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Notas da palavra-chave

Judas de Queriote (apóstolo)

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EMF 210.1-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Mas eu não creio que queirais fazer uma peregrinação a todos os lugares históricos de Israel, diz, irônico, Iscariotes, que está discutindo em um grupo em que se encontram Maria de Alfeu e Salomé, além de André e Tomé.

– Por que não? Quem o proíbe? –pergunta Maria de Cléofas.

– Ora, eu. Minha mãe está me esperando há tanto tempo…

– Ora, vai-te para tua mãe. Nós te buscaremos depois –diz Salomé, e parece acrescentar mentalmente: “Ninguém ficará triste por tua ausência.”

– Isso não. Eu, por mim, vou com o Mestre. Já não mais está aqui a mãe, como estava previsto. E isso em verdade não ia ser feito, porque havia sido prometido que ela estaria aqui.

– Ela se deteve em Betsur para uma boa obra. Aquela mulher estava bem infeliz.

– Jesus a podia ter curado de repente, sem precisar fazê-la recuperar-se pouco a pouco. Não sei porque agora Ele não está gostando mais de fazer seus retumbantes milagres.

– Se Ele fez assim, deve ter suas santas razões –diz calmamente André.

– Ora, essa! É assim que Ele perde os seus prosélitos.

210.2

A permanência em Jerusalém! Que desilusão! Quanto mais há coisas pomposas, mais Ele se esconde na sombra. Tanto que eu esperava poder ver e combater.

– Perdoa a pergunta… Mas, que querias ver e que querias combater? –pergunta Tomé.

– O quê? A quem? Queria ver suas obras milagrosas, e depois enfrentar quem diz que Ele é falso ou um endemoninhado. Por que isso se diz, compreendes? dizem que se Belzebu não o sustém, Ele não passa de um pobre homem. E, visto que o humor caprichoso de Belzebu é conhecido e sabemos que ele se deleita em pegar e soltar, como faz o leopardo com a sua presa e, visto que os fatos justificam este pensamento, eu fico inquieto, ao pensar que Ele não faz nada. E, que bela figura nós fazemos! Os apóstolos de um Mestre…todo doutrina, isso é inegável, mas nada mais que isso.

A brusca parada de Judas depois da palavra “Mestre” nos faz pensar que, depois daquela palavra quisesse soltar alguma grosseria.

As mulheres estão estarrecidas, e Maria de Alfeu, como parenta de Jesus, lhe fala, então bem claro:

– Eu não me admiro disso, mas, sim, de que Ele ainda te tolere, rapaz!

Mas André, o sempre manso André, perde a paciência e, muito corado, encolerizado, muito semelhante às vezes ao seu irmão, grita:

– Vai-te embora! E não digas mais de estar fazendo o papel de bobo por causa do Mestre. E quem te chamou? A nós, Ele nos quis. Mas a ti não. Tiveste que insistir muitas vezes para que te aceitasse. Tu te impuseste. Não sei quem me segura para não relatar tudo aos outros…

– Convosco não se pode falar nunca. Tem razão os que vos chamam de briguentos e ignorantes

– Eis que também eu não compreendo, de verdade, onde tu encontras o erro do Mestre. Eu não sabia desses humores caprichosos do Demônio. Pobrezinho! Certamente deve ser um trôpego. Se fosse de uma inteligência equilibrada, não se rebelaria contra Deus… Mas, eu vou tomar nota –disso caçoa dele Tomé, para afastar uma tempestade que vem se avizinhando.

– Não brinques, porque eu não estou brincando. Podes, acaso, dizer que em Jerusalém Ele se fez notar? Afinal, até Lázaro já disse isto.

A risada de Tomé é ribombante. Depois, ainda rindo, e com um riso que já desorientou Iscariotes, Tomé diz:

– Ele não fez nada? Vai perguntar isso aos leprosos de Siloan e de Hinon. Isto é, em Hinon não se encontra mais nenhum, porque todos foram curados. Se tu não estavas lá, foi porque estavas com pressa de ir ficar com os teus… amigos, e por isso é que não sabes, mas isso não impede que, pelos vales de Jerusalém, e também por muito outros, ecoem os hosanas dos curados –termina, falando sério, Tomé.

210.3

E acrescenta, com severidade:

– Tu estás doente da bílis, meu amigo. E ela te faz sentir gosto amargo, e ver a cor verde por toda parte. Ela deve elaser em ti uma doença intermitente. E podes crer que é pouco agradável conviver com alguém como tu. Precisas mudar. Eu não irei dizer nada a ninguém e, se estas boas mulheres me quiserem escutar, ficarão caladas como eu, e assim também fará André. Mas tu, procura mudar. Não creias que estás desiludido, porque aqui não há desilusão. Não creias seres necessário porque o Mestre sabe fazer tudo sozinho. Não queiras tu ser o mestre do Mestre. Se Ele, até para aquela pobre mulher que é Elisa, agiu assim, é sinal de que estava bem fazer assim. Deixa que as serpentes cuspam à vontade. Não fiques querendo encarregar-te para servires de mediador entre eles e Ele, e muito menos fiques pensando que te rebaixas por estares com Ele. Ainda que Ele não curasse nem mesmo um simples resfriado, Ele seria sempre poderoso. Só sua palavra já é um continuo milagre. E conserva-te em paz. Nós não temos arqueiros atrás de nós. Chegaremos — Oh! se chegaremos — a convencer o mundo de que Jesus é Jesus. E fica tranquilo também, porque, se Maria prometeu ir à casa de tua mãe, ela irá. E, nesse ínterim, nós vamos peregrinando por estas belas regiões, e isto é o nosso trabalho! E trabalho eficiente. Procuramos contentar também as discípulas, indo com elas ver o túmulo de Abraão, a árvore dele e, depois, o túmulo de Jessé e… que mais foi que dissestes?

– Dizem que aqui é o lugar onde morreu Adão e onde Abel foi morto…

– São as conhecidas lendas sem sentido!… –resmunga Judas.

– Daqui a um século dirão que a Gruta de Belém é uma lenda, e dirão muitas outras coisas!

210.4

E depois, perdoa-me! Tu quiseste ir àquela caverna fedorenta lá em Endor, a qual, deves estar de acordo comigo, não fazia parte de nenhuma série de lendas piedosas. Não te parece? E elas vêm aqui, onde se diz que estão o sangue e as cinzas dos santos. Endor nos deu João de Endor e talvez…

– Boa aquisição, João –zomba Iscariotes,

– Pelo rosto, certamente não o é. Mas na alma pode ser melhor do que nós.

– Mais esta! Com aquele passado que teve!

– Cala-te! O Mestre disse que não devemos ficar recordando.

– É mais cômodo. Eu queria ver, se eu fizesse alguma das coisas que ele fez, se vós não o ficaríeis recordando!

– Adeus, Judas. É melhor que fiques sozinho. Estás muito inquieto. Pelo menos, se soubesses o que tens!

– O que tenho, Tomé? O que tenho é que estou vendo sermos nós preteridos pelos primeiros que vieram[1]. O que tenho é que vejo preferir todos a mim. O que eu tenho é que eu noto como se fica esperando que eu não esteja aqui para se ensinar a rezar. E queres que coisas como estas me agradem?

– Não agradam. Mas, eu te faço observar que, se tu tivesses vindo conosco para a Ceia da Páscoa, lá estarias tu também conosco no Monte das Oliveiras, quando o Mestre nos ensinou a oração. E não vejo também em que é que tenhamos sido preteridos pelos primeiros que vieram. Estás falando porque está conosco aquele inocente? Ou porque conosco está aquele infeliz que é João?

– Por causa de um e do outro. Jesus quase nem nos fala mais. Olha para Ele justamente neste momento: Lá está Ele, que passa tanto tempo a falar, a falar com o menino. Deve-se esperar ainda um bom tempo, antes que se possa trazê-lo para o meio dos discípulos! E o outro, não será nunca discípulo. Muito orgulhoso, culto, endurecido e de más tendências…E, no entanto é “João para cá, João para lá…”

– Pai Abraão, conserva-me a paciência! E em que te parece estar o Mestre preferindo os outros a ti?

– Mas, não estás vendo nem agora? Quando chegou o tempo de deixarmos Betsur, depois de uma permanência para instruir três pastores, que podiam muito bem ser instruídos por Isaac, eis aí quem é que Ele deixa com sua mãe! Eu ? Tu? Não. Deixa Simão. Um velho, que quase não fala!…

– Mas o pouco que ele diz, ele o diz sempre bem –retruca Tomé, que agora está sozinho, visto que as mulheres com André se afastaram, passaram para a frente, apressadas, como para evitar que tenham que fazer uma parte do caminho todo sozinhas.

210.5

Os dois apóstolos estão tão excitados, que nem percebem que Jesus se aproxima, porque o barulho dos passos dele fica abafado pela grande quantidade de poeira que há na estrada. Mas, se Ele não fez barulho, os dois, ao contrário, estão urrando por dez e Jesus ouve. Atrás dele estão Pedro, Mateus, os dois primos do Senhor, Filipe e Bartolomeu e os dois filhos de Zebedeu, que vão levando, entre os dois, Margziam.

Jesus diz:

– Disseste bem, Tomé. Simão fala pouco, mas o pouco que fala, ele o diz sempre bem. Ele tem uma mente pacata e um coração honesto. E, sobretudo, tem uma grande boa vontade. Por isso, Eu o deixei com minha mãe. É um verdadeiro gentil-homem e, ao mesmo tempo, é alguém que sabe viver, que sofreu muito, e que está velho. Por isso, — falo porque suponho que haja aqui alguém a quem lhe pareça injusta a minha escolha — por isso ele era o mais apto para ficar. Eu não podia, Judas, permitir que minha mãe ficasse sozinha ao lado de uma mulher ainda doente. E era justo que a deixasse. A mãe completará a obra iniciada por Mim. Mas Eu não podia nem mesmo deixá-la com os meus irmãos, nem com André, Tiago e João e, menos ainda, contigo. Se não compreendes a razão disso, não sei o que dizer…

– Porque é tua mãe, é jovem, é bela, e o povo…

– Não. As pessoas sempre terão a lama no pensamento, nos lábios e nas mãos, mas especialmente no coração. As pessoas desonestas, que vêem em todos, os sentimentos que elas têm em si. Mas Eu não estou tratando da lama delas.. A lama cai por si mesma depois que seca. Mas Eu preferi Simão, porque já é velho e não teria trazido de novo à lembrança da desolada mulher os seus filhos mortos. Vós jovens os teríeis trazido de novo à lembrança dela com a vossa juventude… Simão sabe velar, sem fazer perceber sua presença, não exige nunca nada, sabe compadecer-se, sabe vigiar sobre si mesmo. Eu podia escolher Pedro. Quem melhor do que ele para ficar perto de minha mãe? Mas ele ainda é muito impulsivo. Vede que Eu estou dizendo isso na cara dele e ele não se perturba com isso. Pedro é sincero e ama a sinceridade, mesmo quando fica prejudicado. Eu poderia escolher Natanael. Mas ele nunca esteve na Judeia. Simão, ao contrário, a conhece bem e será muito útil para guiar a mãe até Keriot. Ele sabe também onde está a tua casa de campo e a da cidade, e não fará…

210.6

– Mas… Mestre! Mas tua mãe irá mesmo à casa da minha?

– Mas Eu já o disse. E, quando uma coisa se diz, se faz. Nós iremos indo devagar, fazendo paradas para evangelizar estes povoados. Não queres que Eu evangelize a tua Judeia?

– Oh! sim, Mestre… Mas eu acreditava… eu pensava…

– Mas, mais do que tudo, tu mesmo buscavas teus sofrimentos nas quimeras com que vives sonhando. Na segunda fase da lua do mês de Ziv, estaremos todos na casa de tua mãe. Nós, quer dizer, também minha mãe com Simão. Por enquanto, Ela está evangelizando Betsur, cidade da Judeia, assim como Joana está evangelizando Jerusalém e, com ela, fazem a mesma coisa uma menina e um sacerdote, que já foi leproso, assim como Lázaro com Marta e o velho Ismael estão evangelizando Betânia, assim como em Juta está evangelizando Sara e, em Keriot certamente está falando do Messias tua mãe. Não podes absolutamente dizer que Eu deixo a Judeia sem quem lhe leve as palavras. Mas, ao contrário, eu dou a ela, fechada e petulante mais que as outras regiões, as palavras mais doces, que são as das mulheres, além das de Isaac, que é santo, e as de Lázaro, meu amigo. As mulheres, que às palavras unem aquela arte própria da mulher, que é mestra em levar as almas para o ponto que quer. Não dizes mais nada? Por que é que estás quase chorando, menino caprichoso? Que te adianta viveres te envenenando com as sombras? Tens ainda motivo para inquietações? Vamos! Fala…

– Eu sou mau… e Tu és tão bom. Tua bondade sempre me impressiona, porque é sempre tão serena, tão nova… Eu… eu nada sei dizer, quando a encontro em meu caminho.

– Disseste a verdade. Nem o podes saber. Mas é porque não é nem serena, nem nova. Ela é eterna, Judas. Ela é onipresente, Judas…

210.7

Oh! Estamos chegando às vizinhanças de Hebron, e Maria e Salomé, com André, nos estão fazendo grandes gestos. Vamos. Estão falando com uns homens. Devem ter-lhes perguntado onde é que ficam os lugares históricos. Tua mãe rejuvenesce, meu irmão, com esta reevocação!

Judas Tadeu sorri ao Primo, que por sua vez também sorri.

E Pedro:

– Rejuvenescemos todos! Parece-me estar na escola. Mas é uma bela escola! Melhor do que a daquele resmungão do Eliseu. Lembras-te dele, Filipe? Mas também aprontávamos das nossas! Aquela história das tribos! “Dizei as cidades das tribos!”… “Não as dissestes em coro… Tornai a dizer…” “Simão, pareces uma rã adormecida. Ficas sempre atrás dos outros. Começai de novo.” Ai de mim. Eu me havia transformado todo em nomes de cidades de tempos muito remotos e não sabia mais nada. Mas aqui! Aqui se aprende de verdade! Sabes, Margziam? Qualquer dia destes, o teu pai vai fazer o exame, pois agora ele sabe…

Todos se riem, enquanto vão indo na direção de André e das mulheres.

Detalhe

André intervém em 210.2, mas é sobretudo Tomé que vai falar com Judas de EMV 210.2 a 210.4 inclusive.

Maria de Alfeu e Maria de Salomé participam na conversa, mas escapam com André em 210.4, quando a conversa entre os dois apóstolos aquece. Voltam a ser mencionadas em 210.7 com o irmão de Simão Pedro.

Anotação

Maria de Cléofas: Maria, filha de Cléofas e mulher de Alfeu. Em Nazaré, havia várias "Maria de Alfeu". Para os tornar mais precisos, foi utilizado um segundo elo de parentesco ou de filiação. Encontramos esta diversidade nos relatos evangélicos: Judas, irmão de Tiago, Judas, o homem (isch) de Kerioth.

Esta mulher era muito infeliz. Elise, a mãe aflita. Ver o capítulo anterior.

Os vales de Jerusalém e muitos outros ressoam com os cânticos de louvor dos que foram curados. Cf. EMV 199.3/5.

Agradamos às discípulas indo ver o túmulo de Abraão, a sua árvore: O túmulo dos patriarcas: O carvalho de Mambré perto de Hebron (Génesis 13,18). Perto dali, Abraão adquiriu a gruta de Macpela, onde sepultou a sua mulher Sara (Génesis 23,19). Ele próprio foi aí sepultado (Génesis 25,8-9). Ver os textos bíblicos abaixo.

O túmulo de Jessé: Em Hebron, o túmulo de Jessé, pai de David, e da sua avó Rute, a moabita, mulher de Booz, são honrados.

Diz-seque é o lugar onde Adão viveu e onde Abel foi morto ... São tradições judaicas (por vezes embelezadas) que encontram eco nos Padres da Igreja (São Jerónimo, Orígenes, Santo Amboise, etc.).

Quiseste entrar na gruta malcheirosa de En-Dor: ver EMV 188.

Joana evangeliza Jerusalém e com ela uma rapariga e um sacerdote: trata-se de João, o sacerdote, e de Anália. Ver EMV 199.4-5 e EMV 199.6.

Livro do Génesis 13, 18

Gn 13, 18 : Abrão armou as suas tendas e foi habitar nos carvalhos de Mambré, que estão em Hebron, e ali construiu um altar a Javé.

Livro do Génesis 23, 19

Gn 23, 19 : Depois disso, Abraão sepultou Sara, sua mulher, na gruta de Macpela, em frente de Mambré, que é Hebron, na terra de Chanaan.

Livro do Génesis 25, 8-9

Gn 25, 8-9 : Abraão morreu numa velhice feliz, idoso e cheio de dias, e foi reunido ao seu povo. 9 Isaac e Ismael, seus filhos, sepultaram-no na gruta de Macpela, no campo de Efrom, filho de Seor, o hitita, que fica em frente de Mambré.

EMF 211.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Todos estão sentados em círculo num pequeno bosque perto de Hebron e, enquanto estão comendo, conversam uns com os outros. Judas, agora que tem certeza de que Maria irá à casa de sua mãe, voltou às suas melhores disposições de espírito, e está procurando cancelar a lembrança dos seus maus humores no trato com os seus companheiros e as mulheres, com mil cortesias. Ele deve ter andado pelo povoado para fazer compras e conta que encontrou o lugar muito diferente do que era, do ano passado para cá:

– A notícia da pregação e dos milagres de Jesus chegou até aqui. E o povo começou a refletir sobre muitas coisas. Tu sabes, Mestre, que por estes lados há uma propriedade de Doras? Também a mulher de Cusa tem aqui nestes montes algumas terras e um castelo que é propriedade dela, um dote que recebeu. Vê-se que, um pouco ela e um pouco os camponeses de Doras, pois aqui devem estar alguns deles vindos de Esdrelon, prepararam o terreno. Ele, Doras, mandou que eles se calassem. Mas eles!… Eu acho que, nem diante dos tormentos, ficariam calados. Causou grande espanto a morte do velho fariseu, sabes? E também a ótima saúde de Joana, que veio até aqui antes da Páscoa. Ah! E depois, para servir a Ti, esteve também aqui o amante da Aglaé. Sabes que ela fugiu, pouco depois de termos passado por aqui? E que ele virou um demônio contra muitos inocentes, para vingar-se? E de tal modo, que os pobres começaram a pensar em Ti como em um libertador dos oprimidos e te desejam. Quero dizer os melhores…

– Libertador dos oprimidos! De fato Eu sou. Mas num sentido sobrenatural. Ninguém tem uma visão justa de Mim entre aqueles que me vêem com o cetro e o machado na mão, como um rei ou um justiceiro, segundo o espírito da terra. Mas é certo que vim para libertar das opressões. Do pecado, a mais grave, das doenças, das desolações; das ignorâncias e do egoísmo. Muitos terão que aprender que não é justo oprimir porque a sorte os colocou no alto. Mas que, pelo contrário, se deve usar essa alta posição para elevar quem está embaixo.

– Lázaro faz isso e também Joana. Mas são dois contra centenas… –diz desoladamente Filipe.

– Os rios não são largos na nascente, como o são em sua desembocadura. Poucas gotas, um fio de água, mas depois… Há rios que parecem mares em sua foz.

– Como o Nilo, não é? Tua mãe me falava coisas de quando estiveste no Egito. Ela sempre me dizia: “É um mar, podes crer, um mar verde-azul. Vê-lo, no tempo das cheias, até parece um sonho!”, e ela me falava das plantas, que pareciam levantar-se da água, e também de todo aquele verdor, que parecia ter nascido da água, quando ela baixava… –diz Maria de Alfeu.

– Pois bem, Eu vo-lo digo: Como acontece com a torrente do Nilo, que antes era um fio d’água, e depois se torna o gigante que é, assim também o que agora é um fiozinho na grossura, que se inclina com amor e por amor para os pequeninos, se tornará em seguida uma grande multidão. Joana, Lázaro, Marta, e depois, quantos, quantos!

Jesus vê esses que serão misericordiosos para com os irmãos, e sorri, absorto em sua visão.

211.2

Judas confidencia que o sinagogo queria vir com ele, mas que ele não se atreveu a tomar uma decisão por si mesmo:

– Tu te lembras, João, como ele nos expulsou[1] no ano passado?

– Sim, eu me lembro… Mas digamos isto ao Mestre.

E Jesus, tendo sido interrogado, diz que eles entrarão em Hebron. Se os quiserem, se os chamarem, pararão lá. Senão, passarão adiante, sem parar:

– Assim, nós veremos também a casa do Batista. De quem ela é agora?

– De quem a quiser, penso eu. Shamai foi-se embora e não voltou mais. Ele levou seus empregados e móveis. Os moradores, para se vingarem de suas injustiças, derrubaram o muro e a casa agora é de todos. Pelo menos, o jardim. Lá se reúnem para venerarem o Batista. Dizem que Shamai tenha sido assassinado. Não sei porque… parece que por causa de mulheres…

– Alguma trama podre da corte, certamente!… –murmura Natanael por entre a barba.

Anotação

Judas, agora que tem a certeza de que Maria irá ter com a sua mãe, voltou a ter um melhor estado de espírito. Judas estava de péssimo humor naEMV 210.

Até a mulher de Kuzah tem terras e um castelo aqui nestas montanhas que lhe pertencem pessoalmente, como parte do seu dote. Provavelmente o castelo de Béther.

A morte do velho fariseu deixou o povo estupefacto, sabiam? Cf. a morte dramática de Doras em EMV 126.10.

Tal como a excelente saúde de Joana. Cf. a cura de Joana de Kouza em EMV 102,7.

Judas confidenciou que o chefe da sinagoga queria vir com ele, mas que não se atrevia a tomar essa decisão sozinho: "Lembras-te, João, de como ele nos afugentou no ano passado?" Cf. EMV 77.8.

EMF 211.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Trazei-me os vossos doentes, e depois reuni-vos neste jardim abandonado e profanado pelo pecado, depois de ter sido feito um templo pela Graça que nele habitou.

Os hebronitas partem dali em todas as direções, como andorinhas, e fica só o sinagogo, que entra com Jesus e os discípulos até para lá do muro do jardim, indo à sombra de uma trepadeira misturada com roseiras e videiras, que ali cresceram, como bem lhes pareceu. Os hebronitas apressam-se em voltar. E com eles já vem sendo trazido um paralítico em uma padiola, uma jovem cega, um mudinho e dois doentes que eu não sei o que têm, e que vêm acompanhados pelos que os ajudam.

– A paz esteja contigo –diz Jesus, saudando a cada um dos doentes, que vão se aproximando dele.

E, depois, a doce pergunta:

– Que quereis que Eu vos faça?

E aí vem o coro das lamentações desses infelizes e no qual cada um quer contar a sua própria história.

Jesus, que estava sentado, levanta-se, e vai até o mudinho, cujos lábios Ele molha com sua saliva, e lhe diz a grande palavra:

– Abre-te.

E, enquanto a diz, molha também as pálpebras não separadas da cega com o dedo ainda molhado de saliva. Depois dá a mão ao paralítico, e lhe diz:

– Levanta-te!

E, por fim, impõe a mão aos dois doentes, dizendo:

– Ficai sãos, em nome do Senhor!

E o mudinho, que antes só gemia, diz agora claramente:

– Mamãe! –enquanto que a jovem já bate as pálpebras, agora abertas para a luz, e faz com os dedos um abrigo contra o sol, que ela ainda não conhecia, e chora e ri, esfregando os olhos, porque não está acostumada com a luz, e olha de novo para as copas das árvores, para a terra, para as pessoas e para Jesus.

O paralítico desce com facilidade da padiola, e os seus bondosos portadores a levantam agora vazia, para mostrar aos que estão longe que a graça fora concedida, enquanto os dois doentes estão chorando de alegria, e se ajoelham para venerar ao seu Salvador.

A multidão está fazendo uma alvoroço frenético de hosanas. Tomé, que está perto de Judas, olha para ele de um modo tão intenso, e com uma expressão tão clara, que ele lhe responde:

– Eu era um estulto, perdoa-me.

Anotação

Tomé, que está ao lado de Judas, olha-o tão intensamente e com uma expressão tão clara que Judas responde: "Fui um louco, perdoa-me". Isto segue-se a uma discussão entre Tomé e Judas, na qual o Iscariotes acusa Jesus de já não fazer milagres. Cf. EMV 210.

EMF 213.1-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Vejo o interior da sinagoga de Keriot. No mesmo lugar em que Saul foi estendido no chão, morto, depois de ter visto a futura gloria de Cristo. E neste lugar, num grupo compacto, do qual emergem Jesus e Judas — que são os mais altos, e ambos com os rostos cintilantes, um por causa do seu amor e o outro pela alegria de ver que a sua cidade é sempre fiel ao Mestre e que se honra com a pompa e as honrarias que lhe são prestadas, — aí estão os notáveis de Keriot e, depois, mais longe de Jesus, mas apinhados como sementes em uma sacola, os moradores estão enchendo tanto a sinagoga, que mesmo estando abertas as suas portas, nela mal se pode respirar. E, para lhe prestarem suas honras, para ouvirem o Mestre, acabam por fazerem todos uma grande confusão, e um barulho tal, que já não se pode ouvir nada.

Jesus suporta tudo aquilo, e se cala. Mas os outros se inquietam, dão gritos, e dizem:

– Silêncio!

Contudo, o grito deles se perde no meio do grande barulho, como um grito lançado sobre uma praia, em hora de tempestade.

Judas, porém, não fica só em palavras. Ele sobe numa cadeira alta e começa a bater umas nas outras as lâmpadas que estão penduradas em feixes. O metal oco ressoa, as correntinhas retinem como instrumentos musicais, ao baterem também umas nas outras. Então as pessoas se acalmam e, finalmente, se pode ouvir Jesus falar.

Ele diz ao sinagogo:

– Dá-me o décimo rolo daquela estante.

E, tendo-o recebido, o desenrola e o dá ao sinagogo, dizendo:

– Lê o capítulo 4º do livro II dos Macabeus.

Obediente, o sinagogo lê. E as vicissitudes de Onias, e os erros de Jasão, as traições e furtos de Menelau vão passando assim diante do pensamento dos presentes. O capitulo terminou. O sinagogo olha para Jesus, que o ficou escutando atentamente.

213.2

Jesus faz sinal de que basta, e depois, se dirige ao povo:

– Na cidade do meu caríssimo discípulo Eu não vou dizer minhas costumeiras palavras de ensinamento. Permaneceremos aqui alguns dias e Eu quero que seja ele quem vo-las diga. Porque daqui é que Eu quero que tenha começo o contato direto, o contato contínuo entre os apóstolos e o povo. Isso foi decidido lá na alta Galileia, e lá já começou a brilhar. Mas a humildade dos meus discípulos fez que depois eles se retirassem para a sombra, porque eles têm medo de não saberem fazê-lo bem e de ficarem usurpando o meu lugar. Não. Eles devem fazê-lo, e o farão bem, e ajudarão ao seu Mestre. Aqui, pois, unindo em um único amor os confins da Galileia e da Fenícia com as terras de Judá, que são as mais meridionais e se limitam com os países do sol e das areias, aqui é que deve ter começo a verdadeira pregação apostólica. Porque o Mestre já não basta para atender às necessidades das multidões. E porque é justo que as águiazinhas deixem o ninho e dêem os seus primeiros vôos, enquanto o sol está com elas, e as asas robustas dele as sustentam.

Por isso Eu, nestes dias, serei vosso amigo e vosso conforto. Eles serão a palavra, e irão espargindo as sementes que Eu lhes dei. Eu não direi por isso, palavras de ensinamento público, mas vos darei uma coisa privilegiada. Uma profecia. Eu vos peço que vos lembreis dela pelos tempos futuros, quando o acontecimento mais horrível da História tiver ofuscado o sol e, nas trevas, pode ser que os corações sejam arrastados a um julgamento errado. Não quero que vós sejais induzidos a erro, vós, que, desde os primeiros momentos, fostes bons para comigo. Não quero que o mundo possa dizer “Keriot foi inimiga de Cristo.” Eu sou justo. Não posso permitir que a crítica, tanto a invejosa, como a enamorada de Mim, possa, cada uma delas incentivada por seus sentimentos, acusar-vos de culpas contra Mim. E, assim como não se pode, em uma família numerosa, pretender que os filhos sejam iguais em santidade, assim também não se pode pretender que o sejam os habitantes de uma cidade populosa. Mas seria uma grande falta de caridade, se alguém dissesse, por causa de um filho mau, ou por causa de um dos habitantes, que não era bom: “Toda a família, ou toda a cidade está amaldiçoada.”

Portanto, ouvi, e lembrai-vos disso, sede sempre fiéis e, como Eu vos amo tanto, que quero defender-vos de qualquer acusação injusta, assim, vós, procurai saber amar aos que não têm culpa. Sempre. Sejam quem forem. Seja qual for o parentesco que eles tenham com os culpados.

213.3

Agora, escutai. Virá um tempo em que em Israel aparecerão delatores do tesouro e da pátria, e eles, na esperança de se tornarem amigos dos estrangeiros, falarão mal do verdadeiro Sumo Sacerdote, acusando-o de aliança com os inimigos de Israel, e de atos maus contra os filhos de Deus. E, para conseguirem isso, serão capazes de cometer delitos e de atribuir a responsabilidade por eles ao Inocente. E tempo virá, sempre em Israel, no qual, mais ainda que nos tempos de Onias, um infame, conspirando para ser ele o Pontífice, irá procurar os poderosos de Israel e os corromperão com o ouro, ainda mais infame, de suas palavras mentirosas e, ao mesmo tempo, alterará a verdade dos fatos; não falará contra as culpas, mas, pelo contrário, irá atrás de suas indignas metas, pôr-se-á a corromper os costumes, para ter, como presas mais fáceis, os espíritos privados da amizade com Deus. Tudo para atingir a sua meta. E conseguirá. Oh! Com certeza! Porque, se na própria morada do monte Moriá não estão mais os ginásios do ímpio Jasão, eles estão nos corações dos habitantes do monte que, como garantia, estão dispostos a vender uma coisa que é bem mais do que um terreno, e que é a própria consciência deles. Os frutos do erro antigo são vistos agora e, quem tiver olhos para ver, verá isso acontecer no lugar onde deveria haver caridade, pureza, justiça, bondade, religião santa e profunda. Mas, se esses são os frutos que já fazem tremer, os frutos nascidos das sementes destes não só serão objeto de tremor, mas de maldição divina.

E eis-nos chegados à verdadeira profecia. Em verdade Euvos digo: Por aquele que se apoderou de um posto e da confiança, por meio de jogadas calculadas e astutas é que será entregue, por dinheiro, às mãos dos inimigos, o Sumo Sacerdote, o Verdadeiro Sacerdote. Arrastado para a cilada por meio de um gesto de afeto, será mostrado aos carrascos por meio de um gesto de amor, e Ele será morto sem preocupações com a justiça. Que acusações serão feitas a Cristo, pois é de Mim que estou falando, para justificarem o direito de matá-lo? E que sorte estará reservada para os que isso fizerem? Uma sorte, na mesma hora e de horrível justiça. Uma sorte não individual, mas coletiva, para os cúmplices do traidor. Uma sorte mais distante, e ainda mais horrível do que a do homem que o remorso levará a coroar o seu espírito de demônio com um último delito contra si mesmo. Porque aquilo em um momento terminará. Mas este último castigo será longo, terrível. Encontrai-o nesta frase: “E, aceso em ira, ordenou que Andrônico fosse despojado de sua púrpura e morto no lugar onde havia cometido a impiedade contra Onias.” Sim. A raça sacerdotal será punida em seus filhos e também nos executores. E o destino da massa de cúmplices, podeis lê-lo nestas[2] palavras. “A voz deste sangue grita a Mim da terra. Agora, pois, tu serás maldito…” E ela será dita por Deus a todo um povo que não terá sabido guardar o dom do Céu. Porque, se é verdade que Eu vim para redimir, ai daqueles que forem assassinos, e não redimidos, no meio deste povo, que recebeu como primeira redenção a minha Palavra.

Já o disse. Lembrai-vos disso. E, quando ouvirdes dizer que Eu sou um malfeitor, dizei: “Não. Ele já o disse. Isto é o que foi marcado e se está cumprindo. Ele é a Vítima morta pelos pecados do mundo…”

213.4

A sinagoga se esvazia, e todos saem falando e gesticulando, e o seu assunto é a profecia e a estima que Jesus tem por Judas. Os habitantes de Keriot estão exaltados pela honra que lhes deu o Messias, ao escolher a terra de um apóstolo, e logo do apóstolo de Keriot, para iniciar lá o ministério apostólico, e começando pelo dom da profecia. Ainda que seja triste, é uma grande honra tê-la ouvido e, ainda mais, com as palavras de amor que a precederam…

Na sinagoga ficam Jesus e os grupo dos apóstolos. E passam para o pequeno jardim, que fica entre a sinagoga e a casa do sinagogo. Judas sentou-se e está chorando.

– Por que estás chorando? Não vejo motivo para isso… –diz o outro Judas.

– Mas vede bem. Quase que eu faria também o que ele está fazendo. Vós ouvistes? Agora é preciso que falemoos nós… –diz Pedro.

– Mas nós já falamos um pouco lá no monte. Sempre o iremos fazendo melhor. Tu e João logo já fostes capazes –diz Tiago de Zebedeu para encorajar.

– O pior é comigo… mas Deus me ajudará. Não é mesmo, Mestre? –pergunta André.

Jesus estava enrolando os rolos, que ia levando consigo, vira-se e diz:

– Que é que estáveis dizendo?

– Que Deus me ajudará, quando eu tiver que falar. Eu procurarei repetir as tuas palavras do melhor modo que eu puder. Mas meu irmão está com medo e Judas está chorando.

– Estás chorando? Por quê? –pergunta Jesus,

– Porque verdadeiramente eu pequei. André e Tomé o podem dizer. Eu falei mal de Ti e Tu me fizestes bem, ao chamar-me de “caríssimo discípulo” e querendo que eu seja mestre aqui… Quanto amor!…

– Não sabias que Eu te amava?

– Sim. Mas… Obrigado, Mestre. Não murmurarei nunca mais, porque realmente eu sou as trevas e Tu és a Luz.

O sinagogo volta, convidando-os a entrar em casa e, enquanto vai, ele diz:

– Estou pensando nas tuas palavras. Se eu compreendi bem, assim como encontraste em Keriot um predileto, nosso Judas de Simão, também profetizas que aqui encontrarás um indigno. Isso me aflige. Mas, menos mal, porque Judas compensará o outro…

– Com todo o meu ser –diz Judas, que já recobrou o domínio de si mesmo.

Jesus nada diz, mas olha para os seus interlocutores, e faz um gesto, abrindo os braços, como para dizer: “Assim é.”

Detalhe

Jesus está em Queriote, no interior da sinagoga. Depois de a multidão se ter acalmado graças a Judas, anuncia o início da pregação apostólica e faz uma profecia aos habitantes de Queriote, anunciando que haverá um homem indigno que o trairá. Jesus quer protegê-los de uma acusação injusta, porque Kerioth não é inimiga de Cristo: quer, por isso, que ela deseje as suas palavras para que, quando chegar o dia, respondam aos seus inimigos que ele previu todos estes acontecimentos e que é a Vítima redentora. Uma vez que Judas e o chefe da sinagoga reagem ao seu discurso, estamos a repor toda esta passagem.

Anotação

Vejo o interior da sinagoga de Kerioth, no mesmo sítio onde o morto Saul se deitou no chão depois de ter visto a glória futura de Cristo. Em EMV 78.

O chefe lê. E assim passam diante do público as provações de Onias, os erros de Jasão, as traições e os roubos de Menelau. O capítulo está terminado. O leitor olha para Jesus, que estava a ouvir atentamente. Cf. o segundo livro dos Macabeus, 2 M 4.

Quero que se inicie um contacto direto, um contacto contínuo entre os apóstolos e o povo. Isso foi decidido na Alta Galileia e aí se viu a primeira luz. Jesus enviou-os a pregar pela primeira vez em EMV 166,2-3. Fazem o seu primeiro sermão em EMV 166,4-12 (especialmente Simão, o Zelota, e João). Foi perto da casa de Eliseu, na Judeia, que Jesus declarou que já não era suficiente para satisfazer as necessidades das multidões(EMV 209,5).

Quanto ao destino da massa de cúmplices, podemos lê-lo nestas palavras: "A voz deste sangue clama a mim desde a terra. Por isso, sereis amaldiçoados...". E é Deus quem vai pronunciar estas palavras a todo um povo que não protegeu o dom do Céu. Pois se é verdade que vim para redimir, ai daqueles que serão assassinos e não serão redimidos, entre este povo cuja primeira redenção foi a minha Palavra. Cf. Gn 4,10-11 abaixo.

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Segundo Livro dos Macabeus, 4

2 M 4 : Simão, o informador do tesouro e do seu país, falou mal de Onias: foi ele, disse, que tinha incitado Heliodoro e que era o autor de todo o mal. O benfeitor da cidade, o defensor dos seus concidadãos e o fiel observador das leis, atrevia-se a fazer dele um adversário do Estado. Este ódio foi tão longe que um dos apoiantes de Simão cometeu assassínios. Então Onias, considerando o perigo destas divisões e das explosões de Apolónio, o governador militar da Coele-Síria e da Fenícia, que encorajava a maldade de Simão, foi falar com o rei, não para acusar os seus concidadãos, mas tendo em vista os interesses gerais e particulares de todo o seu povo. Pois via que, sem a intervenção do rei, seria impossível pacificar a situação, e que Simão não desistiria das suas aventuras criminosas.

Mas, após a morte de Seleuco, sucedeu-lhe Antíoco, apelidado de Epífanes, e Jasão, irmão de Onias, tentou usurpar o pontificado. Num encontro com o rei, prometeu-lhe trezentos e sessenta talentos de prata e oitenta talentos retirados de outras receitas. Prometeu também comprometer-se por escrito a pagar mais cento e cinquenta talentos, se lhe fosse permitido estabelecer, por sua própria autoridade e de acordo com os seus desejos, um ginásio com um ephebæum e registar os habitantes de Jerusalém como cidadãos de Antioquia. O rei concordou com tudo. Logo que Jasão obteve o poder, começou a introduzir os costumes gregos entre os seus concidadãos. Aboliu os privilégios que os reis, por humanidade, tinham concedido aos judeus graças à iniciativa de João, pai de Eupólemo, que tinha sido enviado numa embaixada para concluir um tratado de aliança e amizade com os romanos, e, destruindo as instituições legítimas, estabeleceu costumes contrários à lei. Tinha prazer em fundar um ginásio no sopé da Acrópole e educava as crianças mais nobres colocando-as debaixo do seu chapéu. O helenismo cresceu então de tal forma e a inclinação para os costumes estrangeiros, em consequência da excessiva perversidade de Jasão, homem ímpio e de modo algum sumo sacerdote, que os sacerdotes já não mostravam qualquer zelo pelo serviço do altar e, desprezando o templo e negligenciando os sacrifícios, apressavam-se a participar, na palaestra, nos exercícios proscritos pela lei, logo que se ouvia o apelo para lançar o disco. Não prestando atenção às honras do seu país, tinham em grande estima as distinções dos gregos. Em conseqüência, sobrevieram-lhes graves calamidades, e no próprio povo cujo modo de vida imitavam e ao qual desejavam assemelhar-se em tudo, encontraram inimigos e opressores. Pois não se viola impunemente as leis divinas; mas isso é o que os acontecimentos posteriores demonstrarão.

Enquanto se celebravam em Tiro os jogos quinquenais, aos quais o rei assistia, o criminoso Jasão enviou espectadores de Jerusalém, que eram cidadãos de Antioquia, trazendo trezentas dracmas de prata para o sacrifício de Hércules; mas os que as traziam pediram que o dinheiro fosse usado, não para os sacrifícios, o que não era apropriado, mas para cobrir outras despesas. Assim, as trezentas dracmas foram de facto destinadas por quem as enviou para o sacrifício em honra de Hércules; mas foram usadas, de acordo com o desejo de quem as trazia, para a construção de trirremes.

Apolónio, filho de Menesteu, tendo sido enviado para o Egito por ocasião da entronização do rei Ptolomeu Filometor, Antíoco soube que o rei lhe era desfavorável e, desejando ficar a salvo dele, foi para Jope e depois para Jerusalém. Recebido magnificamente por Jasão e por toda a cidade, fez a sua entrada à luz de tochas e entre aclamações; depois conduziu o seu exército para a Fenícia da mesma forma.

Passados três anos, Jasão enviou Menelau, o irmão de Simão acima mencionado, para levar o dinheiro ao rei e pagar as taxas de registo para assuntos importantes. No entanto, Menelau recomendou-se ao rei, honrou-o como um homem de alta posição e fez com que lhe fosse atribuído o pontificado soberano, oferecendo trezentos talentos de prata a mais do que Jasão. Depois de ter recebido do rei as cartas de investidura, regressou a Jerusalém sem nada digno do sacerdócio, mas com os instintos de um tirano cruel e a fúria de uma fera selvagem. Assim, Jasão, que tinha enganado o seu próprio irmão, enganado por sua vez por outro, teve de fugir para a terra dos amonitas. Quanto a Menelau, obteve o poder; mas, como não cumpriu a soma prometida ao rei, apesar das queixas de Sostrato, comandante da Acrópole, responsável pela cobrança dos impostos, ambos foram convocados ao rei.

Menelau deixou o seu irmão Lisímaco no seu lugar como sumo sacerdote, e Sostrato deixou Crates, governador de Chipre, como seu substituto. Entretanto, os habitantes de Tarso e de Mallas revoltaram-se, porque estas duas cidades tinham sido oferecidas como presentes a Antíoco, a concubina do rei. Por isso, o rei partiu apressadamente para reprimir a sedição, tendo deixado Andrónico, um dos grandes dignitários, como seu lugar-tenente. Menelau, julgando que as circunstâncias eram favoráveis, retirou do templo alguns vasos de ouro e entregou-os a Andrónico, conseguindo vender outros a Tiro e às cidades vizinhas.

Quando Onias teve a certeza de que Menelau tinha cometido este novo crime, censurou-o por isso, depois de se ter retirado para um lugar de refúgio em Dafne, perto de Antioquia. Menelau, então, chamou Andrónico à parte e instou-o a matar Onias. Andrónico foi então ter com Onias e, usando de artifícios, jurou sobre a sua mão direita; depois, embora desconfiado, convenceu-o a sair do seu refúgio e matou-o imediatamente, sem qualquer respeito pela justiça. Assim, não só os judeus, mas também muitas outras nações ficaram indignadas e tristes com o assassinato injusto desse homem.

Quando o rei regressou da Cilícia, os judeus de Antioquia, juntamente com os gregos que também eram inimigos da violência, foram ter com ele por causa do assassínio injusto de Onias. Antíoco ficou profundamente triste e, movido pela compaixão por Onias, derramou lágrimas ao lembrar-se da moderação e da conduta sábia do falecido. Vermelho de cólera, mandou imediatamente despojar Andrónico da sua púrpura, rasgou-lhe as vestes e, depois de o ter feito percorrer toda a cidade, degradou o patife no próprio lugar onde ele tinha perpetrado o seu ímpio atentado contra Onias, tendo o Senhor, assim, infligido-lhe um justo castigo.

Ora, quando Lisímaco, de acordo com Menelau, cometeu um grande número de roubos sacrílegos na cidade, e a notícia se espalhou, o povo levantou-se contra Lisímaco, embora muitos vasos de ouro já tivessem sido espalhados. Quando Lisímaco viu que a multidão se tinha agitado e que os seus ânimos estavam inflamados, armou cerca de três mil homens e começou a cometer actos de violência sob o comando de um certo Tirano, um homem de idade avançada e não menos perverso. Mas quando ouviram falar do ataque de Lisímaco, uns agarraram em pedras, outros em grandes paus, e outros ainda apanharam cinzas que estavam por perto e atiraram-nas tumultuosamente contra os apoiantes de Lisímaco. Assim, feriram muitos dos seus homens, mataram vários deles, puseram todos os outros em fuga e massacraram o próprio sacrílego junto ao tesouro do templo.

Com base nestes factos, iniciou-se então uma investigação contra Menelau. Quando o rei chegou a Tiro, os três homens enviados pelos anciãos explicaram-lhe a justiça do seu caso. Vendo-se convencido, Menelau prometeu a Ptolomeu, filho de Dorymene, uma grande soma de dinheiro para que o rei o favorecesse. Ptolomeu levou então o rei para debaixo do peristilo, como que para se refrescar, e fê-lo mudar de ideias. O rei declarou Menelau inocente das acusações que lhe eram feitas, apesar de ser culpado de todos os crimes, e condenou à morte homens infelizes que, se tivessem defendido a sua causa mesmo perante os citas, teriam sido considerados inocentes; e homens que tinham defendido a cidade, o povo e os objectos sagrados, sofreram sem demora este castigo injusto. Os próprios tírios ficaram indignados e deram às vítimas um magnífico funeral. Quanto a Menelau, graças à cobiça dos poderosos, manteve a sua dignidade, crescendo na malícia e no flagelo cruel dos seus concidadãos.

Livro do Génesis 4, 10-11

Gn 4, 10-11 : O Senhor disse: "Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama desde a terra até mim. Agora és amaldiçoado pela terra, que abriu a boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão".

EMF 214.1-2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus está para ir colocar-se à mesa na bela casa de Judas, junto com todos os seus. E diz à mãe de Judas, que acaba de chegar de sua casa de campo, para hospedar dignamente o Mestre:

– Não, mãe. Tu também precisas estar conosco. Aqui estamos como uma família. Não será este um banquete frio e cerimonioso de hóspedes ocasionais. Eu te tomei um filho, assim como Eu te tomo como mãe, porque és muito digna disso. Não é verdade, amigos, que assim nos sentiremos todos mais contentes e mais à vontade?

Os apóstolos e as duas Marias concordam com prazer. E a mãe de Judas, com um grande brilho em suas pupilas, vai sentar-se entre o seu filho e o Mestre, que tem à frente as duas Marias, com Margziam entre elas. O servente chega com as iguarias, que Jesus oferece e abençoa, depois distribui, pois neste ponto a mãe de Judas é inflexível. E Jesus distribui, sempre começando por ela, o que cada vez mais comove a mulher, enche de orgulho Judas e, ao mesmo tempo, o faz ficar pensativo.

A conversação é sobre diversos assuntos e Jesus procura fazer que se interesse por eles a mãe de Judas, e que ela se familiarize com as duas discípulas.

214.2

Para isso muito ajuda Margziam, que declara já querer muito bem à mãe de Judas, “porque ela se chama Maria, como todas as mulheres que são boas.”

– E àquela, que nos está esperando lá no lago, não quererás bem, meu malvadinho? –pergunta Pedro, meio sério.

– Oh! Muito bem, se ela for boa.

– Disto podes estar certo.

EMF 214.3-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Depois, Judas conta o que fez durante o dia. Compreendi que ele foi avisar à mãe da chegada deles e que depois, começou a falar pelas campinas de Keriot, tendo por companheiro André. Em seguida, ele diz:

– Mas amanhã eu gostaria que viésseis todos: Eu não quero brilhar por mim mesmo. Iremos, quanto possível, um judeu e um galileu. Eu com João, por exemplo e Simão com Tomé. Se o outro Simão viesse! Mas vós dois, (e mostra os filhos de Alfeu), podeis ir juntos. Eu tenho dito, mesmo a quem não queria saber, que vós sois os irmãos do Mestre. E vós dois também (e mostra Filipe e Bartolomeu) podeis ir juntos. Eu tenho dito que Natanael é um rabi que se pôs a acompanhar o Mestre. É uma coisa que impressiona. E… vós três estais sobrando. Mas se Zelotes vier, pode-se fazer uma dupla a mais. Depois nos iremos revezando, porque quero que conheçam a todos vós…

Judas está entusiasmado:

– Eu falei sobre o Decálogo, Mestre, procurando pôr em destaque especialmente aquelas partes nas quais esta região mais falta…

– Não tenhas a mão pesada, Judas. Eu te peço isto. Tem sempre presente que mais consegue a doçura do que a intransigência, e que tu também és homem. Por isso, examina-te, e reflete como é fácil que tu também caias e como te irritas, ao fazeres censuras muito severas –diz Jesus, enquanto a mãe de Judas inclina a cabeça, ficando muito corada.

– Não tenhas medo, Mestre. Eu me esforço por imitar-te em tudo. Mas no povoado, que daqui estamos vendo por aquela porta, (estão comendo com as portas abertas, e vê-se um belo horizonte daqui desta câmara sobrelevada) há um doente que quereria ficar são. Mas, não se pode transportá-lo. Poderias ir comigo?

– Amanhã, Judas. Amanhã cedo, sem falta. E, se houver outros doentes, dizei-me ou trazei-os a Mim.

– Queres mesmo fazer o bem à minha terra, Mestre?

– Sim. Para que não se diga que Eu tenha sido injusto com quem não me fez mal. Eu faço o bem até aos maus! Por que, então, não o faria aos bons de Keriot? Quero deixar uma lembrança indelével de Mim…

– Mas, como? Não voltaremos mais aqui?

– Voltaremos ainda, mas…

214.4

– Aí vem a mãe, a mãe com Simão! –diz o menino, que vê Maria e Simão subindo pela escada que vai para o terraço, no qual está o quarto.

EMF 214.5-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Maria, mãe de Jesus e Maria, mãe de Judas estão juntas. Não na casa da cidade, mas na do campo. Estão sozinhas. Os apóstolos com Jesus estão fora, as discípulas com o menino estão andando pelo pomar e se ouvem suas vozes, unidas ao rumor de panos batidos nos tanques de lavar roupa. Talvez elas estejam fazendo a lavação enquanto o menino está brincando.

A mãe de Judas está sentada num quarto meio escuro ao lado de Maria, e lhe está falando:

– Estes dias de paz ficarão em mim como um doce sonho. Eles são tão breves! Tão breves! Eu compreendo que não devemos ser egoístas e que é justo que vades àquela pobre mulher e a tantos outros infelizes. Mas, se eu pudesse! Se eu pudesse fazer o tempo parar ou, então, ir convosco!… Mas eu não posso. Não tenho outros parentes a não ser meu filho, e devo tomar conta dos bens da casa…

– Compreendo… Separar-te do teu filho é uma dor. Nós mães gostaríamos de estar sempre com os filhos. Mas quando nós os damos por alguma razão bem grande, não os perdemos. Nem mesmo a morte nos tira os filhos, se eles estiverem e se nós estivermos, em graça aos olhos de Deus. Mas nós os temos ainda neste terra, mesmo quando a vontade de Deus no-los tira de nossos seios para dá-los ao mundo para o seu bem. Podemos sempre encontrar-nos com eles e até o eco de suas almas nos faz como que uma carícia ao coração, porque as obras deles são perfume de sua alma.

214.6

– Que é o teu Filho para ti, mulher? –pergunta em voz baixa Maria de Judas.

E Maria, mãe de Jesus, segura responde:

– É a minha alegria.

– A tua alegria!… –e depois vem uma explosão de pranto, enquanto a mãe de Judas se inclina sobre si mesma, como para esconder o pranto. Sua fronte se abaixa quase até os joelhos, de tanto que ela se inclinou.

– Por que estás chorando, minha pobre amiga? Por quê? Dize-o a mim. Eu sou feliz em minha maternidade, mas sei também compreender as mães não felizes…

– Sim. Não felizes! E eu sou uma delas. Teu Filho é a tua alegria…O meu é a minha dor: tem sido, ao menos. Agora, desde quando está com o teu Filho, ele me aflige menos. Oh! Entre todas as que rezam pelo teu santo Filho, para que Ele se saia bem e triunfe, não existe nenhuma, depois de ti, ó bem-aventurada, que reze tanto como esta infeliz, que te está falando… Dize-me a verdade: que pensas tu do meu filho? Nós somos duas mães, uma na frente da outra: entre nós está Deus. E estamos falando de nossos filhos. Tu não podes deixar de achar fácil falar do teu. Eu…eu devo fazer força contra mim mesma para falar do meu. Mas, na verdade, quanto bem, ou quanta dor me pode provir de estar falando dele. Pois, ainda que seja doloroso, sempre será um consolo ter falado.

Aquela mulher de Betsur ficou quase doida, por causa da morte de seus filhos, não foi? Mas eu te juro que, às vezes, pensei e penso, quando olho para o meu Judas belo, sadio, inteligente, mas não bom, não virtuoso, não direito de espírito, não sadio em seus sentimentos, que eu preferiria chorá-lo morto, a sabê-lo… a sabê-lo muito desagradável a Deus. Tu, então, dize-me: Que pensas do meu filho? Sê sincera. Há mais de um ano que esta pergunta me vem queimando o coração. Mas, fazer eu esta pergunta a quem? Aos moradores da cidade? Eles não sabiam ainda que o Messias estava na terra e que Judas queria andar na companhia dele. Eu sabia disso. Ele o havia dito, quando veio aqui depois da Páscoa, exaltado, violento como sempre, quando se apodera dele algum capricho e, como sempre, desprezando os conselhos de sua mãe. Perguntar aos amigos dele de Jerusalém? Uma santa prudência e uma piedosa esperança me detinham de fazer isso. Eu não queria dizer a eles, aos quais não posso amar, porque tudo eles são, menos santos, o seguinte: “Judas está acompanhando o Messias.” E eu esperava que aquele capricho acabasse, como muitos outros, como todos os outros, custando talvez lágrimas e desolações como por mais de uma mocinha que, aqui e em outros lugares ele namorou, pensando em si só e depois jamais tomou por esposa.

Não sabes que há lugares aonde ele não vai mais, porque poderia encontrar lá um justo castigo? Também ser ele do Templo foi um capricho dele. Ele não sabe o que quer. Nunca. O pai dele, Deus lhe perdoe, o estragou. Eu nunca tive voz, diante dos dois homens da minha casa. Eu só tive que chorar, e viver com humilhações de toda sorte… Quando Joana morreu — e, ainda que ninguém o dissesse, eu sei que ela morreu de dor, quando, depois de ter esperado durante toda a sua juventude, Judas declarou que ele não queria mulher, ao passo que depois ficou sabido que ele tinha mandado amigos a Jerusalém para perguntarem a uma mulher rica, e que possuía empórios até Chipre para sua filha — eu tive que chorar muito, muito, por causa das censuras da mãe da mocinha morta, como se eu fosse cúmplice do meu filho. Não. Eu não sou. Mas eu nem sou nada para ele.

No ano passado, quando o Mestre esteve aqui, compreendi que Ele havia entendido… e quis falar com ele. Mas é doloroso e ainda mais para uma mãe, é doloroso ter que dizer: “Temei o meu filho: é um avarento, um duro de coração, um viciado, um soberbo, um inconstante.” E ele é isto. Eu… eu rezo para que teu Filho faça um milagre, Ele que faz tantos, faça um milagre sobre meu Judas… Mas tu, dize-me tu: que é que pensas dele?

214.7

Maria, que, nesse meio tempo ficou calada e com uma expressão de dor e piedade, diante deste lamento materno, ao qual seu espírito reto não pode desmentir, diz em voz baixa:

– Pobre mãe!… Que é que eu penso? Sim, o teu filho não é aquela alma límpida de João, nem manso como André, nem firme como Mateus, que quis mudar, e mudou. É… instável, sim, é assim. Mas nós rezaremos muito por ele, eu e tu. Não chores. Talvez no teu amor de mãe, que gostaria de gloriar-se de seu filho, tu o estejas vendo mais disforme do que é…

– Não! Não! Eu vejo o que é verdade e fico com muito medo.

O quarto está cheio com os lamentos e o pranto da mãe de Judas e, naquela meia escuridão, o rosto branco de Maria fica parecendo mais pálido, depois dessa confissão materna, que faz que se tornem evidentes aquelas coisas de que já suspeitava a mãe do Senhor.

Mas ela se domina. Atrai a si aquela mãe não feliz, e a acaricia, enquanto esta, tendo rompido os diques de toda reserva, vai narrando, de modo confuso e cansativo, todas as durezas, exigências e violências de Judas, e termina dizendo:

– Eu fico envergonhada por causa dele, quando me vejo tratada, como se fosse merecedora dos atos de amor do teu Filho! Eu não os peço. Mas tenho a certeza de que, além de os fazer por sua bondade, Ele os faz, mais para dizer, com aqueles gestos, a Judas: “Lembra-te de que é assim que se trata a mãe.” Agora, neste momento, ele parece muito bom… Oh! Se fosse verdade! Ajuda-me, ajuda-me com a tua oração, tu, que és santa, para que o meu filho não seja indigno da grande graça que Deus lhe concedeu! Se ele não me quer amar, não sabe ser agradecido a mim que o dei à luz e o criei, não é nada. Mas que ele saiba amar realmente a Jesus, que saiba servi-lo com fidelidade e reconhecimento. Se assim não for… então, que Deus lhe tire a vida. Eu prefiro vê-lo no sepulcro… eu o teria para mim finalmente porque, desde que chegou ao uso da razão, muito pouco ele foi meu. Melhor morto do que um mau apóstolo. Posso rezar assim? Que achas?

– Reza ao Senhor que faça o que for melhor. Não chores mais. Eu já vi meretrizes e pagãos aos pés do meu Filho, e com eles publicanos e pecadores. Tornaram-se todos cordeiros, pela sua Graça. Espera, Maria, espera. Os sofrimentos das mães salvam os filhos, não sabes disso?

E, com esta piedosa pergunta, tudo termina

EMF 215.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Ouço também que estão falando da nova excursão que vão fazer, indo para as férteis planícies, que ficam perto da beira-mar. Os nomes das glórias passadas vêm à tona, relembram-se histórias, fazem-se perguntas, dão-se explicações e travam-se discussões pacíficas.

– Quando estivermos no cume deste monte, Eu vos mostrarei lá do alto todas as regiões que vos interessam. Delas podereis tirar pensamentos para as palavras que ireis dizer ao povo.

– Mas, como haveremos de fazer isso, Senhor? Eu não sou bom para isso –geme André, e a ele se associam Pedro e Tiago–. Nós somos os mais incapazes!

– Oh! Para isso eu também não sou melhor. Se fosse de ouro e prata, eu poderia falar, mas destas coisas… –diz Tomé.

– E eu? quem era eu? –pergunta Mateus.

– Mas tu não tens medo do publico, tu sabes discutir –replica André.

– Mas é sobre outros assuntos –responde Mateus.

– Ah! Isso é!… Mas… Afinal tu já sabes o que eu quero dizer, e faze de conta que eu já tenha dito. A verdade é que tu vales mais do que nós –diz Pedro.

– Mas, meus caros, não há necessidade de tratar de coisas muito altas. Dizei simplesmente aquilo que pensais, mas com a vossa convicção. Podeis crer que, quando alguém fala com convicção, persuade sempre –diz Jesus.

E Judas de Keriot suplica:

– Dá-nos, Tu, muitas dicas. Pois uma ideia bem sugerida pode servir para muitas coisas. Estes lugares ficaram sem nenhuma palavra a respeito de Ti, penso eu. Porque ninguém aqui dá sinais de conhecer-te.

– É porque por aqui passa muito aquele vento que vem do monte Moriá…Ele produz esterilidade –responde Pedro.

– É porque aqui ainda não se semeou nada. Mas nós semearemos –retruca Iscariotes, seguro, sentindo-se feliz com seus primeiros bons êxitos.

Detalhe

O grupo apostólico discute em conjunto.

Anotação

«Estes lugares, creio eu, continuam sem saber nada sobre ti porque ninguém dá a entender que te conhece.

– É porque aqui ainda sopra muito vento que vem do monte Moriah… Ora, esse vento seca tudo…» responde Pedro.

O Monte Moriah é aquele do Templo de Jerusalém. Pedro usa esta imagem para dizer que as pessoas do Templo alertam os habitantes da região contra Jesus.

EMF 216.2-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus vai, pois, pelo meio das messes. O dia está quente. A região, deserta. Não se vê um homem pelos campos. Só espigas maduras e árvores aqui e ali. Sol, grãos, passarinhos, lagartixas, moitas verdes, com as folhas imóveis no ar tranquilo: isto é o que eu vejo ao redor de Jesus. Para os lados das duas extremidades da estrada mestra, que Jesus vai percorrendo, e que é como uma fita poeirenta e deslumbrante, por entre o ondular dos trigais, há de um lado um pequeno povoado e do outro uma fazenda. Nada mais.

Todos vão andando em silêncio, sob o intenso calor. Eles tiraram seus mantos, mas certamente ainda estão sentindo calor como antes, pois estão com roupas de lã, ainda que leves. Só Jesus, os dois primos e Judas Iscariotes é que estão vestidos de linho branco ou cânhamo. Com certeza, a veste de Jesus e a de Iscariotes são de linho branco. As outras, dos filhos de Alfeu, pela sua espessura me parecem mais pesadas do que as de linho e são tingidas com uma cor de marfim carregada, justamente como a que tem o cânhamo, quando não alvejado. Os outros vão como de costume, enxugando o suor com o pano de linho, que lhes serve de véu para a cabeça.

Chegam a um pequeno grupo de árvores, em uma encruzilhada. Param debaixo daquela sombra e, com avidez, bebem de seus odres.

– Está quente, como se tivesse sido tirada do fogo –resmunga Pedro.

– Se aqui houvesse pelo menos um riacho. Mas nada, nada! –suspira Bartolomeu–. Daqui a pouco, não tenho mais nada.

– Estou quase dizendo que é melhor a montanha –geme Tiago de Zebedeu, congestionado pelo calor.

– Melhor do que tudo é a barca. Fresca, cômoda, limpa ah!

O coração de Pedro se lembra do seu lago e de sua barca.

– Todos vós tendes razão. Mas os pecadores estão tanto na montanha, como na planície. Se não nos tivessem expulsado de Águas Belas, e nos perseguido, vindo atrás de nós, Eu teria vindo aqui entre os meses de Tebet e Shebat. Mas, logo estaremos andando ao longo da beira-mar. Lá o ar é temperado pelo vento do largo –anima-os Jesus.

– Eh! Precisamos disso. Aqui estamos parecendo uns peixes que estão morrendo. Mas, como fazem os trigais para estarem tão bonitos, se não há água? –pergunta Pedro.

– Por aqui há águas subterrâneas. Elas conservam úmido o terreno –explica Jesus.

– Melhor seria que estivessem do lado de cima, do que no de baixo. Que vou fazer com elas, se estão debaixo da terra? Eu não sou uma raiz! –diz o impetuoso Pedro, enquanto todos se riem.

Mas depois Judas Tadeu fica sério, e diz:

– É egoísta o solo, como o são os ânimos e é árido também. Se nos tivessem deixado parar naquele lugar e passar lá o sábado, teríamos sombra, água e repouso. Mas eles nos expulsaram…

– Até alimento teríamos tido. Mas nem isto. Eu estou com fome. Se aqui houvesse frutas. Mas as árvores frutíferas estão perto das casas. E quem é que vai até elas? Se todos forem do mesmo humor que aqueles de lá… –diz Tomé, acenando para o povoado que deixaram atrás, a leste.

– Toma o meu alimento. Eu nunca tenho muita fome –diz Zelotes.

– Tomai também o meu –diz Jesus–. Quem estiver com mais fome, coma.

Mas, tendo sido postos juntos os alimentos de Jesus, de Zelotes e de Natanael, vê-se que dão uma pequena quantidade e os olhos assustados de Tomé e também os dos jovens, estão dizendo isso. Mas eles se calam, e vão pondo na boca os pequeninos pedaços.

Zelotes, com paciência, vai até um ponto, onde uma parte verde sobre o terreno queimado faz pensar que lá haja umidade. E, de fato, no fundo do leito seco de um rio, há ainda um fio d’água, que em breve está para desaparecer. Zelotes dá um grito para os que estão longe, a fim de que eles vão àquele refrigério, e lá se vão todos, correndo, passando pela sombra descontinua das árvores crescidas à margem do fio d’água, que já está quase enxuto, e lá eles podem refrescar os pés poeirentos, lavar o rosto suado e, mesmo antes de encher seus odres já vazios e deixá-los depois dentro d’água, na parte em que está sombreada, para conservar a água fresca. Assentam-se depois aos pés de uma árvore e, cansados, põem-se a cochilar.

216.3

Jesus olha para eles com amor e compaixão e meneia a cabeça

Surpreende-o nessa atitude, Zelotes, o qual tinha ido beber mais uma vez e pergunta-lhe:

– Que tens, Mestre?

Jesus se levanta, vai até Zelotes e, passando o braço ao redor dele, o vai levando consigo até debaixo de uma outra árvore, e lhe diz:

– Que Eu tenho? Estou aflito por causa do vosso cansaço. Se Eu não soubesse o que estou fazendo de vós, não teria mais paz, por vos estar dando tantos incômodos.

– Incômodos? Não, Mestre! É a nossa alegria! Tudo perde o valor, quando viemos contigo. Estamos todos felizes, podes crer. Ninguém está com saudades, ninguém…

– Cala-te, Simão. A humanidade até nos bons reclama. E, humanamente falando, não deixais de ter razão de reclamar. Eu vos tirei de vossas casas, de vossas famílias, dos vossos negócios, e vós viestes, pensando que acompanhar-me seria uma coisa bem diferente…Mas a vossa reclamação de agora, a vossa reclamação interior, se acalmará um dia e só então compreendereis que terá sido bom ter andado no meio das neblinas e do barro, no meio da poeira e ao calor do sol, perseguidos, cheios de sede, cansados, sem alimento, atrás de um Mestre perseguido, desamado, caluniado…e mais coisas ainda. Tudo, então vos irá parecer belo! Porque, então, pensareis de um outro modo e vereis tudo esclarecido por outra luz. E me bendireis por vos ter conduzido pelo meu caminho difícil…

– Estás triste, Mestre. E o mundo pode justificar a tua tristeza. Mas, nós não. Nós estamos todos contentes…

– Todos? Tens certeza disso?

– Pensas tu em outra coisa?

– Sim, Simão. Em outra coisa. Tu estás sempre contente. Tu compreendeste. Muitos outros, não. Estás vendo aqueles que estão dormindo? Sabes quantos pensamentos eles estão esgaravatando, até durante o sono? E também todos aqueles que estão entre os discípulos? Crês tu que eles são fiéis, até tudo se consumar?

Olha: vamos jogar aquela velha brincadeira, que certamente já brincaste, tu também, quando eras menino (e Jesus apanha uma flor seca de dente-de-leão, bem redonda, de um pé que se ergue por entre as pedras, e que já ficou completamente maduro. Leva-a delicadamente até perto da boca, sopra-a, e a flor se desmancha em minúsculos para-quedas, que ficam voando pelo ar, vagueando, cada um com o seu guarda-sol para cima, e a prumo, preso por um pequenino cabo.) Estás vendo? Olha… Quantos são os que tornaram a cair em meus braços, como se estivessem enamorados de Mim? Podes contá-los… São vinte e três. Eles eram pelo menos três vezes mais. E os outros? Olha. Uns ainda estão vagueando, outros já caíram por serem mais pesados, outros sobem, porque são orgulhosos com seus penachos de prata, outros caem na lama, que nós fizemos com os nossos odres, Somente… Olha, olha… Até dos vinte e três, que estavam sobre os meus joelhos, sete lá se foram. Bastou aquele zangão chegar até aqui com o seu vôo, para fazê-los sair voando também!… O que eles temiam? Ou por quem é que foram seduzidos? Talvez pelo ferrão, ou pelas belas cores pretas e amarelas, ou pela garbosa aparência, pelas asas iridescentes… Eles lá se foram… Lá se foram, atrás de alguma beleza mentirosa… Simão, assim vai acontecer com os meus discípulos. Uns, por serem irrequietos, outros, por inconstância, outros por pesadume, outros por orgulho, outros por leviandade, outros porque gostam da lama, outros por medo ou por ingenuidade ir-se-ão embora. Crês tu que todos aqueles que agora me dizem “Eu vou contigo”, que Eu os encontrarei a meu lado, na hora decisiva da minha missão? Eram certamente mais de setenta os penachinhos da flor seca de dente-de-leão, que o Pai criou para Mim… e agora em meus braços há só sete, porque os outros lá se foram, levados por esta onda de vento, que fez dizer sim aos pedúnculos mais leves. Assim vai ser. E fico pensando nas lutas que há em vós para que me sejais fiéis.

216.4

Vem aqui, Simão. Vamos ali olhar aquelas libélulas, que estão dançando a flor d’água. A não ser que prefiras ir descansar.

– Não, Mestre. As tuas palavras me entristecem. Mas eu espero que o leproso curado, o homem perseguido, ao qual Tu deste a reabilitação, o solitário ao qual tu deste uma companhia, o necessitado de afeto ao qual abriste o Céu e o mundo, a fim de que ele encontrasse e desse amor, não te abandonarão…

Detalhe

André, Filipe, Tiago, filho de Alfeu, Judas e João não falam neste episódio, mas estão presentes ao longo de todo o capítulo. Os apóstolos queixam-se do calor, da sede e da fome, e Jesus acaba por explicar que um dia ficarão felizes por terem vivido este período; depois, conta a parábola do dente-de-leão para falar da infidelidade dos discípulos. Simão, o Zelote, tem um papel de destaque, uma vez que é ele quem dialoga com Cristo.

Anotação

Se não nos tivessem expulsado da Belle Eau e se não estivessem sempre no nosso encalço, eu teria vindo para cá entre Tébet e Shebat. No início de janeiro. Os discípulos expulsos da «Belle Eau», uma propriedade de Lázaro nas margens do Jordão; cf. EMV 133.5-7, quando os apóstolos tomam conhecimento da ameaça. São expulsos no EMV 137, especialmente no EMV 137.5.