– Já tendo ido embora os nossos pobres amigos, que tinham necessidade de muito conforto em sua esperança, ou melhor, em sua certeza de que basta saber pouco para serem admitidos no Reino, de que basta um mínimo de verdades com as quais a boa vontade trabalha, Eu agora me dirijo a vós, muito menos infelizes, porque estais em condições materiais muito melhores e com maiores auxílios do Verbo. O meu amor vai a eles, só com o pensamento. Mas aqui ,a vós, o meu amor vem também com a palavra. Por isso, vós estais sendo tratados na terra como no Céu, com maiores exigências, porque a quem mais foi dado, mais dele será exigido. Eles, os nossos pobres amigos, que estão de volta às suas galés, não podem ter senão um mínimo de bens, mas têm, em compensação, um máximo de dores. Por isso são somente para eles as promessas de benignidade, já que qualquer outra coisa para eles seria supérflua. Em verdade, Eu vos digo que a vida deles é penitência e santidade e que nada mais lhes deve ser imposto. Também, em verdade Eu vos digo que, semelhantes às virgens sábias, eles não terão deixado que se apaguem suas lâmpadas, até que chegue a hora do chamado.
Deixá-la apagar-se? Não. A luz delas é todo o bem deles. Eles não podem deixá-la apagar-se.
206.10
Em verdade, Eu vos digo que, assim como Eu estou no Pai, os pobres estão em Deus. É por isso que Eu, o Verbo do Pai, quis nascer pobre, e viver pobre. Porque, entre os pobres, Eu me sinto mais próximo do Pai, que ama os pequeninos e é amado por eles com todas as suas forças. Os ricos têm muitos amigos. Os pobres vivem sozinhos. Os ricos têm muitas consolações. Os pobres não tem consolações
Os ricos têm muitos divertimentos. Os pobres só têm trabalho. Os ricos têm o dinheiro, que lhes torna tudo fácil. Os pobres, além de tudo, ainda têm que levar a cruz, que é o temor das doenças e da carestia, que para eles só trazem a fome e a morte. Mas os pobres tem Deus consigo. Ele é amigo deles. É o consolador deles. É Ele quem os consola com as esperanças do Céu, quando eles sofrem as penas do momento presente. É Ele a quem eles podem dizer — e o sabem dizer, e o dizem justamente porque são pobres, humildes e sós —: ‘Socorre-nos, ó Pai, com a tua misericórdia.’
Tudo o que Eu estou dizendo aqui nesta terra de Lázaro, meu amigo e amigo de Deus, se bem que ele seja tão rico, pode até parecer estranho. Mas Lázaro é uma exceção entre os ricos. Lázaro chegou a ter aquela virtude, muito difícil de ser encontrada na terra e ainda mais difícil de ser praticada para ensinamento dos outros. A virtude de estar livre das riquezas. Lázaro é justo. Lázaro não se ofende. Ele não pode ofender-se, porque sabe que ele é o rico-pobre e por isso não é atingido pela minha velada censura. Lázaro é justo e reconhece que no mundo dos grandes as coisas são como Eu digo. Por isso, Eu falo e digo: em verdade, em verdade, Eu vos digo que é muito mais fácil que esteja em Deus um pobre do que um rico. E, no Céu do meu e vosso Pai, muitos lugares vão ser ocupados por aqueles que na terra foram desprezados porque eram tão miúdos como grãos de poeira em que pisamos.
Os pobres conservam no coração as pérolas, que são as palavras de Deus. Elas são o seu único tesouro. Quem tem uma só riqueza toma todo o cuidado com ela. Quem tem muitas, vive aborrecido e desatento, e se torna soberbo e sensual. Por tudo isso, ele não admira com olhos humildes e cheios de amor o tesouro que Deus lhe deu, mas o confunde com outros tesouros, que são preciosos só na aparência, tesouros que são as riquezas desta terra, e fica pensando: “Já é muito o que eu faço, ao ficar ouvindo as palavras de um que é carne e ossos como eu!” E os sabores das sensualidades fazem ficar obtusa a sua capacidade de saborear o que é sobrenatural. Fortes sabores!… Sim, mas o que eles são é muito bem temperados, para misturar tudo com seu fedor e sabor de podridão…