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Notas da palavra-chave

Bíblia - Evangelho de Marcos

Tema: Livros do Novo Testamento · Página 1 de 4

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EMF 6.6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

6.6 Jesus diz:

– Salomão faz a Sabedoria dizer: “Quem é criança, venha a mim.” Na verdade, é da fortaleza e dos muros de sua cidade que a eterna Sabedoria dizia à eterna menina: “Vem a mim.” Ansiava por tê-la.

Mais tarde, o Filho desta puríssima menina dirá: “Deixai vir a Mim os pequeninos, porque deles é o Reino dos Céus, e quem não se tornar semelhante a eles, não terá parte no meu Reino.” As vozes se perseguem e, enquanto a voz do Céu grita à pequena Maria: “Vem a Mim”, a voz do Homem pensa em sua mãe, ao dizê-lo: “Vinde a Mim, se souberdes ser pequeninos.”

Dou-vos um modelo em minha mãe.

Eis a perfeita criança, do coração de pomba, simples e puro, eis Aquela que os anos e os contatos do mundo não conseguem embrutecer pela barbárie de um espírito corrompido, tortuoso, mentiroso. Porque Ela não quer este espírito. Vinde a Mim, olhando para Maria.

Anotação

Salomão disse: Provérbios 9:4.

Mais tarde, o Filho da Criança Pura dirá: "Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o reino dos céus; quem não for como elas não tem parte no meu reino. "Jesus dirá isto em EMV 378.8 e em Mateus 19, 14-15; Marcos 10, 13-14, e Lucas 18, 15-17.

Evangelho de Mateus 19, 14-15

Mt 19, 14-15 : Jesus disse-lhes: "Deixai estas crianças e não as impeçais de vir ter comigo, porque o Reino dos Céus é para aqueles que são como elas. "E, impondo-lhes as mãos, pôs-se a caminho.

Evangelho de Lucas 18, 15-17

Lc 18,15-17 : Algumas pessoas trouxeram-lhe as suas criancinhas para que ele as tocasse; os discípulos, vendo isso, repreenderam-nas. 16Mas Jesus chamou as crianças para junto de si e disse: "Deixem vir a mim as criancinhas e não as impeçam, pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. 17Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele. "

Evangelho de Marcos 10, 13-14

Mc 10,13-14 : Trouxeram-lhe criancinhas para que ele as tocasse. Mas os discípulos repreendiam os que as traziam. Jesus, vendo isso, indignou-se e disse-lhes: "Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos Céus pertence aos que são semelhantes a elas".

EMF 9.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

“Quem ama a sabedoria, ama a vida, e terá a Vida como herança”, diz o Eclesiástico. Isto está ligado à minha Palavra: “Aquele que perder a vida por amor de Mim, salvá-la-á.” Porque não se trata da pobre vida desta terra e, sim, da vida eterna; não se trata das alegrias de um momento, mas das alegrias imortais.

Anotação

Livro de Ben Sira, o Sábio 4, 12-13

Si 4, 12-13 : Amá-la é amar a vida; aqueles que a procuram desde a aurora serão felizes; aquele que a possui herdará a glória; onde ele entra, o Senhor dá a sua bênção.

Evangelho de Mateus 16, 25

Mt 16,25: Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por minha causa, achá-la-á.

Evangelho de Marcos 8,35 e Evangelho de Lucas 9,24

Mc 8,35 / Lc 9,24: Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, salvá-la-á.

Ver EMV 346.9.

EMF 35.9

O Evangelho como me foi revelado

Citação

No meu Reino, os grandes se tornam assim, fazendo-se “pequenos.” Quem quer ser “grande” aos olhos do mundo, não está preparado para reinar no meu Reino. Esse é palha para a cama dos demônios. Porque a grandeza do mundo está em contraste com a Lei de Deus.

O mundo chama “grandes” os que, com meios quase sempre ilícitos, sabem ocupar as melhores posições e, para conseguirem isso, fazem do próximo um degrau, sobre o qual sobem, pisando nele. Chama “grandes” aqueles que sabem matar para reinar, matar moral ou materialmente e, pela extorsão, conseguem posições e lugares, e enriquecem, sugando o sangue dos outros em suas riquezas particulares ou coletivas. O mundo muitas vezes chama os delinqüentes de “grandes.” Não. A “grandeza” não está na delinquência. Está na bondade, na honestidade, no amor, na justiça. Vede os vossos “grandes”, que frutos envenenados vos oferecem, colhidos no seu malvado e demoníaco pomar interior!

Anotação

Mateus 20, 25-28 : Jesus reuniu-os e disse: "Como sabeis, os chefes das nações dominam-nas e os grandes fazem sentir o seu poder. Mas entre vós não será assim: quem quiser tornar-se grande entre vós, será vosso servo; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso escravo. Assim, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.

Marcos 10, 41-45: Jesus reuniu-os e disse-lhes: "Como sabeis, os que são considerados governantes dos gentios dominam-nos; os grandes fazem-lhes sentir o seu poder. Mas entre vós não deve ser assim. Quem quiser tornar-se grande entre vós, será vosso servo. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos".

Lucas 22,25-27: Mas Jesus disse-lhes: "Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores. Mas não é assim convosco! Pelo contrário, o maior entre vós seja como o mais novo, e o que tem autoridade como o que serve. Pois quem é maior, o que se senta à mesa ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou no meio de vós como aquele que serve.

EMF 45.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

45.1 Vejo uma planície despovoada, sem cidades e sem vegetação. Não há campos cultivados, e bem poucos e raros são os arbustos reunidos aqui e ali em moitas, como uma das famílias vegetais, nos lugares em que o solo, nas camadas mais profundas está menos árido do que nos outros pontos em geral. Faça de conta que este terreno chamuscado e inculto esteja à minha direita, tendo eu o norte às minhas costas, e que ele se prolongue para o lado sul, em relação a mim.

À esquerda, ao contrário, vejo um rio de margens muito baixas, que corre lentamente, também ele de norte a sul. Pelo movimento vagaroso da água, compreendo que não devem existir desníveis em seu leito e que este rio corre por uma planície de tal maneira plana, que forma uma depressão. Ali há um movimento apenas suficiente para que a água não fique estagnada em um pântano. (A água é pouco profunda, tanto que se pode ver o fundo. Acho que não tem mais do que um metro, no máximo, um metro e meio. Tem uma largura como a do rio Arno, à altura de S. Miniato-Empoli, eu diria, de uns vinte metros. Mas eu não tenho olho bom para calcular distâncias). Também é um rio de águas azuis levemente esverdeadas nas margens, onde pela umidade do solo há uma vegetação densa e agradável à vista, que já ficou cansada de olhar a esqualidez das pedras e da areia que se estende diante dela.

Aquela voz interior, que eu lhe expliquei que ouço, e que me indica o que é que devo anotar e saber, me avisa que o que estou vendo é o vale do Jordão. Eu o chamo de vale, porque é costume falar assim, quando queremos indicar o lugar por onde corre um rio, mas no caso do Jordão, é impróprio chamá-lo assim, porque um vale pressupõe montes, e eu aqui não vejo montes próximos. Mas, em suma, estou junto ao Jordão, e o espaço desolado, que observo à minha direita é o deserto de Judá. Se falamos em deserto para querermos dizer um lugar onde não há casas nem traba­lhos feitos pelo homem, está certo, mas não o é segundo o conceito que nós temos do deserto. Aqui não há areias onduladas do deserto como nós o concebemos, mas somente terra nua, com pedras e detritos espalhados, como são os terrenos aluviais depois de uma cheia. Lá, ao longe, vêem-se algumas colinas.

Também, junto ao Jordão, reina uma grande paz, alguma coisa de especial e de superior ao comum, igual ao que se sente nas margens do lago Trasimeno. É um lugar que parece querer fazer-nos pensar em vôos de anjos e em vozes celestes. Não sei dizer bem o que estou sentindo. Mas me sinto num lugar que nos fala ao espírito.

45.2 Enquanto observo estas coisas, vejo que o cenário vai-se enchendo de gente, ao longo da margem direita (em relação a mim) do Jordão. Há muitos homens, vestidos de maneiras diversas. Alguns parecem homens do povo, outros são ricos e não faltam alguns que parecem ser fariseus, pelas vestes adornadas com franjas e galões.

No meio deles, em pé sobre um penhasco, está um homem que, ainda que seja esta primeira vez que o vejo, reconheço logo que é o Batista. Ele fala à multidão, e eu lhe asseguro que não é uma pregação doce. Jesus chamou Tiago e João de “os filhos do trovão”. Como chamar, então, este veemente orador? João Batista merece o nome de raio, avalanche, terremoto, pois o seu modo de falar e gesticular é muito impetuoso e severo.

Ele fala, anunciando o Messias e exortando o povo a preparar os corações para a sua vinda, arrancando-lhes os embaraços, endireitando-lhes os pensamentos. Mas é um falar vorticoso e rude. O Precursor não tem a mão leve de Jesus, sobre as chagas dos corações. É um médico que tudo descobre, examina, e corta, sem piedade.

45.3 Enquanto o escuto — e não repito as palavras porque são aquelas referidas pelos evangelistas, mas amplificadas em sua impetuosidade — vejo que, ao longo de uma estradinha, pela beira da faixa verde que acompanha o Jordão, vem se aproximando o meu Jesus. Este cami­nho rústico, que é mais um atalho do que um caminho, parece ter-se formado com a passagem das caravanas e das pessoas que, durante anos e séculos, o têm percorrido para alcançar um ponto mais raso do rio e fácil de ser atravessado a vau. O atalho continua do outro lado do rio, e se perde entre o verde dos ribeirinhos.

Jesus está sozinho. Caminha lentamente, avançando em direção às costas de João. Aproxima-se sem fazer barulho e escuta, entretanto, a voz trovejante do Penitente do deserto, como se Jesus fosse um dos muitos que iam a João para serem batizados, a fim de se prepararem para estarem limpos, na chegada do Messias. Nada distingue Jesus dos outros. Nas vestes, Ele parece um dos homens do povo, um senhor no trato e na beleza, mas nenhum sinal divino o diferencia da multidão.

Dir-se-ia, porém, que João está sentindo a emanação de uma espiritualidade especial. Ele se vira e, de imediato, reconhece qual é a fonte daquela emanação. Ele desce impetuosamente do penhasco, que lhe servia de púlpito, e, rapidamente, vai até Jesus, que estava parado a alguns metros do grupo, apoiando-se ao tronco de uma árvore.

45.4 Jesus e João se olham por um momento. Jesus com aquele seu olhar­ azul tão doce. João com seus olhos severos, pretos, cheios de uma luz intensa. Vistos de perto, eles são a antítese um do outro. Os dois são altos (é a única semelhança, em tudo o mais são diferentes). Jesus é loiro, de cabelos compridos e penteados, com um rosto de um branco marfim, de olhos azuis, de roupa simples, mas majestosa. João tem cabelos pretos, que caem lisos sobre as costas, desiguais em comprimento, com uma barba preta e rala, que lhe cobre quase todo o rosto, sem impedir que se possam notar suas faces escavadas pelo jejum, seus olhos pretos e febris, sua pele escura, bronzeada pelo sol e pelas intempéries, A pelugem farta que lhe cobre o corpo seminu, com sua veste de pêlo de camelo, presa à cintura por uma correia de pele, cobrindo o torso, descendo um pouco abaixo dos flancos magros, deixando descobertas as costelas à direita, por onde se vê a pele curtida pelo ar. Os dois, vistos juntos, parecem um anjo e um selvagem.

João, depois de tê-lo perscrutado com seus olhos penetrantes, exclama:

– Eis o Cordeiro de Deus! Como é que o meu Senhor vem a mim?

Jesus lhe responde tranqüilamente:

– É para cumprir o rito da penitência.

– Nunca, meu Senhor. Eu é que devo ir a Ti para ser santificado, e Tu vens a mim?

Jesus, pondo-lhe a mão sobre a cabeça, pois João estava curvado à sua frente, lhe responde:

– Deixa que se faça como Eu quero, para que se cumpra toda a justiça, para que o teu rito se torne o início de um mais alto mistério, e para que seja anunciado aos homens que a Vítima já está no mundo.

45.5 João olha para Ele com uns olhos, que uma lágrima enternece, e o precede em direção à beira do rio, onde Jesus tira o manto e a túnica, ficando com uma espécie de calções curtos, para, depois, descer na água, onde já está João, que o batiza, vertendo-lhe sobre a cabeça a água do rio, apanhada com uma espécie de taça que o Batista traz pendurada na cintura, e que me parece uma concha, ou a metade de uma cabaça seca, da qual foi tirado o miolo.

Jesus é realmente o Cordeiro. Cordeiro na candura da carne, na modéstia do trato, na mansidão do olhar.

Enquanto Jesus torna a subir à beira do rio, depois de se vestir, se recolhe em oração, João o aponta à multidão, dando o testemunho de tê-lo conhecido pelo sinal que o Espírito de Deus lhe tinha dado, sinal infalível do Redentor.

Mas eu me sinto tão atraída por Jesus, ao vê-lo rezando, que não vejo nada, a não ser esta figura de luz, contra o verde da margem.

Anotação

Mateus 3:1-17

Naqueles dias, apareceu João Batista e proclamou no deserto da Judeia: "Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus. É a João que se referem as palavras do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Ele, João, usava uma veste de pelo de camelo e um cinto de couro à cintura; a sua comida eram gafanhotos e mel silvestre. Então Jerusalém, toda a Judeia e toda a região do Jordão vinham ter com ele, e eram baptizados por ele no Jordão, reconhecendo os seus pecados.

Quando viu que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: "Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira que há-de vir? Produzi frutos dignos de conversão. Não digais a vós mesmos: "Temos Abraão por pai", porque eu vos digo que Deus pode suscitar filhos a Abraão a partir destas pedras. O machado já está na raiz das árvores: toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu batizo-vos com água para a conversão. Mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu, e eu não sou digno de lhe tirar as sandálias. Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo. Ele tem na mão a pá de joeirar, limpará a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; quanto à palha, queimá-la-á em fogo inextinguível".

Foi então que Jesus apareceu. Ele tinha vindo da Galileia para o Jordão, para ser batizado por João. João queria impedi-lo, dizendo: "Eu é que preciso de ser batizado por ti, e tu é que vens ter comigo! Mas Jesus respondeu: "Deixa estar por agora, pois convém que cumpramos toda a justiça desta maneira". Então João deixou-o fazer isso. Logo que Jesus foi batizado, saiu da água e eis que os céus se abriram e ele viu o Espírito de Deus descer numa pomba e vir sobre ele. E uma voz do céu dizia: "Este é o meu Filho muito amado, em quem me comprazo.

Marcos 1, 9-11

Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré, na Galileia, e foi batizado por João no Jordão. E logo que saiu da água, viu os céus abertos e o Espírito descer sobre ele como uma pomba. E ouviu-se uma voz do céu: "Tu és o meu Filho muito amado; em ti me comprazo.

Lucas 3, 1-22

No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes governava na Galileia, seu irmão Filipe na terra de Itureia e Traconite, Lisânias em Abilene, e os chefes dos sacerdotes eram Hanão e Caifás, veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto. Ele percorreu toda a região do Jordão, proclamando um batismo de conversão para o perdão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Todas as ravinas se encherão, todos os montes e colinas se abaixarão; os caminhos tortuosos se endireitarão, as veredas rochosas se aplanarão; e todo o ser vivo verá a salvação de Deus. João dizia às multidões que chegavam para serem baptizadas por ele: "Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi frutos que exprimam a vossa conversão. Não comeceis a dizer para vós mesmos: "Temos Abraão por pai", porque eu vos digo que Deus pode suscitar filhos a Abraão a partir destas pedras. O machado já está na raiz das árvores: toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo.

As multidões perguntaram-lhe: "Então, que devemos fazer? João respondeu-lhes: "Quem tiver duas roupas, reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver comida, faça o mesmo. Alguns cobradores de impostos vieram também para serem baptizados e perguntaram-lhe: "Mestre, que havemos de fazer? Ele respondeu: "Não peçais mais do que aquilo que vos está prescrito. Alguns soldados também lhe perguntaram: "E nós, que devemos fazer? Ele respondeu: "Não façais mal a ninguém, não acuseis ninguém falsamente e contentai-vos com o vosso soldo."

As pessoas estavam à espera e interrogavam-se todas se João não seria o Cristo. Então João disse a todos: "Eu batizo-vos com água, mas vem aí aquele que é mais forte do que eu. Não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias. Ele vai batizar-vos com o Espírito Santo e com fogo. Ele tem na mão a pá de joeirar para limpar a sua eira, e recolherá o trigo no seu celeiro; quanto à palha, queimá-la-á em fogo inextinguível."

Com muitas outras exortações, anunciou a Boa Nova ao povo. Herodes, que detinha o poder na Galileia, tinha sido repreendido por João por causa da mulher do seu irmão, Herodíades, e por todas as maldades que tinha cometido. A tudo isto acrescentou o seguinte: mandou encerrar João na prisão.

Enquanto toda a gente estava a ser baptizada, e Jesus estava a rezar depois de ter sido batizado, o céu abriu-se. O Espírito Santo, em forma corpórea, como uma pomba, desceu sobre Jesus, e uma voz veio do céu: "Tu és o meu Filho muito amado; em ti me comprazo.

João 1, 29-34

No dia seguinte, João viu Jesus a aproximar-se dele e disse: "Este é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo; dele eu disse: 'O homem que vem depois de mim foi antes de mim, porque antes de mim ele existia'. Eu não o conhecia, mas vim batizar em água para que ele seja revelado a Israel. Então João deu este testemunho: "Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre ele. E eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar em água disse-me: "Aquele sobre quem vires descer e permanecer o Espírito, esse é que baptiza no Espírito Santo". Eu vi e dou testemunho de que este é o Filho de Deus.

EMF 46.1-10

O Evangelho como me foi revelado

Citação

46.1 Vejo à minha esquerda, a solidão rochosa, que eu já vi, na visão do batismo de Jesus no Jordão. Mas devo ter penetrado bastante nela, porque não vejo inteiramente o belo rio, vagaroso e azul, nem a veia verde que o acompanha em suas duas margens, como que alimentada por aquela artéria de água. Aqui só se vê solidão, grandes pedras, uma terra de tal maneira árida, que está reduzida a um pó amarelado que, de vez em quando o vento levanta em pequenos redemoinhos, parecidos com o sopro de alguma boca febril, de tão quente e seco. Eles incomodam, porque a sua poeira nos penetra as narinas e a garganta. Há algumas pequenas moitas de espinheiros, muito raras, que não se sabe como é que podem resistir, nessa desolação. Parecem os últimos fios de cabelo numa cabeça calva. Acima, um céu, impiedosamente azul; em baixo, o solo árido; ao redor, penhascos e silêncio. Eis o que vejo como natureza.

46.2 Encostado à uma grande pedra, que pela sua forma, feita para

cima e para baixo assim como tento desenhá­-la, parece um princípio de caverna, está Jesus, sentado sobre numa outra pedra, que foi arrastada para dentro da caverna +. Protege-se assim do sol ardente.

Meu monitor interior me avisa que aquela pedra, sobre a qual o Senhor está sentado, é também o seu genuflexório e o seu travesseiro, quando Ele tira suas breves horas de repouso, envolto em seu manto, à luz das estrelas e exposto ao ar frio da noite. De fato, a sacola está perto dele, a mesma que eu o vi pegar, antes de partir de Nazaré. É tudo o que Ele tem. E, como está dobrada e frouxa, compreendo que está vazia, sem aquele pouco alimento que Maria havia posto nela.

Jesus está muito magro e pálido. Está sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos e os antebraços estendidos para a frente, com as mãos unidas e os dedos entrelaçados. Ele está meditando. De vez em quando, ergue o olhar, e o gira ao seu redor, olha para o sol alto, quase à pino, no céu azul. De vez em quando, e especialmente depois de ter girado o olhar ao redor e de tê-lo erguido em direção à luz solar, Ele fecha os olhos e se apóia ao penhasco, que lhe serve de abrigo, como se estivesse sendo tomado por uma vertigem.

46.3 Vejo, então, aparecer a cara feia de Satanás. Não que ele se apresente na forma com que nós costumamos figurá-lo com chifres, rabo, etc. Parece um beduíno, envolto em sua veste e em seu grande manto, como um dominó mascarado. Na cabeça tem um turbante, cujas extremidades brancas descem como uma proteção sobre os ombros e ao longo dos lados do rosto. De modo que deste aparece um pequeno triângulo muito moreno, de lábios finos e sinuosos, de olhos muito pretos e encavados, cheios de brilhos magnéticos. São duas pupilas que te perscrutam até o fundo do coração, mas nas quais não lês nada, somente esta palavra: mistério. O oposto dos olhos de Jesus, também estes magnéticos e fascinantes e que perscrutam os corações, mas nos quais tu também podes ler que no seu coração há amor e bondade para contigo. O olhar de Jesus é uma carícia para a alma. Enquanto que o olhar de Satanás é como um duplo punhal que te perfura e te queima.

46.4 Ele se aproxima de Jesus:

– Estás sozinho?

Jesus olha para ele, e não responde.

– Como vieste parar aqui? Estás perdido?

Jesus o olha novamente, e continua calado.

– Se eu tivesse água no odre, eu te daria. Mas eu também estou sem. Meu cavalo morreu, e eu vou indo a pé até o vau do Jordão. Lá eu beberei, e hei de encontrar alguém que me dê um pão. Eu sei o caminho. Vem comigo. Eu te guiarei.

Jesus não levanta nem mesmo o olhar.

– Não respondes? Sabes que, se ficares aqui, morrerás? O vento está começando a soprar. Vai vir uma tempestade. Vem comigo.

Jesus une as mãos em muda oração.

– Ah! Então, és Tu mesmo? Há tanto tempo que te procuro! Agora faz tempo que te venho observando. Desde o momento em que foste batizado. Estás chamando o Eterno? Ele está longe. Agora estás sobre a terra e em meio aos homens. No meio dos homens, quem reina sou eu. Eu também tenho dó de ti e te quero socorrer, porque és bom, e vieste sacrificar-te à toa. Os homens te odiarão pela tua bondade. Eles só entendem, se lhes falares de ouro, comida e sentidos. Sacrifício, dor, obediência, são para eles palavras mortas mais do que esta terra, que está ao redor de nós. Eles são ainda mais áridos do que esta poeira. Só a serpente pode esconder-se aqui, esperando a hora de dar o bote; e o chacal, a hora de despedaçar sua vítima. Vem, vamos embora. Não mereces sofrer por eles. Eu os conheço melhor­ do que Tu.

Satanás sentou-se de frente a Jesus e o examina com esse seu olhar­ horrível, sorrindo com a sua boca de serpente. Jesus continua calado, rezando mentalmente.

46.5 – Tu estás desconfiando de mim. Fazes mal. Eu sou a sabedoria da terra. Posso ser teu mestre, para te ensinar a triunfar. Vê: o importante é triunfar. Depois, quando nos impusermos e o mundo ficar fascinado, então o levaremos para onde quisermos. Mas antes, é necessário fazer o que agrada a eles. Ser como eles. Seduzi-los, fazendo-os crer que nós os admiramos e os acompanhamos em seus pensamentos.

Tu és jovem e belo. Começa pela mulher. É sempre por ela que se deve começar. Eu errei, induzindo a mulher à desobediência. Eu devia tê-la aconselhado de outro modo. Eu teria feito dela um instrumento melhor, e teria vencido a Deus. Eu fui apressado. Mas Tu! Vou te ensinar, porque houve um dia em que eu olhei para Ti com um júbilo angelical, e um resto daquele amor ainda ficou, mas Tu, escuta-me, aproveita-te da minha experiência! Arruma uma companheira. Porque o que não conseguires, ela conseguirá. Tu és o novo Adão: deves ter a tua Eva.

Além disso, como podes compreender e curar as doenças da sensualidade, se não sabes o que elas são? Não sabes que aí é que está o ponto central do qual nasce a planta da cobiça e da prepotência? Para que é que o homem quer reinar? Para que é que quer ser rico e poderoso? Para possuir a mulher. Ela é como a cotovia. Ela precisa do bri­lho para ser atraída. O ouro e o poder, são as duas faces do espe­lho que atraem as mulheres e são as causas do mal no mundo. Olha bem: atrás de mil delitos de diversas faces, há, pelo menos novecentos que têm suas raízes na fome da posse da mulher, ou na vontade de uma mulher, que arde num desejo que o homem ainda não conseguiu satisfazer ou não mais satisfaz. Se quiserdes saber o que é a vida procura a mulher. Só depois, saberás cuidar e curar as doenças da humanidade.

A mulher é bonita, como sabes! Não há nada de mais belo no mundo. O homem tem o pensamento e a força. Mas, a mulher! O seu pensamento é um perfume, seu contato é carícia de flores, sua graça é como um vinho que desce, sua fraqueza é como uma meada de seda ou anel de cabelo de bebê nas mãos do homem, sua carícia é uma força que se derrama sobre a nossa inflamando-a. Acaba-se a dor, o cansaço, a aflição, quando nos colocamos perto de uma mulher, pois ela, nos nossos braços, é como um feixe de flores.

46.6 Mas, que tolo que eu sou! Tu estás com fome, e eu te falando da mulher. O teu vigor está esgotado. É por isso que essa fragrância da terra, essa flor da criação, esse fruto que dá e suscita o amor, te parece uma coisa sem valor. Mas olha estas pedras, como são redondas e lisas, como são douradas sob à luz do sol que desce. Não parecem pães? Tu, Filho de Deus, só precisas dizer: “Eu quero”, para que elas se transformem em pães cheirosos, como aqueles que as donas de casa tiram do forno para o jantar de seus familiares. E estas acácias, tão secas, se Tu queres, não podem encher-se de maçãs doces e de tâmaras com gosto de mel? Sacia-te, ó Filho de Deus! Tu és o Senhor da terra. Ela se inclina para pôr-se aos teus pés, matando a tua fome.

Não vês que empalideces e vacilas, só de ouvires falar em pão? Pobre Jesus! Estás tão fraco, a ponto de não poderes mais tampouco fazer um milagre? Queres que eu o faça por Ti? Não sou igual a ti. Mas alguma coisa eu posso fazer. Ainda que por um ano eu fique privado das minhas forças, eu as juntarei todas, pois eu te quero servir, porque Tu és bom e eu sempre me lembro de que és o meu Deus, mesmo tendo eu desmerecido agora de poder chamar-te assim. Ajuda-me com a tua oração para que eu possa….

– Cala-te! “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que vem da boca de Deus.”

O demônio estremece de raiva. Range os dentes e fecha os punhos. Mas ele se contém, e muda o ranger de dentes em um sorriso.

– Compreendo. Tu estás acima das necessidades da terra e tens aversão a servir-te de mim. Bem que eu mereci isto.

46.7 Mas, vem, então, e vê o que está acontecendo na Casa de Deus. Vê como até os sacerdotes não se recusam a fazer transações entre o espírito e a carne. Porque, afinal, eles são homens, não são anjos. Faz um milagre espiritual. Eu te levo até o pináculo do Templo, e Tu, transfigura-te em beleza lá em cima, depois, chama a multidão de anjos, e diz a eles que façam de suas asas entrelaçadas, uma esteira para os teus pés, e que Te levem para desceres no pátio principal. Que todos Te vejam e se lembrem de que Deus existe. De vez em quando é necessária uma manifestação, porque o homem tem uma memória muito fraca, especialmente nas coisas espirituais. Bem sabes como os anjos se sentirão felizes por poderem oferecer um apoio aos teus pés e uma escada para desceres!

– Está escrito: “Não tentes ao Senhor teu Deus.”

– Compreendes que, mesmo com a tua aparição, não se mudariam as coisas, e o Templo continuaria a ser um lugar de mercado e cor­rupção. A tua divina sabedoria bem o sabe, como os corações dos ministros do Templo são um ninho de víboras, que se dilaceram, contanto que consigam prevalecer. Só podem ser dominados com força humana.

46.8 Então, vem. Adora-me. Eu te darei a terra. Alexandre, Ciro, César, todos os maiores dominadores do passado ou do presente serão semelhantes a chefes de umas mesquinhas caravanas, se comparados a Ti, que terás sob o teu cetro todos os reinos da terra. Com os reinos, terás todas as riquezas, todas as belezas da terra, mulheres, cavalos, forças armadas e templos. Poderás erguer em qualquer lugar o teu Sinal, quando serás o Rei dos reis e Senhor do mundo. Então, serás obedecido e venerado pelo povo e pelo sacerdócio. Todas as castas te honrarão e te servirão, porque serás o Poderoso, o Único, o Senhor.

Adora-me, ainda que por um só momento! Tira-me esta sede que eu tenho de ser adorado! Foi ela que me perdeu. Mas ela ficou em mim, queimando-me. As chamas do inferno são como o ar fresco da manhã, comparado a este ardor que me queima interiormente. Esta sede é o meu inferno. Um momento, um momento só, ó Cristo, Tu que és bom! Um momento de alegria para o eterno Atormentado! Deixa-me sentir o que quer dizer ser deus, e eu serei teu devoto e servo obediente por toda a vida, para todas as tuas obras. Um momento! Um só momento, e não te atormentarei mais!

Satanás se põe de joelhos, suplicando.

46.9 Jesus, ao contrário, se levantou. Tendo-se tornado mais magro nestes dias de jejum, parece ainda mais alto. Seu rosto está cheio de severidade e poder. Seus olhos são duas safiras ardentes. Sua voz é como um trovão, que se repercute na cavidade do penhasco, espanlhando-se sobre o pedregal e a planície desolada, ao dizer:

– Vai-te, Satanás. Está escrito: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás!”

Satanás, com um urro de condenado e com um ódio indescritível, levanta-se com ímpeto, tremendo, ao ver-se na sua furiosa e fumante figura. Depois, desaparece, com um novo urro de maldição.

46.10 Jesus se assenta, cansado, apoiando atrás a cabeça no penhasco. Parece estar exausto. Está suando. Mas os seres angélicos vêm soprar levemente, com suas asas no mormaço da caverna, purificando-o e refrescando-o. Jesus abre os olhos, e sorri. Eu não o vejo comer. Eu diria que Ele se nutre do aroma do Paraíso, saindo revigorado.

O sol desaparece no poente. Jesus pega o alforje vazio e, acompa­nhado pelos anjos que, suspensos acima de sua cabeça, produzem uma luz suave, enquanto a noite cai rapidamente, se encaminha para o leste, ou melhor, para o nordeste. Já retomou sua expressão habitual, o passo firme. Só resta, como lembrança do seu longo jejum, um aspecto mais ascético no rosto magro e pálido e nos olhos, arrebatados, numa alegria que não é desta terra.

Anotação

Mateus 4:1-11:

Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demónio. Depois de ter jejuado durante quarenta dias e quarenta noites, teve fome.

O tentador aproximou-se dele e disse: "Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães. Mas Jesus respondeu: "Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

Então o diabo levou-o para a Cidade Santa, colocou-o no cimo do Templo e disse-lhe: "Se és o Filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito: "Ele dará ordens aos seus anjos e eles levar-te-ão nas suas mãos: E eles levar-te-ão nas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra. Jesus disse-lhe: "Também está escrito: 'Não porás à prova o Senhor teu Deus'.

O Diabo levou-o de novo para um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, dizendo-lhe: "Tudo isto te darei, se te prostrares a meus pés e te curvares perante mim. Então Jesus disse-lhe: "Afasta-te, Satanás, porque está escrito: 'Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás culto'.

Então o demónio deixou-o. E eis que chegaram os anjos e o serviam.

Marcos 1:12-13:

Imediatamente o Espírito levou Jesus para o deserto, e ele ficou lá quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos serviam-no.

Lucas 4,1-13:

Jesus, cheio do Espírito Santo, deixou as margens do Jordão e, no Espírito, foi conduzido pelo deserto, onde durante quarenta dias foi tentado pelo demónio. Durante esses dias, não comeu nada e, quando chegou o fim do tempo, teve fome.

O diabo disse-lhe: "Se és o Filho de Deus, manda que esta pedra se transforme em pão. Jesus respondeu: "Está escrito: Nem só de pão vive o homem.

Então o diabo levou-o para um lugar mais alto e, num instante, mostrou-lhe todos os reinos da terra. Disse-lhe: "Eu dou-te todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram entregues e eu dou-os a quem eu quiser. Por isso, se te curvares perante mim, terás todas estas coisas. Jesus respondeu-lhe: "Está escrito: 'Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás culto'.

Então o diabo levou-o para Jerusalém, colocou-o no cimo do Templo e disse-lhe: "Se és o Filho de Deus, atira-te daqui para baixo, porque está escrito: "Ele dará ordens aos seus anjos para te guardarem"; e ainda: "Eles levar-te-ão nas mãos, para que o teu pé não bata numa pedra". Jesus respondeu: "Está dito: 'Não porás à prova o Senhor teu Deus'.

Tendo assim esgotado todas as formas de tentação, o demónio afastou-se de Jesus até à hora marcada.

EMF 59.1-8

O Evangelho como me foi revelado

Citação

59.1 Vejo a sinagoga de Cafarnaum. Ela já está cheia pela multidão que encontra-se em expectativa. Pessoas que estão à porta olham com freqüência para a praça ainda ensolarada, se bem que a tarde já vem chegando.

Finalmente, ouve-se um grito:

– Eis o Rabi.

As pessoas viram-se todas para a porta, os mais baixos se levantam nas pontas dos pés, ou procuram lançar-se para a frente. Algumas discussões, alguns empurrões, não obstante as repreensões partidas dos encarregados da sinagoga e dos maiorais da cidade.

– A paz esteja sobre todos os que procuram a Verdade!

Jesus está na entrada e saúda abençoando, com os braços estendidos para a frente. A luz bem forte que há na praça cheia de sol faz com que sua figura alta se destaque, aureolando-a de luz. Jesus tirou sua veste branca ficando, como é o costume, com outra azul escura. Ele avança entre a multidão, que se abre e se fecha ao redor Dele, como a onda ao redor de um navio.

59.2 – Eu estou doente, cura-me! –geme um jovem, que pelo aspecto, me parece estar tuberculoso e que segura Jesus pela veste.

Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça e diz:

– Confia. Deus te ouvirá. Deixa agora que Eu fale ao povo, depois virei a ti.

O jovem o deixa ir e fica quieto.

– Que foi que Ele te disse? –pergunta-lhe uma mulher que está com um menino nos braços.

– Disse-me que depois de ter falado ao povo virá a mim.

– Então, vai te curar?

– Não sei. Ele me disse: “Confia.” Eu espero.

– Que foi que Ele disse? Que foi que Ele disse?

A multidão quer saber. E a resposta de Jesus vai sendo comentada entre o povo.

– Então, eu vou buscar o meu menino.

– E eu vou trazer aqui o meu velho pai.

– Oh! Se o Ageu quisesse vir! Eu vou tentar… mas ele não virá.

59.3 Jesus chegou ao seu lugar. Saúda o chefe da sinagoga e é saudado por ele. É um homenzinho baixo, gordo e de idade. Para falar a ele, Jesus precisa inclinar-se. Parece uma palmeira que se curva sobre um arbusto mais largo do que alto.

– Que queres que eu te dê? –pergunta o arqui-sinagogo.

– O que quiseres, ou melhor, o que apanhares. O Espírito te guiará.

– Mas… estás preparado?

– Estou. Dá-me um qualquer. Repito: O Espírito do Senhor guiará a escolha para o bem deste povo.

O arqui-sinagogo estende a mão sobre a pilha dos rolos, tira um, abre-o, e pára num certo ponto.

– Este –diz ele.

Jesus pega o rolo e lê o ponto indicado:

– Josué: “Levanta-te e santifica o povo, e diz a eles: ‘Santificai-vos para amanhã, porque diz o Senhor Deus de Israel, o anátema está no meio de vós, ó Israel; tu não poderás estar à frente dos teus inimigos, enquanto não for tirado do meio de ti quem se tiver contaminado com tal delito’.”

Ele pára, enrola o volume, e o entrega de volta.

A multidão está muito atenta. Somente se ouve a voz de alguém que murmura:

– Vamos ouvir hoje das boas contra os inimigos!

– É o Rei de Israel, o Prometido, que reúne o seu povo!

59.4 Jesus estende os braços em seu costumeiro gesto oratório. O silêncio se torna completo.

– Quem veio para santificar-vos se levantou. Ele saiu do segredo da casa onde se preparou para esta missão. Ele se purificou para dar-vos exemplo de purificação. Tomou sua posição frente aos poderosos do Templo e ao povo de Deus e agora está entre vós. Sou Eu. Não como alguns entre vós pensam e esperam, com uma mente enevoada e com um fermento no coração. Mais alto e maior é o Reino do qual Eu sou o futuro Rei e ao qual Eu vos chamo.

Eu vos chamo, ó vós de Israel, antes de qualquer outro povo, porque vós sois os que, nos pais dos pais, tiveram a promessa desta hora e aliança com o Senhor Altíssimo. Mas não será com multidões armadas nem com ferocidades sangrentas que este Reino vai ser formado; e nele não entrarão os violentos, nem os prepotentes, nem os soberbos, os iracundos, os invejosos, os luxuriosos, os avarentos, mas os bons, os mansos, os continentes, os misericordiosos, os humildes, os que têm amor ao próximo e a Deus, os pacientes.

Israel! Não é contra os inimigos de fora que és chamado a combater. Mas contra os inimigos de dentro. Contra aqueles que estão no coração de cada um de vós. No coração de dezenas e dezenas de milha­res de filhos teus. Tirai o anátema do pecado de todos os vossos corações um por um, se quereis que amanhã Deus vos reúna e vos diga: “Povo meu, para ti o Reino que não será mais derrotado, nem invadido, nem emboscado pelos inimigos.”

Amanhã. Que amanhã é este? Dentro de um ano ou de um mês? Oh! Não procureis. Não procureis, com uma sede doentia, saber o que está para acontecer, usando para isso de meios que têm o sabor de uma culpável feitiçaria. Deixai aos gentios o espírito pitônico. Deixai ao Deus eterno o segredo do seu tempo. Vós de amanhã, o amanhã que surgirá depois desta hora da tarde, e a que virá à noite, que surgirá com o canto do galo, vinde purificar-vos na verdadeira penitência.

Arrependei-vos dos vossos pecados para serdes perdoados e preparados para o Reino. Tirai de vós o anátema do pecado. Cada um tem o seu. Cada um tem aquele que é contrário aos dez mandamentos de salvação eterna. Examinai-vos cada um com sinceridade e encontrareis o ponto em que errastes. Humildemente tende dele um arrependimento sincero. Tende a vontade de arrepender-vos. Não só com palavras. De Deus não se zomba e a Deus não se engana. Mas arrependei-vos com vontade firme, que vos leve a mudar de vida, a entrar de novo na Lei do Senhor. O Reino dos Céus vos espera. Amanhã.

Amanhã? Estais perguntando. Oh! É sempre um amanhã solícito a hora de Deus, ainda que ela chegue ao fim de uma vida longa como a dos Patriarcas. A eternidade não tem por medida de tempo o correr lento da clepsidra. E aquelas medidas de tempo que vós chamais dias, meses, anos, séculos, são palpitações do Espírito eterno, que vos mantêm vivos. Mas, vós sois eternos em vosso espírito e deveis, para o vosso espírito, ter o mesmo método de medição do tempo que o vosso Criador tem. Então, dizeis: “Amanhã será o dia da minha morte.” Aliás, não morte para os fiéis. Mas repouso de espera, à espera do Messias, que abrirá as portas do Céu.

E, em verdade, vos digo que, entre os aqui presentes, só vinte e sete é que morrerão e deverão esperar. Os outros estarão já julgados, antes da morte, e a morte será sua passagem para Deus ou para Mamon, sem demora, porque o Messias já veio, está entre vós e vos chama para dar-vos a Boa Nova, para instruir-vos na Verdade e para salvar-vos no Céu.

Fazei penitência! O “amanhã” do Reino dos Céus é iminente. Que ele vos encontre limpos, a fim de vos tornardes possuidores do dia eterno.

A paz esteja convosco.

59.5 Para contradizê-lo, levanta-se um empertigado e barbudo israelita. Ele diz:

– Mestre, tudo o que dizes me parece em contraste com tudo o que está dito no segundo livro dos Macabeus, glória de Israel. Lá está dito: “É de fato sinal de grande benevolência não permitir aos pecadores que fiquem andando por muito tempo atrás de seus caprichos, mas dar-lhes logo o castigo. O Senhor não faz como as outras nações, que as espera com paciência, para puni-las quando chegar o dia do Juízo, quando estiver cheia a medida dos pecados.” Tu ao invés, falas como se o Altíssimo pudesse ser muito lento em punir-nos, esperando-nos como os outros povos, no tempo do Juízo, quando estiver cheia a medida dos pecados. Verdadeiramente os fatos te desmentem. Israel está punido, como diz o histórico dos Macabeus. Mas, se fosse como dizes, não há uma divergência entre a tua doutrina e a que está encerrada na frase que eu te disse?

– Quem és, Eu não sei. Mas, seja quem fores, Eu te respondo. Não há divergência na doutrina, mas no modo de interpretar as palavras. Tu as interpretas segundo o modo humano. Eu, segundo aquele do espírito. Tu, representante da maioria, vês tudo com referências ao presente e ao transitório. Eu, representante de Deus, tudo explico, e aplico ao que é eterno e sobrenatural. Javé vos feriu sim, no presente, na soberba e na injustiça de ser um “povo”, segundo a terra. Mas, como vos tem amado e usado de paciência para convosco, mais do que com todos os outros, concedendo-vos o Salvador, o seu Messias, para que o escuteis, e vos salveis, antes da hora da ira divina! Não quer mais que sejais pecadores. Mas, se no transitório Ele vos feriu, vendo que a ferida não sara, mas ao contrário, torna sempre mais obtuso o vosso espírito, eis que Ele vos manda, não punição, mas salvação. Vos manda Aquele que vos cura e vos salva. Eu, que vos falo.

59.6 – Não achas que estás sendo ousado ao professar-te representante de Deus? Nenhum dos Profetas ousou tanto. E Tu… Quem és, Tu que estás falando? E com ordem de quem falas?

– Os Profetas não podiam falar deles mesmos o que Eu de Mim mesmo falo. Quem sou Eu? Sou o Esperado, o Prometido, o Redentor. Já ouviste aquele que o precede dizer: “Preparai o caminho do Senhor­… Eis que o Senhor Deus vem… Como um pastor apascentará o seu rebanho, sendo também o Cordeiro da verdadeira Páscoa.” Entre vós estão aqueles que ouviram do Precursor estas palavras, e viram o céu relampejar com uma luz que descia em forma de pomba, e ouviram uma voz que falava, dizendo quem Eu era. Por ordem de quem Eu falo? Daquele que é, e que me envia.

– Tu podes estar dizendo isto, mas podes também ser um mentiroso, ou um iludido. As tuas palavras são santas, mas às vezes, Satanás tem palavras enganosas, tingidas de santidade, para induzir em erro. Nós não te conhecemos.

– Eu sou Jesus de José, da estirpe de Davi, nascido em Belém Efrata, segundo as promessas, chamado nazareno, porque minha casa é em Nazaré. Isto segundo o mundo. Segundo Deus, sou o seu Enviado. Os meus discípulos sabem disso.

– Oh! Os teus discípulos! Eles podem falar o que quiserem e o que Tu os mandas dizer.

– Um outro falará, um que não me ama, e dirá quem Eu sou. Espera aí, que Eu vou chamar um dos que estão aqui presentes.

59.7 Jesus olha para a multidão, que está espantada com esta discussão, irritada e dividida entre correntes opostas. Jesus olha para ela, procurando alguém com seus olhos de safira, e depois chama com voz forte:

– Ageu, vem para a frente. Eu te ordeno.

Há um grande murmúrio entre a multidão, que se abre, para deixar passar um homem, todo sacudido pelo tremor e sustentado por uma mulher.

– Conheces este homem?

– Sim. É o Ageu de Malaquias, aqui de Cafarnaum. É possuído por um espírito mau, que o desatina em fúrias repentinas.

– Todos vós o conheceis?

A multidão grita:

– Sim, sim.

– Poderá alguém aí dizer que ele já esteve conversando Comigo, ainda que por poucos minutos?

A multidão grita:

– Não, não, ele é quase um idiota, e não sai nunca de casa, e nunca ninguém te viu lá.

– Mulher, traze-o aqui diante de Mim.

A mulher o empurra e o arrasta, enquanto o pobre homem treme fortemente.

O arqui-sinagogo adverte a Jesus:

– Estai atento! O demônio vai atormentá-lo… e então se arroja, arranha e morde.

A multidão abre caminho, comprimindo-se contra as paredes.

Agora os dois estão frente a frente. É um momento de luta. Parece que o homem, acostumado a ficar mudo, sente dificuldade para falar, e gane, mas depois sua voz toma a forma de palavras:

– Que há entre nós e Ti, Jesus de Nazaré? Por que vieste atormentar-nos? Por que vieste exterminar-nos, Tu, Senhor do Céu e da terra? Eu sei quem és: o Santo de Deus. Ninguém, na carne, foi maior do que Tu, porque em tua carne de homem está encerrado o Espírito do eterno Vencedor. Já me venceste em…

– Cala-te! Sai deste homem. Eu te ordeno!

O homem é tomado como que de um estranho paroxismo. Ele se agita aos arrancos, como se alguém o estivesse maltratando com empurrões e safanões, grita com uma voz desumana, espuma, em seguida é jogado ao chão, do qual depois se levanta assombrado e curado.

59.8 – Ouviste? Que respondes agora? –pergunta Jesus ao seu opositor.

O homem barbudo e empertigado encolhe os ombros e, vencido, vai-se embora sem responder. O povo zomba dele e aplaude a Jesus.

– Silêncio. O lugar é sagrado! –diz Jesus, e depois ordena–: Venha a Mim o jovem a quem prometi a ajuda de Deus.

Aproxima-se o doente. Jesus o acaricia:

– Tiveste fé! Sê curado. Vai em paz e sê justo.

O jovem dá um grito. Quem sabe o que estará sentindo? Ele se prostra aos pés de Jesus e os beija, agradecendo:

– Obrigado por mim e por minha mãe!

Vêm outros doentes: um menino com as perninhas paralisadas. Jesus o toma nos braços, o acaricia e o põe no chão… e o solta. E o menino não cai, mas sai correndo ao encontro da mãe que, chorando, o recebe sobre o seu coração e o bendiz com grande voz “o Santo de Israel.” Vem depois um velhinho cego guiado pela filha. Também ele é curado com uma carícia feita sobre as órbitas doentes.

A multidão se transforma num tumulto de bênçãos.

Jesus se afasta sorrindo e ainda que Ele seja alto, não conseguiria abrir caminho entre a multidão se Pedro, Tiago, André e João não trabalhassem generosamente com os seus cotovelos abrindo uma passagem do canto onde estão até Jesus e depois o protegessem até à saída para a praça onde já não há mais sol.

Assim termina a visão.

Anotação

Marcos 1:21-28

Entraram em Cafarnaum. Logo no sábado, Jesus foi para a sinagoga e ensinava. Eles estavam maravilhados com o seu ensino, porque ele ensinava como um homem de autoridade e não como os escribas.

Ora, havia na sinagoga um homem que era atormentado por um espírito imundo e começou a gritar: "Que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus". Jesus gritou-lhe: "Cala-te! Sai deste homem. O espírito imundo convulsionou-o e depois, com um grande grito, saiu dele. Todos ficaram atónitos e perguntaram uns aos outros: "O que é que isto quer dizer? Isto é um ensinamento novo, dado com autoridade! Ele até dá ordens aos espíritos imundos, e eles obedecem-lhe. Imediatamente a sua fama espalhou-se por toda a região da Galileia.

Lucas 4:33-37

Ora, estava na sinagoga um homem possuído pelo espírito de um demónio imundo, e começou a gritar bem alto: "Ah! Que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Eu sei quem tu és: és o Santo de Deus. Jesus ameaçou-o: "Cala-te! Sai de cima deste homem! Então o demónio atirou o homem para o meio e saiu dele sem lhe fazer mal nenhum. Todos ficaram aterrorizados e diziam uns aos outros: "O que é que ele está a dizer? Ele dá ordens aos espíritos imundos com autoridade e poder, e eles saem! E a fama de Jesus espalhou-se por toda a região.

EMF 60.1-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

60.1 Pedro fala a Jesus:

– Mestre, eu queria pedir-te que vás à minha casa. Não tive coragem de dizer isso no sábado passado. Mas… queria que fosses.

– Em Betsaida?

– Não, aqui… na casa de minha mulher, quero dizer, a casa nativa.

– Por que tens esse desejo, Pedro?

– Ah!… por muitas razões… e, além disso, hoje me disseram que minha sogra está doente. Se quisesses curá-la, talvez te…

– Acaba de falar, Simão.

– Eu queria dizer… se Tu te aproximasses, ela acabaria… sim, em suma, Tu sabes, uma coisa é ouvir falar de alguém e outra é vê-lo e ouvi-lo e, se essa pessoa depois fica sã, então…

– Então, também o ódio se acaba, queres dizer.

– Não, ódio não. Mas Tu sabes… o povoado está dividido em muitos pareceres e ela… não sabe a quem dar razão. Vai, Jesus.

– Eu vou. Vamos. Avisarás aos que estão esperando que da tua casa falarei a eles.

60.2 Vão até uma casa baixa, mais baixa ainda do que a de Pedro em Betsaida e ainda mais próxima ao lago. Está separada deste por uma pequena faixa da margem e creio que nas borrascas as ondas ve­nham a morrer contra as paredes da casa que, se é baixa, é em compensação bem espaçosa, como se fosse habitada por mais pessoas.

Na horta-pomar, que está à frente da casa, perto do lago, nada mais há do que uma videira já velha e nodosa que se estende em uma rústica parreira e uma velha figueira que os ventos do lago curvaram em direção à casa. A fronde despenteada da árvore roça as paredes e bate contra as venejiadas das janelinhas que estão fechadas para servirem de proteção contra o sol forte que bate sobre a baixa casa. Nada mais há além desta figueira e desta videira e de um poço raso com um muro esverdeado.

– Entra, Mestre.

Algumas mulheres estão na cozinha, umas ocupadas em consertar as redes, outras em preparar a comida. Elas saúdam a Pedro e depois se inclinam confusas diante de Jesus; entretanto, olham-no de soslaio, com curiosidade.

– A paz esteja nesta casa. Como vai a doente?

– Fala, tu que és a nora mais velha –dizem três mulheres a uma que está enxugando as mãos na barra da veste.

– A febre está forte, muito forte. Nós fizemos com que o médico a visse, mas ele disse que ela está velha para sarar e que quando aquele mal dos ossos chega ao coração e dá febre, especialmente naquela idade, o doente morre. Ela não está comendo mais… Eu procuro fazer-lhe comidas boas, mesmo agora, vê Simão? Eu lhe estava preparando aquela sopa de que ela gostava tanto. Escolhi o peixe melhor que peguei com os cunhados. Mas acho que ela não vai poder comer. E depois… está tão inquieta! E se lamenta, grita, chora, pragueja…

– Tende paciência, como se fosse vossa mãe e tereis merecimento diante de Deus.

60.3 Levai-me a ela.

– Rabi… Rabi… não sei se ela irá querer te ver. Não quer ver a ninguém. Eu nem tenho coragem de dizer-lhe: “Agora vou te trazer o Rabi.”

Jesus sorri sem perder a calma. Depois se vira para Pedro:

– Cabe a ti, Simão. Tu és homem, e o mais velho dos genros, como me disseste. Vai.

Pedro faz uma careta muito significativa mas obedece. Ele atravessa a cozinha, entra em um quarto; através da porta fechada atrás dele, eu o ouço conversar com uma mulher. Depois, põe a cabeça e uma mão fora da porta e diz:

– Vem, Mestre. Anda depressa!

E acrescenta, em voz mais baixa, só o tanto necessário para ser entendido:

– Antes que ela mude de idéia.

Jesus atravessa rápido a cozinha e abre a porta toda. De pé, à porta, Ele diz a sua doce e solene saudação:

– A paz esteja contigo.

Em seguida, entra, não obstante não tenha recebido resposta. Vai para perto da enxerga sobre a qual está estendida uma pequena mulher toda grisalha, descarnada e ofegante pela forte febre que lhe torna corado o rosto abatido.

Jesus se inclina para o pequeno leito e sorrindo para a velhinha, diz:

– Que estás sentindo?

– Eu estou morrendo!

– Não. Não estás morrendo. Podes crer que Eu te posso curar?

– E por que irias fazer isso? Não me conheces.

– Por causa de Simão, que pediu a mim… e também por causa de ti, para dar tempo à tua alma de ver e amar a Luz.

– Simão? Ele faria melhor em… Como Simão foi capaz de pensar em mim?

– Porque ele é melhor do que pensas. Eu o conheço e sei. Eu o conhe­ço e estou contente por vir atendê-lo.

– E, então, tu me curarias? Não vou mais morrer?

– Não, mulher. Por enquanto não morrerás. Podes crer em Mim?

– Creio, creio. Basta-me não morrer!

60.4 Jesus sorri ainda. E a pega pela mão. A mão enrugada e de veias inchadas desaparece na mão juvenil de Jesus que se endireita e toma aquele aspecto de quando faz um milagre; exclama:

– Sê curada! Eu quero! Levanta-te!

Solta-lhe a mão que recai sem que a velha se lamente, enquanto que antes, mesmo tendo-a Jesus pegado com muita delicadeza, só de tê-la movido já tinha sido causa de um lamento por parte da enferma.

Houve um breve tempo de silêncio. Depois a velha exclama com voz forte:

– Oh! Deus de nossos pais! Mas eu não tenho mais nada! Estou curada! Vinde! Vinde!

Acorrem as noras.

– Mas olhai! –dizia a velha–. Eu me movo, e não sinto mais dor! E não tenho mais febre! Vede como estou com saúde. E o coração não se parece mais com o martelo do ferreiro. Ah! Não vou mais morrer!

E não tem nenhuma palavra para o Senhor!

Mas Jesus não leva isso em consideração. Ele diz à mais velha das noras:

– Vesti-a para que se levante. Ela já pode levantar-se.

E vai-se encaminhando para sair.

Simão, mortificado, se vira para a sogra:

– O Mestre te curou. E não lhe dizes nada?

– Está certo! Não pensei nisso. Obrigada. Que posso fazer para mostrar-te o meu agradecimento?

– Ser boa, muito boa. Porque o Eterno foi bom para contigo. E, se não te for muito incômodo, deixa-me repousar hoje em tua casa. Percorri nesta semana todos os povoados vizinhos e cheguei ao despertar desta manhã. Estou cansado.

– Certo! Certo! Fica, sim, se assim te agrada.

Mas não existe muito entusiasmo em suas palavras.

60.5 Jesus, com Pedro, André, Tiago e João vai sentar-se no pomar.

– Mestre!…

– Que há, meu Pedro?

– Eu estou mortificado.

Jesus faz um gesto, como se dissesse: “Deixa para lá.” Depois, diz:

– Não é esta a primeira nem será a última que não sinto um reconhecimento imediato. Mas Eu não peço reconhecimento. Basta-me dar às almas o modo de se salvarem. Faço o meu dever. A elas cabe fazer o delas.

– Ah! Então já houve outros assim? Onde?

– Simão curioso! Mas Eu quero te contentar, embora não goste de curiosidades inúteis. Foi em Nazaré. Lembras-te da mãe de Sara? Estava muito doente quando chegamos a Nazaré e nos disseram que a menina estava chorando. Para não fazer dela, que é boa e dócil, uma órfã e amanhã uma enteada, fui procurar a mulher… Eu queria curá-la. Mas, ainda não tinha posto os pés na casa dela, quando o seu marido e um irmão me expulsaram, dizendo: “Vai embora, vai embora! Não queremos aborrecimentos com a sinagoga.” Para eles, para muitos, Eu já sou um rebelde… mas Eu a curei do mesmo jeito… por causa de seus filhos. E à Sara, que estava na horta, Eu disse, acariciando-a: “Eu curo tua mãe. Vai para casa. Não chores mais.” E a mulher ficou curada no mesmo instante; a menina foi dizer isso a ela, e também ao pai e ao tio… E foi castigada por ter falado Comigo. Eu sei, porque a menina veio correndo atrás de Mim, quando Eu já ia deixando o povoado… Mas não importa.

– Eu faria com que ela ficasse doente de novo!

– Pedro!

Jesus está severo:

– É isso que Eu ensino a ti e aos outros? Que foi que ouviste dos meus lábios desde a primeira vez que me ouviste? De que é que Eu tenho sempre falado como primeira condição para serdes meus verdadeiros discípulos?

– É verdade, Mestre. Eu sou um verdadeiro animal. Perdoa-me. Mas… não posso suportar que não te amem!

– Ó Pedro, verás um desamor bem maior! Quantas surpresas terás, Pedro! Há pessoas que o mundo chamado “santo” despreza como publicanos, e que, ao invés, serão exemplos para o mundo, e um exemplo não seguido por aqueles que as desprezam. Há gentios que estarão entre os meus maiores fiéis. Há meretrizes que se tornam puras, por vontade e por penitência. Pecadores que se emendam…

– Escuta, que se emende um pecador… ainda pode ser. Mas uma meretriz e um publicano!…

– Tu não acreditas?

– Eu não.

– Estás errado, Simão.

60.6 Mas, eis tua sogra que está vindo a nós.

– Mestre… eu te peço que te assentes à minha mesa.

– Obrigado, mulher. Deus te recompense por isto.

Entram na cozinha e se assentam à mesa e a velha serve aos homens com grande distribuição de peixe ensopado e assado.

– Não há mais do que isso –ela se desculpa.

E, para não perder o costume, diz a Pedro:

– Os teus cunhados fazem até demais, sozinhos como ficaram, desde quando foste para Betsaida! E ao menos se prestasses a fazer mais rica a minha filha… Mas ouço dizer que freqüentemente estás ausente e que não vais pescar.

– Eu sigo o Mestre. Estive com Ele em Jerusalém e aos sábados estou com Ele. Não perco o tempo em farras.

– Mas não ganhas nada com isso. Farias melhor, já que queres ser o servo do Profeta, que venhas para cá de novo. Pelo menos aquela pobre criatura, que é a minha filha, enquanto tu ficas aí te fazendo de santo, terá os parentes que lhe matem a fome.

– Mas, não te envergonhas de falar assim diante Dele que te curou?

– Eu não o critico. Ele faz o seu trabalho. Eu critico é a ti, que vives como um mandrião. Afinal, tu não serás nunca um profeta, nem um sacerdote. És um ignorante e um pecador, és um bom para nada.

– Tens razão, porque Ele está aqui, senão…

– Simão, tua sogra te deu um ótimo conselho. Podes pescar também aqui. Pescavas também antes em Cafarnaum, pelo que ouço. Podes voltar até agora.

– E morar aqui de novo? Mas Mestre, Tu não…

– Bom, meu Pedro, se ficares aqui estarás no barco sobre o lago, ou Comigo. Por isso, para ti que diferença há entre estar ou não estar nesta casa?

Jesus pôs a mão sobre o ombro de Pedro e parece que a calma de Jesus passa para Pedro que já estava fervendo.

– Tens razão. Sempre tens razão. É assim que eu vou fazer. Mas… e estes? –e mostra João e Tiago, seus sócios.

– Não poderão vir eles também?

– Oh! O nosso pai, e principalmente a nossa mãe, estarão sempre mais felizes, se souberem que estamos Contigo, do que com eles. Eles não criarão obstáculos.

– Talvez também Zebedeu virá –diz Pedro.

– É mais que provável. E com eles outros. Viremos, Mestre. Viremos sem falta.

Detalhe

Nota: Há dois milagres neste extrato, o da sogra de Pedro e o da mãe de Sara em Nazaré (cf. 60.5).

Anotação

Mateus 8:14-15

Quando Jesus entrou em casa de Pedro, viu a sogra dele deitada na cama com febre. Ele tocou-lhe na mão e a febre deixou-a. Ela levantou-se e serviu-o. Ela levantou-se e serviu-o.

Marcos 1, 29-31

Depois de terem saído da sinagoga, foram com Tiago e João a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama com febre. Eles contaram imediatamente a Jesus sobre ela. Jesus veio, pegou-lhe na mão e levantou-a. A febre deixou-a, e ela passou a servir os outros. A febre deixou-a, e ela passou a servi-los.

Lucas 4:38-39

Jesus saiu da sinagoga e entrou em casa de Simão. A sogra de Simão estava com febre alta, e eles pediram a Jesus que fizesse alguma coisa por ela. Ele inclinou-se sobre ela, ameaçou a febre, e esta deixou-a. Imediatamente a mulher levantou-se e serviu-os.

EMF 62.1-4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

62.1 Vejo Jesus sair, fazendo o menor barulho possível da casa de Pedro em Cafarnaum. Compreende-se que Ele pernoitou lá para contentar o seu Pedro.

É ainda noite alta. O céu parece um bordado de estrelas. O lago reflete apenas este brilho; mais que vê-lo, se adivinha este lago tranqüilo que dorme sob as estrelas, pelo suave sussurro das águas sobre o seu leito.

Jesus encosta novamente a porta, olha o céu, o lago, o caminho. Pensa um pouco, e depois se encaminha, não ao longo do lago, mas em direção ao povoado, percorrendo-o em parte, indo depois para o campo. Entra nele, caminha, aprofundando-se ali; pega uma vereda que leva às primeiras ondulações de um terreno plantado com oliveiras, se introduz nesta paz verde e silenciosa e lá vai prostrar-se em oração.

É uma oração ardente! Ele reza de joelhos e, em seguida, como que fortalecido, põe-se de pé e reza ainda, com o rosto erguido para o alto, um rosto ainda mais espiritualizado pela nascente luz que vem de uma serena aurora de verão. Reza agora sorrindo, enquanto que antes suspirava forte como se estivesse sob o peso de algum grande sofrimento moral. Reza com os braços abertos. Parece uma cruz viva, alta, angélica, de tão suave que é. Parece abençoar todo o campo, o dia que nasce, as estrelas que desaparecem, o lago que se revela.

62.2 – Mestre! Procuramos tanto a Ti! Vimos a porta encostada pelo lado de fora, quando voltamos da pesca e pensamos que tivesses saído. Mas não te encontrávamos. Enfim, um camponês que estava enchendo suas cestas para levá-las para a cidade foi quem nos informou. Nós estávamos te chamando: “Jesus! Jesus!”, e ele nos disse: “Estais procurando o Rabi que fala às multidões? Ele se foi por aquele caminho acima em direção ao monte. Ele deve estar no olival do Miquéias, porque vai lá freqüentemente. Eu já o vi outras vezes.” Ele tinha razão. Por que saíste assim tão cedo, Mestre? Por que não descansaste? Talvez a cama não estava cômoda…

– Não, Pedro. A cama estava cômoda e o quarto muito bom. Mas Eu costumo fazer assim freqüentemente para soerguer o meu espírito e para unir-me ao Pai. A oração é uma força para si e para os outros. Tudo se consegue com a oração. Se não a graça, que nem sempre o Pai concede — e não se deve pensar que isto seja desamor, mas sempre crer que isso é uma coisa querida por uma Ordem que rege as sortes de cada homem, cujo escopo é o bem — certamente a oração dá paz e equilíbrio, para poder resistir a tantas coisas que incomodam sem sair do caminho santo. É fácil, sabes, Pedro, ter a mente ofuscada e o coração agitado pelas coisas que nos circundam! E com uma mente ofuscada e um coração agitado, como pode-se ouvir a Deus?

– É verdade. Mas nós não sabemos rezar! Não sabemos dizer as bonitas palavras que Tu dizes.

– Dizei aquelas que sabeis, como as sabeis. Não são as palavras, mas os movimentos que as acompanham, que tornam as orações agradáveis ao Pai.

– Nós gostaríamos de rezar como Tu rezas.

– Eu vos ensinarei a rezar também. Eu vos ensinarei a mais santa das orações. Mas, para que ela não seja uma fórmula vazia sobre os vossos lábios, Eu quero que o vosso coração tenha já em si pelo menos um mínimo de santidade, de luz, de sabedoria… Por isso é que Eu vos instruo. Depois Eu vos ensinarei a santa oração.

62.3 Queríeis alguma coisa de Mim, vós que Me andastes procurando?

– Não, Mestre. Mas há muitos que estão querendo muito de Ti. Já chegou gente que veio de perto de Cafarnaum; eram pessoas pobres, doentes, pessoas angustiadas, homens de boa vontade, com o desejo de se instruirem. Nós lhes dissemos, visto que nos perguntavam de Ti: “O Mestre está cansado e dormindo. Ide-vos embora. Voltai no próximo sábado.”

– Não, Simão. Isto não se diz. Não existe só um dia para a piedade. Eu sou o Amor, a Luz, a Salvação todos os dias da semana.

– Mas… até agora, falaste só aos sábados.

– Porque Eu era ainda desconhecido. Mas, à medida que Eu for ficando conhecido, todos os dias serão de efusão de Graça e de graças. Em verdade, Eu te digo que virá um tempo em que nem o espaço de tempo, que é concedido a um pássaro para repousar sobre um ramo e saciar-se de grãozinhos, será dado ao Filho do homem para o seu repouso e sua alimentação.

– Mas assim ficarás doente! Nós não permitiremos isso. Tua bondade não deve fazer-te infeliz.

– E tu achas que Eu possa me tornar infeliz por isso? Oh! Mas se o mundo todo viesse a Mim para me ouvir, para chorar os seus pecados e as suas dores sobre o meu coração, para ser curado na alma e no corpo, e Eu me consumisse em falar-lhe, em perdoá-lo, em derramar sobre ele o meu poder, aí sim, então Eu seria muito feliz, Pedro, a ponto de nem mais recordar com saudade do Céu, no qual Eu estava no Pai!…

62.4 De onde eram esses que vieram a Mim?

– De Corozaim, de Betsaida, de Cafarnaum; até de Tiberíades e de Gergesa tinham vindo; e das centenas e centenas de pequenas cidades espalhadas entre uma e outra.

– Ide a eles e dizei-lhes que estarei em Corozaim, em Betsaida e nas cidades entre esta e aquela.

– Por que não em Cafarnaum?

– Porque Eu sou para todos e todos me devem ter; e depois… lá está o velho Isaque que me espera… Não fique ele desiludido em sua esperança.

– Tu nos esperas aqui, então?

– Não. Eu vou e vós ficais em Cafarnaum para encaminhar as multidões para Mim; depois Eu virei.

– Nós vamos ficar sozinhos…

Pedro está preocupado.

– Não fiques preocupado. Que a obediência te faça alegre e com ela tenhas a persuasão de seres a Mim um discípulo útil. E contigo e, como tu, estes outros.

Pedro e André, com Tiago e João, se tranqüilizam. Jesus os abençoa, e se separam.

Assim termina a visão.

Anotação

Marcos 1:35-38

No dia seguinte, Jesus levantou-se bem antes do amanhecer. Foi para um lugar deserto e ali rezou. Simão e os que estavam com ele foram à sua procura. Encontraram-no e disseram-lhe: "Andam todos à tua procura. Jesus disse-lhes: "Vamos para outro lugar, para as aldeias vizinhas, para que eu possa anunciar o Evangelho também lá, pois foi para isso que saí".

Lucas 4:42-43

Quando já era dia, Jesus saiu para um lugar deserto. As multidões procuravam-no; aproximavam-se dele e retinham-no para que ele não as deixasse. Mas ele disse-lhes: "É preciso que eu anuncie a boa nova do reino de Deus também nas outras cidades, pois foi para isso que fui enviado.

EMF 63.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Com a precisão de uma fotografia perfeita, tenho diante de minha­ vista espiritual, desde esta manhã, antes até da aurora, um pobre leproso.

Este é verdadeiramente um farrapo humano. Eu não saberia dizer que idade ele pode ter, de tão devastado está pelo mal. Definhado, seminu, mostra o seu corpo reduzido ao estado de uma múmia corroída, com as mãos e os pés retorcidos, e já lhe faltando algumas partes, de tal modo que aquelas pobres extremidades nem parecem mais ser de um corpo humano. As mãos, como garras e retorcidas, mais parecem patas de algum monstro alado; os pés parecem quase cascos de boi, de tão decepados e desfigurados.

E a cabeça, então!… Eu creio que só alguém que tivesse ficado insepulto e mumificado pelo sol e pelo vento é que poderia ter ficado com uma cabeça semelhante a esta. Poucos fios de cabelo ainda lhe restam, espalhados aqui e ali, agarrados a uma pele amarelenta e cheia de crostas, parecendo poeira seca sobre uma caveira. Olhos apenas entreabertos e muito encovados, lábios e nariz roídos pelo mal, mostrando já as cartilagens e as gengivas; as orelhas são dois embrionários pavilhões em ruínas e sobre tudo isto, está uma pele ressequida, amarela como certos caulins, sob a qual os ossos penetram. Parece que recebeu a incumbência de reunir esses pobres ossos dentro do seu saco sujo, todo cheio de remendos de cicatrizes ou dilacerações de feridas já apodrecidas. Uma ruína!

Penso até em uma Morte que esteja vagante pela terra e recoberta por uma pele mirrada sobre o esqueleto, envolvida em um manto sujo todo em tiras e tendo na mão, não a foice, mas um bastão cheio de nós, certamente arrancado de alguma árvore.

Ele está à porta de uma caverna afastada da estrada, uma verdadeira espelunca, tão desmoronada que nem sei dizer se no princípio foi um sepulcro, ou uma cabana de lenhadores, ou os restos de alguma casa demolida. Ele olha para a estrada, que está a uns cento e poucos metros do seu antro, uma estrada mestra poeirenta e ainda cheia de sol. A perder de vista, sol, poeira e solidão reinam sobre a estrada. Muito mais acima, a noroeste, deve haver um povoado, ou cidade. Vejo as primeiras casas. Estará à distância de pelo menos um quilômetro.

O leproso olha e suspira. Depois, pega uma tigela quebrada, enche-a com água de um córrego e bebe. Entra em um emaranhado de sarças, atrás do antro, inclina-se, arranca do chão umas raízes selvagens. Volta ao córrego, limpa-as da poeira mais grossa com a sua água escassa, e as come devagar, levando-as até à boca com dificuldade por causa de suas mãos arruinadas. As raízes devem estar duras como uns gravetos. Custa a mastigá-las e muitas ele até cospe, sem as poder engolir embora procure ajudar-se bebendo uns goles de água.

63.2 – Onde estás, Abel? –grita uma voz.

O leproso estremece e tem algo sobre os lábios parecido com um sorriso. Mas estão de tal modo reduzidos aqueles lábios, que é também informe esta sombra de sorriso. Responde com uma voz estranha, estridente (me faz pensar no grito de certos pássaros dos quais ignoro o nome exato):

– Estou aqui! Eu pensei que tu não viesses mais! Pensei que tivesse te acontecido algum mal; fiquei triste… Se tu também me faltares, que restará ao pobre Abel?

Ao dizer isso, ele caminha em direção à estrada até o ponto em que, segundo a Lei, ele podia chegar e, por isso, a uma certa distância, ele se detém.

Pela estrada vem vindo um homem, quase correndo, de tão rápido que vem.

– Mas és tu mesmo, Samuel? Oh! Se não és tu, a quem eu espero, sejas lá quem fores, não me faças mal!

– Sou eu, Abel, sou eu mesmo. E são. Olha como eu corro. Estou atrasado, eu sei. E já estava com pena de ti. Mas, quando souberes… Oh! Tu ficarás feliz! E aqui te trago, não só os costumeiros pedaços de pão, mas um pão inteiro, fresco e bom, todo para ti; trago também um bom peixe e um queijo. Tudo para ti. Quero que faças festa, meu pobre amigo, para preparar-te para uma festa maior.

– Mas, como é que estás assim tão rico? Eu não entendo…

– Agora vou te contar.

– E estás são. Nem pareces mais Tu!

63.3 – Então escuta. Eu soube que em Cafarnaum estava aquele Rabi que é santo, e para lá fui…

– Pára, pára, eu estou infeccionado.

– Oh! Não tem importância! Não tenho mais medo de nada.

O homem, que outro não é senão aquele pobre encolhido curado e ajudado por Jesus no pomar da sogra de Pedro, chegou de fato com o seu passo rápido a poucos passos do leproso; falou, caminhando e rindo feliz.

Mas o leproso lhe diz ainda:

– Pára, em nome de Deus. Se alguém te vê…

– Eu vou parar. Olha, vou colocar aqui as provisões. Come, enquanto eu falo.

Ele põe sobre uma pedra grande um pequeno embrulho e o abre. Depois, dá um passo atrás, enquanto o leproso avança e se atira sobre o alimento inusitado.

– Oh! Quanto tempo faz que eu não comia assim! Como é bom! E eu pensando que iria dormir com o estômago vazio. Não veio hoje um piedoso… nem mesmo tu… Eu mastiguei algumas raízes…

– Pobre Abel! Eu estava pensando. Mas dizia: “Bom. Agora, ele deve estar triste, mas depois ficará feliz!”

– Feliz, sim, por esta comida tão boa. Mas depois…

– Não! Serás feliz para sempre.

O leproso sacode a cabeça.

– Escuta, Abel. Se puderes ter fé, serás feliz.

– Mas fé em quem?

– No Rabi. No Rabi que me curou.

– Mas eu sou leproso e estou no fim! Como poderá me curar?

– Oh! Ele pode. É santo.

– Sim. Também Eliseu curou Naamã, o leproso… eu sei… Mas eu… Eu não posso ir ao Jordão.

– Tu serás curado, sem precisar de água. Escuta: este Rabi é o Messias, entendes? O Messias! É o Filho de Deus. E cura todos aqueles que têm fé. Ele diz: “Eu quero”, e os demônios fogem, e os membros se endireitam, e os olhos cegos vêem.

– Oh! Se eu tivesse fé! Mas como posso ver o Messias?

– Eis-me aqui… eu vim para isso. Ele está lá, naquele povoado. Sei onde estará nesta tarde. Se quiseres… Eu disse: “Eu falo a Abel, e se Abel sente que tem fé o conduzo ao Mestre.”

– Estás louco, Samuel? Se eu me aproximar das casas, serei apedrejado.

– Não nas casas. A tarde está para cair. Eu te levarei até aquele pequeno bosque e depois irei chamar o Mestre. Eu te levarei…

– Vai, vai logo! Eu vou por mim mesmo até aquele ponto. Cami­nha­rei no fosso, entre a sebe, mas tu vai, vai… Oh! vai, meu bom amigo! Se soubesses o que é ter este mal e o que é esperar sarar!… O leproso não pensa em mais nada, nem em comer. Ele chora e gesticula, implorando ao amigo.

– Eu vou, e tu vais.

O ex-encolhido vai embora correndo.

63.4 Abel desce com dificuldade no fosso que costeia a estrada, todo cheio de sarças que cresceram no fundo seco. Ali há apenas um fio de água ao centro. A tarde desce enquanto o infeliz escorrega por entre as sarças, sempre alerta se ouve qualquer passo. Duas vezes agacha-se no fundo: a primeira, por causa de um cavaleiro que percorre a trote a estrada; a segunda, por causa de três homens que vão levando cargas de feno para o povoado. Depois ele prossegue.

Mas Jesus e Samuel chegam antes dele ao pequeno bosque.

– Daqui a pouco ele estará aqui. Ele anda devagar por causa das feridas. Tem paciência!

– Não tenho pressa.

– Tu o curarás?

– Ele tem fé?

– Oh!… Ele estava morrendo de fome e estava vendo aquele alimento depois de anos de abstinência; no entanto, depois de ter comido poucos bocados, deixou tudo para correr aqui.

– Como tu o conheceste?

– Sabes… eu vivia de esmolas, depois da minha desventura, percorrendo os caminhos, indo de um lugar para outro. Por aqui eu passava cada sete dias quando conheci aquele pobrezinho… num dia em que, constrangido pela fome, ele impeliu-se, sob um temporal, que teria posto em fuga até os lobos, indo até o caminho que leva ao povoado, a procura de alguma coisa. Buscava entre as imundícies, como um cão. Eu tinha­ pão seco no alforje, donativo de pessoas boas; dividi ao meio com ele. Desde então, somos amigos e cada semana eu o reabasteço. Com aquilo que tenho… se tenho muito, dou muito; se pouco, pouco. Faço o que posso, como se fosse meu irmão. E é desde aquela tarde em que me curaste, bendito sejas Tu, que eu venho pensando nele… e em Ti.

– Tu és bom, Samuel; por isso a graça te visitou. Quem ama merece tudo de Deus.

63.5 Mas eis ali qualquer coisa entre as ramagens…

– És tu, Abel?

– Sou eu.

– Vem. O Mestre está te esperando aqui, debaixo da nogueira.

O leproso emerge do fosso, sobe para a borda, atravessa-a e entra pelo prado. Jesus, com as costas apoiadas em uma nogueira muito alta, o espera.

– Mestre, Messias, Santo, tem piedade de mim!

E se lança todo entre a relva, aos pés de Jesus. Com o rosto no chão, diz ainda:

– Ó meu Senhor! Se queres, podes limpar-me!

Depois, toma coragem para pôr-se de joelhos, estende os braços esqueléticos, com aquelas mãos retorcidas e ergue o rosto ossudo e devastado… As lágrimas descem das órbitas doentes para os lábios corroídos.

Jesus o olha com muita piedade. Olha para aquela sombra de homem que o mal horrendo devora, que só uma verdadeira caridade pode suportar perto de si de tão repugnante e mal cheiroso que ele está. Contudo, eis que Jesus lhe estende uma mão, a sua sã e bonita mão direita, como que para acariciar o pobrezinho.

Este, sem se levantar, afasta-se sobre seus calcanhares, e grita:

– Não me toques! Tem piedade de Ti!

Mas Jesus dá um passo à frente. Solene, bom, suave, Ele pousa os seus dedos sobre aquela cabeça carcomida pela lepra e diz, com voz baixa e cheia de amor, mas imperiosa:

– Eu quero! Fica limpo!

A mão ainda permanece, por alguns minutos, sobre a pobre cabeça.

– Levanta-te. Vai ao sacerdote. Cumpre tudo o que a Lei prescreve. E não fales do que Eu te fiz: somente sê bom. Não peques mais. Eu te abençôo.

– Oh! Senhor! Abel! Mas tu estás curado!

Samuel, que vê a metamorfose do amigo, grita de alegria.

– Sim. Está são. Ele o mereceu por sua fé. Adeus. A paz esteja contigo.

– Mestre! Mestre! Mestre! Eu não te deixo! Não posso te deixar.

– Faze tudo o que a Lei quer. Depois nos veremos ainda. Pela segunda vez esteja sobre ti a minha bênção.

Jesus se põe a caminho, fazendo sinal a Samuel para que fique. E os dois amigos choram de alegria, enquanto, à luz de um quarto de lua, voltam à caverna para uma última parada naquele antro de desventura.

Assim cessa a visão.

Anotação

Marcos 1:40-45

Um leproso aproximou-se dele, suplicou-lhe, pôs-se de joelhos e disse: "Se quiseres, podes purificar-me. Tomado de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: "Quero; fica purificado". Imediatamente a lepra o deixou e ele ficou limpo. Jesus mandou-o embora com firmeza, dizendo-lhe: "Tem cuidado, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e dá pela tua purificação o que Moisés prescreveu na Lei: será um testemunho para o povo. Depois de se ter ido embora, o homem começou a proclamar e a espalhar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar abertamente numa cidade, mas mantinha-se afastado em lugares desertos. Mas as pessoas vinham ter com ele de todo o lado.

Lucas 5, 12-16

Jesus estava numa cidade quando apareceu um homem coberto de lepra que, ao ver Jesus, se prostrou com o rosto em terra e lhe implorou: "Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. Jesus estendeu a mão e tocou-o, dizendo: "Eu quero; fica purificado. A lepra deixou-o imediatamente. Então Jesus ordenou-lhe que não contasse a ninguém: "Em vez disso, vai mostrar-te ao sacerdote e dá o que Moisés ordenou para a tua purificação; isso será um testemunho para todos.

Cada vez mais pessoas falavam de Jesus. Grandes multidões afluíam para o ouvir e para serem curadas das suas doenças. Mas ele retirava-se para lugares desertos e rezava.

EMF 63.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

63.1 Com a precisão de uma fotografia perfeita, tenho diante de minha­ vista espiritual, desde esta manhã, antes até da aurora, um pobre leproso.

Este é verdadeiramente um farrapo humano. Eu não saberia dizer que idade ele pode ter, de tão devastado está pelo mal. Definhado, seminu, mostra o seu corpo reduzido ao estado de uma múmia corroída, com as mãos e os pés retorcidos, e já lhe faltando algumas partes, de tal modo que aquelas pobres extremidades nem parecem mais ser de um corpo humano. As mãos, como garras e retorcidas, mais parecem patas de algum monstro alado; os pés parecem quase cascos de boi, de tão decepados e desfigurados.

E a cabeça, então!… Eu creio que só alguém que tivesse ficado insepulto e mumificado pelo sol e pelo vento é que poderia ter ficado com uma cabeça semelhante a esta. Poucos fios de cabelo ainda lhe restam, espalhados aqui e ali, agarrados a uma pele amarelenta e cheia de crostas, parecendo poeira seca sobre uma caveira. Olhos apenas entreabertos e muito encovados, lábios e nariz roídos pelo mal, mostrando já as cartilagens e as gengivas; as orelhas são dois embrionários pavilhões em ruínas e sobre tudo isto, está uma pele ressequida, amarela como certos caulins, sob a qual os ossos penetram. Parece que recebeu a incumbência de reunir esses pobres ossos dentro do seu saco sujo, todo cheio de remendos de cicatrizes ou dilacerações de feridas já apodrecidas. Uma ruína!

Penso até em uma Morte que esteja vagante pela terra e recoberta por uma pele mirrada sobre o esqueleto, envolvida em um manto sujo todo em tiras e tendo na mão, não a foice, mas um bastão cheio de nós, certamente arrancado de alguma árvore.

Ele está à porta de uma caverna afastada da estrada, uma verdadeira espelunca, tão desmoronada que nem sei dizer se no princípio foi um sepulcro, ou uma cabana de lenhadores, ou os restos de alguma casa demolida. Ele olha para a estrada, que está a uns cento e poucos metros do seu antro, uma estrada mestra poeirenta e ainda cheia de sol. A perder de vista, sol, poeira e solidão reinam sobre a estrada. Muito mais acima, a noroeste, deve haver um povoado, ou cidade. Vejo as primeiras casas. Estará à distância de pelo menos um quilômetro.

O leproso olha e suspira. Depois, pega uma tigela quebrada, enche-a com água de um córrego e bebe. Entra em um emaranhado de sarças, atrás do antro, inclina-se, arranca do chão umas raízes selvagens. Volta ao córrego, limpa-as da poeira mais grossa com a sua água escassa, e as come devagar, levando-as até à boca com dificuldade por causa de suas mãos arruinadas. As raízes devem estar duras como uns gravetos. Custa a mastigá-las e muitas ele até cospe, sem as poder engolir embora procure ajudar-se bebendo uns goles de água.

63.2 – Onde estás, Abel? –grita uma voz.

O leproso estremece e tem algo sobre os lábios parecido com um sorriso. Mas estão de tal modo reduzidos aqueles lábios, que é também informe esta sombra de sorriso. Responde com uma voz estranha, estridente (me faz pensar no grito de certos pássaros dos quais ignoro o nome exato):

– Estou aqui! Eu pensei que tu não viesses mais! Pensei que tivesse te acontecido algum mal; fiquei triste… Se tu também me faltares, que restará ao pobre Abel?

Ao dizer isso, ele caminha em direção à estrada até o ponto em que, segundo a Lei, ele podia chegar e, por isso, a uma certa distância, ele se detém.

Pela estrada vem vindo um homem, quase correndo, de tão rápido que vem.

– Mas és tu mesmo, Samuel? Oh! Se não és tu, a quem eu espero, sejas lá quem fores, não me faças mal!

– Sou eu, Abel, sou eu mesmo. E são. Olha como eu corro. Estou atrasado, eu sei. E já estava com pena de ti. Mas, quando souberes… Oh! Tu ficarás feliz! E aqui te trago, não só os costumeiros pedaços de pão, mas um pão inteiro, fresco e bom, todo para ti; trago também um bom peixe e um queijo. Tudo para ti. Quero que faças festa, meu pobre amigo, para preparar-te para uma festa maior.

– Mas, como é que estás assim tão rico? Eu não entendo…

– Agora vou te contar.

– E estás são. Nem pareces mais Tu!

63.3 – Então escuta. Eu soube que em Cafarnaum estava aquele Rabi que é santo, e para lá fui…

– Pára, pára, eu estou infeccionado.

– Oh! Não tem importância! Não tenho mais medo de nada.

O homem, que outro não é senão aquele pobre encolhido curado e ajudado por Jesus no pomar da sogra de Pedro, chegou de fato com o seu passo rápido a poucos passos do leproso; falou, caminhando e rindo feliz.

Mas o leproso lhe diz ainda:

– Pára, em nome de Deus. Se alguém te vê…

– Eu vou parar. Olha, vou colocar aqui as provisões. Come, enquanto eu falo.

Ele põe sobre uma pedra grande um pequeno embrulho e o abre. Depois, dá um passo atrás, enquanto o leproso avança e se atira sobre o alimento inusitado.

– Oh! Quanto tempo faz que eu não comia assim! Como é bom! E eu pensando que iria dormir com o estômago vazio. Não veio hoje um piedoso… nem mesmo tu… Eu mastiguei algumas raízes…

– Pobre Abel! Eu estava pensando. Mas dizia: “Bom. Agora, ele deve estar triste, mas depois ficará feliz!”

– Feliz, sim, por esta comida tão boa. Mas depois…

– Não! Serás feliz para sempre.

O leproso sacode a cabeça.

– Escuta, Abel. Se puderes ter fé, serás feliz.

– Mas fé em quem?

– No Rabi. No Rabi que me curou.

– Mas eu sou leproso e estou no fim! Como poderá me curar?

– Oh! Ele pode. É santo.

– Sim. Também Eliseu curou Naamã, o leproso… eu sei… Mas eu… Eu não posso ir ao Jordão.

– Tu serás curado, sem precisar de água. Escuta: este Rabi é o Messias, entendes? O Messias! É o Filho de Deus. E cura todos aqueles que têm fé. Ele diz: “Eu quero”, e os demônios fogem, e os membros se endireitam, e os olhos cegos vêem.

– Oh! Se eu tivesse fé! Mas como posso ver o Messias?

– Eis-me aqui… eu vim para isso. Ele está lá, naquele povoado. Sei onde estará nesta tarde. Se quiseres… Eu disse: “Eu falo a Abel, e se Abel sente que tem fé o conduzo ao Mestre.”

– Estás louco, Samuel? Se eu me aproximar das casas, serei apedrejado.

– Não nas casas. A tarde está para cair. Eu te levarei até aquele pequeno bosque e depois irei chamar o Mestre. Eu te levarei…

– Vai, vai logo! Eu vou por mim mesmo até aquele ponto. Cami­nha­rei no fosso, entre a sebe, mas tu vai, vai… Oh! vai, meu bom amigo! Se soubesses o que é ter este mal e o que é esperar sarar!… O leproso não pensa em mais nada, nem em comer. Ele chora e gesticula, implorando ao amigo.

– Eu vou, e tu vais.

O ex-encolhido vai embora correndo.

63.4 Abel desce com dificuldade no fosso que costeia a estrada, todo cheio de sarças que cresceram no fundo seco. Ali há apenas um fio de água ao centro. A tarde desce enquanto o infeliz escorrega por entre as sarças, sempre alerta se ouve qualquer passo. Duas vezes agacha-se no fundo: a primeira, por causa de um cavaleiro que percorre a trote a estrada; a segunda, por causa de três homens que vão levando cargas de feno para o povoado. Depois ele prossegue.

Mas Jesus e Samuel chegam antes dele ao pequeno bosque.

– Daqui a pouco ele estará aqui. Ele anda devagar por causa das feridas. Tem paciência!

– Não tenho pressa.

– Tu o curarás?

– Ele tem fé?

– Oh!… Ele estava morrendo de fome e estava vendo aquele alimento depois de anos de abstinência; no entanto, depois de ter comido poucos bocados, deixou tudo para correr aqui.

– Como tu o conheceste?

– Sabes… eu vivia de esmolas, depois da minha desventura, percorrendo os caminhos, indo de um lugar para outro. Por aqui eu passava cada sete dias quando conheci aquele pobrezinho… num dia em que, constrangido pela fome, ele impeliu-se, sob um temporal, que teria posto em fuga até os lobos, indo até o caminho que leva ao povoado, a procura de alguma coisa. Buscava entre as imundícies, como um cão. Eu tinha­ pão seco no alforje, donativo de pessoas boas; dividi ao meio com ele. Desde então, somos amigos e cada semana eu o reabasteço. Com aquilo que tenho… se tenho muito, dou muito; se pouco, pouco. Faço o que posso, como se fosse meu irmão. E é desde aquela tarde em que me curaste, bendito sejas Tu, que eu venho pensando nele… e em Ti.

– Tu és bom, Samuel; por isso a graça te visitou. Quem ama merece tudo de Deus.

63.5 Mas eis ali qualquer coisa entre as ramagens…

– És tu, Abel?

– Sou eu.

– Vem. O Mestre está te esperando aqui, debaixo da nogueira.

O leproso emerge do fosso, sobe para a borda, atravessa-a e entra pelo prado. Jesus, com as costas apoiadas em uma nogueira muito alta, o espera.

– Mestre, Messias, Santo, tem piedade de mim!

E se lança todo entre a relva, aos pés de Jesus. Com o rosto no chão, diz ainda:

– Ó meu Senhor! Se queres, podes limpar-me!

Depois, toma coragem para pôr-se de joelhos, estende os braços esqueléticos, com aquelas mãos retorcidas e ergue o rosto ossudo e devastado… As lágrimas descem das órbitas doentes para os lábios corroídos.

Jesus o olha com muita piedade. Olha para aquela sombra de homem que o mal horrendo devora, que só uma verdadeira caridade pode suportar perto de si de tão repugnante e mal cheiroso que ele está. Contudo, eis que Jesus lhe estende uma mão, a sua sã e bonita mão direita, como que para acariciar o pobrezinho.

Este, sem se levantar, afasta-se sobre seus calcanhares, e grita:

– Não me toques! Tem piedade de Ti!

Mas Jesus dá um passo à frente. Solene, bom, suave, Ele pousa os seus dedos sobre aquela cabeça carcomida pela lepra e diz, com voz baixa e cheia de amor, mas imperiosa:

– Eu quero! Fica limpo!

A mão ainda permanece, por alguns minutos, sobre a pobre cabeça.

– Levanta-te. Vai ao sacerdote. Cumpre tudo o que a Lei prescreve. E não fales do que Eu te fiz: somente sê bom. Não peques mais. Eu te abençôo.

– Oh! Senhor! Abel! Mas tu estás curado!

Samuel, que vê a metamorfose do amigo, grita de alegria.

– Sim. Está são. Ele o mereceu por sua fé. Adeus. A paz esteja contigo.

– Mestre! Mestre! Mestre! Eu não te deixo! Não posso te deixar.

– Faze tudo o que a Lei quer. Depois nos veremos ainda. Pela segunda vez esteja sobre ti a minha bênção.

Jesus se põe a caminho, fazendo sinal a Samuel para que fique. E os dois amigos choram de alegria, enquanto, à luz de um quarto de lua, voltam à caverna para uma última parada naquele antro de desventura.

Assim cessa a visão.

Detalhe

Cura de um leproso.

Samuel chega em 63.2. O milagre tem lugar em 63.4. Para compreender o contexto completo, é aconselhável reler MTS 61.3 e todo o MTS 62.

Anotação

Evangelho de Marcos 1, 40-45

Mc 1,40-45 : Um leproso aproximou-se dele, suplicou-lhe, pôs-se de joelhos e disse: "Se quiseres, podes tornar-me limpo". Tomado de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: "Quero; fica limpo". Imediatamente a lepra o deixou e ele ficou limpo. Jesus mandou-o embora com firmeza, dizendo-lhe: "Tem cuidado, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e dá pela tua purificação o que Moisés prescreveu na Lei: será um testemunho para o povo. Depois de se ter ido embora, o homem começou a proclamar e a espalhar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar abertamente numa cidade, mas mantinha-se afastado em lugares desertos. Mas as pessoas vinham ter com ele de todo o lado.

Evangelho de Lucas 5, 12-14

Lc 5,12-14 : Jesus estava numa cidade, quando apareceu um homem coberto de lepra que, ao ver Jesus, se prostrou com o rosto em terra e lhe implorou: "Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. Jesus estendeu a mão e tocou-o, dizendo: "Eu quero; fica limpo. A lepra deixou-o imediatamente. Então Jesus ordenou-lhe que não contasse a ninguém: "Em vez disso, vai mostrar-te ao sacerdote e dá pela tua purificação o que Moisés ordenou; isso será um testemunho para todos."