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Notas da palavra-chave

Bíblia - Evangelho de Marcos

Tema: Evangelhos · Página 3 de 4

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EMF 174.13 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Deus não está com os impuros. Porque a impureza corrompe o que é propriedade de Deus: a alma, e especialmente a alma dos pequenos, que são os anjos espalhados na terra. Ai daqueles que arrancam suas asas com a crueldade de feras demoníacas e derrubam estas flores do Céu na lama, fazendo-as conhecer o sabor da matéria! Ai deles!… Melhor seria que morressem queimados por um raio, do que cometerem um pecado destes!

EMF 174.18-19 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus sorri, e começa a falar.

– Vós ouvistes que foi dito antigamente: “Não cometas adultério.” Quem já me ouviu em outros lugares, sabe que muitas vezes Eu tenho falado sobre este pecado. Porque, vejam bem, para Mim é um pecado feito não por um, mas por duas ou três pessoas. Eu me explico. O adúltero peca por si, peca pela cúmplice, peca levando a mulher a pecar ou o marido ser traído, o qual pode chegar ao desespero ou ao delito. Diga-se isso para o pecado consumado. Mas Eu digo mais: “Não só o pecado consumado, mas o desejo de consumá-lo, já é pecado.” Que é o adultério? Ele consiste em desejar febrilmente aquele ou aquela que não é nosso ou nossaa. Começa-se a pecar pelo desejo, continua-se pela sedução, completa-se pela persuasão, e coroa-se com o ato.

Como se começa? Geralmente por um olhar impuro. E isto se une a tudo o que Eu disse antes. Os olhos impuros veem o que está escondido aos puros. É pelos olhos que a sede entra nas gargantas, a fome no corpo e a febre no sangue. Sede, fome e febre carnais. Tem início o delírio. Se o outro, o que está sendo olhado é honesto, eis que o delirante fica sozinho, revolvendo-se nos seus carvões ardentes, ou então chega a denegrir por vingança. Se o olhado também é desonesto, então ele corresponde aos olhares e aí começa a descida para o pecado. Por isso, Eu vos digo: “Quem olhou para uma mulher com desejo, já cometeu o adultério com ela, porque em seu pensamento já cometeu o ato do seu desejo.” Em vez de fazer isso, se o teu olho direito for para ti ocasião de escândalo, arranca-o, e joga-o para longe de ti. É melhor para ti que fiques sem um olho, do que te precipitares nas trevas infernais para sempre. Se a tua mão direita pecou, corta-a e joga-a fora. Melhor para ti e estares sem um membro do que estar com todos os membros no inferno. É verdade que está dito[4] que os aleijados não podem servir a Deus no Templo. Mas, na outra vida, os aleijados de nascença santos, ou os aleijados por virtude, se tornarão mais belos do que os anjos, e servirão a Deus, amando-O na alegria do Céu.

174.19

Também foi dito: “Quem mandou embora sua mulher dê-lhe o libelo do divórcio.” Mas isto está reprovado. Isto não vem de Deus. Deus disse a Adão: “Esta é a companheira que fiz para ti. Crescei e multiplicai-vos sobre a terra, enchei-a e tornai-a sujeita a vós.” Adão, cheio de uma inteligência superior, porque o pecado ainda não tinha ofuscado a sua razão, pois esta havia sido criada perfeita por Deus, exclamou: “Eis que finalmente aqui está o osso dos meus ossos e a carne de minha carne. Esta vai chamar-se Virago, isto é, outro eu, porque foi tirada do homem. Por isso o homem deixará pai e mãe, e os dois se tornarão uma só carne.” E, em um grande esplendor de luzes, a Eterna Luz aprovou com um sorriso a palavra de Adão, que se tornou a primeira e irrevogável lei. Agora, se pela dureza sempre crescente do homem, o homem legislador teve que estabelecer um novo código; se, pela volubilidade sempre crescente do homem, ele teve que pôr-lhe um freio, dizendo: “Se a repudiaste, não a podes mais tomar contigo”, isto não revoga a primeira e genuína lei, que nasceu no Paraíso Terrestre, e foi aprovada por Deus.

Eu vos digo: “Quem mandou embora a própria mulher, a não ser em caso de provada fornicação, a expõe ao adultério.” Porque, de fato, o que vai fazer, em noventa por cento dos casos, a mulher repudiada? Ela irá casar-se de novo. E quais as consequências disso? Oh! Sobre isso, quanto haveria para se dizer! Não sabeis que podeis provocar até incestos involuntários com este modo de proceder? Quantas lágrimas já se derramaram por causa de luxúria! Sim. Luxúria. Não tem outro nome. Sede sinceros. Tudo se pode superar, quando o espírito é reto. Tudo, porém serve de motivo para satisfazer-se a sensualidade, quando o espírito é luxurioso: a frigidez feminina, a lentidão dela, a incapacidade no que se refere aos serviços da casa, a língua desenfreada, o amor ao luxo, tudo isso se suporta, até as doenças, até a irascibilidade, quando os dois se amam santamente. Mas, visto que, depois de algum tempo já não se amam mais como no primeiro dia, então, começa-se a achar impossível o que é mais que possível, e se joga uma pobre mulher na rua, a caminho da perdição.

Comete adultério quem a rejeita. Comete adultério quem se casa com ela, depois do repúdio. Somente a morte pode dissolver o matrimônio. Recordai-vos disso. Se fizestes uma escolha infeliz, arcai com as consequências, como quem tem que levar uma cruz, sendo dois infelizes, mas santos, sem criar mais infelicidade nos filhos, pois eles, inocentes, são os que mais sofrem nessas tristes situações. O amor aos filhos deveria fazer-vos meditar cem vezes e até mais, mesmo no caso da morte de um dos cônjuges. Oh! Se soubésseis contentar-vos com tudo o que tendes tido, quando Deus vos disse: “Basta isto!” Se soubésseis vós, viúvos, e vós, viúvas, ver na morte não uma diminuição, mas uma elevação à perfeição de procriadores! Ser mãe até para a mãe falecida! Ser pai até para o pai falecido! Ser duas almas em uma só, recolher o amor pelos filhos sobre os lábios gelados de um moribundo, e dizer: “Vai em paz, sem preocupação por aqueles que de ti vieram. Eu continuarei a amá-los, por ti e por mim, a amá-los duas vezes, serei para eles pai e mãe.” E a infelicidade dos órfãos não pesará sobre eles. Nem mesmo sentirão o inato ciúme do filho do cônjuge que se casou de novo, por aquele ou por aquela que toma o lugar sagrado da mãe ou do pai, que por Deus foram chamados para outra morada.

Anotação

Ouvistes que antigamente se dizia: "Não cometerás adultério" (Êxodo 20,14 e Deuteronómio 5,18). "Em Êxodo 20,14 e Deuteronómio 5,18; ver abaixo.

Aqueles de vós que me ouviram noutros lugares sabem que falei deste pecado em várias ocasiões. Exatamente: em Betsaida, a propósito da Belle de Corozaïn (cf. EMV 96,3); em Ptolemais, quando Avea foi repudiada(EMV 104,4); em Belle Eau(EMV 131,4 e EMV 131,5); e aqui mesmo, algumas horas antes.

Eu digo-vos : "Quem mandar embora a sua própria mulher, exceto em caso de adultério comprovado, expõe-na ao adultério. " Mateus 5:32; 19:9; Marcos 10:11-12; Lucas 16:18. (ver abaixo). Jesus recorda este ensinamento na EMV 473.9, numa visão de 17 de agosto de 1944, um ano antes!

Livro do Êxodo 20, 14

Ex 20, 14: Não cometerás adultério.

Livro do Deuteronómio 5, 18

Dt 5, 18: Não cobiçarás a mulher do teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem nada que pertença ao teu próximo.

Evangelho de Mateus 5, 27-32

Mt 5,27-32: Ouvistes que foi dito: "Não cometerás adultério. Eu, porém, digo-vos que todo o homem que olhar para uma mulher com cobiça, já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o teu olho direito te faz cair, arranca-o e lança-o de ti; porque te é melhor perder um dos teus membros do que ser todo o teu corpo lançado no inferno. E se a tua mão direita te fizer cair, corta-a e atira-a para longe de ti, porque é melhor perderes um dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno. Também foi dito: Se alguém despedir sua mulher, que lhe dê um atestado de repúdio. Eu, porém, vos digo que todo o homem que repudia sua mulher, a não ser em caso de união ilegítima, a induz em adultério; e se alguém casar com uma mulher repudiada, é adúltero.

Evangelho de Mateus 18, 8-9

Mt 18,8-9 : Se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar, corta-os e atira-os para longe de ti. É melhor entrares na vida aleijado ou coxo do que seres lançado no fogo eterno com duas mãos ou dois pés. Se o teu olho te faz tropeçar, arranca-o e atira-o para longe de ti. É melhor entrares na vida com um olho do que seres lançado no fogo do inferno com dois olhos.

Evangelho de Marcos 9, 42-47

Mc 9,42-47: Se a tua mão te faz tropeçar, corta-a. É melhor entrares na vida com uma mão mutilada do que seres lançado com as duas mãos no inferno, no fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga. E se o teu pé te fizer cair, corta-o. É melhor entrares na vida coxo do que seres lançado com os dois pés no inferno, no fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga. E se o teu olho te faz tropeçar, arranca-o: é melhor entrares no Reino de Deus com um só olho do que seres lançado com dois olhos no inferno de fogo, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga.

Evangelho de Marcos 10,11-12

Mc 10,11-12: "Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra comete adultério com a primeira. E se uma mulher se divorciar do seu marido e casar com outro, comete adultério. "

Evangelho de Lucas 16,18

Lc 16,18 : Quem despede sua mulher e casa com outra comete adultério; e quem casa com a mulher que o marido despede comete adultério.

EMF 174.20 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Sede bons com quem é fraco. Não julgueis para não serdes julgados. Recordai-vos de que poderia chegar o momento no qual Deus vos lembrará: “Assim tu julgaste. Por isso sabias que era mal.Com conhecimento do que fazias, cometeste o pecado. Cumpre agora a tua pena.”

EMF 175.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

No meio das numerosas flores que perfumam os campos e alegram a nossa vista, ergue-se o espectro horrível de um leproso, todo cheio de feridas, exalando um forte mau cheiro, todo corroído pela doença.

As pessoas gritam de espanto e voltam para trás, indo morro acima, subindo pelas encostas. Alguns apanham pedras para atirarem no pobre homem incauto.

Mas Jesus se vira, com os braços abertos, e grita:

– Paz! Ficai onde estais e não tenhais medo. Joguem as pedras no chão. Tende piedade do nosso pobre irmão. Ele também é filho de Deus.

Então, todos obedecem, dominados pelo poder do Mestre. Ele se adianta, pelo meio dos prados floridos, até a poucos passos do leproso que, por sua vez, tendo compreendido que Jesus o protegia, aproxima-se dele. Depois de ter chegado perto de Jesus, prostra-se por terra e as plantas, todas em flor, parecem acolhê-lo e fazer que ele mergulhe nelas como em uma água fresca e perfumada. As flores, ao soprar do vento, fazem ondas, e parecem querer reunir-se para formar um véu que cobrre aquela miséria, que veio esconder-se nelas. Somente a voz dele, lamuriante ecoa lá de dentro, fazendo que as pessoas se lembrem de que há um ser pobre e infeliz ali. Sua voz diz:

– Senhor, se queres, podes purificar-me. Tem piedade de mim também!

Jesus responde:

– Levanta o teu rosto e olha para Mim. O homem deve olhar para o Céu, se acredita nele. E tu acreditas, porque estás pedindo.

As ervas se movem e se abrem de novo. Aparece, então, uma coisa como a cabeça de um náufrago, que está acabando de sair do mar, a cabeça do leproso, já sem cabelos e sem barba. É uma caveira, não ainda completamente despojada de alguns restos de carne. Contudo, Jesus não se esquiva de pôr as pontas dos dedos naquela fronte, nos pontos em que elaestá limpa, isto é, sem feridas, onde se vê ainda uma pele cinza, enrugada entre duas erosões purulentas, uma das quais já destruiu todo o couro cabeludo, enquanto que a outra abriu um buraco onde era o olho direito, de modo que eu nem saberia dizer se, entre aquele enorme buraco, que vai das têmporas até o nariz, deixando a descoberto o zigoma e a cartilagem nasal, cheio de sujeira, não saberia se ainda existe o globo ocular ou não.

Jesus diz, conservando sua bela mão apoiada pelas pontas dos dedos sobre a fronte dele:

– Eu quero. Fica limpo.

É como se o homem não estivesse todo corroído e cheio de feridas, mas somente recoberto de sujeiras, como se sobre elas tivesse sido derramada água com detergente, a lepra desapareceu. Primeiro, as feridas se fecharam, depois a pele ficou clara, o olho direito tornou a aparecer por debaixo da pálpebra, que nasceu de novo. E os lábios voltaram a fechar-se sobre os dentes amarelecidos. Só os cabelos e a barba não apareceram, mas apenas umas moitinhas de pelos, nos lugares em que antes havia ainda pequenas áreas de epiderme sadia.

As pessoas do povo gritam de assombro. E o homem percebe que está curado, ao ouvir aqueles gritos de alegria. Ele levanta as mãos, até então escondidas pelas ervas e toca com a mão em seu próprio olho, em cujo lugar estava antes o grande buraco; ele toca também na cabeça, onde antes estava a grande ferida, que punha a descoberto o osso do crânio e sente-se agora com uma nova pele. Depois se levanta e olha para o próprio peito, para os quadris… Tudo está são e limpo. O homem torna a agachar-se no prado florido, chorando de alegria.

– Não chores. Levanta-te e escuta-me. Volta para a vida, depois que tiveres cumprido o rito, e não fales a ninguém, enquanto não o tiveres cumprido. Vai mostrar-te, quanto antes, ao sacerdote, faze a oferta prescrita por Moisés, para que sirva de testemunho do milagre que aconteceu em tua cura.

– É a Ti que eu deveria dar esse testemunho, Senhor!

– Tu me darás, amando a minha doutrina. Vai.

175.2

A multidão se aproxima de novo e, guardando ainda a devida distância, felicita o curado pelo milagre. Não falta quem sinta necessidade de dar-lhe uma ajuda para a viagem, jogando-lhe algumas moedas. Outros lhe jogam pães e alimentos, e um deles, vendo que a veste do leproso não é mais do que um trapo que se desfia, deixando-lhe o corpo todo visível, tira a própria capa, faz com ela uma trouxa, como se faz com um lenço grande, e a joga para o leproso, que com ela pode cobrir-se de maneira decente. Um outro ainda, visto que a caridade é contagiosa quando é feita em comum, não resiste ao desejo de oferecer-lhe suas sandálias, tira-as dos pés e lhas joga.

– Mas, e tu? –pergunta-lhe Jesus, que viu tudo.

– Oh! Eu moro aqui perto. Posso caminhar descalço. Mas ele tem um grande caminho a percorrer!

– Deus te abençoe a ti e a todos os que ajudaram o irmão. Homem, tu rezarás por eles.

– Sim, sim, por eles e por Ti, para que o mundo tenha fé em Ti.

– Adeus, Vai em paz.

O homem vai-se afastando dali, mas depois se vira, e grita:

– Mas, ao sacerdote eu posso dizer que Tu me curaste?

– Não é preciso. Dize só isto: “O Senhor teve misericórdia de mim”, pois tudo isso é verdade e nada mais é preciso dizer.

Detalhe

Cura de um leproso.

Anotação

Expondo o zigoma: Maria Valtorta foi enfermeira na sua juventude, por isso sabe uma ou duas coisas sobre anatomia.

Eu quero-o. Ser purificado. Este milagre, relatado em Mateus 8:1-3, é frequentemente confundido pelos estudiosos bíblicos com a cura de Abel, o leproso (Marcos 1:40-42; Lucas 5:12-13), que é descrita em EMV 63:1/5.

"Posso dizer ao padre que tu me curaste?

- Não, não podes. Diz-lhe apenas: 'O Senhor teve piedade de mim. "Essa é a verdade. Nada mais. A partir daí, a reputação de Jesus foi crescendo e ele quis evitar o mais possível qualquer conflito com os notáveis do templo.

Evangelho de Mateus 8,1-4

Mt 8,1-4: Quando Jesus desceu do monte, seguia-o uma grande multidão. Aproximou-se um leproso e prostrou-se diante dele, dizendo: "Senhor, se quiseres, podes purificar-me. Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: "Quero, fica purificado. E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra. Jesus disse-lhe: "Tem cuidado, não digas nada a ninguém, mas vai e mostra-te ao sacerdote. E dá a oferta que Moisés ordenou: será um testemunho para o povo".

Evangelho de Marcos 1, 40-45

Mc 1,40-45 : Um leproso aproximou-se dele, suplicou-lhe, pôs-se de joelhos e disse: "Se quiseres, podes purificar-me". Tomado de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: "Quero; fica limpo". Imediatamente a lepra o deixou e ele ficou limpo. Jesus mandou-o embora com firmeza, dizendo-lhe: "Tem cuidado, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e dá pela tua purificação o que Moisés prescreveu na Lei: será um testemunho para o povo. Depois de se ter ido embora, este homem começou a anunciar e a espalhar a notícia, de tal modo que Jesus já não podia entrar abertamente numa cidade, mas mantinha-se afastado em lugares desertos. Mas as pessoas vinham ter com ele de todo o lado.

Evangelho de Lucas 5, 12-14

Lc 5,12-14 : Jesus estava numa cidade, quando apareceu um homem coberto de lepra que, ao ver Jesus, se prostrou com o rosto em terra e lhe implorou: "Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. Jesus estendeu a mão e tocou-o, dizendo: "Eu quero; fica limpo. A lepra deixou-o imediatamente. Então Jesus ordenou-lhe que não contasse a ninguém: "Em vez disso, vai mostrar-te ao sacerdote e dá pela tua purificação o que Moisés ordenou; isso será um testemunho para todos."

EMF 178.1-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Estou vendo Jesus, que se dirige para a beira do lago com seus onze, porque falta sempre João. Muitas pessoas o rodeiam: entre elas se encontram muitas que estavam na montanha, principalmente homens, que foram procurá-lo em Cafarnaum, para ouvirem ainda a sua palavra. Bem que gostariam de detê-lo ali. Mas Ele diz:

– Eu sou de todos. Há muitos que precisam ter-Me consigo. Voltarei. Vós Me encontrareis. Mas agora deixai-me partir.

Ele sente muita dificuldade para caminhar entre a multidão, que se apinha em um caminho estreito. Os apóstolos se esforçam, fazendo jogo de ombros para ver se conseguem abrir caminho. Mas é como que um chocar-se de alguém contra uma substância mole que, logo em seguida, toma a forma que tinha antes. Alguns ali se inquietam, mas não adianta nada.

178.2

A margem já está à vista, quando, depois de muito trabalho, um homem de meia idade e de condição civil consegue aproximar-se do Mestre e, para lhe chamar a atenção, toca em seu ombro.

Jesus se vira e para, dizendo:

– Que queres?

– Eu sou escriba. Mas o que há nas tuas palavras não pode ser comparado a nada de tudo o que há em nossos preceitos. Eu me senti conquistado por elas. Mestre, eu não Te deixo mais. Seguirte-ei para onde fores. Qual é o teu caminho?

– O caminho do Céu.

– Não é desse caminho que eu estou falando. O que estou perguntando é: Para onde vais? Depois destas, quais são as tuas casas, para que eupossa encontrar-Te sempre?

– As raposas têm suas tocas e os pássaros do ar os seus ninhos. Mas o Filho do Homem não tem onde possa pousar a cabeça. A minha casa é o mundo, por toda parte onde houver espíritos necessitados de instrução, ou misérias para aliviar, ou pecadores para redimir.

– Por toda parte, então?

– É como disseste. Poderias tu, doutor de Israel, fazer o que por amor de Mim estão fazendo estes pequeninos? Aqui o que se exige é sacrifício e obediência, caridade para com todos, espírito de adaptação em tudo e com todos. Porque a condescendência atrai. Porque, quem deseja curar, precisa inclinar-se sobre cada ferida. Depois teremos a pureza do Céu. Mas aqui ainda estamos na lama, e é preciso tirar da lama, na qual estamos pisando, as vítimas que estão submersas. Não cinjas as vestes, nem encurte-as porque em algum lugar a lama está mais funda. A pureza deve estar em nós. Estejamos saturados dela, de tal modo que em nós nada mais possa entrar. Podes fazer tudo isso?

– Pelo menos, deixa-me experimentar.

– Experimenta. Eu rezarei para que sejas capaz.

178.3

Jesus põe-se de novo em movimento e, atraído por dois olhos estãovoltados para Ele, diz a um jovem alto e robusto, que tinha parado para deixar passar o cortejo, mas parece estar se dirigindo para outra parte:

– Segue-me.

O jovem leva um susto, muda de cor, pisca os olhos como ofuscado por uma luz e depois abre a boca para falar, não encontrando-o logo resposta para dar. Enfim diz:

– Eu Te seguirei. Mas meu pai morreu em Corozaim, e preciso ir sepultá-lo. Deixa que eu vá fazer isso e depois virei.

– Segue-me. Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu já sentes um forte desejo da Vida. Há tempo que tens esse desejo. Não fiques chorando, por ter a Vida criado um vácuo ao redor de ti, a fim de ter-te como seu discípulo. As mutilações do afeto são raízes das asas que nascem no homem, que se transformou em servo da Verdade. Deixa que a corrupção siga os seus rumos. Levanta-te para o Reino do que é incorrupto. Nele encontrarás também a pérola incorruptível do teu pai. Deus chama e passa. Amanhã não encontrarás mais o coração que tens hoje e o convite de Deus. Vem. Vai anunciar o Reino de Deus.

O homem, encostado a um pequeno muro, está com os braços caídos, e neles estão penduradas algumas bolsas, cheias de unguentos e de tiras; sua cabeça está inclinada, mergulhada na dúvida entre dois amores: o devido a Deus e o devido a seu pai.

Jesus fica esperando e olhando para ele, depois segura uma criança e a aperta ao coração, dizendo:

– Fala comigo: “Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco a tua luz para aqueles que choram nas névoas da vida. Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco a tua força para quem é como uma criança, necessitada de ser carregada. Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco o teu amor para que se esqueçam de tudo que não sejas Tu, todos aqueles que em Ti encontrariam, todo o seu bem aqui e no Céu, mas não sabem crer.”

E o menino, um inocente de quatro anos, repete com sua vozinha, as palavras santas, com suas mãozinhas juntas e postas em posição de oração pela mão direita de Jesus, que as segura pelo pulso gorducho como talos de flores.

O homem, então se decide. Dá a um companheiro os seus embrulhos e vai até Jesus, que põe no chão o menino, abraça depois o jovem, fazendo isso para animá-lo e ajudá-lo no esforço que está fazendo.

178.4

Um outro homem lhe pergunta:

– Eu também gostaria de ir contigo como ele. Mas, antes de ir, quereria ir despedir-me dos meus parentes. Tu me permites?

Jesus olha fixamente para ele, e responde:

– Muitas raízes estão fincadas no ser humano. Arranca-as e, se não o consegues, corta-as. Para o serviço de Deus deve-se ir com liberdade espiritual. Nada há de servir de armadilha para quem se doa.

– Mas, Senhor, a carne e o sangue são sempre carne e sangue! Pouco a pouco eu chegarei à liberdade de que estás falando…

– Não. Não o farias nunca. Deus é tão exigente, quanto é infinitamente generoso em recompensa. Se queres ser discípulo, precisas abraçar a cruz e vir. Se não for assim, fica-se no número dos simples fiéis. Não é um caminho cheio de pétalas de rosas o caminho do servo de Deus. Mas é um caminho intransigente em suas exigências. Ninguém, que tiver posto as mãos ao arado para arar os campos dos corações e semear a semente da doutrina de Deus, pode mais voltar atrás, para ir olhar o que deixou e o que perdeu, ou aquelas coisas que podia possuir, seguindo um caminho comum. Trabalha em ti mesmo. Torna-te mais viril contigo mesmo, e depois vem. Por enquanto, não.

Chegaram à beira do lago. Jesus sobe para a barca de Pedro, ao qual, em voz baixa, diz algumas palavras. Vejo que Jesus está sorrindo e Pedro fica muito admirado. Mas não diz nada. Sobe também para a barca o homem que deixou de ir sepultar o seu pai para acompanhar a Jesus.

Detalhe

Dos três homens que queriam seguir Jesus, dois não foram identificados.

Anotação

Evangelho de Mateus 8, 18-22

Mt 8,18-22 : Quando Jesus viu uma multidão à sua volta, deu ordem para passar para o outro lado. Aproximou-se dele um escriba e disse: "Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores. Mas Jesus disse-lhe: "As raposas têm covis, as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.

Outro dos seus discípulos disse-lhe: "Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai." Jesus respondeu-lhe: "Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus próprios mortos.

Evangelho de Marcos 4, 35-36

Mc 4,35-36: Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse aos seus discípulos: "Passemos para o outro lado". Deixando a multidão, levaram Jesus, tal como estava, no barco, e outros barcos o acompanharam.

Evangelho de Lucas 8, 22

Lc 8,22 : Um dia, Jesus entrou num barco com os seus discípulos e disse-lhes: "Vamos para a outra margem do lago". E fizeram-se ao mar alto.

Evangelho de Lucas 9, 57-62

Lc 9, 57-62 : No caminho, um homem disse a Jesus: "Seguir-te-ei para onde quer que fores". Jesus respondeu-lhe: "As raposas têm covis, as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. Depois disse a outro: "Segue-me. O homem respondeu: "Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar o meu pai. Mas Jesus respondeu: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos. Vai tu e anuncia o Reino de Deus.

Outro homem disse-lhe: "Senhor, eu sigo-te, mas primeiro deixa-me despedir da minha família. Jesus respondeu: "Quem põe a mão no arado e depois olha para trás não é apto para o Reino de Deus".

EMF 179.5-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Ouvi, e talvez podereis compreender melhor como obter frutos diferentes de uma mesma obra.

Um semeador saiu para semear. Eram muitos campos e de diferentes qualidades. Ele tinha herdado de seu pai alguns onde havia deixado proliferar plantas espinhosas. Outros haviam sido adquiridos por ele, que os comprara do jeito em que estavam, de um dono negligente, deixando tais como eram. Outros ainda, haviam sido entrecortados por estradas, pois o homem era comodista e não queria andar muito para ir de um lugar para outro. Enfim, havia alguns, os mais próximos da casa, dos quais ele tomava cuidado, só para que dessem um aspecto agradável à frente da casa. Estes estavam limpos de pedregulhos, de espinhos, de grama e assim por diante.

O homem, pois, tomou o seu saco de grãos para ir semear grãos da melhor qualidade, e começou a semeadura. A semente caiu no terreno bom, fofo, arado, limpo e adubado, próximo à casa. Caiu também nos campos entrecortados por caminhos e trilhas, além de cortá-los, levava a sujeira da poeira árida na terra fértil. Outras sementes caíram sobre os campos, onde a inépcia do homem tinha deixado que crescessem plantas espinhosas. Agora o arado as havia revirado, e nem parecia que elas estivessem mais ali, mas estavam, porque somente o fogo é que é a radical destruição das ervas más, impedindo-as de nascer. As últimas sementes caíram nos campos comprados recentemente, e que ele tinha deixado como estavam, sem ará-los em profundidade, sem limpá-los de todas as pedras afundadas na terra, fazendo com ela um pavimento duro no qual não conseguiam agarrar-se as tenras raízes.

Depois, tendo semeado todas as sementes, voltou para casa, e disse: “Agora está tudo bem. É só esperar a colheita.”

179.6

E assim se alegrava quando, com o correr dos meses, podia ver, à frente de sua casa, o trigo que ia germinando e crescendo… oh! crescia como um tapete macio e já ia soltando espigas… Parecia um mar, amarelando e batendo espigas contra espigas, cantando hosanas ao sol. O homem dizia: “Como este campo, devem estar todos os outros. Preparemos as foices e os celeiros. Quanto pão! Quanto ouro!”

Estava feliz.

Cortou o trigo dos campos mais próximos, depois passou aos que herdou do pai, mas ele os tinha deixado virar mato. O homem ficou muito aborrecido. todos os grãos haviam nascido, porque os campos eram bons e a terra adubada pelo pai estava gorda e fértil. Mas sua fertilidade tinha sido boa também para as plantas espinhosas, que ficaram cobertas pela terra, reviradas com ela, mas não esterilizadas. Elas tinham renascido e formado um verdadeiro forro de ramagens cheias de espinhos, através das quais o trigo não tinha podido passar para cima, a não ser uma espiga aqui, outra acolá, e morreu quase todo sufocado.

O homem disse: “Eu fui negligente com este campo. Mas nos outros não havia espinheiros, e deverão estar melhores.” Passou então aos campos recentemente adquiridos. Lá seu espanto cresceu, até transformar-se em tristeza. Finas e já ressecadas, as folhas do trigo estavam espalhadas por toda parte, como feno seco. Feno seco! “Mas, como? Como foi isso?” Gemia o homem. “No entanto, aqui não há espinhos! Além disso, a semente do trigo era a mesma. Aqui também ela tinha nascido, e o trigal estava tão viçoso, que dava alegria ver! Pode-se ver ainda como suas folhas estavam bem formadas e em grande número. Por que será que aqui o trigo todo morreu sem produzir espigas?” E, com grande tristeza, pôs-se a cavar o solo, para ver se encontrava ninhos de toupeiras, ou outras pragas. Insetos e roedores, não havia nada. Mas, que quantidade de pedras! Um verdadeiro pedregal! Os campos estavam literalmente calcetados com escamas de pedras, e a pouca terra que as cobria era um engano. Oh! Se tivesse afundado mais o arado, enquanto era tempo! Oh! Se ele tivesse feito escavações, antes de aceitar aqueles campos e de comprá-los como se fossem bons! Oh! Pelo menos, depois daquele erro de adquirir o que era oferecido, sem ter-se informado da boa qualidade deles, se ele os tivesse melhorado, à custa do cansaço de seus rins! Mas agora já era tarde quaisquer queixumes eram inúteis.

O homem pôs-se de pé, arrasado, e dali foi para os campos entrecortados por pequenos caminhos, feitos para sua comodidade… E rasgou suas vestes de tristeza. Aqui não havia nada. Absolutamente nada… A terra escura do campo estava coberta por uma ligeira camada de pó branco… O homem se agachou no chão, e gemia dizendo: “Mas, por quê? Aqui não há espinhos, nem pedras, pois estes campos, antes já eram nossos. Meu avô, meu pai, eu, sempre os possuímos e, por anos e anos, os fertilizamos. Neles eu abri estradas, terei tirado alguma terra do campo, mas isso não é o que o terá feito ficar estéril assim…” Ainda estava ele chorando, quando recebeu, para sua tristeza, a resposta, dada por um cerrado bando de passarinhos esfomeados, vindos dos campospara os caminhos a procura de sementes de trigo, e outras… O campo havia-se transformado numa rede de pequenos caminhos, em cujas beiras o trigo semeado tinha caído, atraindo muitos passarinhos, que, primeiro comeram os grãos na estrada e depois os plantados no campo, até o ultimo grão.

Desse modo, a semente, igual para todos os campos, havia produzido cem por um, em outro sessenta, em outro trinta e em outro nada. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

A semente é a Palavra: é igual para todos. O lugar onde cai a semente são os vossos corações. Cada um aplique a si a parábola e compreenda. A paz esteja convosco.

EMF 180.4-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Pedro parece que está para ter um ataque de apoplexia, de tão vermelho que ficou. Ele fica calado por uns momentos, e depois diz:

– Está bem. Então, dá-me o prêmio. A parábola de hoje cedo…

Os outros também se unem a Pedro, dizendo:

– É verdade. Tu nos prometeste. As parábolas servem bem para fazer-nos compreender as comparações. Mas nós achamos que elas têm um sentido superior às comparações.

180.5

Por que falas a eles em parábolas?

– Porque não lhes foi concedido entender mais do que o que eu explico. A vós foi concedido muito mais, porque vós, meus apóstolos, deveis conhecer o mistério; e por isso vos é concedido entender os mistérios do Reino dos Céus. Por isso, Eu vos digo: “Perguntai, quando não entenderdes o sentido de uma parábola.” Vós dais tudo, e tudo vos é dado, para que, por vossa vez, possais dar tudo. Vós dais tudo a Deus: afetos, tempo, interesse, liberdade, vida. Deus tudo vos dá para compensar-vos e tornar-vos capazes de dar tudo, em nome de Deus, a quem vos seque. Assim, a quem deu, será dado com abundância. Mas a quem não deu, ou só deu parcialmente, ou não deu nada, até o que ele tem lhe será tirado.

Eu lhes falo em parábolas para que vendo, vejam apenas o que a sua vontade de aderir a Deus os faz ver. É ouvindo, sempre, por aquela mesma vontade de adesão, ouçam e compreendam. Vós estais vendo! Muitos ouvem a minha palavra, mas poucos aderem a Deus. Seus espíritos estão carentes de boa vontade. Neles se cumpre a profecia[2] de Isaias: “Ouvireis com os ouvidos, e não entendereis; olhareis com os olhos, e não vereis.” Porque este povo tem um coração insensível, duro de ouvido, e tem os olhos fechados para não verem e não ouvirem, para não entenderem com o coração e não se converterem, para que Eu os cure. Mas vós sois felizes por vossos olhos que vêem e pelos vossos ouvidos que ouvem e pela vossa boa vontade! Em verdade Eu vos digo, que muitos Profetas e muitos justos desejaram ver o que estais vendo, e não viram, ouvir o que estais ouvindo, e não ouviram. Eles se consumiram no desejo de compreender o mistério das palavras, mas, ao apagar-se a luz das profecias, eis que as palavras ficaram como carvões apagados até para o santo que as tinha recebido.

Somente Deus revela-se a Si mesmo. Quando a sua luz se retrai, tendo atingido a sua meta, que era a de fazer brilhar a luz do mistério, a incapacidade de entender cobre a real verdade da palavra recebida, como as faixas de uma múmia. Por isso é que Eu te disse hoje cedo: “Um dia virá em que encontrarás tudo o que Eu te dei.” Agora, não podes reter tudo na memória. Mas depois a luz virá sobre ti, e não só por um instante, mas por um inseparável conúbio do Espírito Eterno com o teu, pelo qual se tornará infalível o teu ensinamento no que se refere ao Reino de Deus. Assim como em ti, também nos teus sucessores, se viverem de Deus como de um único pão[3].

180.6

Agora, ouvi o sentido da parábola.

Temos quatro espécies de campos: os férteis, os espinhosos, os pedregosos e os cheios de trilhas. Temos também quatro espécies de espíritos.

Temos os espíritos honestos, os espíritos de boa vontade, preparados por ela e pelos bons trabalhos de um apóstolo, de um “verdadeiro” apóstolo; porque há apóstolos que têm o nome, mas não o espírito de apóstolos, e são mais mortíferos para as vontades em formação, do que os passarinhos, os espinhos e as pedras. Eles fazem uma tal desordem com as suas intransigências, com as suas pressas, com as suas censuras, com suas ameaças, que afastam os outros para sempre de Deus. Outros espíritos são o oposto com uma rega contínua de benignidades intempestivas, fazem murchar as sementes em um terreno frouxo demais. Com sua desvirilização, desvirilizam as almas de que cuidam. Mas fiquemos com os verdadeiros apóstolos, isto é, com os de Deus. Esses são paternais, misericordiosos, e, ao mesmo tempo, fortes como é o seu Senhor. Pois bem. Os espíritos preparados por eles e pela sua própria boa vontade, são comparáveis aos campos férteis, limpos de pedras e espinhos, sem grama e joio, e neles prospera a palavra de Deus, e toda palavra — a semente — cria haste e espiga, dando cem, ou sessenta e além ou ainda trinta por cento. Entre os que Me seguem, haverão esses? Certamente. E serão santos. Entre eles haverá pessoas de todas as castas e de todos os lugares, e até pagãos, que darão cem por cento pela sua boa vontade, unicamente por ela, pela boa vontade de um apóstolo ou discípulo que os prepara.

Os campos espinhosos são aqueles nos quais o descuido deixou penetrar os espinhosos enredos dos interesses pessoais, que sufocam a boa semente. É preciso que se vigie sempre, sempre, sempre. Não digas nunca: “Oh! Eu já estou formado, semeado, e por isso, posso ficar tranquilo, que hei de dar semente de vida eterna.” É preciso que se vigie: a luta entre o Bem e o Mal é continua. Já tereis observado uma tribo de formigas que quer fazer seu ninho em uma casa? Ora, elas estão em cima do fogão. A mulher não deixa mais as comidas lá, mas as coloca na mesa; e elas, então, farejam o ar, e vão dar um assalto à mesa. A mulher põe as comidas no guarda-comida, e elas, pelo buraco da fechadura, passam para dentro do guarda-comida. A mulher pendura no forro as suas provisões. e elas fazem um comprido trilho ao longo das paredes e dos sarrafos, descem pela corda e comem. A mulher as queima, escalda, envenena. Depois disso fica sossegada, pensando ter acabado com elas. Oh! Se não vigiar, que surpresa! Aí vêm vindo as últimas que nasceram, e vamos começar tudo de novo. Assim é, enquanto se vive. É preciso que se vigie para extirpar as plantas daninhas, logo que germinam. Caso contrário, elas formam uma coberta de espinheiros e sufocam o trigo. Os cuidados com as coisas do mundo e o engano das riquezas criam o enredo, sufocam a planta da semente de Deus, e não deixam que ela produza espiga.

Eis agora os campos cheios de pedras. Quantos haverá em Israel! São aqueles que pertencem aos “filhos das leis”, como disse o meu irmão Judas com muita exatidão. Não está neles a pedra única do Testemunho, não está a Pedra da Lei. Está o pedregal das pequenas, pobres e humanas leis criadas pelos homens. São tantas, que o seu peso transforma a Pedra da Lei em cacos. É uma ruína que impede qualquer enraizamento de semente. A raiz não é mais nutrida. Não há terra. Não há seiva. A água a faz murchar, porque está sobre um pavimento de seixos, o Sol enche de forte calor aqueles seixos, queimando as plantinhas. São os espíritos dos substituidores da simples doutrina de Deus por suas complicadas doutrinas humanas. Eles até que recebem com alegria a minha palavra. No momento ficam emocionados e seduzidos por ela. Mas depois… Precisa um esforço heróico para aplainar e limpar o campo, a alma e a mente de todo aquele pedregal de retóricos. Só assim a semente criaria raiz e se tornaria uma planta vigorosa. Mas assim como está… não produz nada. Basta um simples medo de represália humana. Basta a reflexão: “E depois? Que farão de mim os homens poderosos?” E a pobre semente, não nutrida, fica agonizante. Basta que todo aquele pedregal comece a agitar-se com seu som vazio de centenas e centenas de preceitos, que tomam o lugar do Preceito, para que o homem pereça logo junto com a semente recebida… Israel está cheio destes. Isto vem explicar-nos que ir para Deus é uma coisa que está na razão inversa da potência humana.

Finalmente, há os campos cheios de trilhas, de poeira e desnudos. São os campos dos mundanos, dos egoístas. A comodidade é a sua lei, e o prazer é o seu fim. Nada de fadiga, mas dormir, rir, comer… O espírito do mundo reina sobre estes. A poeira do mundanismo cobre o terreno deles, que se torna baldio. Os passarinhos, ou seja, as dissipações, precipitam-se sobre os mil caminhos abertos para lhes tornar mais fácil a vida. O espírito do mundo, isto é, o Maligno, bica e destrói todas as sementes que caem neste terreno, aberto a todas as sensualidades e leviandades.

Detalhe

Jesus acaba de elogiar Pedro e Simão, e o irmão de André aproveita a oportunidade para pedir uma explicação sobre a parábola do semeador.

Anotação

Dá-me a recompensa. A parábola desta manhã... Pedro recorda a Jesus a sua promessa de lhes explicar a parábola do semeador.(EMV 179.5). (Ver Mateus 13,10-11).

Evangelho de Mateus 13, 10-23

Mt 13,10-23 : Os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: "Porque lhes falas por parábolas? Ele respondeu: "A vós é dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas não a eles. A quem tem, ser-lhe-á dado, e terá em abundância; a quem não tem, ser-lhe-á tirado até o que tem. Falo-lhes por parábolas, porque olham mas não vêem, e ouvem mas não ouvem nem compreendem. Assim se cumpre para eles a profecia de Isaías: Ouvireis, mas não compreendereis. Podeis olhar, mas não vereis. O coração deste povo tornou-se pesado, tornou-se duro de ouvido, fechou os olhos, para que os seus olhos não vejam, os seus ouvidos não ouçam, o seu coração não compreenda, não se converta - e eu curá-lo-ei. Mas, quanto a vós, bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem. Em verdade vos digo que muitos profetas e justos quiseram ver o que vedes e não o viram, e ouvir o que ouvis e não o ouviram.

Escutai, pois, o que significa a parábola do semeador. Quando alguém ouve a palavra do Reino sem a compreender, o Maligno vem e leva o que foi semeado no seu coração: ele é o campo semeado à beira da estrada. O que recebeu a semente em terreno pedregoso é aquele que ouve a Palavra e a recebe imediatamente com alegria; mas não tem raízes, é o homem do momento: quando vem a angústia ou a perseguição por causa da Palavra, tropeça imediatamente. Aquele que recebeu a semente nos espinhos é o que ouve a Palavra; mas os cuidados do mundo e o engano das riquezas sufocam a Palavra, e ela não dá fruto. O que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a Palavra e a compreende: dá fruto a cem, a sessenta ou a trinta por um."

Evangelho de Marcos 4, 10-20

Mc 4,10-20 : Quando ficou sozinho, os que o rodeavam com os Doze interrogaram-no acerca das parábolas. Ele respondeu-lhes: "O mistério do Reino de Deus é-vos dado a conhecer, mas aos que estão de fora tudo é apresentado sob a forma de parábolas. E assim, como diz o profeta: "Podem olhar com todos os olhos, mas não verão; podem ouvir com todos os ouvidos, mas não compreenderão; ou então converter-se-ão e receberão o perdão".

Então ele disse-lhes: "Não compreendeis esta parábola? Então, como é que entendereis todas as parábolas? O semeador semeia a Palavra. Há aqueles que estão à beira do caminho onde a Palavra é semeada: quando a ouvem, Satanás vem imediatamente e tira-lhes a Palavra semeada. Da mesma forma, há aqueles que receberam a semente em lugares pedregosos: quando ouvem a Palavra, recebem-na imediatamente com alegria; mas não têm raiz em si mesmos, são pessoas de um momento; se vem a angústia ou a perseguição por causa da Palavra, tropeçam imediatamente. E há outros que receberam a semente nos espinhos: estes ouvem a Palavra, mas os cuidados do mundo, o engano das riquezas e todas as outras concupiscências invadem-nos e sufocam a Palavra, que não dá fruto. Mas há aqueles que receberam a semente na terra boa: ouvem a Palavra, aceitam-na e dão fruto: trinta, sessenta, cem, por um."

Evangelho de Lucas 8, 4-18

Lc 8,4-18 : Enquanto se reunia uma grande multidão e vinham ter com Jesus pessoas de todas as cidades, ele contou uma parábola: "O semeador saiu a semear e, enquanto semeava, uma parte caiu à beira do caminho. Os transeuntes pisaram-na e as aves do céu comeram-na toda. Caiu também sobre as pedras; cresceu e secou, porque não tinha humidade. Caiu também entre as silvas, e as silvas, crescendo com ela, sufocaram-na. Por fim, uma parte caiu na terra boa, e cresceu e deu cem vezes mais fruto". Enquanto dizia isto, levantou a voz: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

Os seus discípulos perguntaram-lhe o que significava esta parábola. Ele disse-lhes: "A vós é dado conhecer os mistérios do Reino de Deus, mas os outros só têm parábolas. Por isso, como está escrito: "Olham mas não vêem, ouvem mas não compreendem". É isto que significa a parábola. A semente é a palavra de Deus. Depois vem o demónio e tira-lhes a Palavra do coração, para os impedir de acreditar e de se salvarem. Há aqueles que estão sobre as pedras: quando ouvem, acolhem a Palavra com alegria; mas não têm raízes, acreditam por um momento e depois, no momento da prova, desistem. Os que caíram nos espinhos são as pessoas que ouviram, mas são sufocadas no caminho pelas preocupações, pelas riquezas e pelos prazeres da vida, e não atingem a maturidade. E o que caiu em terra boa são os que ouviram a Palavra com um coração bom e generoso, que a retêm e dão fruto pela sua perseverança. (...)

Cuidado com a vossa escuta. Porque a quem tem, ser-lhe-á dado; e a quem não tem, ser-lhe-á tirado até o que julga ter".

Evangelho de Lucas 10, 23-24

Lc 10,23-24 : Depois, voltando-se para os seus discípulos, disse-lhes em particular: "Felizes os olhos que vêem o que vós vedes! Porque eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, e ouvir o que ouvis e não o ouviram.

EMF 180.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A vós foi concedido muito mais, porque vós, meus apóstolos, deveis conhecer o mistério; e por isso vos é concedido entender os mistérios do Reino dos Céus. Por isso, Eu vos digo: “Perguntai, quando não entenderdes o sentido de uma parábola.” Vós dais tudo, e tudo vos é dado, para que, por vossa vez, possais dar tudo. Vós dais tudo a Deus: afetos, tempo, interesse, liberdade, vida. Deus tudo vos dá para compensar-vos e tornar-vos capazes de dar tudo, em nome de Deus, a quem vos seque. Assim, a quem deu, será dado com abundância. Mas a quem não deu, ou só deu parcialmente, ou não deu nada, até o que ele tem lhe será tirado.

Anotação

Evangelho de Mateus 13, 10-12

Mt 13, 10-12 : Os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: "Porque lhes falas por parábolas? Ele respondeu: "A vós é dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas não a eles. Àquele que tem, ser-lhe-á dado, e terá em abundância; àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado."

Evangelho de Mateus 25, 29

Mt 25,29 : A quem tem, ser-lhe-á dado mais, e terá em abundância; mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado.

Evangelho de Marcos 4, 25

Mc 4, 25 : A quem tem, ser-lhe-á dado; mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado.

Evangelho de Lucas 8,18

Lc 8, 18 : "Portanto, tende cuidado com o que escutais, porque a quem tem, ser-lhe-á dado; mas a quem não tem, ser-lhe-á tirado até o que julga ter."

Evangelho de Lucas 19, 26

Lc 19,26: "Digo-vos que a quem tem, ser-lhe-á dado; mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado."

EMF 184.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Agora escutai a parábola do trabalho de Deus nos corações, para fundar neles o seu Reino. Porque cada coração é um pequeno Reino de Deus na terra. Mais tarde, depois da morte, todos esses pequenos reinos se aglutinarão em um só, no incomensurável, santo e eterno Reino dos Céus.

O Reino de Deus nos corações é criado pelo Divino Semeador. Ele vai aos seus terrenos, — pois o homem é de Deus e, por isso, cada homem inicialmente, é dele — e ali espalha a sua semente. Depois vai para outros terrenos, para outros corações. Os dias vêm depois das noites, e as noites depois dos dias. Os dias trazem sol ou chuvas e, neste caso, raios do amor divino e a efusão da Divina Sabedoria, que fala ao espírito. As noites trazem estrelas e silêncio repousantes: em nosso caso são os chamados luminosos de Deus e o silêncio para o nosso espírito, a fim de que a alma possa entrar em recolhimento e medite.

A semente, nessa sucessão de atos providenciais, imperceptíveis e poderosos, se incha, se fende, lança raízes, firma-se no terreno, solta as primeiras folhinhas, e cresce. Tudo isso ela faz sem ajuda do homem. A terra, espontaneamente, faz nascer da semente a erva, depois a erva se torna forte e capaz de sustentar a espiga que já vem saindo; depois essa espiga se ergue, se entumece, endurece, torna-se loira, perfeita e bem granada. Quando fica de todo madura, o semeador volta para passar-lhe a foice, porque para aquela semente chegou o tempo da perfeição. Não poderia ela evoluir mais, e por isso é colhida.

Nos corações minha palavra faz esse mesmo trabalho. Eu falo dos corações que dão acolhida à semente. Mas o trabalho neles é lento. É preciso não estragar tudo pelo atabalhoamento. Que esforço faz a pequena semente para fender-se e para fincar suas raízes na terra! Até para um coração duro e selvagem, é penoso um trabalho destes. Ela precisa abrir-se, deixa-se revirar, acolher coisas novas, cansar-se em alimentá-las, ter aparências diferentes, porque está coberta só com coisas humildes, mas úteis, e não com as mais atraentes, pomposas e exuberantes, que a cobriam antes. Deve contentar-se em trabalhar com humildade, sem atrair a admiração, mas sim para o que for útil dentro do Plano divino. Deve fazer uso de todas as suas capacidades, para crescer e formar a espiga. Deve abrasar-se de amor, para tornar-se grão. E quando, depois de ter superado os respeitos humanos, que são tão molestos, depois de ter-se cansado e sofrido, depois de ter-se acostumado à sua nova veste, ei-la precisando despojar-se dela, por meio de um corte sem piedade. É dar tudo para ter tudo. Ficar despojada para ser revestida no Céu com a estola dos Santos. A vida do pecador, que se torna santo, é o mais longo, o mais heróico e glorioso dos combates. Eu vo-lo digo.

Anotação

Evangelho de Marcos 4, 26-32

Mc 4,26-32 : Ele disse: "O reino de Deus é semelhante a um homem que lança a semente à terra: de noite e de dia, quer durma quer se levante, a semente brota e cresce, não se sabe como. A terra produz, por si mesma, primeiro a erva, depois uma espiga de milho e, por fim, uma espiga de trigo cheia. E logo que o trigo está maduro, ele mete-lhe a foice, porque chegou o tempo da ceifa". E prosseguiu: "A que havemos de comparar o reino de Deus? Que parábola podemos usar para o representar? É como um grão de mostarda: quando o semeais, é a mais pequena de todas as sementes. Mas, quando o semeais, cresce e ultrapassa todos os vegetais; e estende longos ramos, de modo que as aves do céu podem fazer os seus ninhos à sua sombra".

EMF 185.1-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

185.1 Agora que todos estão dormindo, eu vou lhe contar a minha alegria.

Eu “vi” o Evangelho de hoje. Imagine que esta manhã, ao lê-lo, eu disse a mim mesma: “Eis um episódio evangélico que eu nunca chegarei a ver, porque ele pouco se presta para ser objeto de uma visão.” Ao contrário, quando menos eu estava pensando nele, justamente ele é que veio encher-me de alegria.

185.2 Eis aqui o que vi.

Um barco à vela, não grande demais, mas também não pequeno, um barco de pesca, dentro do qual poderiam comodamente mover-se cinco ou seis pessoas, vai sulcando as águas de um belo lago de uma cor azul intensa.

Jesus está dormindo na popa. Está vestido de branco, como de costume. Está com a cabeça encostada no braço esquerdo e, por baixo do braço e da cabeça, colocou o seu manto azul-escuro, dobrado em muitas dobras. Está sentado (não deitado) no fundo do barco, apoiando a cabeça naquela parte do tablado, que fica na extremidade da popa. Não sei que nome lhe dão os marinheiros. Dorme tranquilamente. Está muito cansado. Está tranquilo.

Pedro está no timão, André se encarregou das velas, João e mais dois outros, que eu não sei quem são, estão pondo em ordem as amarras e as redes no fundo do barco, como se tivessem a intenção de preparar-se para uma pesca, talvez à noite. Eu diria que já está chegando a tarde, pois o sol já vai descendo no ocidente. Os discípulos todos estão com as suas túnicas sungadas, fazendo que elas fiquem parecendo bolsas ao redor da cintura, presas por meio de um cinto, a fim de que eles possam ficar mais livres em seus movimentos,e para poderem passar para cá e para lá pelo barco, por cima dos remos e dos bancos, dos cestos e das redes, sem que as vestes os estorvem. Todos tiraram os seus mantos.

185.3 Vejo que o céu está escurecendo e que o sol vai-se escondendo atrás de nuvens negras de temporal, que apareceram de repente, surgindo por detrás da extremidade de uma colina. O vento as impele velozmente para o lago. Por enquanto, o vento está alto e o lago ainda se conserva tranquilo, só que vai ficando mais escuro e sua superfície começa a enrugar-se. Ainda não se formaram ondas, mas as águas já começam a encrespar-se.

Pedro e André observam o céu e o lago e predispõem as manobras para o acostamento à margem.

Mas o vento irrompe sobre o lago e, em poucos minutos, tudo ferve e espuma. São ondas, que se chocam umas contra as outras, que batem contra o barco, levam-no até o alto e o tornam a baixar, torcem-no para todos os lados, impedem as manobras com o timão, ao mesmo tempo que o vento não deixa que se possa fazer uso da vela, que é arriada.

Jesus dorme. Nem os passos dos apóstolos, nem suas vozes excitadas, e nem mesmo o chocar-se das ondas contra os lados e a proa, conseguem despertá-lo. Seus cabelos esvoaçam ao vento e alguns borrifos de água o atingem. Mas Ele dorme. João, da proa, vai correndo até a popa e o cobre com seu manto, que ele tirou de debaixo do tablado. E o cobre com um delicado amor.

A tempestade se torna cada vez mais perigosa. O lago está escuro, como se nele se tivesse derramado tinta, estriado pela espuma das ondas. O barco começa a encher-se de água e cada vez mais e é empurrado pelo vento para o mar alto. Os discípulos suam nas manobras e no jogar fora do barco a água que as ondas nele despejam. Mas nada adianta. Chapinham com suas pernas até a metade dentro d’água e a barca vai ficando cada vez mais pesada.

185.4 Aí Pedro perde a calma e a paciência. Entrega a seu irmão o timão e, cambaleando, vai até Jesus, e o sacode vigorosamente.

Jesus acorda e levanta cabeça.

– Salva-nos, Mestre, estamos para perecer! –lhe grita Pedro (é preciso gritar para se fazer ouvir).

Jesus olha fixamente para o seu discípulo, olha para os outros, e depois olha para o lago.

– Crês que Eu vos possa salvar?

– Vamos logo, Mestre –grita Pedro, enquanto uma verdadeira montanha de água, que veio lá do centro do lago, se dirige velozmente para o pobre barco. Parece mais uma tromba d’água, de tão alta e espantosa que é.

Os discípulos, que a estão vendo chegar, se ajoelham e se agarram onde e como podem, certos de que já chegou o seu fim.

Jesus se levanta. Fica de pé sobre o tablado da proa. É uma figura toda de branco sobre a cor de chumbo da tempestade. Ele estende os braços para o vagalhão, e diz ao vento:

– Firma-te e cala-te

E à água:

– Aquieta-te. Eu o quero.

E o vagalhão se desfaz em espuma, que cai sem fazer nenhum mal, dando um último rugido, que vai se atenuando até tornar-se um leve murmúrio, enquanto que o vento se transformava em um assobio e, depois, num último suspiro. E, sobre o lago, agora em paz, volta a serenidade do céu, a esperança e a fé nos corações dos discípulos.

Não posso descrever a majestade de Jesus. É necessário vê-la para a compreender. Com alegria a contemplo em meu interior, porque me está presente neste momento e fico pensando como era tranquilo aquele sono de Jesus e quão poderoso o seu império sobre os ventos e as ondas!

185.5 Jesus diz depois:

– Eu não comento para ti o Evangelho, no sentido em que todos o comentam. Eu te esclareço sobre o que vem antes da passagem evangélica. Por que é que Eu estava dormindo? Será que Eu não sabia que a borrasca estava para desabar? Sim, Eu o sabia. Só Eu o sabia. E, então por que dormia?

Os apóstolos eram homens, Maria. Animados de boa vontade, mas ainda tão “homens.” O homem se crê sempre capaz de tudo. E, quando ele é realmente capaz de uma coisa, age com uma conduta muito briosa e arrogante, confiando em sua “capacidade.” Pedro, André, Tiago e João eram bons pescadores e, por isso, se julgavam insuperáveis nas manobras como marinheiros. Eu para eles era um grande Rabi; mas, como marinheiro, era um nada.

Por isso Me julgavam incapaz de ajudá-los e, quando subiam ao barco, para atravessar o Mar da Galileia, me pediam sempre que ficasse sentado, pois Eu não era capaz de fazer nenhuma outra coisa. É verdade que também o afeto deles era causa disso, porque não queriam que Eu me cansasse em trabalhos braçais. Mas a arrogância deles por sua capacidade superava até o seu afeto. Eu não me imponho, Maria, a não ser em casos excepcionais. Geralmente, Eu vos deixo livres, e espero. Naquele dia, cansado e tendo-me eles sugerido que descansasse, isto é,que deixasse que eles fizessem as manobras, pois eles tinham tanta prática, então Eu me pus a dormir. Ao meu sono estava misturada também a constatação de como o homem é “homem” e quer fazer tudo por si mesmo, sem perceber que Deus nada pede, a não ser ajudá-lo. Eu via naqueles “surdos espirituais”, naqueles “cegos espirituais” todos os surdos e cegos do espíritos, que, através de séculos e mais séculos, se arruinariam “por quererem fazer tudo por si mesmos”, quando eles tinham a Mim, inclinado sobre as necessidades deles, à espera de ser chamado por eles, para ajudá-los.

Quando Pedro gritou: “Salva-nos!”, minha angústia cessou, como cai uma pedra que se solta no ar. Eu não sou “homem”, sou o Deus-Homem. Não atuo como vós atuais. Vós, quando alguém rejeitou vosso conselho ou vossa ajuda, e o vedes depois em dificuldades, ainda que não sejais tão maus para vos alegrardes com aquilo, sempre o sois para ficardes desdenhosamente indiferentes olhando para ele, sem vos comoverdes com o seu grito de ajuda

E, com este modo de proceder, vós lhe estais querendo dizer: “Quando eu queria te ajudar, tu não o quiseste? Pois agora, vira-te!” Mas Eu sou Jesus. Sou o Salvador. E, de fato, Eu salvo, Maria. Salvo sempre, mal Me invocam.

185.6 Os pobres homens poderiam objetar: “E então, por que permites que se formem tempestades isoladas ou generalizadas?”

Se Eu, com o meu poder destruísse o Mal, qualquer que ele fosse, vós chegaríeis a acreditar que sois autores do Bem, o que na realidade seria um dom meu, e nunca mais vos lembraríeis de Mim. Nunca mais. Tendes necessidade da dor, ó meus pobres filhos, para fazer-vos lembrar de que tendes um Pai. Foi assim que aconteceu com o filho pródigo, que só se lembrou de que tinha um pai, quando a fome o afligiu.

As desventuras servem para que persuadidos do vosso nada: da vossa insensatez, que é a causa de tantos erros, da vossa maldade, que é causa de tantos lutos e dores; das vossas culpas, causa de punição, que dais a vós mesmos; e da Minha existência, do meu poder e da Minha bondade. Isto é o que vos diz o Evangelho de hoje. É o “vosso” Evangelho da presente hora, meus pobres filhos.

Chamai-Me. Jesus só dorme quando está angustiado, ao ver-se não amado por vós. Chamai-Me e virei.

[…].

Anotação

Agora que todos estão a dormir, gostaria de partilhar convosco a minha alegria. Eu "vi" o Evangelho de hoje. As catequeses diárias de Maria Valtorta, registadas na série dos "Cadernos", começaram em abril de 1943, mas as visões do Evangelho só começaram verdadeiramente em janeiro de 1944. Esta é, portanto, uma das primeiras visões. Lembrem-se que não estão por ordem cronológica.

Jesus está a dormir na popa. Na popa do barco.

Jesus levanta-se, de pé na prateleira da proa. O seu rosto branco destaca-se da tempestade lívida. Estende os braços para as ondas e diz ao vento: "Pára e cala-te" e à água: "Acalma-te. Quero que te acalmes. Segundo M.L., um leitor, este episódio da tempestade acalmada pode ser comparado com o Salmo 106 (hebraico 107), 23-30. Esta ligação deve ter estado depois presente no espírito dos apóstolos que, tal como os seus contemporâneos, conheciam de cor os Salmos. Este facto vem iluminar ainda mais os comentários de Jesus a Maria Valtorta.

Evangelho de Mateus 8, 23-27

Mt 8, 23-27: Quando Jesus entrou no barco, os seus discípulos seguiram-no. E eis que o mar ficou tão agitado que o barco foi coberto pelas ondas. Mas Jesus estava a dormir. Os discípulos foram ter com ele e acordaram-no, dizendo: "Senhor, salva-nos! Senhor, salva-nos! Estamos perdidos! Mas ele respondeu-lhes: "Porque temeis tanto, homens de pouca fé? Então Jesus levantou-se e repreendeu os ventos e o mar, e fez-se uma grande bonança. As pessoas ficaram admiradas e disseram: "Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?

Evangelho de Marcos 4, 37-41

Mc 4,37-41 : Houve uma tempestade violenta. As ondas batiam contra o barco, que já estava a encher-se. Jesus estava a dormir na almofada da popa. Os discípulos acordaram-no e disseram-lhe: "Mestre, estamos perdidos; não te importas? Despertado, ameaçou o vento e disse ao mar: "Silêncio, cala-te!" O vento amainou e fez-se uma grande calma. Jesus disse-lhes: "Porque tendes tanto medo? Ainda não tendes fé? Eles ficaram com muito medo e diziam uns aos outros: "Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?

Evangelho de Lucas 8, 23-25

Lc 8, 23-25 : Enquanto navegavam, Jesus adormeceu. O lago foi invadido por uma tempestade. Ficaram submersos e em grande perigo. Os discípulos foram ter com ele e acordaram-no, dizendo: "Mestre, mestre! Estamos perdidos! E ele acordou e repreendeu o vento e as ondas turbulentas. As ondas acalmaram-se e houve paz. Então Jesus perguntou-lhes: "Onde está a vossa fé? Cheios de medo, ficaram espantados e diziam uns aos outros: "Quem é este que dá ordens até aos ventos e às ondas, e eles obedecem-lhe?