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Notas do tema

Factos sobre a vida pública de Jesus Cristo

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EMF 185.1-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

185.1 Agora que todos estão dormindo, eu vou lhe contar a minha alegria.

Eu “vi” o Evangelho de hoje. Imagine que esta manhã, ao lê-lo, eu disse a mim mesma: “Eis um episódio evangélico que eu nunca chegarei a ver, porque ele pouco se presta para ser objeto de uma visão.” Ao contrário, quando menos eu estava pensando nele, justamente ele é que veio encher-me de alegria.

185.2 Eis aqui o que vi.

Um barco à vela, não grande demais, mas também não pequeno, um barco de pesca, dentro do qual poderiam comodamente mover-se cinco ou seis pessoas, vai sulcando as águas de um belo lago de uma cor azul intensa.

Jesus está dormindo na popa. Está vestido de branco, como de costume. Está com a cabeça encostada no braço esquerdo e, por baixo do braço e da cabeça, colocou o seu manto azul-escuro, dobrado em muitas dobras. Está sentado (não deitado) no fundo do barco, apoiando a cabeça naquela parte do tablado, que fica na extremidade da popa. Não sei que nome lhe dão os marinheiros. Dorme tranquilamente. Está muito cansado. Está tranquilo.

Pedro está no timão, André se encarregou das velas, João e mais dois outros, que eu não sei quem são, estão pondo em ordem as amarras e as redes no fundo do barco, como se tivessem a intenção de preparar-se para uma pesca, talvez à noite. Eu diria que já está chegando a tarde, pois o sol já vai descendo no ocidente. Os discípulos todos estão com as suas túnicas sungadas, fazendo que elas fiquem parecendo bolsas ao redor da cintura, presas por meio de um cinto, a fim de que eles possam ficar mais livres em seus movimentos,e para poderem passar para cá e para lá pelo barco, por cima dos remos e dos bancos, dos cestos e das redes, sem que as vestes os estorvem. Todos tiraram os seus mantos.

185.3 Vejo que o céu está escurecendo e que o sol vai-se escondendo atrás de nuvens negras de temporal, que apareceram de repente, surgindo por detrás da extremidade de uma colina. O vento as impele velozmente para o lago. Por enquanto, o vento está alto e o lago ainda se conserva tranquilo, só que vai ficando mais escuro e sua superfície começa a enrugar-se. Ainda não se formaram ondas, mas as águas já começam a encrespar-se.

Pedro e André observam o céu e o lago e predispõem as manobras para o acostamento à margem.

Mas o vento irrompe sobre o lago e, em poucos minutos, tudo ferve e espuma. São ondas, que se chocam umas contra as outras, que batem contra o barco, levam-no até o alto e o tornam a baixar, torcem-no para todos os lados, impedem as manobras com o timão, ao mesmo tempo que o vento não deixa que se possa fazer uso da vela, que é arriada.

Jesus dorme. Nem os passos dos apóstolos, nem suas vozes excitadas, e nem mesmo o chocar-se das ondas contra os lados e a proa, conseguem despertá-lo. Seus cabelos esvoaçam ao vento e alguns borrifos de água o atingem. Mas Ele dorme. João, da proa, vai correndo até a popa e o cobre com seu manto, que ele tirou de debaixo do tablado. E o cobre com um delicado amor.

A tempestade se torna cada vez mais perigosa. O lago está escuro, como se nele se tivesse derramado tinta, estriado pela espuma das ondas. O barco começa a encher-se de água e cada vez mais e é empurrado pelo vento para o mar alto. Os discípulos suam nas manobras e no jogar fora do barco a água que as ondas nele despejam. Mas nada adianta. Chapinham com suas pernas até a metade dentro d’água e a barca vai ficando cada vez mais pesada.

185.4 Aí Pedro perde a calma e a paciência. Entrega a seu irmão o timão e, cambaleando, vai até Jesus, e o sacode vigorosamente.

Jesus acorda e levanta cabeça.

– Salva-nos, Mestre, estamos para perecer! –lhe grita Pedro (é preciso gritar para se fazer ouvir).

Jesus olha fixamente para o seu discípulo, olha para os outros, e depois olha para o lago.

– Crês que Eu vos possa salvar?

– Vamos logo, Mestre –grita Pedro, enquanto uma verdadeira montanha de água, que veio lá do centro do lago, se dirige velozmente para o pobre barco. Parece mais uma tromba d’água, de tão alta e espantosa que é.

Os discípulos, que a estão vendo chegar, se ajoelham e se agarram onde e como podem, certos de que já chegou o seu fim.

Jesus se levanta. Fica de pé sobre o tablado da proa. É uma figura toda de branco sobre a cor de chumbo da tempestade. Ele estende os braços para o vagalhão, e diz ao vento:

– Firma-te e cala-te

E à água:

– Aquieta-te. Eu o quero.

E o vagalhão se desfaz em espuma, que cai sem fazer nenhum mal, dando um último rugido, que vai se atenuando até tornar-se um leve murmúrio, enquanto que o vento se transformava em um assobio e, depois, num último suspiro. E, sobre o lago, agora em paz, volta a serenidade do céu, a esperança e a fé nos corações dos discípulos.

Não posso descrever a majestade de Jesus. É necessário vê-la para a compreender. Com alegria a contemplo em meu interior, porque me está presente neste momento e fico pensando como era tranquilo aquele sono de Jesus e quão poderoso o seu império sobre os ventos e as ondas!

185.5 Jesus diz depois:

– Eu não comento para ti o Evangelho, no sentido em que todos o comentam. Eu te esclareço sobre o que vem antes da passagem evangélica. Por que é que Eu estava dormindo? Será que Eu não sabia que a borrasca estava para desabar? Sim, Eu o sabia. Só Eu o sabia. E, então por que dormia?

Os apóstolos eram homens, Maria. Animados de boa vontade, mas ainda tão “homens.” O homem se crê sempre capaz de tudo. E, quando ele é realmente capaz de uma coisa, age com uma conduta muito briosa e arrogante, confiando em sua “capacidade.” Pedro, André, Tiago e João eram bons pescadores e, por isso, se julgavam insuperáveis nas manobras como marinheiros. Eu para eles era um grande Rabi; mas, como marinheiro, era um nada.

Por isso Me julgavam incapaz de ajudá-los e, quando subiam ao barco, para atravessar o Mar da Galileia, me pediam sempre que ficasse sentado, pois Eu não era capaz de fazer nenhuma outra coisa. É verdade que também o afeto deles era causa disso, porque não queriam que Eu me cansasse em trabalhos braçais. Mas a arrogância deles por sua capacidade superava até o seu afeto. Eu não me imponho, Maria, a não ser em casos excepcionais. Geralmente, Eu vos deixo livres, e espero. Naquele dia, cansado e tendo-me eles sugerido que descansasse, isto é,que deixasse que eles fizessem as manobras, pois eles tinham tanta prática, então Eu me pus a dormir. Ao meu sono estava misturada também a constatação de como o homem é “homem” e quer fazer tudo por si mesmo, sem perceber que Deus nada pede, a não ser ajudá-lo. Eu via naqueles “surdos espirituais”, naqueles “cegos espirituais” todos os surdos e cegos do espíritos, que, através de séculos e mais séculos, se arruinariam “por quererem fazer tudo por si mesmos”, quando eles tinham a Mim, inclinado sobre as necessidades deles, à espera de ser chamado por eles, para ajudá-los.

Quando Pedro gritou: “Salva-nos!”, minha angústia cessou, como cai uma pedra que se solta no ar. Eu não sou “homem”, sou o Deus-Homem. Não atuo como vós atuais. Vós, quando alguém rejeitou vosso conselho ou vossa ajuda, e o vedes depois em dificuldades, ainda que não sejais tão maus para vos alegrardes com aquilo, sempre o sois para ficardes desdenhosamente indiferentes olhando para ele, sem vos comoverdes com o seu grito de ajuda

E, com este modo de proceder, vós lhe estais querendo dizer: “Quando eu queria te ajudar, tu não o quiseste? Pois agora, vira-te!” Mas Eu sou Jesus. Sou o Salvador. E, de fato, Eu salvo, Maria. Salvo sempre, mal Me invocam.

185.6 Os pobres homens poderiam objetar: “E então, por que permites que se formem tempestades isoladas ou generalizadas?”

Se Eu, com o meu poder destruísse o Mal, qualquer que ele fosse, vós chegaríeis a acreditar que sois autores do Bem, o que na realidade seria um dom meu, e nunca mais vos lembraríeis de Mim. Nunca mais. Tendes necessidade da dor, ó meus pobres filhos, para fazer-vos lembrar de que tendes um Pai. Foi assim que aconteceu com o filho pródigo, que só se lembrou de que tinha um pai, quando a fome o afligiu.

As desventuras servem para que persuadidos do vosso nada: da vossa insensatez, que é a causa de tantos erros, da vossa maldade, que é causa de tantos lutos e dores; das vossas culpas, causa de punição, que dais a vós mesmos; e da Minha existência, do meu poder e da Minha bondade. Isto é o que vos diz o Evangelho de hoje. É o “vosso” Evangelho da presente hora, meus pobres filhos.

Chamai-Me. Jesus só dorme quando está angustiado, ao ver-se não amado por vós. Chamai-Me e virei.

[…].

Anotação

Agora que todos estão a dormir, gostaria de partilhar convosco a minha alegria. Eu "vi" o Evangelho de hoje. As catequeses diárias de Maria Valtorta, registadas na série dos "Cadernos", começaram em abril de 1943, mas as visões do Evangelho só começaram verdadeiramente em janeiro de 1944. Esta é, portanto, uma das primeiras visões. Lembrem-se que não estão por ordem cronológica.

Jesus está a dormir na popa. Na popa do barco.

Jesus levanta-se, de pé na prateleira da proa. O seu rosto branco destaca-se da tempestade lívida. Estende os braços para as ondas e diz ao vento: "Pára e cala-te" e à água: "Acalma-te. Quero que te acalmes. Segundo M.L., um leitor, este episódio da tempestade acalmada pode ser comparado com o Salmo 106 (hebraico 107), 23-30. Esta ligação deve ter estado depois presente no espírito dos apóstolos que, tal como os seus contemporâneos, conheciam de cor os Salmos. Este facto vem iluminar ainda mais os comentários de Jesus a Maria Valtorta.

Evangelho de Mateus 8, 23-27

Mt 8, 23-27: Quando Jesus entrou no barco, os seus discípulos seguiram-no. E eis que o mar ficou tão agitado que o barco foi coberto pelas ondas. Mas Jesus estava a dormir. Os discípulos foram ter com ele e acordaram-no, dizendo: "Senhor, salva-nos! Senhor, salva-nos! Estamos perdidos! Mas ele respondeu-lhes: "Porque temeis tanto, homens de pouca fé? Então Jesus levantou-se e repreendeu os ventos e o mar, e fez-se uma grande bonança. As pessoas ficaram admiradas e disseram: "Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?

Evangelho de Marcos 4, 37-41

Mc 4,37-41 : Houve uma tempestade violenta. As ondas batiam contra o barco, que já estava a encher-se. Jesus estava a dormir na almofada da popa. Os discípulos acordaram-no e disseram-lhe: "Mestre, estamos perdidos; não te importas? Despertado, ameaçou o vento e disse ao mar: "Silêncio, cala-te!" O vento amainou e fez-se uma grande calma. Jesus disse-lhes: "Porque tendes tanto medo? Ainda não tendes fé? Eles ficaram com muito medo e diziam uns aos outros: "Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?

Evangelho de Lucas 8, 23-25

Lc 8, 23-25 : Enquanto navegavam, Jesus adormeceu. O lago foi invadido por uma tempestade. Ficaram submersos e em grande perigo. Os discípulos foram ter com ele e acordaram-no, dizendo: "Mestre, mestre! Estamos perdidos! E ele acordou e repreendeu o vento e as ondas turbulentas. As ondas acalmaram-se e houve paz. Então Jesus perguntou-lhes: "Onde está a vossa fé? Cheios de medo, ficaram espantados e diziam uns aos outros: "Quem é este que dá ordens até aos ventos e às ondas, e eles obedecem-lhe?

EMF 185.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eu não sou “homem”, sou o Deus-Homem. Não atuo como vós atuais. Vós, quando alguém rejeitou vosso conselho ou vossa ajuda, e o vedes depois em dificuldades, ainda que não sejais tão maus para vos alegrardes com aquilo, sempre o sois para ficardes desdenhosamente indiferentes olhando para ele, sem vos comoverdes com o seu grito de ajuda

E, com este modo de proceder, vós lhe estais querendo dizer: “Quando eu queria te ajudar, tu não o quiseste? Pois agora, vira-te!” Mas Eu sou Jesus. Sou o Salvador. E, de fato, Eu salvo, Maria. Salvo sempre, mal Me invocam.

EMF 186.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus começa a subida por um íngreme caminho, que cada vez mais se eleva, por entre os rochedos, até ficar quase a pino. Os apóstolos o acompanham por aquele caminho difícil, até chegarem ao alto da escarpa, que se estende por um planalto coberto de carvalhos, debaixo dos quais muitos porcos estão pastando.

– Que animais fedorentos! –exclama Bartolomeu–. Eles nos impedem a passagem…

– Não. Não nos impedem. Há lugar para todos –responde calmamente Jesus.

Afinal, os guardas dos porcos, vendo os israelitas, procuram juntar os animais debaixo dos carvalhos, deixando livre o caminho. E os apóstolos passam, fazendo mil caretas, por entre as sujeiras deixadas pelos porcos, que estão continuamente fuçando, já bem gordos e procurando engordar ainda mais.

Jesus passou, sem conversar com ninguém, mas apenas dizendo aos pastores da manada:

– Deus vos pague por vossa gentileza.

Os guardas, pobre gente pouco menos suja do que os seus porcos, mas, em compensação, muito mais magra do que eles, estão olhando, espantados, o que está acontecendo e depois cochicham entre eles. Um deles diz:

– Não é israelita?

E a isto os outros respondem:

– Não estás vendo as vestes com franjas?

O grupo dos apóstolos se reúne, agora que todos já podem andar em grupo, indo por uma vereda bem mais larga.

EMF 186.2.5-8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, tendo atravessado o lago de noroeste para sudeste, recomenda a Pedro que faça o desembarque perto de Hipos. Pedro obedece sem discutir, descendo com a barca até a foz de um riozinho, que a primavera e o último temporal fizeram que ficasse cheio e barulhento, e que desemboca no lago, passando por uma garganta áspera e rochosa, como é a costa toda nesta região. Os empregados cuidam da segurança das barcas — há um deles em cada barca — e recebem a ordem de ficarem esperando até a tarde, para voltarem a Cafarnaum.

– E ficai como peixes com quem vos interroga –aconselha Pedro–. A quem vos perguntar onde está o Mestre, respondei firmes: “Eu não sei.” E a quem quiser saber para onde Ele foi, dizei o mesmo. Tudo é verdade. Vós não sabeis.

Separam-se, e Jesus começa a subida por um íngreme caminho, que cada vez mais se eleva, por entre os rochedos, até ficar quase a pino. Os apóstolos o acompanham por aquele caminho difícil, até chegarem ao alto da escarpa, que se estende por um planalto coberto de carvalhos, debaixo dos quais muitos porcos estão pastando.

– Que animais fedorentos! –exclama Bartolomeu–. Eles nos impedem a passagem…

– Não. Não nos impedem. Há lugar para todos –responde calmamente Jesus.

Afinal, os guardas dos porcos, vendo os israelitas, procuram juntar os animais debaixo dos carvalhos, deixando livre o caminho. E os apóstolos passam, fazendo mil caretas, por entre as sujeiras deixadas pelos porcos, que estão continuamente fuçando, já bem gordos e procurando engordar ainda mais.

Jesus passou, sem conversar com ninguém, mas apenas dizendo aos pastores da manada:

– Deus vos pague por vossa gentileza.

Os guardas, pobre gente pouco menos suja do que os seus porcos, mas, em compensação, muito mais magra do que eles, estão olhando, espantados, o que está acontecendo e depois cochicham entre eles. Um deles diz:

– Não é israelita?

E a isto os outros respondem:

– Não estás vendo as vestes com franjas?

O grupo dos apóstolos se reúne, agora que todos já podem andar em grupo, indo por uma vereda bem mais larga. (...)

186.5

– (...) Mas que desmoronamento é este?

Todos se afastam daquele lado do monte, porque pedras e terriço vêm rolando ou dando saltos pelo declive e, assombrados, olham em torno de si.

– Eis, Eis! Eis lá! Dois… completamente nus… eles vêm vindo para nós, e gesticulam. São doidos…

– Ou endemoninhados –responde Jesus a Iscariotes, que viu primeiro os dois possessos que vinham vindo para Jesus.

Eles devem ter saído de alguma das cavernas do monte. Estão urrando. Um deles, mais rápido na corrida, se precipita sobre Jesus. Parece um passarão estranho, despojado de penas, de tão ágil que é, e faz com os braços movimentos de vôo, como se seus braços fossem asas. E vem cair aos pés de Jesus, gritando:

– Quem és Tu, ó Dono do Mundo? Que tenho que fazer contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Terá já chegado a hora do nosso castigo? Por que vieste atormentar-nos antes do tempo?

O outro endemoninhado, ou porque estivesse privado da fala, ou porque possuído por um demônio que o faz ficar lerdo, não faz nada mais do que jogar-se de bruços e ficar chorando baixinho e depois, tendo ido sentar-se, fica como se fosse inerte, entretendo-se com as pedras e com seus pés desnudos. O demônio continua a falar pela boca do primeiro, que se contorce no chão, em um paroxismo de terror. Dir-se-ia que ele quer reagir, mas não pode fazer outra coisa senão adorar, atraído e, em seguida, repelido pelo poder de Jesus. Ele urra:

– Eu Te conjuro em nome de Deus, para de me atormentar. Deixa-me ir embora!

– Sim. Mas para fora deste homem. Espírito imundo, sai deles, e dize-me o teu nome.

– Legião é o meu nome, porque somos muitos. Dominamos estes, há muitos anos e, por meio deles, arrebentamos laços e correntes, e não há força humana que possa com os dois. Eles são um terror por causa de nós, que deles nos servimos para blasfemar contra Ti. Neles nós nos vingamos do teu anátema. Rebaixamos o homem abaixo das feras, para zombarmos de Ti, e não existe lobo, nem chacal ou hiena, nem abutre ou vampiro semelhante a estes, que são dominados por nós. Mas, não nos expulses. O inferno é horrível demais!…

– Saí! Em nome de Jesus, saí!

Jesus tem uma voz de trovão e seus olhos dardejam esplendores.

– Deixa-nos pelo menos entrar[2] naquela manada de porcos, que encontraste lá atrás.

– Ide.

Com um urro infernal os demônios se separam dos dois infelizes e, por entre um repentino turbilhão de vento, que faz os carvalhos balançarem como se fossem frágeis hastes, caem sobre aquele grande número de porcos que, com estridores verdadeiramente demoníacos, põem-se a correr, endemoninhados que estão, chocando-se uns com os outros, ferindo-se, mordendo-se e, enfim, precipitando-se no lago quando, tendo chegado ao cume do alto rochedo, não encontram mais nenhum outro lugar para nele se refugiarem, a não ser na água, que está lá em baixo. Enquanto isso, os guardas dos porcos, profundamente perturbados e desolados urram de espanto, e os animais, em número de várias centenas vão, em precipitações sucessivas, caindo nas águas tranquilas, agitando-as e transformando-as em uma fervura de espumas, e vão-se submergindo aqui e flutuando, pondo à mostra suas barrigas redondas e seus focinhos pontudos, com uns olhos cheios de terror e, por fim, se afogam.

Os pastores, urrando ainda, correm para a cidade.

186.6

Os apóstolos, depois de terem ido ao lugar da calamidade, voltam dizendo:

– Não se salvou nenhum. Prestaste a eles um feio serviço!

Jesus, com calma, responde:

– É melhor que morram dois mil porcos do que um só homem. Arranjai umas vestes a estes. Não podem ficar assim.

O Zelotes abre um saco e dá uma de suas vestes. Tomé dá a outra. Os dois estão ainda um pouco aturdidos, como se tivessem acabado de sair de um sono pesado, cheio de pesadelos.

– Dai-lhes alimento. Que voltem a viver como homens.

E, enquanto os dois comem pão com azeitonas que lhes é dado e bebem do frasco de Pedro, Jesus os observa.

Finalmente, falam:

– Quem és Tu? –diz um deles.

– Jesus de Nazaré.

– Não te conhecemos, diz o outro.

– Mas a vossa alma me conheceu. Levantai-vos agora e ide para as vossas casas.

– Temos sofrido muito, penso eu, mas não me lembro bem. Quem é este? –diz o que falava por meio do demônio, e mostra seu companheiro.

– Eu não sei. Ele estava contigo

– Quem és? E por que estás aqui –pergunta ao companheiro.

O que tinha estado como mudo e que ainda é o mais lerdo, diz:

– Eu sou Demétrio. Aqui é Sidon?

– Sidon está à beira do mar, homem. Aqui estás do outro lado do lago da Galileia.

– E por que estou aqui?

Ninguém pode dar uma resposta.

186.7

Vêm chegando umas pessoas, acompanhadas pelos pastores. Parecem cheias de medo e curiosas. Mas, ao verem os dois já vestidos e bem dispostos, seu assombro aumenta.

– Aquele é Marcos de Josias. E aquele é filho do mercador pagão!…

– E aquele é o que os curou e fez perecer os nossos porcos porque os demônios entraram neles –dizem os guardas dos animais.

– Senhor, Tu és poderoso, nós o reconhecemos. Mas já nos fizeste mal demais. Foi um prejuízo de muitos talentos. Vai-te embora, nós te pedimos, e que o teu poder não vá fazer que se rache o monte, e que ele se afunde no lago. Vai-te embora…

– Eu vou. Eu não me imponho a ninguém –e Jesus volta pelo caminho já feito, sem discutir.

Acompanham-no, indo atrás dos apóstolos, o endemoninhado que falava. Atrás, a certa distância, muitos cidadãos, para verem se parte realmente.

186.8

Vão andando de novo pelo caminho íngreme e voltam à foz do riozinho, perto das barcas. Os habitantes da cidade ficam na beira, olhando. O que ficou livre vai descendo, atrás de Jesus.

Nas barcas os empregados estão aterrorizados. Eles viram a chuva dos porcos caindo no lago, e ainda estão vendo os corpos que vão boiando, sempre em maior número, cada vez mais inchados, com suas barrigas redondas viradas para cima e suas patas curtas, ressecadas como quatro estacas fincadas em uma grande bexiga cheia de gordura.

– Mas, que foi que aconteceu? –perguntam eles.

– Depois, vo-lo diremos. Agora, soltai as barcas, e vamos… Para onde, Senhor? –pergunta Pedro.

– Para o golfo de Tariqueia.

O homem, que os acompanhou, agora que os está vendo subir para as barcas, suplica:

– Leva-me contigo, Senhor.

– Não. Vai para tua casa; os teus têm o direito de te verem. E conta a eles as grandes coisa que te fez o Senhor e como Ele teve dó de ti. Essa gente do território precisa ter fé. Acende as chamas da fé, em reconhecimento para com o Senhor. Vai. Adeus.

– Conforta-me pelo menos com a tua bênção, e que o demônio não se apodere de mim outra vez.

– Não tenhas medo. Se não queres, ele não virá. Mas Eu te abençôo. Vai em paz.

As barcas se afastam da beira, indo em direção do leste para oeste. Somente agora, enquanto vão fendendo as ondas cobertas pelas vítimas suínas, é que os habitantes da cidade que não quiseram o Senhor se retiram da beira, e vão-se embora.

Aqui no verso está a figura do lugar.

Anotação

Os empregados amarram os barcos - há um por barco - e são instruídos a esperar até à noite para o regresso a Cafarnaum. São duas figuras anónimas, obviamente a fazer manobras. Estavam sem dúvida presentes na EMV 185.

Pelo menos, deixem-me entrar nesta manada de porcos: o texto original fala aqui, de facto, no singular: Lasciami. Este pedido singular é interpretado com ingenuidade por Pedro em EMV 203.3.

Evangelho de Mateus 8, 28-34

Mt 8, 28-34: Quando Jesus estava a chegar à outra margem do rio, ao país dos gadarenos, dois possessos saíram do meio dos túmulos para o encontrar; eram tão agressivos que ninguém podia passar por ali. E eis que começaram a gritar: "Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste atormentar-nos antes do tempo determinado?" Ao longe, havia uma grande manada de porcos à procura de comida. Os demónios pediram a Jesus: "Se nos vais expulsar, manda-nos para a manada de porcos. Ele disse-lhes: "Vão. Eles saíram e entraram na manada de porcos; e eis que toda a manada se precipitou no mar, por cima do penhasco, e os porcos morreram nas ondas. As sentinelas fugiram e foram para a cidade contar tudo o que se passava e sobretudo o que tinha acontecido aos possessos. E eis que toda a cidade saiu ao encontro de Jesus e, ao vê-lo, o povo rogou-lhe que saísse da sua terra.

Evangelho de Marcos 5, 1-20

Mc 5,1-20 : E chegaram à outra margem do mar da Galileia, à terra dos gerasenos. Quando Jesus desceu do barco, saiu-lhe imediatamente ao encontro um homem com um espírito imundo, que vivia nos sepulcros, e já ninguém o podia prender, nem mesmo com uma corrente; na verdade, ele tinha sido muitas vezes preso com ferros para as pernas e com correntes, mas tinha quebrado as correntes e os ferros, e ninguém o podia prender. Andava todo o dia e toda a noite entre os túmulos e nos montes, gritando e ferindo-se com pedras. Quando viu Jesus ao longe, correu para ele, prostrou-se diante dele e gritou em alta voz: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te por Deus que não me atormentes! Jesus disse-lhe: "Espírito impuro, sai deste homem! E perguntou-lhe: "Como te chamas? O homem respondeu-lhe: "Chamo-me Legião, porque somos muitos. E pediam a Jesus que não os expulsasse do país.

Ora havia uma grande manada de porcos na encosta, à procura de comida. Então os espíritos imundos pediram a Jesus: "Manda-nos a esses porcos, e nós entraremos neles. Ele permitiu-lhes que o fizessem. Então saíram do homem e entraram nos porcos. Eram cerca de dois mil, e estavam a afogar-se no mar. Espalharam a notícia na cidade e no campo, e as pessoas vieram ver o que tinha acontecido.

Quando se aproximaram de Jesus, viram o homem possuído, sentado, vestido e recuperando os sentidos, aquele que tinha tido a legião de demónios, e ficaram cheios de medo. Os que tinham visto tudo isto contaram-lhes a história do endemoninhado e do que tinha acontecido aos porcos. Então começaram a pedir a Jesus que saísse do seu território.

Quando Jesus entrou de novo no barco, o endemoninhado pediu-lhe que o deixasse ficar com ele. Ele não consentiu, mas disse-lhe: "Vai para casa, para junto da tua família, e conta-lhes tudo o que o Senhor fez por ti, pela sua misericórdia. O homem foi-se embora e começou a anunciar na região da Decápole o que Jesus lhe tinha feito, e todos se maravilhavam.

Evangelho de Lucas 8, 26-39

Lc 8, 26-39 : Chegaram à terra dos gerasenos, que fica em frente da Galileia. Quando Jesus desembarcou, um homem endemoninhado da cidade veio ao seu encontro. Há muito tempo que não vestia roupa e não vivia numa casa, mas nos túmulos. Quando viu Jesus, deu um grito, caiu aos seus pés e disse em voz alta: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Por favor, não me atormentes. Jesus estava, de facto, a ordenar ao espírito imundo que saísse deste homem, pois o espírito tinha-se apoderado dele muitas vezes. Mantinham-no preso com grilhões nos pés, mas ele quebrava as amarras e o demónio arrastava-o para lugares desertos. Jesus perguntou-lhe: "Como te chamas? Ele respondeu: "Legião". Muitos demónios tinham entrado nele. E esses demónios pediam a Jesus que não os mandasse entrar no abismo. Havia no monte uma grande manada de porcos à procura de comida. Os demónios pediram a Jesus que os deixasse entrar nos porcos, e ele deixou. Eles saíram do homem e entraram nos porcos. Do alto do penhasco, a manada precipitou-se para o lago e afogou-se. Quando os pastores viram o que tinha acontecido, fugiram; espalharam a notícia na cidade e no campo, e as pessoas saíram para ver o que tinha acontecido.

Quando foram ter com Jesus, encontraram o homem que os demónios tinham deixado; estava sentado aos pés de Jesus, vestido e a recuperar os sentidos. E ficaram aterrorizados. Os que o tinham visto contaram-lhes como é que ele tinha sido salvo. Então todos os habitantes da região dos gerasenos pediram a Jesus que se fosse embora, porque tinham muito medo. Jesus entrou de novo no barco e regressou.

O homem que os demónios tinham deixado perguntou-lhe se podia estar com ele. Mas Jesus mandou-o embora, dizendo: "Volta para tua casa e conta a todos o que Deus fez por ti. Então o homem saiu e anunciou por toda a cidade o que Jesus tinha feito por ele.

EMF 187.1-3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus se despede das barcas, dizendo: “Não voltarei atrás” e, acompanhado pelos seus, através da região que parecia muito fértil, vista da margem oposta, dirige-se para um monte, que aparece na direção sudoeste.

Os apóstolos vão indo em silêncio, falando um com o outro, somente com os olhos, pouco entusiasmados com o caminho pelo meio dessa região bonita, mas selvagem, cheia de carriços que se agarram aos pés, de caniços que fazem chover sobre as cabeças uma chuvinha do orvalho que ficou retido pelas fendas por entre suas folhas; de caroços de frutas secas, que lhes batem no rosto; de salgueiros frágeis que batem por toda parte nos corpos dos viandantes, fazendo-lhescócegas; de traidoras passagens no terreno, onde há ervas que parecem ter nascido em um solo sólido, mas, ao invés disso, escondem poças d’água nas quais os pés afundam, pois elas não são mais que uns aglomerados de rabos-de-raposa e de outras amarantáceas, nascidas em pequenos charcos e tão cerradas, que escondem o elemento em que nasceram.

Jesus, do lugar em que está, parece alegrar-se com todo aquele verde de mil tons, com todas aquelas flores, pelas quais eles passam roçando, ou que estão erguidas e se agarram às outras para subir, que soltam delicados festões cobertos de graciosos convólvulos de uma cor rosa-malva tênue ou formam um tapete azul muito bonito para as milhares de corolas de miosótis palustres, que abrem seus cálices perfeitos em corolas brancas, róseas ou azuis, por entre as largas folhas chatas dos nenúfares. Jesus admira os penachos dos caniços do brejo, sedosos e cor de pérola e se inclina alegre para observar a delicadeza dos rabos-de-raposa, que formam um véu de esmeralda sobre as águas. Jesus para, extasiado, diante dos ninhos que os pequenos pássaros constróem, com um ir e vir feliz, acompanhado de trilos, de pulos, de um cansaço contente, dos flocos de lã arrancada às sebes que, por sua vez, as tinham arrancado dos rebanhos, que por ali passaram… Ele parece a pessoa mais feliz que possa haver. Onde está o mundo com as suas maldades, falsidades, dores e insídias? O mundo está do lado de lá deste oásis verde e florido, onde tudo é perfumado, tudo brilha, tudo ri e canta. Aqui está a terra criada pelo Pai e não profanada pelo homem, e aqui pode-se até esquecer o homem.

187.2

Ele quer repartir sua felicidade com os outros. Mas não encontra um terreno propício. Os corações estão cansados e exacerbados, cheios de tanta má vontade que a querem revirar sobre as coisas e até sobre o Mestre, com um mutismo fechado, semelhante àquele ar parado, que precede um temporal. Somente o primo Tiago, o Zelote e João se interessam pelo que interessa a Jesus. Pois os outros não são mais do que… uns ausentes, para não dizer hostis. Talvez, para não murmurar, fazem silêncio entre si. Mas, por dentro, cada um deve estar falando, até demais.

Uma mais viva exclamação de admiração, diante da jóia viva que é um pequeno pombo do mato, que vem voando e trazendo para a companheira um peixinho cor de prata, é justo aquilo que os faz abrir as bocas.

Jesus diz:

– Mas, poderá haver coisa mais gentil?

Pedro responde:

– Talvez mais gentil não… mas eu Te garanto que mais cômoda é a barca. Aqui estamos também na umidade e, em compensação, não temos comodidade…

– Eu preferiria ir pela estrada caravaneira, a ir… por este jardim, se é que Te agrada chamá-lo assim, e estou completamente de acordo com Simão –diz Iscariotes.

– A estrada caravaneira, vós não a quisestes –responde Jesus.

– É certo. Mas eu não teria entregado os pontos aos gerasenos. Eu teria ido embora de lá, mas teria continuado do outro lado do rio, indo por Gadara, por Pela, e por ali abaixo, sempre para baixo –resmunga Bartolomeu.

E o seu grande amigo Filipe termina:

– As estradas, afinal, são de todos, e por elas poderíamos caminhar nós também.

– Amigos, amigos! Eu estou tão aflito, estou tão enojado… Não aumenteis meus sofrimentos com as vossas mesquinharias! Deixai-me procurar um pouco de consolo nas coisas que não sabem odiar…

A censura, doce em sua tristeza, toca os apóstolos.

– Tens razão, Mestre. Nós somos indignos de Ti. Perdoa a nossa estultice. Tu és capaz de ver a beleza, porque és santo e olhas com os olhos do coração. Nós, carniça, sentimos somente esta carniça… Mas, não repares. Podes crer que, ainda que estivéssemos em um paraíso, sem Ti estaríamos tristes. Mas, contigo… oh, é sempre mais belo para o coração. Somente os nossos membros é que se recusam

–murmuram muitos.

187.3

– Daqui a pouco, sairemos daqui e encontraremos um chão mais cômodo, ainda que menos fresco –promete Jesus.

– Aonde iremos, precisamente? –pergunta Pedro.

– Levar a Páscoa aos que sofrem. Há tempo que o queria fazer. Mas não pude. Eu o teria feito, ao voltar da Galileia. Agora, que me obrigam a andar por caminhos não escolhidos por nós, Eu vou abençoar os pobres amigos de Jonas.

– Mas assim vamos perder tempo! A Páscoa já está perto! Sempre nos atrasamos por diversas causas.

E um outro coro de lamentações se levanta até o céu. Não sei como Jesus pode ter tanta paciência… E, sem censurar a ninguém, Ele diz:

– Eu vos peço. Não me crieis obstáculos! Compreendei minha necessidade de amar e de ser amado. Só tenho este conforto na terra: o amor e fazer a vontade de Deus.

– E vamos por aqui? Não seria melhor irmos para Nazaré?

– Se Eu vos tivesse proposto isso, vós vos teríeis revoltado. Ninguém pensará que estou por estes lugares, e faço-o por vós que… tendes medo.

– Medo? Ah! Isso, não. Estamos prontos até a combater por Ti.

– Pedi ao Senhor que não vos faça passar por uma prova. Eu sei que sois rixentos, invejosos, tendes o desejo de ofender a quem Me ofende, de mortificar o próximo. Tudo isso Eu sei. Mas que sejais corajosos, isso não sei. Por Mim, Eu teria caminhado até sozinho e pelos caminhos comuns, e nada me teria acontecido, porque ainda não é a hora. Mas tenho piedade de vós. E tenho obediência para com minha mãe e também isto: não quero causar desgosto ao fariseu Simão. E não lho causarei. Mas eles causarão desgosto a Mim.

– E daqui para onde iremos? Eu não tenho prática nestes lugares –diz Tomé.

– Chegaremos ao Tabor, iremos ao lado dele por um trecho e, passando perto de Endor, iremos a Naim, e de lá iremos pela planície de Esdrelon. Não tenhais medo!… Doras, o filho de Doras e Jocanã já estão em Jerusalém.

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O Evangelho como me foi revelado

Citação

– E daqui para onde iremos? Eu não tenho prática nestes lugares –diz Tomé.

– Chegaremos ao Tabor, iremos ao lado dele por um trecho e, passando perto de Endor, iremos a Naim, e de lá iremos pela planície de Esdrelon. Não tenhais medo!… Doras, o filho de Doras e Jocanã já estão em Jerusalém.

187.4

– Oh! Como deve ser bonito! Dizem que do cume, do ponto mais alto, se pode avistar o Grande Mar, o de Roma. Isso me agrada muito! Vais levar-nos a vê-lo?

João faz a pergunta, com o seu rosto de menino bom levantado para Jesus.

– Por que é que te agrada tanto vê-lo? –pergunta Jesus, acariciando-o.

– Não sei. Porque é grande, e não se vê o seu fim… Ele me faz pensar em Deus… Quando estivemos no Líbano, eu vi o mar pela primeira vez, porque nunca tinha estado a não ser ao longo do Jordão ou então em nosso pequeno mar… e chorei de emoção. Que azul! Quanta água! E sua água não extravasa nunca!… Que coisa maravilhosa! E os astros, que fazem caminhos de luz sobre o mar… Oh! Não riais de mim! Fiquei olhando o caminho de ouro do Sol até ficar ofuscado, o caminho de prata da Lua até não ter mais nos olhos senão aquele candor fixo, e via como eles se iam dissipando e sumindo ao longe, muito longe. E aqueles dois caminhos falavam comigo. Eles me diziam: “É Deus que está naquelas lonjuras sem fim, e estes são os caminhos de fogo e de pureza que uma alma deve seguir, a fim de ir para Deus. Vem. Mergulha no infinito, remando por estes dois caminhos e encontrarás o Infinito.”

– És um poeta, João –diz admirado Tadeu.

– Não sei se isto é poesia. Só sei que acende o coração.

– Mas tu já viste o mar também em Cesareia e Ptolomaida, e bem de perto. Nós estávamos à beira dele. Não vejo necessidade de fazer uma viagem tão grande para ir ver outra água do mar. Afinal, nós nascemos na água… –observa Tiago de Zebedeu.

– E nela estamos ainda agora, infelizmente! –exclama Pedro que, tendo-se distraído por uns instantes, para ficar ouvindo João, não viu uma poça traiçoeira, e nela tomou um verdadeiro banho…

Todos se riem, a começar pelo próprio Pedro.

Mas João responde:

– É verdade. Mas, visto lá de cima, ele é mais belo. Podemos ver mais e mais longe. Ficamos pensando com mais profundidade e amplitude… Ficamos desejando, sonhando…

E, em verdade, João já está sonhando… Olha para a frente e sorri ao seu sonho. Parece uma rosa cor de carne, coberta por um orvalho miudinho, a tal ponto sua pele lisa e clara de jovem louro se torna da cor de um veludo purpurino e se cobre de um leve suor, que a torna ainda mais parecida com uma pétala de rosa.

– Que queres? Com que estás sonhando? –pergunta Jesus, em voz baixa, ao seu predileto, e parece um pai que interroga docemente um querido filhinho, que lhe está contando um doce sonho seu. Fala exatamente à alma de João, Jesus, tão doce no interrogar, para não estragar o sonho do seu amoroso discípulo.

– Eu quero andar por aquele mar infinito… ir a outras terras que estão para lá dele… Eu quero ir para falar de Ti… Estou sonhando… sonhando em ir até Roma, até a Grécia, até os lugares escuros, para levar-lhes a luz… de modo que os que vivem nas trevas, venham a ter contato contigo e vivam em comunhão contigo, ó Luz do mundo… Sonho um mundo melhor… para fazê-lo melhor por meio do conhecimento de Ti, isto é, por meio do conhecimento do Amor, que torne bons, puros, que torne heróico um mundo que se possa amar em teu Nome e — acima do pecado, da carne, do vício da mente, acima do ouro, acima de todas as coisas, — exalte o teu Nome, a tua Fé, a tua Doutrina… sonho de estar eu com estes meus irmãos, indo pelo mar de Deus, Te levando por estradas de luz… como, há tempo, Tua mãe te trouxe dos Céus para nós… Sonho… sonho que sou um menino que, não conhecendo nada mais que o amor, permanece sereno, até quando vai de encontro aos tormentos… e canta para dar coragem aos adultos, que ficam pensando demais, e vai adiante… ao encontro da morte, com um sorriso… ao encontro da glória, com a humildade de quem não sabe bem o que está fazendo e que só sabe ir até Ti, Amor.

Os apóstolos ficaram com a respiração parada, durante a extática confissão de João… Firmes no lugar em que estavam, olham para o mais jovem, que está falando com os olhos velados pelas pálpebras, como por um véu lançado sobre o ardor que sobe do coração e olham para Jesus, que se transfigura na alegria de reencontrar-se tão completo no seu discípulo…

Quando João se cala, ficando um pouco inclinado, — e faz-nos lembrar a graça da Anunciação da Humilde Virgem em Nazaré — Jesus o beija na fronte, dizendo:

– Iremos ver o mar, para fazer-te sonhar ainda com a vinda do meu Reino ao mundo.

EMF 188.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

O Tabor agora já ficou para trás dos caminhantes. Já passou. Por uma planície fechada entre este monte e um outro que está defronte dele, o grupo vai caminhando, falando da subida que todos fizeram, ainda que, a princípio, os mais velhos quisessem esquivar-se dela. Mas agora todos estão contentes por terem estado lá em cima. O caminho agora é fácil, pois é uma estrada mestra bem cômoda. O tempo está fresco e acho que eles passaram a noite nas encostas do Tabor.

– Ali é Endor –diz Jesus, mostrando um pobre povoado agarrado às primeiras elevações deste outro grupo de montanhas–. Quereis mesmo ir até lá?

– Se quiserdes me fazer ficar contente… –responde Iscariotes.

– Então, vamos.

– Mas, teremos que caminhar muito? –pergunta Bartolomeu que, pela idade, não deve estar com muita vontade de fazer excursões panorâmicas.

– Oh! não! Mas, se queres ficar… –diz Jesus.

– Sim, sim. Ficai aqui. Basta que eu vá com o Mestre –apressa-se a dizer Judas Iscariotes.

– Agora, eu quereria saber que belezas vamos ver antes de decidir. Do alto do Tabor vimos o mar e, depois do discurso do rapaz, devo confessar que passei a vê-lo com bons olhos pela primeira vez, e passei a vê-lo como Tu o vês: com o coração. E agora eu gostaria de saber se vou aprender alguma coisa. E, então, eu vou, ainda que tenha de cansar-me –diz Pedro

– Estás ouvindo, Judas? Tu não dissestes ainda as tuas intenções. Mas, por gentileza para com os companheiros, dizei-as agora –sugere Jesus.

– Mas não foi a Endor que Saul quis ir[1], para consultar a pitonisa?

– Sim. E então?

– Sim, Mestre, eu gostaria de ir àquele lugar e ouvir-te falar sobre Saul.

– Oh! Nesse caso, eu também vou –diz Pedro entusiasmado.

– Então, vamos.

Terminam com passos rápidos o último trecho da estrada mestra, depois a abandonam, para tomarem uma estrada secundária, que vai diretamente até Endor.

Detalhe

A atenção centra-se em Bartolomeu, Judas, Filipe e Simão Pedro. Os outros apóstolos estão presentes.

EMF 188.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– És israelita? –pergunta o homem.

– Sim.

– Eu também, ou quase, ainda que não pareça. Mas estive muito tempo em outras cidades e apanhei os costumes! Que estes tolos por aí condenam. Sou melhor que os outros. Mas eles me chamam de demônio, porque eu leio muito, crio galinhas, que vendo aos romanos e sei curar por meio de ervas. Quando jovem, por causa de uma mulher, me agarrei com um romano, — naquele tempo eu estava em Cíntio — e o apunhalei. Ele morreu, eu lá perdi um olho e o que eu possuía e fui condenado ao cárcere por muitos anos… para sempre. Mas eu sabia curar, e curei a filha do guarda. Isto valeu-me a amizade dele e um pouco de liberdade. Eu usei dela para fugir. Eu fiz mal, porque o homem certamente teve que perder a vida por causa da minha fuga. Mas a liberdade parece mais bela enquanto somos prisioneiros…

– Então, não é bela depois?

– Não. É melhor o cárcere, onde estamos sós, do que o contato com homens que não nos concedem estar sós, e que estão ao redor de nós para odiar-nos…

– Tu estudaste os filósofos?

– Eu era mestre em Cíntio… Eu era prosélito…

– E agora?

– Agora sou nada. Vivo na realidade. E odeio, como fui e estou sendo odiado.

– Quem é que te odeia?

– Todos e Deus em primeiro lugar. Ela era minha mulher… e Deus permitiu que ela me traísse e arruinasse. Eu era livre e respeitado e Deus permitiu que eu me tornasse um presidiário. O abandono de Deus e a injustiça dos homens fez desaparecer Aquele e estes. Aqui não há mais nada… –E bate na cabeça e no peito–. Isto é, aqui na cabeça está o pensamento, o saber. É aqui que não há mais nada –e cospe com desprezo.

– Estás enganado. Aí tens ainda duas coisas.

– Quais?

– A lembrança e o ódio. Tira-os.

188.4

Sejas verdadeiramente vazio… e Eu te darei uma coisa nova para pôr aí.

– Que é?

– O amor.

– Ah! Ah! Ah! Tu me fazes rir. Há trinta e cinco anos que eu não ria mais, meu homem. Desde que eu tive a prova de que a mulher estava me traindo com o romano mercador de vinhos. O amor! O amor a mim! É como se eu jogasse jóias aos meus frangos! Eles morreriam de indigestão, se não conseguissem passá-las adiante junto com as fezes. Comigo é a mesma coisa. O teu amor seria para mim um peso, se eu não pudesse digeri-lo…

– Não, homem! Não digas isso!

Jesus lhe põe a mão sobre o ombro, verdadeira e manifestamente aflito.

O homem olha para Ele, com o seu único olho, e o que ele vê naquele rosto, de tão grande doçura e beleza, o faz emudecer e mudar de expressão. Do sarcasmo ele passa para uma seriedade profunda, e desta para uma verdadeira tristeza. Ele inclina a cabeça, e depois, pergunta com uma voz diferente:

– Quem és?

– Jesus de Nazaré, o Messias.

– Tu?!

– Eu. Não sabias nada sobre Mim, tu que lês tanto?

– Eu sabia… Mas não que estavas vivo, e não… oh! sobretudo eu não sabia disto! Não sabia que eras bom para com todos… assim… até com os assassinos… Perdoa tudo o que eu te disse… a respeito de Deus e do amor… Agora compreendo porque é que me queres dar o amor… Porque sem o amor o mundo é um inferno, e Tu, o Messias, queres fazer dele um paraíso.

– Um paraíso em todos os corações. Dá-me a lembrança e o ódio, que te tornam doente, e deixa que Eu ponha em teu coração o amor.

– Oh! Se eu te houvesse conhecido antes. Mas, quando eu matava, certamente não tinhas nascido… Mas depois… depois, quando fiquei livre, como livre é a serpente da floresta, eu vivi para envenenar com o meu ódio.

– Mas fizeste também coisas boas. Não disseste que curavas por meio de ervas?

– Sim. Para que me tolerassem. Mas, quantas vezes lutei com a vontade de envenenar por meio de filtros!… Estás vendo? Eu vim me refugiar aqui porque… aqui é um lugar onde nada se sabe do mundo, e que o mundo também não conhece. É um lugar maldito. Noutros lugares eu era odiado e odiava, e tinha medo de ser reconhecido… Mas eu sou mau.

– Tens ainda uma mágoa por teres feito mal ao guarda da prisão. Não vês que tens ainda alguma bondade? Não és mau… Estás somente com uma grande ferida aberta, e ninguém a cura… A tua bondade foge dela, como o sangue das feridas. Mas, se houver quem cuide de ti e cure a tua ferida, meu pobre irmão, a tua bondade — não mais eliminada à medida que se forma — cresceria em ti…

O homem chora de cabeça inclinada, mas sem o mínimo sinal de que está chorando. Só Jesus, que vai caminhando ao lado dele, é que o vê. Mas não lhe diz mais nada.

Detalhe

Jesus está a falar com um homem zarolho que acabou de conhecer. O seu nome é Félix e está cheio de ódio a Deus e aos homens.

Anotação

Tantas vezes lutei contra o desejo de envenenar com poções!... O filtro serve para limpar um líquido das suas impurezas. Uma poção é uma bebida mágica geralmente utilizada para obter amor.