixar passar o cortejo, mas parece estar se dirigindo para outra parte:

– Segue-me.

O jovem leva um susto, muda de cor, pisca os olhos como ofuscado por uma luz e depois abre a boca para falar, não encontrando-o logo resposta para dar. Enfim diz:

– Eu Te seguirei. Mas meu pai morreu em Corozaim, e preciso ir sepultá-lo. Deixa que eu vá fazer isso e depois virei.

– Segue-me. Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu já sentes um forte desejo da Vida. Há tempo que tens esse desejo. Não fiques chorando, por ter a Vida criado um vácuo ao redor de ti, a fim de ter-te como seu discípulo. As mutilações do afeto são raízes das asas que nascem no homem, que se transformou em servo da Verdade. Deixa que a corrupção siga os seus rumos. Levanta-te para o Reino do que é incorrupto. Nele encontrarás também a pérola incorruptível do teu pai. Deus chama e passa. Amanhã não encontrarás mais o coração que tens hoje e o convite de Deus. Vem. Vai anunciar o Reino de Deus.

O homem, encostado a um pequeno muro, está com os braços caídos, e neles estão penduradas algumas bolsas, cheias de unguentos e de tiras; sua cabeça está inclinada, mergulhada na dúvida entre dois amores: o devido a Deus e o devido a seu pai.

Jesus fica esperando e olhando para ele, depois segura uma criança e a aperta ao coração, dizendo:

– Fala comigo: “Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco a tua luz para aqueles que choram nas névoas da vida. Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco a tua força para quem é como uma criança, necessitada de ser carregada. Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco o teu amor para que se esqueçam de tudo que não sejas Tu, todos aqueles que em Ti encontrariam, todo o seu bem aqui e no Céu, mas não sabem crer.”

E o menino, um inocente de quatro anos, repete com sua vozinha, as palavras santas, com suas mãozinhas juntas e postas em posição de oração pela mão direita de Jesus, que as segura pelo pulso gorducho como talos de flores.

O homem, então se decide. Dá a um companheiro os seus embrulhos e vai até Jesus, que põe no chão o menino, abraça depois o jovem, fazendo isso para animá-lo e ajudá-lo no esforço que está fazendo.

(...) Chegaram à beira do lago. Jesus sobe para a barca de Pedro, ao qual, em voz baixa, diz algumas palavras. Vejo que Jesus está sorrindo e Pedro fica muito admirado. Mas não diz nada. Sobe também para a barca o homem que deixou de ir sepultar o seu pai para acompanhar a Jesus.

EMF 179.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Pedro confessa, então, o seu grande desgosto:

– É que eu sou um grande ignorante, um grande distraído. Quando Tu falas em uma praça, em uma montanha, no meio daquele povão todo, eu não sei por que, entendo tudo, mas depois não me lembro de mais nada. Eu disse isso também aos meus companheiros e eles me deram razão. Os outros, quero dizer, as pessoas do povo que Te ouvem, Te entendem e se recordam do que disseste. Quantas vezes temos ouvido alguém dizer: “Eu não fiz mais isto, porque Tu disseste que não era para fazer” ou então: “Eu vim, porque uma vez Te ouvi dizer tal coisa, e aquilo me despertou a consciência.” Mas nós… Não sei não! É como a água corrente, que passa, e não para. As margens não a detêm mais, porque a água passou. Vem outra água, sim, sempre outra, e sempre tanta. Mas passa, passa, passa… E eu fico pensando, com terror, que, se for como Tu dizes, isto é, chegará o momento em que Tu não estarás mais aqui para fazeres como o rio e… e eu… Que poderei dar eu a quem tiver sede, se não guardo nem uma gota do muito que me dás?

Os outros também apoiam as lamentações de Pedro, queixando-se de que não retêm mais nada de tudo o que ouviram, quando eles gostariam tanto de lembraremse de tudo, para poderem responder as muitas perguntas que lhes são feitas.

Jesus apenas sorri e responde:

– Mas não é assim que Me parece. Pois o povo está muito contente também com vocês…

– Oh! Sim! Pelo que nós fazemos! Abrir-te caminho, dar cotoveladas para isso, transportar os doentes, recolher as esmolas, e dizer: “Sim, o Mestre é aquele!” Grande coisa, na verdade!

– Não te faças mais feio do que és, Simão.

– Eu não me faço mais feio. Eu me conheço.

– É esta a mais difícil das sabedorias. Mas Eu quero tirar de ti esse grande medo. Quando Eu tiver falado, e vós não tiverdes podido compreender tudo, e reter tudo, perguntai, sem medo de me aborrecerdes ou importunardes. Temos sempre nossas horas a sós. Nessas horas, abri-me os vossos corações. Eu dou tantas coisas a tanta gente. O que Eu não haveria de dar a vós, que Eu amo de tal modo, que nem Deus poderia amar mais? Tu falaste das ondas que vão e das quais nada mais fica na praia. Chegará o dia no qual perceberás que cada uma daquelas ondas deixou na beira da praia uma semente e que cada semente se tornou uma árvore. Tu terás diante de ti flores e plantas para todos os casos, e ficarás espantado contigo mesmo, e dirás: “Mas, que foi que o Senhor me fez?”, porque, quando chegar esse tempo, já estarás livre da escravidão do pecado, e as tuas virtudes atuais terão se aperfeiçoado até atingirem uma grande altura.

– Tu o estás dizendo, Senhor, e eu fico tranquilo com estas tuas palavras.

EMF 179.5-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Ouvi, e talvez podereis compreender melhor como obter frutos diferentes de uma mesma obra.

Um semeador saiu para semear. Eram muitos campos e de diferentes qualidades. Ele tinha herdado de seu pai alguns onde havia deixado proliferar plantas espinhosas. Outros haviam sido adquiridos por ele, que os comprara do jeito em que estavam, de um dono negligente, deixando tais como eram. Outros ainda, haviam sido entrecortados por estradas, pois o homem era comodista e não queria andar muito para ir de um lugar para outro. Enfim, havia alguns, os mais próximos da casa, dos quais ele tomava cuidado, só para que dessem um aspecto agradável à frente da casa. Estes estavam limpos de pedregulhos, de espinhos, de grama e assim por diante.

O homem, pois, tomou o seu saco de grãos para ir semear grãos da melhor qualidade, e começou a semeadura. A semente caiu no terreno bom, fofo, arado, limpo e adubado, próximo à casa. Caiu também nos campos entrecortados por caminhos e trilhas, além de cortá-los, levava a sujeira da poeira árida na terra fértil. Outras sementes caíram sobre os campos, onde a inépcia do homem tinha deixado que crescessem plantas espinhosas. Agora o arado as havia revirado, e nem parecia que elas estivessem mais ali, mas estavam, porque somente o fogo é que é a radical destruição das ervas más, impedindo-as de nascer. As últimas sementes caíram nos campos comprados recentemente, e que ele tinha deixado como estavam, sem ará-los em profundidade, sem limpá-los de todas as pedras afundadas na terra, fazendo com ela um pavimento duro no qual não conseguiam agarrar-se as tenras raízes.

Depois, tendo semeado todas as sementes, voltou para casa, e disse: “Agora está tudo bem. É só esperar a colheita.”

179.6

E assim se alegrava quando, com o correr dos meses, podia ver, à frente de sua casa, o trigo que ia germinando e crescendo… oh! crescia como um tapete macio e já ia soltando espigas… Parecia um mar, amarelando e batendo espigas contra espigas, cantando hosanas ao sol. O homem dizia: “Como este campo, devem estar todos os outros. Preparemos as foices e os celeiros. Quanto pão! Quanto ouro!”

Estava feliz.

Cortou o trigo dos campos mais próximos, depois passou aos que herdou do pai, mas ele os tinha deixado virar mato. O homem ficou muito aborrecido. todos os grãos haviam nascido, porque os campos eram bons e a terra adubada pelo pai estava gorda e fértil. Mas sua fertilidade tinha sido boa também para as plantas espinhosas, que ficaram cobertas pela terra, reviradas com ela, mas não esterilizadas. Elas tinham renascido e formado um verdadeiro forro de ramagens cheias de espinhos, através das quais o trigo não tinha podido passar para cima, a não ser uma espiga aqui, outra acolá, e morreu quase todo sufocado.

O homem disse: “Eu fui negligente com este campo. Mas nos outros não havia espinheiros, e deverão estar melhores.” Passou então aos campos recentemente adquiridos. Lá seu espanto cresceu, até transformar-se em tristeza. Finas e já ressecadas, as folhas do trigo estavam espalhadas por toda parte, como feno seco. Feno seco! “Mas, como? Como foi isso?” Gemia o homem. “No entanto, aqui não há espinhos! Além disso, a semente do trigo era a mesma. Aqui também ela tinha nascido, e o trigal estava tão viçoso, que dava alegria ver! Pode-se ver ainda como suas folhas estavam bem formadas e em grande número. Por que será que aqui o trigo todo morreu sem produzir espigas?” E, com grande tristeza, pôs-se a cavar o solo, para ver se encontrava ninhos de toupeiras, ou outras pragas. Insetos e roedores, não havia nada. Mas, que quantidade de pedras! Um verdadeiro pedregal! Os campos estavam literalmente calcetados com escamas de pedras, e a pouca terra que as cobria era um engano. Oh! Se tivesse afundado mais o arado, enquanto era tempo! Oh! Se ele tivesse feito escavações, antes de aceitar aqueles campos e de comprá-los como se fossem bons! Oh! Pelo menos, depois daquele erro de adquirir o que era oferecido, sem ter-se informado da boa qualidade deles, se ele os tivesse melhorado, à custa do cansaço de seus rins! Mas agora já era tarde quaisquer queixumes eram inúteis.

O homem pôs-se de pé, arrasado, e dali foi para os campos entrecortados por pequenos caminhos, feitos para sua comodidade… E rasgou suas vestes de tristeza. Aqui não havia nada. Absolutamente nada… A terra escura do campo estava coberta por uma ligeira camada de pó branco… O homem se agachou no chão, e gemia dizendo: “Mas, por quê? Aqui não há espinhos, nem pedras, pois estes campos, antes já eram nossos. Meu avô, meu pai, eu, sempre os possuímos e, por anos e anos, os fertilizamos. Neles eu abri estradas, terei tirado alguma terra do campo, mas isso não é o que o terá feito ficar estéril assim…” Ainda estava ele chorando, quando recebeu, para sua tristeza, a resposta, dada por um cerrado bando de passarinhos esfomeados, vindos dos campospara os caminhos a procura de sementes de trigo, e outras… O campo havia-se transformado numa rede de pequenos caminhos, em cujas beiras o trigo semeado tinha caído, atraindo muitos passarinhos, que, primeiro comeram os grãos na estrada e depois os plantados no campo, até o ultimo grão.

Desse modo, a semente, igual para todos os campos, havia produzido cem por um, em outro sessenta, em outro trinta e em outro nada. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

A semente é a Palavra: é igual para todos. O lugar onde cai a semente são os vossos corações. Cada um aplique a si a parábola e compreenda. A paz esteja convosco.

EMF 179.7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Depois que as duas barcas navegam por um pequeno trecho do rio, param junto à margem. Jesus se senta, perguntando ao novo discípulo:

– Quem ainda ficou em tua casa?

– Minha mãe com meu irmão mais velho, que se casou há cinco anos. Minhas irmãs estão espalhadas pela região. Meu pai era muito bom. Minha mãe lamenta desoladamente.

O jovem para bruscamente, porque sente que um soluço lhe está vindo do coração.

Jesus o segura pela mão e lhe diz:

– Eu sei o que é esta dor, eu vi também minha mãe chorar. Por isso, Eu te compreendo…

Anotação

Eu própria passei por essa dor e vi a minha mãe chorar. Por isso, compreendo-vos bem... Coerente com a descrição da morte de José e a evocação da dor de Maria(EMV 42.7 e EMV 42.8).

EMF 180.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Não sei qual foi a observação que foi feita por um companheiro que deu origem àquela resposta escultural de Pedro, quando disse:

– Acontecerá com eles como com os construtores da torre de Babel[1]. A soberba deles provocará o desabamento de suas teorias, e ficarão esmagados.

André objeta ao irmão:

– Mas Deus é misericórdia. Impedirá o desabamento para dar tempo ao arrependimento.

– Nem penses nisso. Como coroamento da soberba deles, porão em prática calúnia e perseguição. Oh! Eu já estou vendo perseguição sobre nós para dispersar-nos como testemunhas detestáveis. E, visto que estarão atacando, com insídias, a Verdade, Deus tomará a Si fazer a vingança e eles perecerão.

– E nós teremos forças para resistir? –pergunta Tomé.

– Aí está… por mim mesmo, eu não teria. Mas confio nele –e mostra Jesus, que está escutando calado, com a cabeça um pouco inclinada, como para conservar escondidas as expressões do seu rosto.

– Eu penso que Deus não nos dará provas superiores às nossas forças –diz Mateus.

– Ou, pelo menos, aumentará as nossas forças, em proporção às provas –termina Tiago de Alfeu.

– Ele já está fazendo isso.

Anotação

O que aconteceu aos construtores da Torre de Babel acontecer-lhes-á a eles. Alusão a Génesis 11,1-9.

Ele já o fez: é Simão, o Zelota, que está a falar. A conversa prossegue. Ver a nota seguinte.

Livro do Génesis 11, 1-9

Gn 11, 1-9 : Toda a terra tinha uma só língua e as mesmas palavras. Quando os homens partiram do Oriente, encontraram uma planície na terra de Sennaar e aí se estabeleceram. Disseram uns aos outros: "Vamos, vamos fazer tijolos e cozê-los ao lume". "E usaram tijolos em vez de pedras e betume em vez de cimento. Depois disseram: "Vamos, construamos uma cidade e uma torre com o topo no céu, e façamos para nós um monumento, para que não sejamos espalhados pela face de toda a terra. "Mas o Senhor Javé desceu para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens estavam a construir. E Javé disse: "Eis que eles são um só povo, e todos têm uma só língua; e esta obra é o início dos seus empreendimentos; agora nada os impedirá de realizarem os seus projectos. Vamos descer e confundir a sua língua, para que deixem de ouvir a língua uns dos outros. "Então Javé dispersou-os dali pela face de toda a terra e eles deixaram de construir a cidade. É por isso que se chama Babel, porque foi aí que Javé confundiu a língua de toda a terra e foi aí que Javé os dispersou por toda a face da terra.

EMF 180.4-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Pedro parece que está para ter um ataque de apoplexia, de tão vermelho que ficou. Ele fica calado por uns momentos, e depois diz:

– Está bem. Então, dá-me o prêmio. A parábola de hoje cedo…

Os outros também se unem a Pedro, dizendo:

– É verdade. Tu nos prometeste. As parábolas servem bem para fazer-nos compreender as comparações. Mas nós achamos que elas têm um sentido superior às comparações.

180.5

Por que falas a eles em parábolas?

– Porque não lhes foi concedido entender mais do que o que eu explico. A vós foi concedido muito mais, porque vós, meus apóstolos, deveis conhecer o mistério; e por isso vos é concedido entender os mistérios do Reino dos Céus. Por isso, Eu vos digo: “Perguntai, quando não entenderdes o sentido de uma parábola.” Vós dais tudo, e tudo vos é dado, para que, por vossa vez, possais dar tudo. Vós dais tudo a Deus: afetos, tempo, interesse, liberdade, vida. Deus tudo vos dá para compensar-vos e tornar-vos capazes de dar tudo, em nome de Deus, a quem vos seque. Assim, a quem deu, será dado com abundância. Mas a quem não deu, ou só deu parcialmente, ou não deu nada, até o que ele tem lhe será tirado.

Eu lhes falo em parábolas para que vendo, vejam apenas o que a sua vontade de aderir a Deus os faz ver. É ouvindo, sempre, por aquela mesma vontade de adesão, ouçam e compreendam. Vós estais vendo! Muitos ouvem a minha palavra, mas poucos aderem a Deus. Seus espíritos estão carentes de boa vontade. Neles se cumpre a profecia[2] de Isaias: “Ouvireis com os ouvidos, e não entendereis; olhareis com os olhos, e não vereis.” Porque este povo tem um coração insensível, duro de ouvido, e tem os olhos fechados para não verem e não ouvirem, para não entenderem com o coração e não se converterem, para que Eu os cure. Mas vós sois felizes por vossos olhos que vêem e pelos vossos ouvidos que ouvem e pela vossa boa vontade! Em verdade Eu vos digo, que muitos Profetas e muitos justos desejaram ver o que estais vendo, e não viram, ouvir o que estais ouvindo, e não ouviram. Eles se consumiram no desejo de compreender o mistério das palavras, mas, ao apagar-se a luz das profecias, eis que as palavras ficaram como carvões apagados até para o santo que as tinha recebido.

Somente Deus revela-se a Si mesmo. Quando a sua luz se retrai, tendo atingido a sua meta, que era a de fazer brilhar a luz do mistério, a incapacidade de entender cobre a real verdade da palavra recebida, como as faixas de uma múmia. Por isso é que Eu te disse hoje cedo: “Um dia virá em que encontrarás tudo o que Eu te dei.” Agora, não podes reter tudo na memória. Mas depois a luz virá sobre ti, e não só por um instante, mas por um inseparável conúbio do Espírito Eterno com o teu, pelo qual se tornará infalível o teu ensinamento no que se refere ao Reino de Deus. Assim como em ti, também nos teus sucessores, se viverem de Deus como de um único pão[3].

180.6

Agora, ouvi o sentido da parábola.

Temos quatro espécies de campos: os férteis, os espinhosos, os pedregosos e os cheios de trilhas. Temos também quatro espécies de espíritos.

Temos os espíritos honestos, os espíritos de boa vontade, preparados por ela e pelos bons trabalhos de um apóstolo, de um “verdadeiro” apóstolo; porque há apóstolos que têm o nome, mas não o espírito de apóstolos, e são mais mortíferos para as vontades em formação, do que os passarinhos, os espinhos e as pedras. Eles fazem uma tal desordem com as suas intransigências, com as suas pressas, com as suas censuras, com suas ameaças, que afastam os outros para sempre de Deus. Outros espíritos são o oposto com uma rega contínua de benignidades intempestivas, fazem murchar as sementes em um terreno frouxo demais. Com sua desvirilização, desvirilizam as almas de que cuidam. Mas fiquemos com os verdadeiros apóstolos, isto é, com os de Deus. Esses são paternais, misericordiosos, e, ao mesmo tempo, fortes como é o seu Senhor. Pois bem. Os espíritos preparados por eles e pela sua própria boa vontade, são comparáveis aos campos férteis, limpos de pedras e espinhos, sem grama e joio, e neles prospera a palavra de Deus, e toda palavra — a semente — cria haste e espiga, dando cem, ou sessenta e além ou ainda trinta por cento. Entre os que Me seguem, haverão esses? Certamente. E serão santos. Entre eles haverá pessoas de todas as castas e de todos os lugares, e até pagãos, que darão cem por cento pela sua boa vontade, unicamente por ela, pela boa vontade de um apóstolo ou discípulo que os prepara.

Os campos espinhosos são aqueles nos quais o descuido deixou penetrar os espinhosos enredos dos interesses pessoais, que sufocam a boa semente. É preciso que se vigie sempre, sempre, sempre. Não digas nunca: “Oh! Eu já estou formado, semeado, e por isso, posso ficar tranquilo, que hei de dar semente de vida eterna.” É preciso que se vigie: a luta entre o Bem e o Mal é continua. Já tereis observado uma tribo de formigas que quer fazer seu ninho em uma casa? Ora, elas estão em cima do fogão. A mulher não deixa mais as comidas lá, mas as coloca na mesa; e elas, então, farejam o ar, e vão dar um assalto à mesa. A mulher põe as comidas no guarda-comida, e elas, pelo buraco da fechadura, passam para dentro do guarda-comida. A mulher pendura no forro as suas provisões. e elas fazem um comprido trilho ao longo das paredes e dos sarrafos, descem pela corda e comem. A mulher as queima, escalda, envenena. Depois disso fica sossegada, pensando ter acabado com elas. Oh! Se não vigiar, que surpresa! Aí vêm vindo as últimas que nasceram, e vamos começar tudo de novo. Assim é, enquanto se vive. É preciso que se vigie para extirpar as plantas daninhas, logo que germinam. Caso contrário, elas formam uma coberta de espinheiros e sufocam o trigo. Os cuidados com as coisas do mundo e o engano das riquezas criam o enredo, sufocam a planta da semente de Deus, e não deixam que ela produza espiga.

Eis agora os campos cheios de pedras. Quantos haverá em Israel! São aqueles que pertencem aos “filhos das leis”, como disse o meu irmão Judas com muita exatidão. Não está neles a pedra única do Testemunho, não está a Pedra da Lei. Está o pedregal das pequenas, pobres e humanas leis criadas pelos homens. São tantas, que o seu peso transforma a Pedra da Lei em cacos. É uma ruína que impede qualquer enraizamento de semente. A raiz não é mais nutrida. Não há terra. Não há seiva. A água a faz murchar, porque está sobre um pavimento de seixos, o Sol enche de forte calor aqueles seixos, queimando as plantinhas. São os espíritos dos substituidores da simples doutrina de Deus por suas complicadas doutrinas humanas. Eles até que recebem com alegria a minha palavra. No momento ficam emocionados e seduzidos por ela. Mas depois… Precisa um esforço heróico para aplainar e limpar o campo, a alma e a mente de todo aquele pedregal de retóricos. Só assim a semente criaria raiz e se tornaria uma planta vigorosa. Mas assim como está… não produz nada. Basta um simples medo de represália humana. Basta a reflexão: “E depois? Que farão de mim os homens poderosos?” E a pobre semente, não nutrida, fica agonizante. Basta que todo aquele pedregal comece a agitar-se com seu som vazio de centenas e centenas de preceitos, que tomam o lugar do Preceito, para que o homem pereça logo junto com a semente recebida… Israel está cheio destes. Isto vem explicar-nos que ir para Deus é uma coisa que está na razão inversa da potência humana.

Finalmente, há os campos cheios de trilhas, de poeira e desnudos. São os campos dos mundanos, dos egoístas. A comodidade é a sua lei, e o prazer é o seu fim. Nada de fadiga, mas dormir, rir, comer… O espírito do mundo reina sobre estes. A poeira do mundanismo cobre o terreno deles, que se torna baldio. Os passarinhos, ou seja, as dissipações, precipitam-se sobre os mil caminhos abertos para lhes tornar mais fácil a vida. O espírito do mundo, isto é, o Maligno, bica e destrói todas as sementes que caem neste terreno, aberto a todas as sensualidades e leviandades.

Detalhe

Jesus acaba de elogiar Pedro e Simão, e o irmão de André aproveita a oportunidade para pedir uma explicação sobre a parábola do semeador.

Anotação

Dá-me a recompensa. A parábola desta manhã... Pedro recorda a Jesus a sua promessa de lhes explicar a parábola do semeador.(EMV 179.5). (Ver Mateus 13,10-11).

Evangelho de Mateus 13, 10-23

Mt 13,10-23 : Os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: "Porque lhes falas por parábolas? Ele respondeu: "A vós é dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas não a eles. A quem tem, ser-lhe-á dado, e terá em abundância; a quem não tem, ser-lhe-á tirado até o que tem. Falo-lhes por parábolas, porque olham mas não vêem, e ouvem mas não ouvem nem compreendem. Assim se cumpre para eles a profecia de Isaías: Ouvireis, mas não compreendereis. Podeis olhar, mas não vereis. O coração deste povo tornou-se pesado, tornou-se duro de ouvido, fechou os olhos, para que os seus olhos não vejam, os seus ouvidos não ouçam, o seu coração não compreenda, não se converta - e eu curá-lo-ei. Mas, quanto a vós, bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. Em verdade vos digo que muitos profetas e justos quiseram ver o que vedes e não o viram, e ouvir o que ouvis e não o ouviram.

Escutai, pois, o que significa a parábola do semeador. Quando alguém ouve a palavra do Reino sem a compreender, o Maligno vem e leva o que foi semeado no seu coração: ele é o campo semeado à beira da estrada. O que recebeu a semente em terreno pedregoso é aquele que ouve a Palavra e a recebe imediatamente com alegria; mas não tem raízes, é o homem do momento: quando vem a angústia ou a perseguição por causa da Palavra, tropeça imediatamente. Aquele que recebeu a semente nos espinhos é o que ouve a Palavra; mas os cuidados do mundo e o engano das riquezas sufocam a Palavra, e ela não dá fruto. O que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a Palavra e a compreende: dá fruto a cem, a sessenta ou a trinta por um."

Evangelho de Marcos 4, 10-20

Mc 4,10-20 : Quando ficou sozinho, os que o rodeavam com os Doze interrogaram-no acerca das parábolas. Ele respondeu-lhes: "O mistério do Reino de Deus é-vos dado a conhecer, mas aos que estão de fora tudo é apresentado sob a forma de parábolas. E assim, como diz o profeta: "Podem olhar com todos os olhos, mas não verão; podem ouvir com todos os ouvidos, mas não compreenderão; ou então converter-se-ão e receberão o perdão".

Então ele disse-lhes: "Não compreendeis esta parábola? Então, como é que entendereis todas as parábolas? O semeador semeia a Palavra. Há aqueles que estão à beira do caminho onde a Palavra é semeada: quando a ouvem, Satanás vem imediatamente e tira-lhes a Palavra semeada. Da mesma forma, há aqueles que receberam a semente em lugares pedregosos: quando ouvem a Palavra, recebem-na imediatamente com alegria; mas não têm raiz em si mesmos, são pessoas de um momento; se vem a angústia ou a perseguição por causa da Palavra, tropeçam imediatamente. E há outros que receberam a semente nos espinhos: estes ouvem a Palavra, mas os cuidados do mundo, o engano das riquezas e todas as outras concupiscências invadem-nos e sufocam a Palavra, que não dá fruto. Mas há aqueles que receberam a semente na terra boa: ouvem a Palavra, aceitam-na e dão fruto: trinta, sessenta, cem, por um."

Evangelho de Lucas 8, 4-18

Lc 8,4-18 : Enquanto se reunia uma grande multidão e vinham ter com Jesus pessoas de todas as cidades, ele contou uma parábola: "O semeador saiu a semear e, enquanto semeava, uma parte caiu à beira do caminho. Os transeuntes pisaram-na e as aves do céu comeram-na toda. Caiu também sobre as pedras; cresceu e secou, porque não tinha humidade. Caiu também entre as silvas, e as silvas, crescendo com ela, sufocaram-na. Por fim, uma parte caiu na terra boa, e cresceu e deu cem vezes mais fruto". Enquanto dizia isto, levantou a voz: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

Os seus discípulos perguntaram-lhe o que significava esta parábola. Ele disse-lhes: "A vós é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas os outros só têm parábolas. Por isso, como está escrito: "Olham mas não vêem, ouvem mas não compreendem". É isto que significa a parábola. A semente é a palavra de Deus. Depois vem o demónio e tira-lhes a Palavra do coração, para os impedir de acreditar e de se salvarem. Há aqueles que estão sobre as pedras: quando ouvem, acolhem a Palavra com alegria; mas não têm raízes, acreditam por um momento e depois, no momento da prova, desistem. Os que caíram nos espinhos são as pessoas que ouviram, mas são sufocadas no caminho pelas preocupações, pelas riquezas e pelos prazeres da vida, e não atingem a maturidade. E o que caiu em terra boa são os que ouviram a Palavra com um coração bom e generoso, que a retêm e dão fruto pela sua perseverança. (...)

Cuidado com a vossa escuta. Porque a quem tem, ser-lhe-á dado; e a quem não tem, ser-lhe-á tirado até o que julga ter".

Evangelho de Lucas 10, 23-24

Lc 10,23-24 : Depois, voltando-se para os seus discípulos, disse-lhes em particular: "Felizes os olhos que vêem o que vós vedes! Porque eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, e ouvir o que ouvis e não o ouviram.

EMF 180.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eis agora os campos cheios de pedras. Quantos haverá em Israel! São aqueles que pertencem aos “filhos das leis”, como disse o meu irmão Judas com muita exatidão. Não está neles a pedra única do Testemunho, não está a Pedra da Lei. Está o pedregal das pequenas, pobres e humanas leis criadas pelos homens. São tantas, que o seu peso transforma a Pedra da Lei em cacos. É uma ruína que impede qualquer enraizamento de semente. A raiz não é mais nutrida. Não há terra. Não há seiva. A água a faz murchar, porque está sobre um pavimento de seixos, o Sol enche de forte calor aqueles seixos, queimando as plantinhas. São os espíritos dos substituidores da simples doutrina de Deus por suas complicadas doutrinas humanas. Eles até que recebem com alegria a minha palavra. No momento ficam emocionados e seduzidos por ela. Mas depois… Precisa um esforço heróico para aplainar e limpar o campo, a alma e a mente de todo aquele pedregal de retóricos. Só assim a semente criaria raiz e se tornaria uma planta vigorosa. Mas assim como está… não produz nada. Basta um simples medo de represália humana. Basta a reflexão: “E depois? Que farão de mim os homens poderosos?” E a pobre semente, não nutrida, fica agonizante. Basta que todo aquele pedregal comece a agitar-se com seu som vazio de centenas e centenas de preceitos, que tomam o lugar do Preceito, para que o homem pereça logo junto com a semente recebida… Israel está cheio destes. Isto vem explicar-nos que ir para Deus é uma coisa que está na razão inversa da potência humana.

Detalhe

Jesus explica a parábola do semeador e, ao falar de campos cheios de pedras, acaba por estabelecer uma ligação com Israel.

Anotação

Sobre as palavras de Judas, ver a nota seguinte.

EMF 180.7-8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

« Chegamos à hora sexta e ele já havia sido preso, ao cantar do galo…

– Onde? Como? Por quem? Na sua caverna? –todos perguntam, todos querem saber.

– Ele foi traído!… Usaram do teu Nome para traí-lo!

– Que horror! Mas, quem terá sido? –gritam todos.

João estremece, ao falar em voz baixa este horror, que nem o ar devia ouvir, e confessa:

– Por um dos discípulos dele…

O alvoroço chega ao auge. Uns maldizem, outros choram, outros, apavorados, ficam como estátuas.

180.8

João se agarra ao pescoço de Jesus, e grita:

– Eu temo por Ti! Por Ti! por Ti! Os santos têm os seus traidores, que pelo ouro se vendem, pelo ouro e por medo dos grandes, por sede de um prêmio, por… por obediência a satanás. Por mil, mil coisas. Oh! Jesus, Jesus, Jesus! Que dor! Ele foi o meu primeiro mestre! Foi o meu João que me levou a Ti!

– Está bem! Está bem! Nada Me acontecerá, por enquanto.

– E depois? E depois? Eu olho para mim… olho para vocês… fico com medo de todos, e até de mim. Deverá estar entre nós o teu traidor…

– Estás doido? Achas que não o reduziríamos a pedaços? –grita Pedro.

Iscariotes:

– Oh! Doido, de verdade! Eu é que não o serei, nunca. Mas, se eu me sentisse tão fraco, a ponto de chegar a sê-lo, eu me mataria. Melhor é fazer isso, do que ser homicida de Deus.

Jesus se livra do abraço apertado de João e sacode rudemente Iscariotes, dizendo:

– Não fiques aí blasfemando! Nada te poderá enfraquecer, se tu não o quiseres. Se isso acontecesse, trata de chorar, e não cometas um delito, além do deicídio. Quem por si mesmo se exaure de Deus, torna-se fraco.

Detalhe

João relata a prisão de João Batista.

EMF 180.9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Sim. Morrerá. Ele o sabe, como Eu sei. Desta vez nada e ninguém o salvará. Quando será, Eu não sei. Só sei que não sairá vivo das mãos de Herodes.

– Sim, de Herodes. Ele tinha ido por aquela garganta, pela qual nós passamos, quando estávamos voltando para a Galileia, que fica entre os montes Hebal e Garizim, porque assim é que lhe falou o traidor: “O Messias está à morte, tendo sido assaltado por inimigos. E Ele está querendo ver-te para te confiar um segredo.” Ele foi com o traidor e mais alguns outros. Na sombra do vale estavam os homens armados de Herodes que o prenderam. Os outros fugiram, levando a notícia aos discípulos, que ficaram perto de Enon. Eles mal tinham acabado de chegar, quando cheguei eu com a mãe. O mais horrível é que se tratava de alguém das nossas cidades, e que os fariseus de Cafarnaum foram à frente do conluio para prendê-lo. Eles tinham estado com ele, dizendo que Tu tinhas sido seu hóspede, e que Tu estavas de partida para a Judeia… Ele não teria saído do seu refúgio, a não ser por causa de Ti…

Detalhe

João Batista acaba de ser capturado e Jesus confirma a sua morte iminente.