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Notas do tema

Jesus Cristo

Página 132 de 151

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EMF 203.8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

“Venha o teu Reino assim na terra como no Céu.”

Desejai com todas as vossas forças este advento. Seria a alegria sobre toda a terra, se ele viesse. O Reino de Deus nos corações, nas famílias, entre os cidadãos, entre as nações. Sofrei, fatigai-vos, sacrificai-vos por este Reino. Seja a terra um espelho que reflita em cada um a vida dos Céus. Ele virá. Um dia tudo isso virá. Séculos e séculos de lágrimas e sangue, de erros, de perseguições, de escuridão rompida por raios de luz, que irradiam do Farol místico da minha Igreja — que, se é uma barca, que não será submersa, é também uma rocha irremovível, frente a todos os vagalhões, e alta vai conservar a Luz, a minha Luz, a Luz de Deus — aqueles séculos precederão o momento no qual a terra possuirá o Reino de Deus. E será então como o flamejar intenso de um astro que, tendo chegado ao ponto mais perfeito de sua existência, se desagrega, como uma flor descomunal dos jardins etéreos, para exalar, em palpitações rutilantes, a sua existência e o seu amor aos pés do seu Criador. Mas, que virá, virá. Depois disso, será o Reino Perfeito, feliz e eterno no Céu.

EMF 203.12 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

“Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Maligno.”

O homem, que não sentiu necessidade de participar conosco da Ceia da Páscoa, me perguntou, há menos de um ano; “Como? Tu pedistes para não seres tentado, e para seres ajudado na tentação, contra ela mesma?” Nós dois estávamos sozinhos… e Eu respondi. Depois, éramos quatro em um lugar solitário, e Eu ainda respondi. Mas ainda não adiantou, porque em um espírito muito resistente é preciso insinuar-se, demolindo a má fortaleza de sua obstinação. E, por isso, o direi ainda uma, dez, cem vezes, até que tudo chegue ao fim.

Mas vós, não encouraçados em infelizes doutrinas e em paixões ainda mais infelizes, rezai com humildade para que Deus impeça as tentações. Oh! A humildade! Conhecer-se pelo que se é. Sem aviltar-se, mas procurando conhecer-se. Dizer: “Eu poderia ceder, mesmo que não me pareça poder fazê-lo, porque eu sou um juiz imperfeito de mim mesmo. Portanto, Pai meu, se for possível, liberta-me das tentações conservando-me perto de Ti, para não permitir ao Maligno fazer-me mal.” Porque, recordai-vos disso, não é Deus que tenta para o Mal, mas é o Mal que tenta. Rezai ao Pai para que Ele ajude a vossa fraqueza, a tal ponto, que ela não possa ser induzida em tentação pelo Maligno.

Anotação

O homem (...) perguntou-me há menos de um ano: "Como? Pediste para não seres tentado e para seres ajudado na tentação contra ti mesmo? "Maria Valtorta anotou: "Nota: este argumento suscitou espanto e um... digamos estranho para não dizer calculado escândalo para com o autor desta obra, como se ao dizer isto tivesse blasfemado contra Cristo... Remetemo-los para a página 229 de "Così sìa (Assim seja)" do Rev.do P. (Luigi) Pazzaglia O.S.M., livro aprovado..." (1946, L.I.C.E. Berruti Torino).

Éramos só nós os dois... e eu respondi. Em EMV 69.5 a Judas.

Noutra ocasião, éramos quatro num lugar solitário, e eu respondi novamente. Em EMV 80.8/10 a Simão e João.

EMF 203.13 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Já o disse, meus queridos. Esta é a minha segunda Páscoa entre vós. No ano passado, partimos somente o pão e o cordeiro. Neste ano vos dou a oração. Outros presentes terei para as outras minhas Páscoas entre vós, para que, quando Eu tiver ido para onde o Pai quer, vós tenhais uma lembrança de Mim, Cordeiro, em todas as festas do Cordeiro de Moisés.

EMF 204.1-3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Na paz do sábado, Jesus está descansando perto de um campo de linho todo em flor, pertencente a Lázaro. Ele está mais do que perto, eu diria que Ele está submerso no meio do linho e, sentado à beira de um sulco, absorto em seus pensamentos. Junto dele só se vê alguma silenciosa borboleta, ou alguma lagartixa rastejando e que olha para Ele com seus olhinhos de azeviche, levantando a cabecinha triangular para cima da garganta clara e palpitante. E nada mais. Nesta hora já adiantada do meio-dia, cala-se até o menor sopro de vento por entre as altas hastes.

De longe, talvez lá do jardim de Lázaro, está fazendo-se ouvir o canto de uma mulher e, junto com ele, os gritos festivos de um menino, que está brincando com algum outro. Depois, uma, duas, três vozes exclamam: “Mestre!” “Jesus!”

Jesus volta a si e se levanta. E, por mais que o linho, em seu completo crescimento, já esteja bem alto, Jesus emerge bem por cima deste mar verde e azul.

– Lá está Ele, João –grita Zelotes.

E João, por sua vez, chama:

– Mãe, o Mestre está aqui, no meio do linho.

E, enquanto Jesus vai-se aproximando do caminho que vai para as casas, eis que Maria chega perto dele.

– Que queres, mãe?

– Meu filho, chegaram pagãos com umas mulheres. Dizem que ficaram sabendo por Joana que estavas aqui. Dizem também que Te ficaram esperando durante todos estes dias, perto da fortaleza Antônia…

– Ah! Compreendi! Eu já vou. Onde estão eles?

– Na casa de Lázaro, em seu jardim. Ele é amado pelos romanos e não tem repugnância por eles, como nós temos. Ele os fez entrar, com os seus carros, no amplo jardim, para não escandalizar a ninguém.

– Está bem, mãe.

204.2

São soldados e damas romanas. Eu sei.

– E que quererão de Ti?

– Aquilo que muitos de Israel não querem: Luz.

– Mas, que pensarão sobre como és e quem és? Deus, talvez?

– Deus, do modo deles, sim. Para eles é fácil acolher a ideia de uma encarnação de um deus em carne mortal, mais do que para nós.

– Então, conseguiram crer na tua fé…

– Ainda não, minha mãe. Primeiro é preciso destruir a deles. Por enquanto, Eu sou para eles um sábio, um filósofo, como eles dizem. Mas, ou por este desejo veemente de conhecer doutrinas filosóficas, ou porque essa tendência deles para crer que é possível a encarnação de um deus, Eu sou muito ajudado a levá-los à verdadeira Fé. Podes crer, eles são mais ingênuos, em seus pensamentos, do que muitos em Israel.

– Mas, serão eles sinceros? Dizem que o Batista…

– Não. Se dependesse deles, João estaria livre e em segurança. Quem não é rebelde, é deixado sossegado. Antes, te digo, para eles o ser profeta — eles os chamam de filósofos, porque toda elevação da sabedoria para deles é sempre filosofia — é uma garantia para serem respeitados. Não fiques preocupada, minha mãe. Dali não me virá mal…

– Mas os fariseus… se souberem, que irão dizer, até de Lázaro? Tu… és Tu, e deves levar a palavra ao mundo. Mas Lázaro!… Já é tão ofendido por eles…

– Mas ele é intocável. Eles sabem que ele é protegido por Roma.

– Eu Te deixo, meu Filho. Aí vem Maximino, para levar-te aos pagãos –e Maria, que havia caminhado ao lado de Jesus durante todo aquele tempo, se retira ligeira, indo para a casa de Zelotes, enquanto Jesus entra por um portãozinho de ferro, aberto no muro do jardim, em uma parte mais afastada dele, lá onde o jardim se transforma em pomar, isto é, perto do lugar onde, mais tarde, haveria de ser sepultado Lázaro.

Lá está também Lázaro e ninguém mais:

– Mestre, tomei a liberdade de hospedá-los…

– Fizeste bem. Onde estão?

– Lá naquela sombra de buxos e loureiros. Como vês, estão afastados pelo menos uns quinhentos metros da casa.

– Está bem, está bem.

204.3

Que a luz venha a todos vós!

EMF 204.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Que queres, mãe?

– Meu filho, chegaram pagãos com umas mulheres. Dizem que ficaram sabendo por Joana que estavas aqui. Dizem também que Te ficaram esperando durante todos estes dias, perto da fortaleza Antônia…

– Ah! Compreendi! Eu já vou. Onde estão eles?

– Na casa de Lázaro, em seu jardim. Ele é amado pelos romanos e não tem repugnância por eles, como nós temos. Ele os fez entrar, com os seus carros, no amplo jardim, para não escandalizar a ninguém.

– Está bem, mãe.

204.2

São soldados e damas romanas. Eu sei.

– E que quererão de Ti?

– Aquilo que muitos de Israel não querem: Luz.

– Mas, que pensarão sobre como és e quem és? Deus, talvez?

– Deus, do modo deles, sim. Para eles é fácil acolher a ideia de uma encarnação de um deus em carne mortal, mais do que para nós.

– Então, conseguiram crer na tua fé…

– Ainda não, minha mãe. Primeiro é preciso destruir a deles. Por enquanto, Eu sou para eles um sábio, um filósofo, como eles dizem. Mas, ou por este desejo veemente de conhecer doutrinas filosóficas, ou porque essa tendência deles para crer que é possível a encarnação de um deus, Eu sou muito ajudado a levá-los à verdadeira Fé. Podes crer, eles são mais ingênuos, em seus pensamentos, do que muitos em Israel.

– Mas, serão eles sinceros? Dizem que o Batista…

– Não. Se dependesse deles, João estaria livre e em segurança. Quem não é rebelde, é deixado sossegado. Antes, te digo, para eles o ser profeta — eles os chamam de filósofos, porque toda elevação da sabedoria para deles é sempre filosofia — é uma garantia para serem respeitados. Não fiques preocupada, minha mãe. Dali não me virá mal…

– Mas os fariseus… se souberem, que irão dizer, até de Lázaro? Tu… és Tu, e deves levar a palavra ao mundo. Mas Lázaro!… Já é tão ofendido por eles…

– Mas ele é intocável. Eles sabem que ele é protegido por Roma.

– Eu Te deixo, meu Filho. Aí vem Maximino, para levar-te aos pagãos –e Maria, que havia caminhado ao lado de Jesus durante todo aquele tempo, se retira ligeira, indo para a casa de Zelotes, enquanto Jesus entra por um portãozinho de ferro, aberto no muro do jardim, em uma parte mais afastada dele, lá onde o jardim se transforma em pomar, isto é, perto do lugar onde, mais tarde, haveria de ser sepultado Lázaro.

EMF 204.3-9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

«Que a luz venha a todos vós!

– Salve, Mestre! –assim o saúda Quintiliano, vestido como civil.

As mulheres se levantam para saudá-lo. São Plautina, Valéria e Lídia, e mais uma, já idosa, que não sei quem seja, se é da mesma condição, ou de condição inferior. Todas estão vestidas de modo muito simples e nada as distingue.

– Nós quisemos ouvir-te. Tu não vieste mais. Eu estava… de guarda à tua chegada. Mas não consegui Te ver.

– Eu também não vi mais um soldado, que me tratou amigavelmente na Porta dos Peixes. Chamava-se Alexandre…

– Alexandre? Não tenho certeza se é aquele. Mas sei que, tempos atrás, tivemos que remover, para acalmar os judeus, um soldado culpado de… ter falado contigo. Agora ele está em Antioquia. Mas talvez volte. Puxa! Como são aborrecidos os… os que querem dar ordens, logo agora que nos estão submetidos! É preciso, então, agir com muita habilidade, antes que as coisas piorem… Eles nos tornam a vida difícil, podes crer… Mas Tu és bom e sábio. Vais falar para nós? Talvez daqui a pouco eu tenha que deixar a Palestina. Gostaria de ter alguma coisa de Ti como lembrança.

– Eu vos falarei. Nunca decepcionei. Que quereis saber?

Quintiliano olha para as mulheres, como quem pergunta…

– O que quiseres, Mestre –diz Valéria.

204.4

Plautina se levanta de novo, e diz:

– Estive pensando muito… teria que conhecer tantas coisas… tudo, para julgar. Mas, se me for permitido fazer uma pergunta, eu gostaria de saber como é que se constrói uma fé, a tua, por exemplo, sobre um terreno que Tu disseste que está destituído da verdadeira fé. Disseste que as nossas crenças são vazias. Então, ficamos sem nada. Como chegar a ter fé?

– Vou tomar como exemplo uma coisa que vós tendes. Os templos. Os vossos edifícios sagrados, verdadeiramente belos e cuja única imperfeição é a de serem dedicados ao nada, eles vos podem ensinar como é que se pode chegar a ter uma fé e onde colocar a fé. Vede bem. Onde são eles construídos? Que lugar é possivelmente escolhido para eles? Como são construídos? Geralmente estão em áreas espaçosas, livres e elevadas. E, se não for espaçosa e livre, então se faz que fique sendo, faz-se a demolição de tudo o que a estorva ou que lhe cria obstáculos. Se o lugar não é elevado, então se faz que fique mais alto, construindo pedestais mais altos que os de costume, de três degraus, que são usados para os templos já colocados sobre alguma elevação natural. Fechados em um recinto sagrado, quase sempre formado por colunatas e pórticos, dentro dos quais estão encerradas as árvores consagradas aos deuses, fontes e altares, as estátuas e estelas são precedidas somente pelo propileu, depois do qual está o altar, onde são feitas as preces ao nume. Diante deste, há um lugar para o sacrifício, porque o sacrifício vem antes da oração. Muitas vezes, e especialmente nos mais grandiosos, o peristilo os circunda de uma grinalda de mármores preciosos. Na parte interna, há um vestíbulo anterior, externo ou interno em relação ao peristilo, a cela do nume e o vestíbulo posterior. Mármores, estátuas, frontões, acrotérios e tímpanos, todos limpos, preciosos, decorados, que fazem do templo um edifício muito nobre até para as vistas mais incultas. Não é assim?

– Assim é, Mestre. Tu os viste e estudaste muito bem –confirma e elogia Plautina.

– Mas, pelo que consta, nunca saíste da Palestina –exclama Quintiliano.

– Não saí nunca para ir a Roma nem a Atenas. Mas não ignoro a arquitetura da Grécia nem a de Roma, nem o gênio do homem que decorou o Partenon. Eu estava presente, porque Eu estou em toda parte, onde há vida e manifestação de vida. Lá, onde um sábio estiver pensando, um escultor esculpindo, um poeta compondo, uma mãe cantando sobre um berço, um homem se cansando sobre os sulcos, um médico lutando contra as doenças, um vivente respirando, um animal vivendo, uma árvore vegetando, lá estou Eu junto com Aquele do qual Eu venho. No estrondo do terremoto ou no fragor dos raios, na luz das estrelas ou no fluxo das marés, no vôo da águia ou no zumbido do mosquito, Eu estou com o Criador Altíssimo.

– De forma que… Tu… Tu sabes tudo? E o pensamento e as obras dos homens? –pergunta Quintiliano.

– Eu sei.

Os romanos olham um para o outro, assombrados.

204.5

Um longo silêncio, e depois, timidamente, Valéria faz este pedido:

– Desenvolve o teu pensamento, Mestre, para que saibamos o que fazer.

– Sim. A fé se constrói, como se constróem os templos, dos quais tanto vos orgulhais. Faz-se espaço para o templo e liberdade ao redor dele. E se procura uma elevação para ele.

– Mas, onde é que está o templo, para que nele se coloque a fé, esta verdadeira deidade? –pergunta Plautina.

– Não é uma deidade a fé, Plautina. É uma virtude. Não existem deidades na verdadeira fé. Mas só há um único e verdadeiro Deus.

– Então, Ele fica lá em cima sozinho no seu Olimpo? E que é que Ele faz, se está sozinho?

– Ele se basta a Si mesmo, e se ocupa com todas as coisas que existem na criação. Eu te disse antes: até no zumbido do mosquito Deus está presente. Não duvides, Ele não se aborrece. Ele não é um pobre homem, dono de um imenso império, mas que se sente odiado e no qual vive tremendo. Ele é o Amor, e vive amando. Sua vida é um contínuo Amor. Ele se basta a Si mesmo, porque é infinito e poderosíssimo, é a Perfeição. Mas, tantas são as coisas criadas que vivem por sua contínua vontade, que Ele não tem tempo para aborrecer-se. O aborrecimento é o fruto do ócio e do vício. No Céu do verdadeiro Deus não há ócio, nem vício. Mas, dentro de pouco tempo, Ele terá, além dos Anjos, que agora o servem, um povo de justos, que se alegram nele e esse povo sempre se irá tornando mais numeroso, com os que crerem no verdadeiro Deus, nos tempos futuros.

– Os Anjos seriam os gênios? –pergunta Lídia.

– Não. São seres espirituais, como é Deus que os criou.

– E os gênios, então, que é que são?

– Do modo que vós os imaginais, são mentira. Eles não existem, do modo que os imaginais. Mas, por essa necessidade instintiva do homem de procurar a verdade, — e isto por um estímulo da alma, que está viva e presente até nos pagãos e que neles está sofrendo, porque está decepcionada em seus desejos, porque está esfomeada em sua saudade do Deus Verdadeiro, de quem só ela se recorda, no corpo em que ela mora e que é guiado por uma mente pagã, — vós também percebestes que o homem não é somente carne, mas que ao seu corpo perecível está unida alguma coisa imortal. Também o perceberam as cidades e as nações. Por isso é que credes, e sentis a necessidade de crer nos “gênios.” E dais a vós mesmos um gênio individual, o da família, o da cidade, o das nações. Vós tendes o “gênio de Roma.” Tendes o “gênio do imperador.” E os adorais como a divindades menores. Entrai na verdadeira fé. Tereis o conhecimento e a amizade do vosso anjo, ao qual deveis veneração, mas não adoração. Só Deus deve ser adorado.

204.6

– Tu disseste: “Estímulo da alma que está viva e presente, até nos pagãos, e sofrendo neles, porque decepcionada.” Mas a alma, de quem vem? –pergunta Públio Quintiliano.

– Vem de Deus. Ele é o Criador.

– Mas, não nascemos nós da mulher que se uniu a um homem? Também os nossos deuses foram gerados assim.

– Os vossos deuses não existem. Eles são os fantasmas produzidos pelo vosso pensamento, que sente a necessidade de crer. Porque esta necessidade é mais imperiosa do que a de respirar. Até mesmo quem diz que não crê, ainda crê. Em alguma coisa ele crê. O simples fato de dizer: “Eu não creio em Deus” pressupõe alguma outra fé. Em si mesmo, talvez, em sua própria mente soberba. Mas, crer, se crê sempre. É como o pensamento. Se vós dizeis: “Eu não quero pensar”, ou então: “Eu não creio em Deus”, só por estas duas frases que dizeis, já estais mostrando que pensais que não quereis crer n’Aquele que pensais que existe, e no qual não quereis pensar. Quanto ao homem, para serdes exatos em exprimir o conceito, deveis dizer assim: “O homem é gerado, como todos os animais, pela união entre macho e fêmea. Mas a alma, isto é, aquela coisa que faz a diferença entre o animal-homem e o animal bruto, essa vem de Deus. Ele a cria, cada vez que um homem é gerado, ou melhor, é concebido em um seio, e a une a esta carne que, se assim não fosse, seria simplesmente a carne de um animal.”

– E nós a temos? Nós, pagãos? Pelo que dizem os teus conterrâneos, não pareceria… –diz, irônico, Quintiliano.

– Todos os nascidos de mulher a têm.

– Mas, Tu disseste que o pecado a mata. Como pode, então, estar ela viva em nós pecadores? –pergunta Plautina.

– Vós não pecais contra a fé, pois credes que estais na Verdade. Quando conhecerdes a Verdade, se persistirdes no erro, aí estareis pecando. Igualmente, muitas coisas que para os israelitas são pecado para vós não são. Porque nenhuma lei divina vo-lo proíbe. O pecado é quando alguém, conscientemente, se rebela contra a ordem dada por Deus e diz: “Sei que o que faço é mal. Mas eu quero fazê-lo assim mesmo.” Deus é justo. Ele não pode punir a quem faz o mal, pensando que está fazendo o bem. Ele castiga a quem, tendo tido modo de conhecer o Bem e o Mal, escolhe este último, e nele persiste.

– Então, em nós a alma está viva e presente?

– Sim.

– Ela sofre? Pensas mesmo que ela se lembra de Deus? Nós não nos lembramos do útero que nos trouxe. Nem poderíamos dizer como ele era por dentro. A alma, se eu entendi bem, é espiritualmente gerada por Deus. Poderá ela recordar-se disso, se o corpo não se lembra do longo tempo em que esteve no útero?

– A alma não é bruta, Plautina. O feto, sim. Tão é verdade que a alma é dada quando o feto já é formado[1]. A alma é a eterna e espiritual, semelhança de Deus. Eterna, desde o momento em que é criada, enquanto que Deus é o perfeitíssimo Eterno e, por isso, não tem princípio no tempo, e também não terá fim. A alma, lúcida, inteligente, espiritual, obra de Deus, se lembra[2]. E sofre, porque tem desejo de Deus, o Verdadeiro Deus, do qual ela vem, e tem fome de Deus. Aí está porque é que ela estimula o corpo entorpecido a procurar aproximar-se de Deus.

204.7

– Então, nós temos uma alma, como a têm aqueles que vós chamais os “justos” do vosso povo? E é igual mesmo à deles?

– Não, Plautina. Conforme o sentido que estás querendo dizer, ela muda. Se queres falar quanto à origem e natureza de nossas almas, elas são em tudo iguais às de nossos santos. Mas, se queres referir-te à formação, então Eu te digo que aí elas são diferentes. Se queres referir-te à perfeição alcançada antes da morte, então a diferença pode ser absoluta. Mas isso não acontece só convosco, que sois pagãos. Também um filho do nosso povo pode ser absolutamente diferente de um santo, na vida futura. A alma passa por três fases. A primeira é a de sua criação. A segunda é a da recriação. A terceira, da perfeição. A primeira é comum a todos os homens. A segunda é própria dos justos que, com sua vontade, levam a alma a um renascimento ainda mais completo, unindo suas boas ações à bondade da obra de Deus, e tornam por isso a alma já espiritualmente mais perfeita do que a primeira, formando, entre a primeira e a terceira um elo de conjunção. A terceira é própria dos bem-aventurados, ou santos, se assim vos agrada dizer, os quais passaram milhares e milhares de graus acima da alma inicial deles, adaptada ao homem, e dela fizeram um ser capaz de repousar em Deus.

204.8

– Como é que podemos dar espaço, liberdade e elevação para a alma?

– Destruindo as coisas inúteis que tendes no vosso eu. Livrando-o de todas as ideia s erradas e, com os detritos dessas demolições, fazer uma elevação para o templo soberano. A alma vai sendo levada cada vez mais para o alto, pelos três degraus.

Oh! Vós romanos gostais dos símbolos. Olhai agora os três degraus, à luz do símbolo. Eles podem dizer-vos os seus nomes: penitência, paciência, perseverança. Ou então: humildade, pureza, justiça. Ou ainda: sabedoria, generosidade e misericórdia. Ou enfim o esplendido trinômio: fé, esperança, caridade. Olhai ainda o símbolo da cinta que, adornada e robusta, cinge a área do templo. É preciso saber rodear a alma, rainha do corpo, templo do espírito eterno, com uma barreira que a defenda, sem, no entanto, impedir-lhe os raios da luz, nem oprimi-la com a vista de sujeira. Uma cinta segura e lavrada, livre do desejo do amor ao que é inferior: a carne e o sangue, e voltada para o que é superior: o espírito. Lavra-a com a vontade. Apara-lhe os cantos, cuida das rachaduras, tira as manchas, reforça os veios fracos do mármore de nosso eu, a fim de que ele seja perfeito, ao redor da alma. E, ao mesmo tempo, da cinta colocada como defesa do templo, faze um misericordioso refúgio para os mais infelizes, que não conhecem o que é a caridade. Os pórticos são a efusão do amor, da piedade, do desejo de que os outros venham a Deus, semelhantes a braços amorosos, que servem de véu para o berço de um órfão. E, para lá da cinta, as plantas mais belas e mais cheirosas, homenagem ao Criador. Semeai sobre o terreno, que antes estava nu, e depois, cultivai as plantas, que são as virtudes de todos os nomes. A segunda cinta, viva e florida, ao redor do sacrário. E, entre as plantas, entre as virtudes, estão as fontes, outro amor, outra purificação, antes de aproximar-se do propileu, perto do qual, e antes de subir ao altar, deve-se fazer o sacrifício da carnalidade, um esvaziar-se-se em sangue das luxúrias. E depois ir além, passar ao altar, para aí colocar a oferenda, e depois aproximar-se da cela onde está Deus, superando o vestíbulo. E a cela o que será? Uma abundância de riquezas espirituais, porque nunca nada é demais para fazer cornijas para Deus. Entendestes? –perguntastes-me como se constrói a fé. E Eu vos disse: “Segundo o método pelo qual se levantam os templos.” Vedes que é verdade.

204.9

Tendes ainda alguma coisa a dizer-me?

– Não, Mestre. Eu acho que Flávia escreveu as coisas que disseste. Cláudia as quer saber. Não as escreveste?

– Exatamente –diz a mulher, passando-lhe as tabuinhas enceradas.

– Está gravado. Teremos tempo para relê-las –diz Plautina.

– É cera. Apaga-se. Escrevei-as em vossos corações. Não se apagarão mais.

– Mestre, são escombros de templos vazios. Nós os jogamos contra a tua palavra, para enterrá-los. Mas é um longo trabalho –diz Plautina, com um suspiro.

E termina dizendo:

– Lembra-te de nós em teu Céu…

– Ficai certas de que Eu o farei. Eu vos deixo. Ficai sabendo que a vossa vinda foi para Mim muito agradável. Adeus, Públio Quintiliano. Lembra-te de Jesus de Nazaré.

As mulheres o saúdam, e vão por primeiro. Depois, pensativo, vai indo Quintiliano. Jesus olha para eles, que vão indo em companhia de Maximino, que os guia até onde estão os carros.

Detalhe

As senhoras romanas foram ao encontro de Jesus em Betânia.

Anotação

As senhoras levantam-se para saudar. Plautina, Valéria e Lídia e, para além destas, uma outra mulher idosa, que não sei quem é nem o que é, se é do mesmo nível ou de um nível inferior. É Flávia Domitilla, que escreve o que Jesus diz em tábuas de cera (EMV 204.9).

- A alma não é matéria-prima, Plautina. O embrião é. É tão verdade que a alma só é dada quando o feto já está formado INFUSÃO DA ALMA: O embrião, sim, em vez de:o feto, sim, é uma correção de Maria Valtorta ao manuscrito original, onde insere: "É tão verdade que a alma é dada quando o feto já está formado". Esta frase está presente na tradução francesa de Félix Sauvage, de 1985, mas foi suprimida porque estaria em contradição com outras afirmações do capítulo, mas esta afirmação, que é semelhante à de São Tomás de Aquino (ver abaixo), é confirmada por outras afirmações, como em EMV 118: O homem é, antes de mais, apenas um embrião animal, não diferente do de uma ovelha.

A alma é, à semelhança de Deus, eterna e espiritual. Esta posição foi apoiada por São Tomás de Aquino, Doutor da Igreja, na tradição de Aristóteles. Ele estimava o tempo de insuflação em 40 dias (cerca de 6 semanas). Hoje, à medida que a ciência avança, João Paulo II, sem se pronunciar sobre o momento exato da insuflação, recorda-nos que, desde a origem do embrião, há uma definição pessoal a respeitar (todos nós viemos dele). O estudo antropológico leva-nos a reconhecer que, em virtude da unidade substancial do corpo com o espírito, o genoma humano não tem apenas um significado biológico; é portador de uma dignidade antropológica que tem a sua fonte na alma espiritual que o penetra e lhe dá vida"(Discurso aos membros da Pontifícia Academia para a Vida, 24 de fevereiro de 1998). Por seu lado, S. Tomás de Aquino afirmava: "A alma preexiste no embrião; aí é primeiro nutritiva, depois sensitiva e finalmente intelectiva"(Summa Theologica, Parte I, Questão 118, De onde vem a alma do Homem, Artigo 2, Resposta).

A alma, lúcida, inteligente, espiritual, obra de Deus, lembra-se disso. Já se falou disto acima, em EMV 204,5, bem como em EMV 94,7, EMV 121,7, EMV 154,7 (com nota), EMV 157,5, EMV 169,5, EMV 344,7 (na boca de uma criança), EMV 428,4 (com nota), EMV 534,6 (na boca de um velho), EMV 554,10, EMV 556,8.

A memória que as almas têm de Deus é tratada mais especificamente em : EMV 10.9 | EMV 286.7 | EMV 290.9. Além disso, Maria "nunca foi privada da lembrança de Deus", como se pode ler em EMV 4.6; isto é ilustrado em EMV 10.8/10 e nas últimas linhas deEMV 11.4. A alma de Maria é também mencionada em EMV 136.6 assim como em EMV 348.9/10.

EMF 204.4-8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Plautina se levanta de novo, e diz:

– Estive pensando muito… teria que conhecer tantas coisas… tudo, para julgar. Mas, se me for permitido fazer uma pergunta, eu gostaria de saber como é que se constrói uma fé, a tua, por exemplo, sobre um terreno que Tu disseste que está destituído da verdadeira fé. Disseste que as nossas crenças são vazias. Então, ficamos sem nada. Como chegar a ter fé?

– Vou tomar como exemplo uma coisa que vós tendes. Os templos. Os vossos edifícios sagrados, verdadeiramente belos e cuja única imperfeição é a de serem dedicados ao nada, eles vos podem ensinar como é que se pode chegar a ter uma fé e onde colocar a fé. Vede bem. Onde são eles construídos? Que lugar é possivelmente escolhido para eles? Como são construídos? Geralmente estão em áreas espaçosas, livres e elevadas. E, se não for espaçosa e livre, então se faz que fique sendo, faz-se a demolição de tudo o que a estorva ou que lhe cria obstáculos. Se o lugar não é elevado, então se faz que fique mais alto, construindo pedestais mais altos que os de costume, de três degraus, que são usados para os templos já colocados sobre alguma elevação natural. Fechados em um recinto sagrado, quase sempre formado por colunatas e pórticos, dentro dos quais estão encerradas as árvores consagradas aos deuses, fontes e altares, as estátuas e estelas são precedidas somente pelo propileu, depois do qual está o altar, onde são feitas as preces ao nume. Diante deste, há um lugar para o sacrifício, porque o sacrifício vem antes da oração. Muitas vezes, e especialmente nos mais grandiosos, o peristilo os circunda de uma grinalda de mármores preciosos. Na parte interna, há um vestíbulo anterior, externo ou interno em relação ao peristilo, a cela do nume e o vestíbulo posterior. Mármores, estátuas, frontões, acrotérios e tímpanos, todos limpos, preciosos, decorados, que fazem do templo um edifício muito nobre até para as vistas mais incultas. Não é assim?

– Assim é, Mestre. Tu os viste e estudaste muito bem –confirma e elogia Plautina.

– Mas, pelo que consta, nunca saíste da Palestina –exclama Quintiliano.

– Não saí nunca para ir a Roma nem a Atenas. Mas não ignoro a arquitetura da Grécia nem a de Roma, nem o gênio do homem que decorou o Partenon. Eu estava presente, porque Eu estou em toda parte, onde há vida e manifestação de vida. Lá, onde um sábio estiver pensando, um escultor esculpindo, um poeta compondo, uma mãe cantando sobre um berço, um homem se cansando sobre os sulcos, um médico lutando contra as doenças, um vivente respirando, um animal vivendo, uma árvore vegetando, lá estou Eu junto com Aquele do qual Eu venho. No estrondo do terremoto ou no fragor dos raios, na luz das estrelas ou no fluxo das marés, no vôo da águia ou no zumbido do mosquito, Eu estou com o Criador Altíssimo.

– De forma que… Tu… Tu sabes tudo? E o pensamento e as obras dos homens? –pergunta Quintiliano.

– Eu sei.

Os romanos olham um para o outro, assombrados.

204.5

Um longo silêncio, e depois, timidamente, Valéria faz este pedido:

– Desenvolve o teu pensamento, Mestre, para que saibamos o que fazer.

– Sim. A fé se constrói, como se constróem os templos, dos quais tanto vos orgulhais. Faz-se espaço para o templo e liberdade ao redor dele. E se procura uma elevação para ele.

– Mas, onde é que está o templo, para que nele se coloque a fé, esta verdadeira deidade? –pergunta Plautina.

– Não é uma deidade a fé, Plautina. É uma virtude. Não existem deidades na verdadeira fé. Mas só há um único e verdadeiro Deus.

– Então, Ele fica lá em cima sozinho no seu Olimpo? E que é que Ele faz, se está sozinho?

– Ele se basta a Si mesmo, e se ocupa com todas as coisas que existem na criação. Eu te disse antes: até no zumbido do mosquito Deus está presente. Não duvides, Ele não se aborrece. Ele não é um pobre homem, dono de um imenso império, mas que se sente odiado e no qual vive tremendo. Ele é o Amor, e vive amando. Sua vida é um contínuo Amor. Ele se basta a Si mesmo, porque é infinito e poderosíssimo, é a Perfeição. Mas, tantas são as coisas criadas que vivem por sua contínua vontade, que Ele não tem tempo para aborrecer-se. O aborrecimento é o fruto do ócio e do vício. No Céu do verdadeiro Deus não há ócio, nem vício. Mas, dentro de pouco tempo, Ele terá, além dos Anjos, que agora o servem, um povo de justos, que se alegram nele e esse povo sempre se irá tornando mais numeroso, com os que crerem no verdadeiro Deus, nos tempos futuros.

– Os Anjos seriam os gênios? –pergunta Lídia.

– Não. São seres espirituais, como é Deus que os criou.

– E os gênios, então, que é que são?

– Do modo que vós os imaginais, são mentira. Eles não existem, do modo que os imaginais. Mas, por essa necessidade instintiva do homem de procurar a verdade, — e isto por um estímulo da alma, que está viva e presente até nos pagãos e que neles está sofrendo, porque está decepcionada em seus desejos, porque está esfomeada em sua saudade do Deus Verdadeiro, de quem só ela se recorda, no corpo em que ela mora e que é guiado por uma mente pagã, — vós também percebestes que o homem não é somente carne, mas que ao seu corpo perecível está unida alguma coisa imortal. Também o perceberam as cidades e as nações. Por isso é que credes, e sentis a necessidade de crer nos “gênios.” E dais a vós mesmos um gênio individual, o da família, o da cidade, o das nações. Vós tendes o “gênio de Roma.” Tendes o “gênio do imperador.” E os adorais como a divindades menores. Entrai na verdadeira fé. Tereis o conhecimento e a amizade do vosso anjo, ao qual deveis veneração, mas não adoração. Só Deus deve ser adorado.

204.6

– Tu disseste: “Estímulo da alma que está viva e presente, até nos pagãos, e sofrendo neles, porque decepcionada.” Mas a alma, de quem vem? –pergunta Públio Quintiliano.

– Vem de Deus. Ele é o Criador.

– Mas, não nascemos nós da mulher que se uniu a um homem? Também os nossos deuses foram gerados assim.

– Os vossos deuses não existem. Eles são os fantasmas produzidos pelo vosso pensamento, que sente a necessidade de crer. Porque esta necessidade é mais imperiosa do que a de respirar. Até mesmo quem diz que não crê, ainda crê. Em alguma coisa ele crê. O simples fato de dizer: “Eu não creio em Deus” pressupõe alguma outra fé. Em si mesmo, talvez, em sua própria mente soberba. Mas, crer, se crê sempre. É como o pensamento. Se vós dizeis: “Eu não quero pensar”, ou então: “Eu não creio em Deus”, só por estas duas frases que dizeis, já estais mostrando que pensais que não quereis crer n’Aquele que pensais que existe, e no qual não quereis pensar. Quanto ao homem, para serdes exatos em exprimir o conceito, deveis dizer assim: “O homem é gerado, como todos os animais, pela união entre macho e fêmea. Mas a alma, isto é, aquela coisa que faz a diferença entre o animal-homem e o animal bruto, essa vem de Deus. Ele a cria, cada vez que um homem é gerado, ou melhor, é concebido em um seio, e a une a esta carne que, se assim não fosse, seria simplesmente a carne de um animal.”

– E nós a temos? Nós, pagãos? Pelo que dizem os teus conterrâneos, não pareceria… –diz, irônico, Quintiliano.

– Todos os nascidos de mulher a têm.

– Mas, Tu disseste que o pecado a mata. Como pode, então, estar ela viva em nós pecadores? –pergunta Plautina.

– Vós não pecais contra a fé, pois credes que estais na Verdade. Quando conhecerdes a Verdade, se persistirdes no erro, aí estareis pecando. Igualmente, muitas coisas que para os israelitas são pecado para vós não são. Porque nenhuma lei divina vo-lo proíbe. O pecado é quando alguém, conscientemente, se rebela contra a ordem dada por Deus e diz: “Sei que o que faço é mal. Mas eu quero fazê-lo assim mesmo.” Deus é justo. Ele não pode punir a quem faz o mal, pensando que está fazendo o bem. Ele castiga a quem, tendo tido modo de conhecer o Bem e o Mal, escolhe este último, e nele persiste.

– Então, em nós a alma está viva e presente?

– Sim.

– Ela sofre? Pensas mesmo que ela se lembra de Deus? Nós não nos lembramos do útero que nos trouxe. Nem poderíamos dizer como ele era por dentro. A alma, se eu entendi bem, é espiritualmente gerada por Deus. Poderá ela recordar-se disso, se o corpo não se lembra do longo tempo em que esteve no útero?

– A alma não é bruta, Plautina. O feto, sim. Tão é verdade que a alma é dada quando o feto já é formado[1]. A alma é a eterna e espiritual, semelhança de Deus. Eterna, desde o momento em que é criada, enquanto que Deus é o perfeitíssimo Eterno e, por isso, não tem princípio no tempo, e também não terá fim. A alma, lúcida, inteligente, espiritual, obra de Deus, se lembra[2]. E sofre, porque tem desejo de Deus, o Verdadeiro Deus, do qual ela vem, e tem fome de Deus. Aí está porque é que ela estimula o corpo entorpecido a procurar aproximar-se de Deus.

204.7

– Então, nós temos uma alma, como a têm aqueles que vós chamais os “justos” do vosso povo? E é igual mesmo à deles?

– Não, Plautina. Conforme o sentido que estás querendo dizer, ela muda. Se queres falar quanto à origem e natureza de nossas almas, elas são em tudo iguais às de nossos santos. Mas, se queres referir-te à formação, então Eu te digo que aí elas são diferentes. Se queres referir-te à perfeição alcançada antes da morte, então a diferença pode ser absoluta. Mas isso não acontece só convosco, que sois pagãos. Também um filho do nosso povo pode ser absolutamente diferente de um santo, na vida futura. A alma passa por três fases. A primeira é a de sua criação. A segunda é a da recriação. A terceira, da perfeição. A primeira é comum a todos os homens. A segunda é própria dos justos que, com sua vontade, levam a alma a um renascimento ainda mais completo, unindo suas boas ações à bondade da obra de Deus, e tornam por isso a alma já espiritualmente mais perfeita do que a primeira, formando, entre a primeira e a terceira um elo de conjunção. A terceira é própria dos bem-aventurados, ou santos, se assim vos agrada dizer, os quais passaram milhares e milhares de graus acima da alma inicial deles, adaptada ao homem, e dela fizeram um ser capaz de repousar em Deus.

204.8

– Como é que podemos dar espaço, liberdade e elevação para a alma?

– Destruindo as coisas inúteis que tendes no vosso eu. Livrando-o de todas as ideia s erradas e, com os detritos dessas demolições, fazer uma elevação para o templo soberano. A alma vai sendo levada cada vez mais para o alto, pelos três degraus.

Oh! Vós romanos gostais dos símbolos. Olhai agora os três degraus, à luz do símbolo. Eles podem dizer-vos os seus nomes: penitência, paciência, perseverança. Ou então: humildade, pureza, justiça. Ou ainda: sabedoria, generosidade e misericórdia. Ou enfim o esplendido trinômio: fé, esperança, caridade. Olhai ainda o símbolo da cinta que, adornada e robusta, cinge a área do templo. É preciso saber rodear a alma, rainha do corpo, templo do espírito eterno, com uma barreira que a defenda, sem, no entanto, impedir-lhe os raios da luz, nem oprimi-la com a vista de sujeira. Uma cinta segura e lavrada, livre do desejo do amor ao que é inferior: a carne e o sangue, e voltada para o que é superior: o espírito. Lavra-a com a vontade. Apara-lhe os cantos, cuida das rachaduras, tira as manchas, reforça os veios fracos do mármore de nosso eu, a fim de que ele seja perfeito, ao redor da alma. E, ao mesmo tempo, da cinta colocada como defesa do templo, faze um misericordioso refúgio para os mais infelizes, que não conhecem o que é a caridade. Os pórticos são a efusão do amor, da piedade, do desejo de que os outros venham a Deus, semelhantes a braços amorosos, que servem de véu para o berço de um órfão. E, para lá da cinta, as plantas mais belas e mais cheirosas, homenagem ao Criador. Semeai sobre o terreno, que antes estava nu, e depois, cultivai as plantas, que são as virtudes de todos os nomes. A segunda cinta, viva e florida, ao redor do sacrário. E, entre as plantas, entre as virtudes, estão as fontes, outro amor, outra purificação, antes de aproximar-se do propileu, perto do qual, e antes de subir ao altar, deve-se fazer o sacrifício da carnalidade, um esvaziar-se-se em sangue das luxúrias. E depois ir além, passar ao altar, para aí colocar a oferenda, e depois aproximar-se da cela onde está Deus, superando o vestíbulo. E a cela o que será? Uma abundância de riquezas espirituais, porque nunca nada é demais para fazer cornijas para Deus. Entendestes? –perguntastes-me como se constrói a fé. E Eu vos disse: “Segundo o método pelo qual se levantam os templos.” Vedes que é verdade.

Detalhe

Plautina, uma senhora romana e, portanto, pagã, pergunta em que é que se baseia a fé em Jesus.

Anotação

- A alma não é matéria-prima, Plautina. O embrião é que é. É tão verdade que a alma só é dada quando o feto já está formado INFUSÃO DA ALMA: O embrião, sim, em vez de:o feto, sim, é uma correção de Maria Valtorta ao manuscrito original, onde insere: "É tão verdade que a alma é dada quando o feto já está formado". Esta frase está presente na tradução francesa de Félix Sauvage, de 1985, mas foi suprimida por estar em contradição com outras afirmações do capítulo, mas esta afirmação, que está de acordo com a de S. Tomás de Aquino (ver abaixo), é confirmada por outras afirmações, como em EMV 118: O homem é, antes de mais, apenas um embrião animal, não diferente do de uma ovelha.

A alma é, à semelhança de Deus, eterna e espiritual. Esta posição foi apoiada por São Tomás de Aquino, Doutor da Igreja, na tradição de Aristóteles. Ele estimava o tempo de insuflação em 40 dias (cerca de 6 semanas). Hoje, com o avanço da ciência, João Paulo II, sem se pronunciar sobre o momento exato da insuflação, recorda-nos que, desde a origem do embrião, há uma definição pessoal a respeitar (todos nós nascemos dele). O estudo antropológico leva-nos a reconhecer que, em virtude da unidade substancial do corpo com o espírito, o genoma humano não tem apenas um significado biológico; é portador de uma dignidade antropológica que tem a sua fonte na alma espiritual que o penetra e lhe dá vida"(Discurso aos membros da Pontifícia Academia para a Vida, 24 de fevereiro de 1998). Por seu lado, S. Tomás de Aquino afirmava: "A alma preexiste no embrião; aí é primeiro nutritiva, depois sensitiva e finalmente intelectiva"(Summa Theologica, Parte I, Questão 118, De onde vem a alma do Homem, Artigo 2, Resposta).

A alma, lúcida, inteligente, espiritual, obra de Deus, lembra-se disso. Já se falou disto acima, em EMV 204,5, bem como em EMV 94,7, EMV 121,7, EMV 154,7 (com nota), EMV 157,5, EMV 169,5, EMV 344,7 (na boca de uma criança), EMV 428,4 (com nota), EMV 534,6 (na boca de um velho), EMV 554,10, EMV 556,8.

A memória que as almas têm de Deus é tratada mais especificamente em : EMV 10.9 | EMV 286.7 | EMV 290.9. Além disso, Maria "nunca foi privada da lembrança de Deus", como se pode ler em EMV 4.6; isto é ilustrado em EMV 10.8/10 e nas últimas linhas deEMV 11.4. A alma de Maria é também mencionada em EMV 136.6 assim como em EMV 348.9/10.

Palavras-chave

EMF 204.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

« (...) Não é assim?

– Assim é, Mestre. Tu os viste e estudaste muito bem –confirma e elogia Plautina.

– Mas, pelo que consta, nunca saíste da Palestina –exclama Quintiliano.

– Não saí nunca para ir a Roma nem a Atenas. Mas não ignoro a arquitetura da Grécia nem a de Roma, nem o gênio do homem que decorou o Partenon. Eu estava presente, porque Eu estou em toda parte, onde há vida e manifestação de vida. Lá, onde um sábio estiver pensando, um escultor esculpindo, um poeta compondo, uma mãe cantando sobre um berço, um homem se cansando sobre os sulcos, um médico lutando contra as doenças, um vivente respirando, um animal vivendo, uma árvore vegetando, lá estou Eu junto com Aquele do qual Eu venho. No estrondo do terremoto ou no fragor dos raios, na luz das estrelas ou no fluxo das marés, no vôo da águia ou no zumbido do mosquito, Eu estou com o Criador Altíssimo.

– De forma que… Tu… Tu sabes tudo? E o pensamento e as obras dos homens? –pergunta Quintiliano.

– Eu sei.

Os romanos olham um para o outro, assombrados.

Detalhe

Jesus descreve longamente os templos construídos pelos romanos e pelos gregos.

EMF 205.3-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Ouvi. É uma bela parábola, que vos guiará com sua luz, em muitos casos.

Um homem tinha dois filhos. O mais velho era sério, trabalhador, amoroso, obediente. O segundo era mais inteligente que o mais velho, pois este na verdade tinha pouca acuidade de espírito, e se deixava guiar para não ter que se cansar ao tomar decisões. Em compensação, porém, o mais jovem era rebelde, dado a passatempos, amante do luxo e do prazer, dissipador e preguiçoso. A inteligência é um grande dom de Deus. Mas é um dom que precisa ser usado com sabedoria. Se assim não for, ele se torna como certos remédios que, quando são mal usados, não curam, mas matam. O pai estava no seu direito e no seu dever, e o exortava sempre a levar uma vida de um modo mais ajuizado. Mas isso não adiantava nada, ao contrário, provocava da parte dele más respostas e um maior enrijecimento em suas próprias más ideias.

Afinal, um dia, depois de uma discussão mais violenta, o filho mais novo disse: “Dá-me a minha parte nos bens. Assim não precisarei mais ficar ouvindo tuas repreensões, nem os queixumes do irmão. Cada um com o que é seu e fica tudo acabado.” “Olha bem,” respondeu o pai, “que tu logo ficarás arruinado. E então, que farás? Pensa bem, que eu não irei ser injusto, procurando ficar a teu favor, e não tomarei um vintém do teu irmão para te dar.” “Não irei pedir nada. Fica certo disso. E dá-me a minha parte.”

O pai mandou avaliar as terras e os objetos de valor e, visto que o dinheiro e as jóias valiam tanto como as terras, deu ao mais velho os campos e os vinhedos, os rebanhos e as oliveiras, e ao mais novo o dinheiro e as jóias, que o jovem logo vendeu, transformando tudo em dinheiro. E, tendo feito isso, dentro de poucos dias, foi-se embora para um lugar muito distante, onde passou a viver como um ricaço, esbanjando tudo o que possuía em farras e patuscadas de toda espécie, querendo passar por filho de um rei, pois ele se envergonhava de dizer: “Eu sou um camponês”, renegando assim a condição de seu pai. Festinhas, amigos e amigas, boas vestes, vinho, jogatina…uma vida dissoluta… Bem depressa ele percebeu que o dinheiro ia diminuindo e que a miséria ia chegando. E, com a miséria, para torná-la mais penosa, sobreveio àquele lugar uma grande carestia, que acabou com o resto do dinheiro que ele ainda tinha.

205.4

Ele teria querido voltar para o pai. Mas era orgulhoso, e não quis. Foi, então, a um dos ricos do lugar, que tinha sido seu amigo nos bons tempos, e lhe suplicou: “Recebe-me entre os teus servos, lembrando-te de quando gozavas com as minhas riquezas.” Agora, vede vós como o homem é estulto! Ele prefere ir colocar-se debaixo do chicote de um patrão, a ir dizer ao seu pai “Perdoa-me! Eu errei!” Aquele jovem havia aprendido tantas coisas inúteis, com sua inteligência perspicaz, mas não tinha querido aprender aquela palavra[1] do Eclesiástico: “Como é infame aquele que abandona o seu pai, e como é maldito por Deus aquele que faz sua mãe ficar preocupada.” O rapaz era inteligente, mas não sábio.

O homem a quem ele havia se dirigido, em compensação pelo muito que ele havia gozado às custas do estulto jovem, mandou este estulto ir tomar conta de seus porcos — pois lá era terra de pagãos, onde havia muitos porcos — mandou que ele fosse apascentar em suas propriedades umas manadas de porcos. Imundo, esfarrapado, fedorento e esfomeado, — pois a comida estava escassa para todos os servos, especialmente para os empregados menos classificados, como era ele, um estrangeiro e, além disso, um porqueiro que era tratado como objeto de zombaria, — ele via como os porcos se saciavam com as bolotas de carvalho, e suspirava: “Ah! Se eu pudesse, pelo menos, encher a barriga com esses frutos! Mas eles são muito amargos! Nem a fome faz com que eles pareçam bons.” E chorava, pensando nos festins feitos pouco tempo atrás, por entre risadas, cantos e danças… depois pensava nas refeições honestas, mas bem nutritivas, de sua casa, que agora estava tão longe: …Pensava nas porções que o pai imparcialmente distribuía a todos, reservando sempre o menos para si, alegre por ver o apetite sadio de seus filhos… Pensava também nas partes que eram distribuídas aos servos por aquele justo, e suspirava: “Os empregados de meu pai, até os menos classificados, têm pão em abundância, e eu fico aqui morrendo de fome…”

Um grande trabalho de reflexão, uma longa luta para acabar com aquele orgulho…

205.5

E, afinal, chegou o dia em que, tendo renascido para a humildade e para a sabedoria, ele se pôs de pé, e disse: “Eu vou voltar para o meu pai! É uma estultice minha este orgulho, que me mantém aqui preso. E por quê? Por que ficar sofrendo assim no corpo, e mais ainda no coração, quando eu posso obter o perdão e ter alívio? Eu vou voltar para o meu pai. Está dito. E, que lhe direi eu? Ah! Sim. Direi o que nasceu aqui dentro, nesta baixeza, no meio destas sujeiras, sofrendo as mordeduras da fome! E eu lhe direi: ‘Meu pai, eu pequei contra o Céu e contra ti e não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me, pois, como o último dos teus empregados, mas tolera-me debaixo do teu teto. Que eu possa te ver passando…’ Eu não poderei dizer-lhe: ‘porque eu te amo’. Ele não acreditaria. Mas eu o direi com minha vida e ele compreenderá e, antes de morrer, ainda me abençoará. Oh! Isso eu espero. Porque meu pai me ama.” E, ao voltar de tarde para o povoado, ele foi despedir-se do patrão e depois, pedindo esmola pelo caminho, voltou para sua casa. Já se vêem os campos do pai… e a casa… e o pai, que estava dirigindo os trabalhos, já envelhecido, emagrecido pelos sofrimentos, mas sempre bom… O culpado, olhando aquilo que tinha sido causado por ele, parou atemorizado… mas o pai, correndo o olhar ao redor de si, o viu, e correu ao seu encontro, pois o filho ainda estava longe e, chegando perto dele, lançou-lhe os braços ao pescoço e o beijou. Somente o pai havia reconhecido naquele mendigo aviltado o seu filho, e só mesmo ele é que tinha tido um movimento de amor.

O filho, apertado entre aqueles braços, com a cabeça sobre o ombro paterno, murmura, por entre soluços: “Pai, deixa que eu me jogue aos teus pés.” “Não, meu filho! Aos pés, não! Mas sobre o meu coração, que tanto sofreu na tua ausência e que precisa reviver, ao sentir o teu calor sobre o meu peito.” E o filho, chorando ainda mais fortemente, disse: “Oh! meu pai! Eu pequei contra o Céu e contra ti, e já não sou digno de ser chamado por ti de filho. Mas, permite-me viver entre os teus servos, debaixo do teu telhado, vendo-te, comendo o teu pão, servindo-te, sentindo o teu hálito. A cada bocado de pão, a cada teu respiro, irá se reformando o meu coração, tão corrompido, e me tornarei honesto…”

Mas o pai, segurando-o sempre abraçado, o levou até onde estavam os servos, que se haviam aglomerado à distancia, e que de lá estavam observando, e lhes diz: “Depressa, trazei aqui a túnica mais bonita, os frascos com água de cheiro, dai-lhe um banho, perfumai-o, vesti-lhe a túnica, ponde-lhe sandálias novas e um anel no dedo. Depois, ide pegar um vitelo gordo, e matai-o. E que se prepare um banquete. Porque este meu filho estava morto e agora ressuscitou, estava perdido e foi reencontrado. Eu quero que agora ele também reencontre aquele seu simples amor de quando era pequeno. Que o meu amor e a festa da casa pela sua volta o façam reencontrar. Ele precisa compreender que para mim ele é sempre o querido caçula, como o era em sua longínqua infância, quando ele caminhava ao meu lado, fazendo-me ser feliz com o seu sorriso e o seu balbuciar.” E, como o patrão mandou, assim fizeram os servos.

205.6

O filho mais velho estava no campo e não estava sabendo de nada, enquanto não voltou. À tarde, voltando para casa, viu que ela estava toda iluminada, e ouviu o som dos instrumentos de música e das danças, que saía da casa. Chamou, então, um dos servos, que ia correndo muito atarefado, e lhe disse: “Que é que está acontecendo?” E o servo respondeu: “O teu irmão voltou! E teu pai fez matar o vitelo gordo, porque pôde reaver o filho com saúde, curado do seu grande mal, e mandou que se preparasse um banquete. Só estamos te esperando para começar.” Mas o primogênito, encolerizado, porque lhe parecia uma injustiça toda aquela festa para o mais jovem que, além de ser mais jovem, ainda tinha sido mau, não quis entrar, e até estava querendo afastar-se de casa.

Mas o pai, avisado disso, saiu correndo para fora, e o alcançou, tentando convencê-lo a entrar e pedindo-lhe que não tornasse amarga a sua alegria. O primogênito respondeu a seu pai: “E não queres que eu fique descontente? Tu estás fazendo uma injustiça, e tratando com desprezo ao teu primogênito. Eu, desde que pude trabalhar, sempre te servi, e isto há muitos anos. Eu nunca desobedeci a uma ordem tua, nem mesmo a um teu desejo. Eu sempre estive perto de ti e te amei por dois, para fazer-te ficar curado da ferida feita por meu irmão. E tu não me deste nem um cabrito para eu fazer uma festa com os meus amigos. E, para este, que te ofendeu, que te abandonou, que foi um preguiçoso e um esbanjador, e que agora está de volta, porque veio impelido pela fome, tu o cobres de honrarias, e matas para ele o vitelo mais bonito. Vale a pena sermos trabalhadores e sem vícios! Isto tu não devias fazer!” O pai disse-lhe, então, apertando-o contra o seu seio: “Oh! Meu filho! Poderás tu crer que eu não te amo, porque não estendi uma faixa festiva em honra de tuas boas ações? As tuas ações já são santas por si mesmas, e por elas o mundo te elogia. Mas este teu irmão, pelo contrário, precisa ser realçado na estima do mundo e em sua própria estima. Acreditarás tu que eu não te amo, só porque não te dei um prêmio visível? Mas, de manhã e de tarde, em todos os meus respiros e pensamentos, tu estás presente em meu coração e, a cada momento, eu te abençôo. Tu tens o prêmio contínuo de estares sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era justo que nos banqueteássemos e fizéssemos uma festa, por este teu irmão, que estava morto ressuscitou para o Bem, que estava perdido voltou ao nosso amor.” E o primogênito deu-se por vencido.

205.7

Assim, meus amigos, é que acontece na Casa do Pai. E quem sabe que está como o filho mais novo da parábola pense também que, se o imitar, voltando para o Pai, o Pai lhe dirá: “Não aos meus pés. Mas sobre o meu coração, que sofreu pela tua ausência, e que agora está feliz pela tua volta.” Quem está na condição de filho primogênito e sem culpa com o Pai, não seja ciumento da alegria paterna, mas participe dela, dando amor ao irmão redimido.

Anotação

Livro de Sirach 3, 16

Si 3, 16: O que abandona seu pai é como um blasfemo; o que provoca a ira de sua mãe é maldito do Senhor.

Evangelho de Lucas 15, 11-32

Lc 15, 11-32 : Jesus disse ainda: "Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: "Pai, dá-me a minha parte dos bens". E o pai dividiu os seus bens entre eles. Passados alguns dias, o filho mais novo juntou tudo o que tinha e partiu para um país distante, onde esbanjou a sua fortuna, levando uma vida desregrada. Já tinha gasto tudo, quando houve uma grande fome nesse país e ele começou a passar necessidade. Foi trabalhar para um habitante desse país, que o mandou tratar dos porcos nos seus campos. Ele teria gostado de encher a barriga com as vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada.

Então, entrou em casa e disse para consigo: "Quantos trabalhadores do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui a passar fome! Vou levantar-me, vou ter com o meu pai e digo-lhe: "Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus trabalhadores". Levantou-se e foi ter com o pai. Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, compadecido, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, enchendo-o de beijos. O filho disse-lhe: "Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho". Mas o pai disse aos seus servos: "Trazei depressa a melhor roupa para o vestir, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés, ide buscar o vitelo gordo, matai-o, comamos e festejemos, porque o meu filho, que estava morto, reviveu; estava perdido e foi encontrado." E começaram a banquetear-se.

Mas o filho mais velho estava no campo. Quando voltou e estava perto da casa, ouviu música e danças. Chamou um dos criados e perguntou-lhe o que se passava. O servo respondeu: "O teu irmão chegou, e o teu pai matou o vitelo gordo, porque encontrou o teu irmão de boa saúde". Então o filho mais velho zangou-se e recusou-se a entrar. O pai saiu para lhe pedir. Mas ele respondeu ao pai: "Há tantos anos que estou ao teu serviço sem nunca quebrar as tuas ordens, e nunca me deste um cabrito para me banquetear com os meus amigos. Mas quando este teu filho voltou de devorar os teus bens com prostitutas, mandaste matar o vitelo gordo para ele!" O pai respondeu: "Tu, meu filho, estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Havia necessidade de festejar e de se alegrar, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi encontrado!"""

EMF 205.8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Os apóstolos, juntos com a mãe e as mulheres, vão indo para a casa, precedidos por Margziam, que vai dando seus pulinhos na frente. Mas logo ele volta e pega Maria pela mão, dizendo-lhe:

– Vem comigo. Tenho uma coisa para dizer-te em segredo.

E Maria o contenta. Desviam-se para o lado do poço, que está num canto do pequeno pátio todo coberto por uma latada bem espessa, que sobe da terra como um arco, para o rumo do terraço. Atrás dela está Iscariotes.

– Judas, que queres? Vai, Margziam…Fala… Que queres?

– Eu estou culpado… Não tenho coragem de ir ao Mestre, nem de me encontrar com os companheiros… Ajuda-me…

– Eu te ajudarei. Mas, não pensas na grande dor que estás causando? Meu Filho chorou por tua causa. E os companheiros sofreram com isso. Mas, vem. Ninguém te dirá nada. E, se podes, não recaias mais nestas culpas. É coisa indigna de um homem, e um sacrilégio contra o Verbo de Deus.

– E tu, mãe, me perdoas?

– Eu? Eu não valho nada para ti, que te julgas tão grande. Eu sou a menor das servas do Senhor. Como podes te preocupar comigo, se não tens dó do meu Filho?

– Porque eu também tenho uma mãe e, se tiver o teu perdão, acho que terei o dela.

– Ela não sabe dessa tua culpa.

– Mas ela me tinha feito jurar que fosse bom para o Mestre. Eu sou um perjuro. Estou ouvindo a reprovação da alma de minha mãe.

– Estás ouvindo isso? E o lamento do Pai e do Verbo, não o ouves? Tu és um infeliz, Judas. Semeias a dor em ti mesmo e em quem te ama.

Maria está muito séria e triste. Ela fala sem azedume, mas de modo muito sério. Judas chora.

– Não chores. Mas trata de melhorar. Vem.

E o toma pela mão e assim entra na cozinha. Grande é o espanto de todos. Mas Maria procura evitar qualquer palavra impiedosa. Ela diz:

– Judas voltou. Fazei como o primogênito, depois do discurso do pai. João, vai avisar Jesus.

João de Zebedeu sai correndo.

Um silêncio desce sobre a cozinha… Depois, Judas diz:

– Perdoai-me Simão, em primeiro lugar. Tens um coração tão paterno. Eu também sou um órfão.

– Sim, sim, eu te perdôo. Por favor. Não fales mais nisso. Somos irmãos… e não me agradam estes altos e baixos de perdões pedidos e de recaídas feitas. Aviltam a quem as faz e quem os dá. Aí vem Jesus. Vai até Ele. E basta.

Judas vai indo, enquanto Pedro, não podendo fazer outra coisa, se põe, impetuosamente, a rachar umas achas secas.