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Notas da palavra-chave

Simão-Pierre - Simão de Jonas (apóstolo)

Página 17 de 26

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EMF 178.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Chegaram à beira do lago. Jesus sobe para a barca de Pedro, ao qual, em voz baixa, diz algumas palavras. Vejo que Jesus está sorrindo e Pedro fica muito admirado. Mas não diz nada. Sobe também para a barca o homem que deixou de ir sepultar o seu pai para acompanhar a Jesus.

Anotação

Não sabemos o que Jesus disse a Pedro e porque é que ele fez um gesto de admiração... No entanto, é possível que Jesus lhe tenha dito que ia a casa dele, porque na EMV 179, Cristo vai de facto a casa de Simão de Jonas.

EMF 179.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

As barcas dos Apóstolos, tendo transposto o breve trajeto do lago, que separa Cafarnaum de Betsaida, atracaram na cidade.

Detalhe

Neste capítulo, os Onze estão presentes. João foi encontrar João Batista em Hennon com a Virgem.

EMF 179.2-3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

As barcas dos Apóstolos, tendo transposto o breve trajeto do lago, que separa Cafarnaum de Betsaida, atracaram na cidade. Mas outras barcas as acompanharam e muitas pessoas desembarcam para se reunirem àqueles de Betsaida, que vieram saudar o Mestre, que está agora entrando na casa de Pedro, onde está de novo a mulher, que eu suponho que tenha preferido a solidão a ficar ouvindo as continuas queixas da mãe contra seu marido.

O povo, do lado de fora, reclama em altas vozes a presença do Mestre e isto faz que Pedro fique bastante inquieto, subindo ao terraço para acalmar os cidadãos, dizendo-lhes também que é preciso ter respeito e educação. Pois ele, gostaria de estar como o seu Mestre com alegria e paz agora que está na sua casa e pelo contrário, não acha tempo nem para oferecer-lhe um copo d’água com mel e as muitas outras coisas que Pedro mandou a mulher trazer… e fica resmungando.

Jesus, sorrindo, olha para ele, sacode a cabeça, dizendo:

– Parece que tu não me vês nunca, e que é uma coisa extraordinária estarmos juntos!

– Mas, é isso mesmo! Quando nós vamos por esse mundo afora, acaso estamos a sós? Nem por sonho! Entre mim e Ti há todo um mundo com os teus doentes, com os teus aflitos, os teus ouvintes, os teus curiosos, os teus caluniadores, teus inimigos, e nós dois estamos sós. Mas aqui Tu estás comigo, na minha casa e eles deveriam compreender isso.

Está realmente inquieto.

– Mas Eu não vejo diferença, Simão. O meu amor é o mesmo, a minha palavra é a mesma. Que Eu a diga em particular ou que a diga para todos, não é a mesma coisa?

179.3

Pedro confessa, então, o seu grande desgosto:

– É que eu sou um grande ignorante, um grande distraído. Quando Tu falas em uma praça, em uma montanha, no meio daquele povão todo, eu não sei por que, entendo tudo, mas depois não me lembro de mais nada. Eu disse isso também aos meus companheiros e eles me deram razão. Os outros, quero dizer, as pessoas do povo que Te ouvem, Te entendem e se recordam do que disseste. Quantas vezes temos ouvido alguém dizer: “Eu não fiz mais isto, porque Tu disseste que não era para fazer” ou então: “Eu vim, porque uma vez Te ouvi dizer tal coisa, e aquilo me despertou a consciência.” Mas nós… Não sei não! É como a água corrente, que passa, e não para. As margens não a detêm mais, porque a água passou. Vem outra água, sim, sempre outra, e sempre tanta. Mas passa, passa, passa… E eu fico pensando, com terror, que, se for como Tu dizes, isto é, chegará o momento em que Tu não estarás mais aqui para fazeres como o rio e… e eu… Que poderei dar eu a quem tiver sede, se não guardo nem uma gota do muito que me dás?

Os outros também apoiam as lamentações de Pedro, queixando-se de que não retêm mais nada de tudo o que ouviram, quando eles gostariam tanto de lembraremse de tudo, para poderem responder as muitas perguntas que lhes são feitas.

Jesus apenas sorri e responde:

– Mas não é assim que Me parece. Pois o povo está muito contente também com vocês…

– Oh! Sim! Pelo que nós fazemos! Abrir-te caminho, dar cotoveladas para isso, transportar os doentes, recolher as esmolas, e dizer: “Sim, o Mestre é aquele!” Grande coisa, na verdade!

– Não te faças mais feio do que és, Simão.

– Eu não me faço mais feio. Eu me conheço.

– É esta a mais difícil das sabedorias. Mas Eu quero tirar de ti esse grande medo. Quando Eu tiver falado, e vós não tiverdes podido compreender tudo, e reter tudo, perguntai, sem medo de me aborrecerdes ou importunardes. Temos sempre nossas horas a sós. Nessas horas, abri-me os vossos corações. Eu dou tantas coisas a tanta gente. O que Eu não haveria de dar a vós, que Eu amo de tal modo, que nem Deus poderia amar mais? Tu falaste das ondas que vão e das quais nada mais fica na praia. Chegará o dia no qual perceberás que cada uma daquelas ondas deixou na beira da praia uma semente e que cada semente se tornou uma árvore. Tu terás diante de ti flores e plantas para todos os casos, e ficarás espantado contigo mesmo, e dirás: “Mas, que foi que o Senhor me fez?”, porque, quando chegar esse tempo, já estarás livre da escravidão do pecado, e as tuas virtudes atuais terão se aperfeiçoado até atingirem uma grande altura.

– Tu o estás dizendo, Senhor, e eu fico tranquilo com estas tuas palavras.

EMF 179.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Agora, vamos a quem nos está esperando. Vinde. A paz esteja contigo, mulher. Vou ser teu hóspede esta tarde.

Saem todos, e Jesus dirigi-se para o lago, a fim de não ser esmagado pela multidão. Pedro está manobrando com cuidado, para afastar a barca até alguns metros da beira, de modo que a voz de Jesus possa ser ouvida por todos e haver um espaço entre Ele e os ouvintes.

Detalhe

Jesus está em casa de Pedro e fala com Porfírio.

EMF 179.7-8.9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Depois, virando-se para Pedro, diz:

– Vamos subir o rio até onde puderes, e depois atraca do outro lado. (...)

O arrastar-se da barca sobre a areia faz que aquele discurso seja interrompido, possibilitando a descida a terra. Aqui não se vêem mais as colinas baixas de Betsaida, que quase mergulham o focinho no lago, mas vê-se uma planície cheia de messes que se estende desta margem oposta à Betsaida, para a direção norte.

– Estamos indo a Meron? –pergunta Pedro.

– Não. Vamos tomar o caminho dos campos.

Os campos, muito bonitos e bem conservados, mostram espigas ainda verdes, mas já bem formadas. Todas estão à mesma altura e com o leve ondular que lhes imprime o vento fresco, que vem do norte, parecem formar um outro pequeno lago, ao qual servem de velas as árvores, que se erguem aqui e ali, cheias de passarinhos que chilreiam.

– Estes campos não são como os da parábola –observa o primo Tiago.

– É verdade. Não são. Os passarinhos não os devastaram, neles não há espinheiros nem pedras. Que belo trigal! Dentro de um mês estará maduro… e dentro de dois, estará pronto para a foice e o celeiro –diz Judas Iscariotes.

– Mestre, eu quero que Te lembres do que disseste em minha casa. Tu falaste tão bem! Mas eu estou começando a ter em minha cabeça umas nuvens confusas como as lá de cima… –diz Pedro.

– Esta tarde te explicarei.

179.8 Agora, já estamos vendo Corozaim. Jesus olha fixamente para o novo discípulo, dizendo:

– A quem dá será dado. O fato de receber não tira o mérito do doador. Leva-me ao vosso sepulcro e à casa de tua mãe.

O jovem se ajoelha, beijando, entre lágrimas, as mãos de Jesus.

– Levanta-te. Vamos. O meu espírito ouviu o teu pranto. Quero fortificar-te no heroísmo com o meu amor.

– Isaac, o Adulto, me havia falado quanto Tu eras bom. Isaac, sabes? Aquele cuja filha Tu curaste. Ele foi o meu apóstolo. Mas estou vendo que a tua bondade é ainda maior do que tudo o que me disseram.

– Nós vamos também saudar o Adulto para agradecer-lhe por me haver dado um discípulo.

Chegaram a Corozaim, e é justamente a casa de Isaac a primeira que se encontra.

(...) Param primeiro junto ao sepulcro fechado, e rezam. Depois, através de um vinhedo ainda com a metade para ser vindimada, vão até a casa de Elias.

(...) Voltam ao caminho, e o retornam atéao rio, e daí até Betsaida.

Detalhe

Jesus acaba de pregar em Betsaida. Está no lago, com o jovem discípulo que não foi ao funeral do pai, e fala a Simão de Jonas.

Anotação

"Sobe o mais alto que puderes e amarra o barco do outro lado". A primeira ponte romana conhecida neste troço do Jordão situa-se 11/12 km mais a norte(Ponte das Filhas de Jacob). Esta ponte foi destruída em 1918.

As colinas baixas de Betsaida, que, por assim dizer, se afundam no lago, já não são visíveis aqui, mas uma planície com ricas colheitas estende-se ao longo desta margem oposta a Betsaida, em direção ao norte. Correto: A planície a noroeste de Betsaida tem cerca de 500 m de largura e 1 ou 2 km de comprimento, subindo depois continuamente para oeste.

"Vamos para Merom ? Vamos por este caminho através dos campos. Merom fica a cerca de 17 quilómetros, a noroeste, uma caminhada de quatro horas... Chorazim fica a apenas 4 quilómetros, seguindo em linha reta para oeste, a partir de Betsaida. Sempre que possível, Jesus toma naturalmente o caminho mais curto.

Os campos eram bonitos e bem cuidados, e as espigas ainda estavam tenras, mas já formadas. Isto é coerente: 15 dias mais tarde, Maria Valtorta observa que estão "bem formadas"(EMV 190.1).

Belo trigo! Daqui a um mês, já estará louro... e daqui a dois meses, estará pronto para ser ceifado e armazenado. Correto: a colheita tem lugar no final de abril, início de maio (segundo a cronologia de Jean-François Lavère, estamos no final de fevereiro e início de março). Daqui a dois meses, é o episódio das espigas roubadas no sábado(EMV 217.3).

Chegámos agora à vista de Chorazeïn. Exatamente: Vindo do norte de Betsaida, só no último momento, depois de contornar a colina, é que se avista Chorazen, na encosta sul.

- Mestre... Vou recordar-lhe o que disse em minha casa. Falou tão bem! Mas começo a ter nuvens na minha cabeça tão confusas como as que estão lá em cima. Jesus recomendou aos apóstolos que o interrogassem sobre a sua Palavra, para que ele lha explicasse, em EMV 179.3.

Quando chegaram a Chorazeïn, a casa de Isaac foi a primeira que viram. Era Isaac, o Adulto, um ancião de Chorazeïn, cuja filha Jesus tinha curado.

Regressam ao caminho que tomaram para ir ao rio e, daí, a Betsaida. Coerência: no capítulo seguinte, descobre-se que passam a noite em Betsaida. Só demoram 2h30 / 3h00 a fazer esta viagem de ida e volta durante a tarde.

EMF 180.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eis-nos de novo na cozinha de Pedro. A ceia deve ter sido abundante, porque os pratos com os restos de peixe, de carne, de queijos, de frutas secas ou murchas, e de fogaças de mel, estão amontoados sobre uma espécie de aparador, que nos lembra um pouco as nossas masseiras toscanas, e as ânforas com os cálices estão ainda espalhados na mesa.

A mulher de Pedro deve ter feito milagres, para fazer ficar contente o marido, e deve ter trabalhado o dia inteiro. Agora, cansada mas alegre, elaestá em seu cantinho, ouvindo o que dizo homem e os outros. Ela está olhando para o seu Simão, que para ela deve ser um grande homem, ainda que um pouco exigente, e, quando agora o ouve falar com palavras novas naquela boca que antes só falava de barcas, de redes, de peixes e de dinheiro, ela chega até a pestanejar, como se estivesse deslumbrada por um excesso de luz. Pedro, seja pela alegria de ter Jesus à sua mesa, ou por causa da abundante ceia que foi servida, está mesmo bem disposto esta tarde, e até já revela o futuro Pedro pregando às multidões.

EMF 180.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Não sei qual foi a observação que foi feita por um companheiro que deu origem àquela resposta escultural de Pedro, quando disse:

– Acontecerá com eles como com os construtores da torre de Babel[1]. A soberba deles provocará o desabamento de suas teorias, e ficarão esmagados.

André objeta ao irmão:

– Mas Deus é misericórdia. Impedirá o desabamento para dar tempo ao arrependimento.

– Nem penses nisso. Como coroamento da soberba deles, porão em prática calúnia e perseguição. Oh! Eu já estou vendo perseguição sobre nós para dispersar-nos como testemunhas detestáveis. E, visto que estarão atacando, com insídias, a Verdade, Deus tomará a Si fazer a vingança e eles perecerão.

– E nós teremos forças para resistir? –pergunta Tomé.

– Aí está… por mim mesmo, eu não teria. Mas confio nele –e mostra Jesus, que está escutando calado, com a cabeça um pouco inclinada, como para conservar escondidas as expressões do seu rosto.

– Eu penso que Deus não nos dará provas superiores às nossas forças –diz Mateus.

– Ou, pelo menos, aumentará as nossas forças, em proporção às provas –termina Tiago de Alfeu.

– Ele já está fazendo isso.

Anotação

O que aconteceu aos construtores da Torre de Babel acontecer-lhes-á a eles. Alusão a Génesis 11,1-9.

Ele já o fez: é Simão, o Zelota, que está a falar. A conversa prossegue. Ver a nota seguinte.

Livro do Génesis 11, 1-9

Gn 11, 1-9 : Toda a terra tinha uma só língua e as mesmas palavras. Quando os homens partiram do Oriente, encontraram uma planície na terra de Sennaar e aí se estabeleceram. Disseram uns aos outros: "Vamos, vamos fazer tijolos e cozê-los ao lume". "E usaram tijolos em vez de pedras e betume em vez de cimento. Depois disseram: "Vamos, construamos uma cidade e uma torre com o topo no céu, e façamos para nós um monumento, para que não sejamos espalhados pela face de toda a terra. "Mas o Senhor Javé desceu para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens estavam a construir. E Javé disse: "Eis que eles são um só povo, e todos têm uma só língua; e esta obra é o início dos seus empreendimentos; agora nada os impedirá de realizarem os seus projectos. Vamos descer e confundir a sua língua, para que deixem de ouvir a língua uns dos outros. "Então Javé dispersou-os dali pela face de toda a terra e eles deixaram de construir a cidade. É por isso que se chama Babel, porque foi aí que Javé confundiu a língua de toda a terra e foi aí que Javé os dispersou por toda a face da terra.

EMF 180.2-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

« Eu era rico e poderoso. Se Deus não tivesse querido me conservar para algum fim seu, eu teria perecido no desespero, ao ser perseguido e leproso. Eu teria me enfurecido contra mim próprio… Mas, ao contrário, sobre o meu desabamento completo desceu uma riqueza nova, que eu nunca antes tinha possuído: a riqueza de uma persuasão: “Deus existe!” Primeiro, Deus… Sim, eu tinha fé, eu era um fiel israelita. Mas era uma fé formal. Parecia que o prêmio da fé fosse sempre inferior às minhas virtudes. Eu me permiti até discutir com Deus, porque me julgava ainda alguma coisa sobre a terra. Simão Pedro tem razão. Eu também estava construindo uma torre de Babel com louvores a mim mesmo e com as satisfações do meu eu. Quando tudo desabou em cima de mim, e me tornei um verme esmagado pelo peso de toda esta inutilidade humana, aí eu não discuti mais com Deus, mas comigo mesmo, com este louco eu, e acabei por demolí-lo. E, quanto mais eu fazia isso, abrindo a estrada para o que eu penso ser Deus imanente em nosso ser de criaturas terrestres, aí eu adquiria uma força, uma riqueza nova. A certeza de que eu não estava só e de que Deus velava pelo homem vencido pelo homem e pelo mal.

– Segundo o teu modo de ver, que é que pensas que é Deus, quando dizes: “o Deus imanente em nosso ser de criaturas terrestres”? Que queres dizer? Eu não te compreendo, dizer isso me parece uma heresia. Deus é aquele que nós conhecemos através da Lei e dos Profetas. Não existe outro –diz, um tanto severo, Judas Iscariotes.

– Se João estivesse aqui, ele te explicaria melhor do que eu. Mas eu vou falar-te como sei. Deus é aquele que conhecemos através da Lei e dos Profetas. É verdade. Mas, em que o conhecemos? Como?

Judas de Alfeu dispara:

– Pouco e mal. Ainda que o conhecessem os Profetas, que sobre ele escreveram para nós. Nós temos de Deus uma ideia confusa que transpira dos escombros do que foi acumulado pelas seitas…

– Seitas? Mas de que estás falando? Nós não temos seitas. Nós somos filhos da Lei. Todos –diz Iscariotes, indignado e agressivo.

– Os filhos das leis. Não da Lei. Há uma pequena diferença. Do singular para o plural. Mas na realidade: nós somos filhos daquilo que criamos, e não daquilo que Deus nos deu –rebate Tadeu.

– As leis nasceram da Lei –diz Iscariotes.

– Também as doenças nascem de nosso corpo, e não me quererás dizer que elas sejam coisas boas –replica Tadeu.

– Mas, deixai-me saber que é que é o Deus imanente do Simão Zelotes.

O Iscariotes, não tendo podido rebater à observação de Judas de Alfeu, procura levar a questão para o ponto de partida.

180.3

Simão Zelotes diz:

– Os nossos sentidos sempre precisam de um termo para compreenderem uma ideia. Cada um de nós, falo de nós que cremos, crê por força de fé no Altíssimo, Senhor e Criador, Deus Eterno que está no Céu. Mas todos os seres também precisam desta fé nua, virgem, incorpórea, que é suficiente para os anjos, que vêem e amam a Deus espiritualmente, compartilhando com Ele a natureza espiritual, tendo a capacidade de ver a Deus. Mas nós precisamos criar para nós uma figura de Deus, figura essa que é feita das qualidades essenciais que damos a Deus, para podermos dar, então, um nome à sua perfeição absoluta, infinita. Quanto mais a alma se concentra, mais consegue chegar à exatidão no conhecimento de Deus. Eis aqui o que eu digo: o Deus imanente. Eu não sou um filósofo. Talvez tenha usado mal a palavra. Mas, em resumo, para mim o Deus imanente é o sentir, perceber Deus em nosso espírito, sentí-lo e percebê-lo, já não mais como uma ideia abstrata, mas como uma real presença, doadora de uma fortaleza e de uma paz nova.

– Está bem. Mas como é que o sentias? Que diferença há entre sentir pela fé e sentir pela imanência? –pergunta, um pouco irônico, Iscariotes.

– Deus é segurança, rapaz. Quando tu o sentes, como diz Simão com aquela palavra que eu não entendo literalmente, mas cujo sentido eu entendo — e podes crer que o nosso mal é entender somente a letra, e não o espírito das palavras de Deus — quer dizer que consegues captar, não só o conceito da majestade terrível, mas da paternidade dulcíssima de Deus. Quer dizer que percebes o seguinte: quando todo o mundo te julgar e condenar com injustiça, Um só, Ele, o Eterno que é Pai, não te julgará, mas te absolverá e consolará. Quer dizer que sentes que, quando o mundo todo te odeiar, tu sentirás em ti um amor maior do que o mundo todo. Quer dizer que, mesmo estando segregado em um cárcere, ou em um deserto, sentirás sempre que Um te fala, e te diz: ‘Sejas santo, para que sejas como o teu Pai.’ Quer dizer que pelo amor para com este Deus Pai, que finalmente se chega a sentir tal, se aceita, se trabalha, se toma ou se deixa, sem medidas humanas, pensando somente em pagar amor com amor, em copiar ao mais próximoDeus com suas próprias ações –diz Pedro.

– Tu és um soberbo! Copiar Deus! Isso não te é permitido –sentencia Iscariotes.

– Não é soberba. O amor leva à obediência. Copiar Deus me parece um modo de obedece-lhe, pois Deus diz que nos fez à sua imagem e semelhança –replica Pedro.

– Ele nos fez. Nós não devemos ir acima disso.

– És um infeliz se pensas assim, caro rapaz. Tu te esqueces de que nós somos decaídos e que Deus quer recolocar-nos no ponto em que estávamos.

180.4

Jesus toma a palavra:

– Ainda mais do que isso, Pedro, Judas e vós todos. Ainda mais. A perfeição de Adão era ainda suscetível de crescimentopelo amor que o teria levado à imagem sempre mais exata do seu Criador. Adão, sem a mancha do pecado, teria sido como um limpidíssimo espelho de Deus. Por isso, Eu digo: “Sede perfeitos, como perfeito é o Pai que está nos Céus.” Como o Pai. Portanto, como Deus. Pedro falou muito bem. Simão falou muito bem também. Eu vos peço que vos recordeis das palavras deles e as apliqueis às vossas almas.

A mulher de Pedro quase que desmaia pela alegria de ouvir que seu marido é elogiado. Ela chora, atrás do seu véu, tranquila e feliz. Pedro parece que está para ter um ataque de apoplexia, de tão vermelho que ficou.

Detalhe

Simão, o Zelota, toma a palavra. A questão da fé é abordada em 180.3.

EMF 180.7-10 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

« Entendestes? Tendes alguma outra coisa a perguntar? Não? Então podemos descansar para partirmos amanhã, rumo a Cafarnaum. Eu devo ir ainda a um lugar, antes de começar a viagem para Jerusalém, pela Páscoa.

– Passaremos ainda por Arimateia? –pergunta Iscariotes.

– Não é certo. Depende dos…

Bateram na porta com violência.

– Quem é que pode ser a uma hora destas? –diz Pedro, levantando-se para abrir.

Apresenta-se João. Agitado, empoeirado, com claros sinais de pranto no rosto.

– Tu aqui? –gritam todos–. Mas, que foi que aconteceu?

Jesus, que se levantou, diz somente:

– Onde está a mãe?

João, indo para a frente, para ajoelhar-se aos pés do seu Mestre, estendendo os braços como para pedir socorro, diz:

– A mãe está bem, mas está em pranto como eu e como muitos outros, e Te pede que não andes acompanhando o Jordão pelo nosso lado. Ela me mandou voltar por isso, porque… porque João, o teu primo, está preso…

E João chora, enquanto um grande alvoroço se forma entre os presentes.

Jesus empalidece profundamente, mas não fica agitado. Ele diz somente:

– Levanta-te, e conta.

– Eu ia descendo com a mãe e as mulheres. Também Isaac e Timoneu estavam conosco. Três mulheres e três homens. Eu obedeci à tua ordem de levar Maria a João… ah! Tu bem sabias que era o último adeus!… Que devia ser o último adeus… O temporal de alguns dias atrás nos fez parar por umas poucas horas. Mas foi o suficiente para que João não pudesse mais ver Maria… Chegamos à hora sexta e ele já havia sido preso, ao cantar do galo…

– Onde? Como? Por quem? Na sua caverna? –todos perguntam, todos querem saber.

– Ele foi traído!… Usaram do teu Nome para traí-lo!

– Que horror! Mas, quem terá sido? –gritam todos.

João estremece, ao falar em voz baixa este horror, que nem o ar devia ouvir, e confessa:

– Por um dos discípulos dele…

O alvoroço chega ao auge. Uns maldizem, outros choram, outros, apavorados, ficam como estátuas.

180.8

João se agarra ao pescoço de Jesus, e grita:

– Eu temo por Ti! Por Ti! por Ti! Os santos têm os seus traidores, que pelo ouro se vendem, pelo ouro e por medo dos grandes, por sede de um prêmio, por… por obediência a satanás. Por mil, mil coisas. Oh! Jesus, Jesus, Jesus! Que dor! Ele foi o meu primeiro mestre! Foi o meu João que me levou a Ti!

– Está bem! Está bem! Nada Me acontecerá, por enquanto.

– E depois? E depois? Eu olho para mim… olho para vocês… fico com medo de todos, e até de mim. Deverá estar entre nós o teu traidor…

– Estás doido? Achas que não o reduziríamos a pedaços? –grita Pedro.

Iscariotes:

– Oh! Doido, de verdade! Eu é que não o serei, nunca. Mas, se eu me sentisse tão fraco, a ponto de chegar a sê-lo, eu me mataria. Melhor é fazer isso, do que ser homicida de Deus.

Jesus se livra do abraço apertado de João e sacode rudemente Iscariotes, dizendo:

– Não fiques aí blasfemando! Nada te poderá enfraquecer, se tu não o quiseres. Se isso acontecesse, trata de chorar, e não cometas um delito, além do deicídio. Quem por si mesmo se exaure de Deus, torna-se fraco.

180.9

Depois, volta para João, que está chorando com a cabeça sobre a mesa, e diz:

– Fala com ordem. Eu também estou sofrendo. Ele era o meu sangue e o meu Precursor.

– Eu só pude ver os discípulos, uma parte deles, consternados e furiosos contra o traidor. Os outros foram acompanhar João até à cadeia, para estarem perto dele na hora da morte.

– Mas, ele ainda não morreu… na outra vez, ele pôde fugir –assim procura confortá-lo Zelotes, que quer muito bem a João.

– Não morreu ainda. Mas vai morrer –responde o João.

– Sim. Morrerá. Ele o sabe, como Eu sei. Desta vez nada e ninguém o salvará. Quando será, Eu não sei. Só sei que não sairá vivo das mãos de Herodes.

– Sim, de Herodes. Ele tinha ido por aquela garganta, pela qual nós passamos, quando estávamos voltando para a Galileia, que fica entre os montes Hebal e Garizim, porque assim é que lhe falou o traidor: “O Messias está à morte, tendo sido assaltado por inimigos. E Ele está querendo ver-te para te confiar um segredo.” Ele foi com o traidor e mais alguns outros. Na sombra do vale estavam os homens armados de Herodes que o prenderam. Os outros fugiram, levando a notícia aos discípulos, que ficaram perto de Enon. Eles mal tinham acabado de chegar, quando cheguei eu com a mãe. O mais horrível é que se tratava de alguém das nossas cidades, e que os fariseus de Cafarnaum foram à frente do conluio para prendê-lo. Eles tinham estado com ele, dizendo que Tu tinhas sido seu hóspede, e que Tu estavas de partida para a Judeia… Ele não teria saído do seu refúgio, a não ser por causa de Ti…

180.10

Um silêncio sepulcral cai sobre a narração de João. Jesus parece estar esgotado, com os olhos de um azul bem escuro quase embaçados. Ele está de cabeça inclinada, com a mão ainda sobre o ombro de João, e sua mão está sendo sacudida por um leve tremor. Ninguém ousa falar.

Jesus rompe o silêncio:

– Vamos para a Judeia, por um outro caminho. Amanhã preciso ir a Cafarnaum. O quanto antes. Descansai. Eu vou subir entre as oliveiras. Preciso estar só.

Sai sem dizer nada.

– Certamente Ele vai chorar –murmura Tiago de Alfeu.

– Vamos acompanhá-lo, irmão –diz Judas Tadeu.

– Não. Deixai-o chorar. Nós somente, sairemos devagar, à escuta. Temo insídias em toda parte –responde Zelotes.

– Sim. Vamos. Nós pescadores iremos pela margem. Se alguém vier do lago, nós o veremos. Vós ide pelas oliveiras. Certamente Ele está em seu lugar de costume, perto da nogueira. Quando chegar a aurora, prepararemos as barcas para partirmos rapidamente. Que raça de serpentes! Eh! Eu disse! Fala, tu, agora rapaz! A Mãe está em lugar seguro?

– Oh! Sim! Também os pastores, discípulos de João, foram com ela… não veremos mais o nosso João!

– Cala-te! Cala-te! Parece-me o canto do cuco… Um precede o outro e… e…

– Pela Arca Santa! Calai-vos! Se falais ainda de desventuras para o Mestre, eu começo por vós, fazendo-vos sentir o sabor do meu remo nos rins! –grita Pedro, enfurecido–. Vós –diz ele depois aos que vão pelas oliveiras–, apanhai bastões, galhos grossos, pois lá no lenheiro há bastante, e espalhai-vos, armados com eles. O primeiro que se aproximar de Jesus para fazer mal a Ele, seja morto.

– Discípulos! Discípulos! É preciso tomar cuidado com os novos!

–exclama Filipe.

O novo discípulo se sente ferido, e pergunta:

– Estais dúvidando de mim? Ele me escolheu e me quis.

– De ti, não. Mas daqueles que são escribas e fariseus, e dos seus adoradores. De lá virá a ruína. Podeis crer.

Saem e se espalham, uns para o lado das barcas, outros por entre as oliveiras das colinas, e tudo termina.

Detalhe

Nos capítulos anteriores, João de Zebedeu devia acompanhar a Virgem a Hennon para ver João.

Anotação

"A tua mãe está bem, mas está a chorar como eu, como muita gente, e pede-te que não venhas ao longo do Jordão do nosso lado. (...) " Iremos para a Judeia por outro caminho". Jesus confirma, em EMV 187,3, que respeita o desejo de sua mãe e volta a falar com Maria sobre o assunto em EMV 198,1/2.

Chegámos à hora sexta e ele tinha sido capturado ao cantar do galo... Gallicinium, "o cantar do galo", correspondia à última vigília: das 3 às 6 horas.

"Por um dos seus discípulos..." Este facto, que não parece ser mencionado em nenhuma tradição, indica que o Precursor também foi traído por um dos seus discípulos.

Eu nunca trairei. Mas se me sentisse tão fraco que o pudesse fazer, matar-me-ia. É melhor do que ser o assassino de Deus. É o gérmen da ideia de suicídio, que Judas porá em prática após a sua traição (EMV 605.1/13).

Sim, ele vai morrer. Ele sabe-o, como eu sei-o. O próprio Jesus não o escondeu de João quando o visitou (EMV 148.2). A morte do Batista é anunciada em EMV 270.7.

Ele dirigiu-se para o desfiladeiro que nós também atravessámos no regresso à Galileia. Foi durante o encontro com a samaritana Fotinai em EMV 143.4.

Os fariseus de Cafarnaum que estavam à frente da conspiração para o capturar. Foram provavelmente Joaquim e Elias de Cafarnaum que organizaram esta conspiração (ver EMV 182.1).

Enon (ou Hennon), na fronteira entre a Decápole e a Samaria, estava fora da jurisdição de Herodes. João estava seguro ali.

EMF 181.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Uma alvorada clara transforma o lago em uma grande pérola e recobre as colinas com uma névoa branca e leve como um véu de musselina, através do qual podem se ver, revestidas de um certo ar de nobreza, as oliveiras, as nogueiras, as casas e o cimo dos lugarejos, que ficam à beira do lago. As barcas deslizam serenas e silenciosas para Cafarnaum. Mas, num certo momento, Pedro vira a barra do timão de um modo tão rude, que a barca se inclina para um lado.

– Que é que estás fazendo? –pergunta-lhe André.

– Estou vendo a barca de um solitário. Está saindo agora de Cafarnaum. Eu tenho bons olhos e, desde ontem à tarde, estou farejando como um sabujo. Não quero que nos vejam. Vou voltar para o rio. Vamos a pé.

A outra barca também acompanhou a manobra, mas Tiago, que está ao timão, pergunta a Pedro:

– Por que estás fazendo isso?

– Eu te direi. Vem comigo.

Jesus, que está sentado na popa, só percebe a mudança, quando já estão perto do Jordão.

– Mas, que é que estás fazendo, Simão? –pergunta Ele.

– Vamos descer aqui. Há um chacal rondando por aí. Hoje não se pode ir a Cafarnaum. Primeiro, vou eu, para escutar um pouco. Eu com Simão e Natanael. Três pessoas dignas contra três pessoas indignas… a não ser que as haja mais indignas.

– Não fiques vendo emboscadas por toda parte, agora. Aquela não é a barca do Simão, o fariseu?

– É ela mesmo.

– Ela não foi usada na captura de João!

– Eu não estou sabendo de nada.

– Ele é sempre respeitoso para comigo.

– Eu não estou sabendo de nada.

– Tu me fazes ficar parecendo um covarde.

– Eu não estou sabendo de nada.

Ainda que Jesus não esteja com vontade de rir, acaba sorrindo pela santa teimosia de Pedro.

– Mas a Cafarnaum temos que ir. Se não hoje, mais tarde…

– Eu te disse que primeiro, vou eu e escuto e… conforme o que acontecer… farei ainda… será um espinho grosso demais para se engolir… mas eu o farei por amor de Ti… Eu irei… irei ao centurião pedir proteção…

– Não. Não é preciso isso!

A barca para sobre a prainha deserta, que fica na frente de Betsaida. Todos descem.

– Vinde, vós dois. Vem, tu também, Filipe. Vós, mais moços, ficai aqui. Vamos estar logo de volta.

O novo discípulo Elias suplica:

– Vem à minha casa, Mestre. Ficarei feliz em hospedar-Te…

– Vou, sim. Simão, tu me alcançarás na casa de Elias. Adeus, Simão. Vai, mas sejas bom, prudente e misericordioso. Vem cá para que Eu te beije e abençoe.

Pedro não garante que vá ser bom, paciente nem misericordioso. Ele se cala e troca um beijo com o Mestre.

Zelotes, também Bartolomeu e Filipe trocam o beijo de despedida, e as duas comitivas se separam, indo em direções opostas.

Detalhe

É o dia seguinte à prisão de João Batista.

Anotação

- Estou a ver um barco de corujas! Está agora a sair de Cafarnaum. Devem estar a 3 ou 4 quilómetros de Cafarnaum, e Pedro reconhece o barco de um dos fariseus.

Jesus, que estava sentado à popa, acorda quando está quase ao nível do Jordão. Popa ou parte traseira de um barco. Este é o seu lugar "habitual", como podemos ver em EMV 448.3 e EMV 185.2).

Elias, o novo discípulo, pede: este é um novo discípulo, encontrado emEMV 179.

Os dois grupos separam-se em direcções opostas. Pedro, com Simão, o Zelota, Filipe e Bartolomeu, segue ao longo da costa para sudoeste, em direção a Cafarnaum, enquanto o grupo de Jesus sobe para norte, para apanhar o caminho que leva a Corozain.