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Notas do tema

Religiões e crenças

Página 34 de 39

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EMF 197.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

« Eu não sei como é que ele sabe a Lei, o Hagadã e o Midrashot. Jesus diz que ele sabe bem…

– Ora! mas se é Jesus quem o diz! Não tenhas medo!»

Detalhe

Pedro fala de Marziam. Ver a anotação.

Anotação

Para salvaguardar a Lei, a base religiosa e jurídica da comunidade judaica, os rabinos, após o exílio, rodearam-na de uma exegese chamada Midrash (Interpretação). Os midrashim são comentários sobre passagens das Escrituras. Entre os autores de renome destas tradições midráshicas contam-se Hillel, Schammei e Gamaliel.

Midrash também se refere ao ramo do conhecimento rabínico que lida com as regras da lei tradicional (escrita), em oposição à Mishnah (tradição oral). Esta interpretação da Lei Mosaica deu origem a novas prescrições, regras de conduta a seguir no culto e na lei (as Halâkoth). A interpretação das partes históricas do Pentateuco deu origem a histórias e lendas(a Haggadah). No entanto, por respeito à Lei mosaica, estes midrashim só podiam ser transmitidos oralmente de geração em geração, embora a sua autoridade fosse praticamente igual à da Lei.

EMF 199.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A esplendida manhã convida realmente a dar um passeio, a deixar as camas e as casas e os moradores da casa do Zelotes, como abelhas ao primeiro sol, surgem muito cedo e partem para respirar o ar puro do pomar de Lázaro, que fica ao redor da pequena casa hospitaleira. Logo se ajuntam também os que estão hospedados com Lázaro, isto é, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, André e Tiago de Zebedeu. O sol entra festivo por todas as janelas e portas escancaradas, e os quartos, simples e limpos, vão-se vestindo com uma tinta de ouro, que aviva as cores das vestes, e faz brilhar também as cores dos cabelos e das pupilas.

Maria de Alfeu e Salomé estão atentas em servir a estes homens, que estão com um apetite notável. Maria, por sua vez, está observando um dos criados de Lázaro, enquanto ele vai compondo os cabelinhos de Margziam, cortando-os com mais habilidade do que tinha feito o primeiro cabeleireiro dele:

– Por enquanto, fica assim –diz ele–. Depois, quando tiveres oferecido a Deus a tua cabeleira de menino, eu a encurtarei como se deve. Quando chegar o calor, te sentirás melhor, sem cabelos no pescoço. E eles ficarão mais fortes. Agora, estão secos e frágeis, descuidados. Estás vendo, Maria? Eles precisam de cuidados. Agora vou untá-los, para conservá-los em seu lugar. Estás sentindo, menino, que cheirinho bom? É o óleo que Marta usa. Amêndoa, palma, miolo do que há de mais fino e com essência rara. Isto faz muito bem. Minha patroa disse que eu guardasse este potinho para o menino. E, então, ele está aqui. Agora, ficas parecendo o filho do rei.

E o servo, que deve ser o barbeiro da casa de Lázaro, dá uma palmadinha na face de Margziam, saúda Maria, e vai-se embora satisfeito.

Anotação

Mais tarde, quando tiverdes dado a Deus o cabelo dos vossos filhos, encurtá-lo-ei ainda mais. Isto está relacionado com o Bar Mitzvah. Alguns rituais de bar mitzvah, para os quais o jovem Marziam se está a preparar, implicam a purificação do futuro filho da Lei através de um banho ritual e do corte do cabelo. Esta oferenda dava continuidade ao rito da circuncisão. Depois disso, "a criança estava religiosamente pronta para se juntar aos oficiantes da sinagoga, onde recitava a oração da manhã de quinta-feira, seguida da oração do Sábado" (Joëlle Balhoul, La maison de mémoire : ethnologie d'une demeure judéo-arabe en Algérie, 1937-1961, página 179). Segundo Maria Valtorta, trata-se de um rito antigo.

Além disso, segundo Maria Valtorta, os galileus (por exemplo, Jesus, João, etc.) usam o cabelo bastante comprido e os judeus bastante curto (por exemplo, Judas). O calor a que o servo se refere imediatamente a seguir pode explicar este facto.

EMF 199.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Até às vizinhanças de Jerusalém, vão indo todos juntos. Depois, eles se separam, indo Iscariotes, por sua própria conta, entrando na cidade provavelmente por aquela porta que fica perto da fortaleza Antônia, enquanto que Tomé, com Filipe e Natanael, andam ainda algumas dezenas de metros com Jesus e os companheiros e depois entram na cidade pelo subúrbio de Ofel junto com Maria e o menino.

199.4

– E agora vamos àqueles infelizes! –diz Jesus e, virando as costas para a cidade, se dirige para um lugar desolado, situado nas encostas de uma colina rochosa, que fica entre as duas estradas, que vão de Jericó para Jerusalém.

É um lugar estranho, parecendo-se mais com um conjunto de escadarias, depois da primeira subida, acima da qual se chega a um caminho, de tal modo que o primeiro lance fica a pique, pelo menos uns três metros acima do caminho, e igualmente o segundo. Tudo aqui é aridez e morte… Uma grande tristeza.

– Mestre –grita Simão Zelotes–, eu estou aqui. Para aí, que eu vou te ensinar o caminho…

E Zelotes, que tinha se encostado à rocha, procurando um pouco de sombra, vai para a frente, e conduz Jesus por um caminho em degraus, que vão no rumo do Getsêmani, mas apartado dele pela estrada que, do Monte das Oliveiras vai para Betânia[1].

– Já chegamos. Entre os sepulcros de Siloan eu vivi, e aqui estão os meus amigos. Só uma parte deles. Os outros estão em Ben Hinon mas não podem vir… Teriam que atravessar a estrada, e seriam vistos.

– Nés iremos a eles também.

– Obrigado! Por eles e por mim.

EMF 199.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Vós ainda não quereis crer? Mas que espécie de infelizes sois?

– Bons! Sede bons. Os pobres irmãos precisam pensar. Não lhes digais nada. A fé não se impõe, mas se prega com a paz, a doçura, a paciência, a constância.

Detalhe

Jesus acaba de curar alguns leprosos. Há ainda outros que não pediram o milagre, mas viram os seus colegas curados. Perguntam-lhes então porque é que ainda não acreditam no Messias.

EMF 200.7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Passa mais algum tempo, e depois sobem em grupo os apóstolos com o menino e João de Endor. Acompanham-nos as mulheres, com os diversos pratos e as luzes. Por último, vem Lázaro com Simão. Logo que entram na sala, exclamam:

– Ah! Era daqui que saía! –e farejam o ar saturado de um perfume de rosas, saturado, por mais escancaradas que estejam as portas–. Mas, quem foi que perfumou assim esta sala? Terá sido Marta? –perguntam muitos.

– Minha irmã não saiu de casa hoje, depois do jantar, responde Lázaro.

– Quem terá sido, então? Algum sátrapa assírio? –caçoa Pedro.

– O amor de uma redimida –diz Jesus, sério.

– Ela podiaela ter poupado esta inútil exibição de redenção e dar tudo o que gastou aos pobres. Eles são tantos e sabem que nós lhes damos. Eu não tenho mais nem um vintém, diz, irritado, Iscariotes. E ainda temos que comprar o cordeiro, alugar a sala para o Cenáculo e…

– Mas eu vos ofereci tudo!… –diz Lázaro.

– Mas não é justo. O rito perde a beleza. A Lei diz: “Tomarás o cordeiro para ti e tua casa.” Não diz: “Aceitarás o cordeiro.”

Bartolomeu se vira, de repente, abre a boca, mas logo a fecha. Pedro fica vermelho, pelo esforço feito para calar-se. Mas Zelotes, que está em sua casa, acha que pode falar, e diz:

– Essas são sutilezas rabínicas… Eu te peço que deixes de lado isso tudo e, em compensação, conserves o respeito para com o meu amigo Lázaro.

– Muito bem, Simão! –Pedro — se não fala — é capaz de explodir–. Muito bem. Parece-me também que aqui se esqueçe um pouco demais de que só o Mestre tem o direito de ensinar…

Pedro diz aquelas palavras “que aqui se esquece”, com um esforço verdadeiramente heróico, para não dizer: “que Judas se esquece”.

– É verdade… mas estou nervoso. Desculpa, Mestre.

– Sim. Eu também te respondo. A gratidão é uma grande virtude. Eu sou muito grato a Lázaro. Assim como aquela redimida foi grata a Mim. Eu espalho sobre Lázaro o perfume da minha bênção, também por aqueles, entre os meus discípulos, que não sabem fazer isso. Eu, chefe de todos vós. A mulher derramou a meus pés o perfume de sua alegria de ser salva. Ela reconheceu o Rei, e veio ao Rei, antes de muitos outros, sobre os quais o Rei tem feito a efusão de muito mais amor do que sobre ela. Deixai que ela faça o que fez, e não a critiqueis. Ela não poderá estar presente à minha aclamação, nem à minha unção. A cruz dela já está em suas costas. Pedro, tu disseste que parecia ter passado por aqui algum sátrapa assírio. Em verdade, Eu te digo que, nem mesmo o incenso dos Magos, tão puro e precioso, era mais suave do que este. A essência deste foi dissolvida no pranto, e por isso é que ela é tão penetrante: a humildade sustém o amor e o torna perfeito. Vamos sentar-nos à mesa, amigos…

E, com o oferecimento da refeição, cessa a visão.

Detalhe

Aglaia apresenta-se a Jesus e deita perfume na sala, como sinal da sua conversão. Quando os apóstolos sobem as escadas, ela já tinha saído.

Anotação

Livro do Êxodo 12, 3

Ex 12, 3: Fala a toda a congregação de Israel e dize-lhe: No décimo dia deste mês, cada homem tome um cordeiro para cada família, um cordeiro para cada casa

EMF 201

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo : O exame da maioridade de Marziam.

Data da visão: Terça-feira 26 de junho de 1945.

Calendário: Quarta-feira 29 de março de 28 (16 Nissan 3788)

Local (mapa) : Templo de Jerusalém

Ciclo: A segunda viagem pascal

Resumo: O grupo apostólico está com as mulheres e José de Arimatéia. Perto do Templo, estão à espera de Judas, Tomé e Bartolomeu, mas só os dois últimos aparecem. Iscariotes não está presente. Foram esperar por ele noutro local, mas o apóstolo não apareceu. José de Arimateia impacienta-se e dirigem-se finalmente para o lugar santo, onde Marziam vai fazer o seu exame. Jesus não pode ir com ela porque isso seria um desserviço para ele. Pedro fica triste, mas compreende. Em vez disso, José acompanha Simão e o seu filho adotivo. São recebidos por Azrael e Jacob, dois rabinos ou chefes de sinagoga que mostram desprezo por Pedro e passam ao lado do exame. Mas Marziam é aceite e a criança regressa com o pai, muito feliz. Jesus também está feliz, mas está triste, como os outros, com a deserção de Judas, e Pedro só tardiamente se apercebe disso. No entanto, o Mestre tranquiliza-o e vão ter com José de Arimateia. É então que a visão termina.

Conteúdo do capítulo: 201.1: Entram no Templo, no meio de insultos entre os soldados e a multidão. 201.2: Reúnem-se com os apóstolos, mas Judas está ausente. 201.3: Procuram-no em vão e Pedro entra com Marziam, sem Jesus. 201.4: José de Arimateia faz uso do seu prestígio. Primeiras perguntas. 201.5: Marziam passa no exame e Pedro faz seu pequeno discurso. 201.6: José de Arimatéia convida para um banquete. Pedro vai sacrificar um cordeiro. 201.7: Judas tem sido um desordeiro.

Edição anterior: Volume 3, capítulo 62

EMF 201.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Deve esta ser a manhã de quarta-feira, porque a comitiva dos apóstolos e das mulheres, precedida por Jesus e Maria, com o pequeno entre eles, já se vai aproximando da Porta dos Peixes. Com eles está também José de Arimateia que, fiel à palavra dada, foi ao encontro deles.

Jesus procura com o olhar o soldado Alexandre, mas não o vê…

– Nem mesmo hoje ele está aí. Gostaria de saber o que aconteceu.

Mas a multidão é tão grande, que não há modo de perguntarem aos soldados, e talvez isso fosse até uma imprudência, porque os judeus estão hoje mais intransigentes do que nunca, à medida que a festa vai se aproximando e por causa do rancor pela captura do Batista, na qual eles acham que também Pilatos, com os seus satélites, tenha sido cúmplice. Vou compreendendo tudo isso, pelos epítetos e pelo bate-boca que continuamente se trocam, junto à Porta, entre os soldados e os habitantes da cidade, e os insultos… pitorescos e grosseiros, que estalam a cada momento, como os fogos de uma girândola continua. As mulheres da Galileia ficam escandalizadas com isso e se envolvem, como nunca, em seus véus e em seus mantos. Maria enrubesce, mas vai firme para a frente, ereta como uma palmeira, olhando para o seu Filho, o qual, por sua vez, nem tenta fazer que os exaltados hebreus raciocinem, nem aconselha compaixão aos soldados para com os hebreus. E, posto que alguns epítetos não muito bonitos estejam sendo dirigidos também ao grupo dos galileus, José de Arimateia passa para a frente, para perto de Jesus e a multidão, que o conhece bem, fica calada por respeito a ele.

A Porta dos Peixes finalmente é superada e este rio de gente que, como em ondas, vai desembocando na cidade, misturado com os asnos e os rebanhos, invade as ruas…

Anotação

O grupo de apóstolos e mulheres, precedido por Jesus e Maria com o menino no meio, aproxima-se da Porta de Peixes. Porta a norte, ao pé da fortaleza de Antónia.

EMF 201.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Encostam-se a um muro, em sua parte sombreada, as mulheres em um grupo, e os homens em outro. Todos estão com vestes de festa. Pedro, então, está um verdadeiro luxo, ostentando um chapéu novo em folha, branco como a neve, e seguro por uns passamanes bordados em vermelho e ouro. Ele está com a sua melhor veste, cor de granada, muito escura, adornada com um cinturão novo, como o é também o galão do chapéu, e do cinturão está pendurada a faca na bainha, como se fosse um punhal, com o punho burilado, a bainha de latão toda trabalhada com furinhos, através dos quais brilha o aço lustroso da lâmina. Também os outros estão mais ou menos armados assim. Só Jesus está sem armas, vestido com uma veste de linho muito alva e com um manto azul flor-de-lis, certamente tecido por Maria no inverno. Margziam está vestido com uma veste de cor vermelho-pálida, com um galão de cor mais escura à altura da garganta, na orla da veste e nos pulsos, e um galão igualmente bordado, à altura da cintura e das bordas do manto, que vai, porém, sendo levado dobrado sobre o braço pelo menino, que o acaricia muito contente, levantando, de vez em quando, um rostinho, sorridente por um lado… e preocupado pelo outro… Também Pedro vai segurando com cuidado um embrulho, que está em sua mão.

Detalhe

As roupas dos apóstolos e de Marziam para a festa da sua maioridade, durante a Páscoa judaica.

EMF 201.3-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Vamos.

Margziam fica um pouco pálido, e beija Maria, dizendo:

– Reza!… Reza!…

– Sim, querido. Não tenhas medo. Tu sabes tudo bem…

Margziam se agarra, então a Pedro. Aperta nervosamente a mão de Pedro e, não se sentindo ainda seguro, gostaria de segurar a mão de Jesus.

– Eu não vou, Margziam. Mas rezarei por ti. Nós nos veremos depois.

– Não vais? Por que, Mestre? –diz assombrado Pedro.

– Porque é melhor assim…

Jesus está muito serio, eu diria, triste. E termina:

– José, que é justo, não pode deixar de aprovar o meu ato.

De fato, José não diz uma palavra e, com o seu silêncio e um suspiro eloquente, confirma o que Jesus disse.

– Então… vamos…

Pedro está um pouco aflito.

Margziam se agarra agora a João. E vão indo, precedidos por José, que vai sendo continuamente saudado com profundas inclinações. Com eles vão Simão e Tomé. Os outros ficam com Jesus.

201.4

Entram na sala em que Jesus, quando chegou a sua vez, também entrou. Um jovem, que estava escrevendo a um canto, levanta-se num salto ao ver José e se dobra até o chão.

– Deus esteja contigo, Zacarias. Vai depressa chamar Asrael e Jacó.

O jovem sai para voltar quase em seguida, com dois rabinos, sinagogos ou escribas, eu não sei. São dois personagens carrancudos, que depõem essa máscara só diante de José. Atrás deles, entram outros oito, menos imponentes. Eles se assentam, deixando de pé os postulantes, inclusive o de Arimateia.

– Que queres José? –pergunta o mais velho.

– Apresentar à vossa sagacidade este filho de Abraão, que completou o tempo prescrito para entrar na Lei e reger-se sozinho por ela.

– É teu parente? –e olham todos, admirados.

– Em Deus somos todos parentes. Mas o menino é órfão, e este homem, de cuja honestidade eu me faço fiador, tomou-o para si, a fim de que o seu tálamo não fique privado de descendência.

– Quem é esse homem? Que ele responda por si mesmo.

– Simão de Jonas, de Betsaida na Galileia, casado sem filhos, pescador pelo mundo, filho da Lei pelo Altíssimo.

– E tu, galileu, queres assumir essa paternidade, por quê?

– Está dito[1] na Lei que devemos amar ao órfão e à viúva. Eu o faço.

– Por acaso, poderá esse aí conhecer a Lei, a ponto de merecer que… Mas tu, menino, responde. Quem és?

– Jabé Margziam de João, das campinas de Emaús, nascido há doze anos.

– Portanto, és judeu. É permitido que um galileu cuide dele? Vamos ver o que dizem as leis.

– Mas, que é que eu sou? Um leproso, ou um amaldiçoado?

O Sangue de Pedro começa a ferver.

– Cala-te, Simão. Eu falo por ele. Eu vos disse que me faço fiador deste homem. Eu o conheço, como se fosse de minha família. O Ancião José não proporia nunca uma coisa contrária à Lei, nem às leis. Procurai examinar o menino, com justiça e presteza. O pátio está cheio de meninos, que estão esperando o exame. Não sejais lentos, pelo amor de todos.

– Mas, quem prova que este menino tem doze anos e que foi resgatado do Templo?

– Tu o podes provar com as escrituras. E uma busca se pode fazer. Menino, disseste que és o primogênito?

– Sim, Senhor. Podes vê-lo, porque fui consagrado ao Senhor e resgatado com os devidos dízimos.

– Vamos procurar esses apontamentos… –diz José.

– Não adianta! –respondem secamente os dois caviladores–.

201.5

Vem aqui, menino. Dize o Decálogo.

E o menino o diz com firmeza.

– Dá-me aquele rolo, Jacó. Lê, se o sabes.

– Onde, rabi?

– Onde quiseres. Onde baterem os teus olhos –diz Asrael.

– Não. Aqui. Dá-me –diz Jacó. E vai abrindo o rolo até chegar a um ponto.

Depois diz:

– Aqui.

– “Então, ele lhes disse em segredo: ‘Bendizei o Deus do Céu e dai-lhe louvores, diante de todos os viventes, porque Ele usou de misericórdia para convosco. Pois é bom conservar escondido o segredo do rei, mas é honroso revelar…’”

– Basta! Basta! Que são estas coisas? –pergunta Jacó, mostrando as franjas do seu manto.

– São as franjas sagradas, senhor: nós as trazemos para recordar-nos dos preceitos do Senhor Altíssimo.

– É permitido a um israelita comer qualquer carne? –pergunta Asrael.

– Não, Senhor. Somente aquelas que são declaradas puras.

– Dize-me os preceitos…

Dócil, o menino começa a ladainha dos “Não farás…”

– Basta! Basta! Para um galileu, já é saber até demais. Homem, cabe-te agora jurar que o menino é maior de idade.

Pedro, com todo o garbo de que ainda dispõe, depois de tantas grosserias pronuncia o seu discurso paterno:

– Como observastes, o meu filho, tendo chegado à idade prescrita, já é capaz de guiar-se, conhecendo a Lei e os preceitos, os costumes, as tradições, as cerimônias, as bênçãos, as orações. Por isso, como pudestes verificar, pode, por mim e por ele ser pedida a maioridade. Na verdade, isto devia ter sido dito primeiro por mim. Mas aqui foram violados, e não por galileus, os costumes, quando foi interrogado o menino antes do pai. Contudo, agora eu vos digo: já que o considerastes capaz, a partir deste momento, eu não sou mais responsável por suas ações, nem junto a Deus, nem junto aos homens.

– Passai agora para a sinagoga.

O pequeno cortejo passa para a sinagoga, pelo meio dos rostos carrancudos dos rabis, dos quais Pedro chamou a atenção. Ereto, diante das Leis e das lâmpadas, Margziam passa pelo corte dos cabelos, que dos ombros foram encurtados até as orelhas, e depois Pedro, que abriu o seu embrulhinho, tira dele um belo cinturão de lã vermelha, bordado de vermelho ouro, e o aperta à cintura do menino. Depois, enquanto os sacerdotes estão atando na fronte e no braço umas tirinhas de couro, Pedro está ocupado em alinhavar no manto que Margziam lhe entregou, as franjas sagradas. E Pedro está muito comovido, quando entoa o louvor ao Senhor!…

201.6

A cerimônia terminou. Todos rapidamente saem para fora, e Pedro diz:

– Menos mal. Eu não suportava mais! Viste, José! Eles nem completaram o rito. Não faz mal. Tu… tu, meu filho, tens quem te consagra… Vamos pegar um cordeirinho para o sacrifício de louvor ao Senhor. Um cordeirinho querido como tu. Eu te agradeço, José. Dize, tu também, um “obrigado” a este grande amigo. Sem ti, eles nos tratariam muito mal.

– Simão, eu estou contente por ter sido útil a um justo como tu, e te peço que venhas à minha casa, em Bezeta, para o banquete. E contigo todos, é natural.

– Vamos contá-lo ao Mestre. Para mim é… honra demais –diz humildemente Pedro, mas está faiscando de alegria.

Na volta, eles atravessam os pátios e os átrios, até o pátio das mulheres, onde Margziam é felicitado por todas. Depois, os homens passam para o átrio dos israelitas, onde Jesus está com os seus. Unem-se todos em uma bela comunhão de felicidade, e, enquanto Pedro vai sacrificar o cordeiro, eles se dirigem, pelos pórticos e átrios, à primeira cinta.

201.7

Como está feliz Pedro com o seu menino, perfeito israelita agora! A tal ponto, que nem vê a ruga que atravessa a fronte de Jesus. Até o ponto, que nem nota o silêncio opressivo dos companheiros. É somente na sala da casa de José, — quando o menino, à pergunta ritual sobre o que ele vai fazer no futuro, declara: “Vou ser pescador como meu pai” — aí é que, entre lágrimas, Pedro cai em si e compreende…

– Mas… Judas pôs uma gota de veneno nesta festa… E Tu estás magoado, Mestre… e os outros estão também tristes por isso. Perdoai-me, vós todos, por não ter eu visto isso antes. Ah! aquele Judas!…

O suspiro dele, creio que está em todos os corações… Mas Jesus, para tirar o veneno, se esforça para sorrir e diz:

– Não fiques magoado Simão. Só está faltando a tua mulher nesta festa… e Eu estava pensando também nela, tão boa e sacrificada sempre. Mas logo ela vai ter a sua alegria inesperada e como será bem acolhida! Pensemos no bem que ainda há no mundo. Vem. Então Margziam respondeu bem? Eu já sabia antes…

José torna a entrar, depois de ter dado ordens aos seus criados:

– Eu vos agradeço a todos –ele diz–, por me terdes rejuvenescido com esta cerimônia e por me terdes dado a honra de ter em minha casa o Mestre, sua mãe, os parentes e vós, caros condiscípulos. Vinde para o jardim. Aí fora há um ar bom e flores…

E tudo termina.

EMF 202

O Evangelho como me foi revelado

Detalhe

Título do capítulo: A reprovação a Judas e a chegada dos camponeses de Yokhanan (Giocana).

Data da visão: Quarta-feira, 27 de junho de 1945.

Calendário: Quinta-feira, 30 de março de 28 (17 Nissan 3788)

Local (mapa): Templo de Jerusalém

Ciclo: A segunda viagem pascal

Resumo: O grupo apostólico está no Templo, sem as mulheres. Estão à espera de Pedro, que foi sacrificar um cordeiro. Entretanto, vêem Judas e Tomé vai ouvir o que ele diz, sem esperar pelo acordo de Jesus. O apóstolo dá logo a conhecer a sua presença aos Iscariotes e Judas decide ir com ele ver o resto do grupo. Mas Tomé não é parvo e avisa-o para ter cuidado com o seu comportamento.

Perante o Mestre e os outros, Judas saúda Jesus, mas Jesus fala a sério e diz-lhe que Judas está a fugir dele. Cristo recorda também que ele ignorou Pedro e o grupo no dia do exame de Marziam. Enquanto Judas tenta justificar-se, a criança escapa-se alegremente para ver os camponeses de Doras, e Jesus pede a João de Endor que os retenha um pouco. Segue-se uma repreensão a Judas, que o informa de que não poderá estar presente no dia seguinte para ver os amigos do seu pai. O homem vai-se embora e Jesus pede aos seus amigos que esqueçam o incidente e que não contem nada a Simão Pedro, a João de Endor, a Marziam e à sua mãe.

Por fim, os camponeses de Doras cumprimentam o Mestre e ficam extasiados com a boa saúde de Yabeç, que não esconde a sua afeição pelo seu Jesus. É assim que termina a visão.

Conteúdo do capítulo: 202.1: No pátio do Templo, Judas pavoneia-se entre os escribas. 202.2: Tomé vai ao seu encontro e repreende-o. 202.3: Jesus repreende severamente Judas pela sua ausência e rudeza. 202.4: E pede aos outros que se mantenham em silêncio sobre o incidente. 202.5: Os camponeses notam a felicidade de Marziam.

Edição anterior: Volume 3, capítulo 63