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Notas do tema

Os dons de Deus na vida cristã

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EMF 194.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Oh! Está bem. Agora, vamos para a frente. Para a Cidade Santa. Devemos chegar amanhã pela tarde. Por que tanta pressa? Sabes me dizer? Por que não depois de amanhã?

– Não. Não seria a mesma coisa. Porque amanhã é Parasceve e, depois do pôr do sol, não se pode andar mais do que seis estádios. Além disso não se pode, porque já começou o sábado e seu repouso.

– Portanto, no sábado se fica à toa.

– Não. Faz-se a oração ao Senhor Altíssimo.

– Como ele se chama?

– Adonai. Mas os santos podem dizer o seu nome.

– Também os meninos bons. Dize-o, se o sabes.

– Jaave –(O pequeno o pronuncia com um J suave e um A muito longo).

– E por que se faz a oração do Senhor Altíssimo no sábado?

– Porque Ele assim ordenou a Moisés, quando lhe deu as tábuas da Lei.

– Ah! Sim? E que foi que Ele disse?

– Ele ordenou que se santificasse o sábado: “Trabalharás durante seis dias, mas no sétimo dia repousarás, e farás repousar, porque assim fiz Eu também depois da criação.”

– Como? O Senhor descansou? Ter-se-á cansado ao criar? E Ele criou mesmo? Como o sabes? Eu sei que Deus não se cansa nunca.

– Ele não se cansa , porque Deus não caminha, nem move os braços. Mas assim fez para ensinar a Adão, e a nós, e para ter um dia em que pensemos nele. E Ele criou tudo, com toda a certeza, Assim o diz o Livro do Senhor.

– Mas, o Livro foi escrito por Ele?

– Não. Mas é a verdade. É preciso crer nele, para não ir para a companhia de Lúcifer.

– Disseste-me que Deus não caminha, nem move os braços. Como foi, então, que Ele criou? Como é Ele? É uma estátua?

– Não é um ídolo. É Deus. E Deus é… deixa-me pensar e recordar como dizia minha mamãe, e, melhor ainda do que ela, aquele homem que vai em teu nome ao encontro dos pobres em Esdrelon… A mamãe me dizia, para fazer-me compreender a Deus: “Deus é como o meu amor por ti. Não tem corpo, mas existe.” E aquele homenzinho, com um sorriso muito doce, dizia: “Deus é um espírito Eterno, Uno e Trino e a Segunda Pessoa se fez carne por amor de nós pobres e tem o nome de…” Oh! Meu Senhor! Agora é que eu penso nisso… és Tu!

E o menino, assombrado, prostra-se por terra, adorando.

Correm todos para perto dele, pensando que ele tivesse caído, mas Jesus faz um sinal de silêncio, pondo o dedo sobre os lábios, depois diz:

– Levanta-te, Jabé. Os meninos não devem ter medo de Mim!

O menino levanta a cabeça, e fica olhando para Jesus com uma expressão diferente, como de medo Mas Jesus sorri, e lhe estende a mão, dizendo:

– Tu és um sábio, ó pequeno israelita.

Anotação

Depois do pôr do sol, só se pode percorrer seis estádios. 6 x 185 m = 1.110 km.

A criança pronuncia-o assim: um J muito suave que quase se transforma em Y, e um a muito longo. Enquanto o é é duro, cortado - acrescenta MV numa cópia dactilografada - ao contrário dos galileus que dizem a primeira consoante como um sgi [esta é, ao que parece, a forma toscana correspondente à fonética (ʃ) = ch] muito arrastado e a última vogal muito aberta, como se fossem dois 'e's com acento grave, como em 'père' em francês. Veja a pronúncia do Nome Divino.

E Deus é... Deus é... deixem-me pensar e recordar o que disse a mamã e, ainda melhor do que ela, este homem que vai em teu nome procurar os pobres de Esdrelon ... Jonas.

EMF 196.4-6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Minha mãe tinha feito voto de virgindade por amor. Mas tinha, sendo uma criatura perfeita, a maternidade no sangue e no espírito. Porque a mulher foi feita para ser mãe. E é até uma aberração, quando ela se faz de surda aos apelos desse instinto, que é amor de segunda potência…

Pouco a pouco, os outros foram chegando para perto.

– Que queres dizer, Senhor, quando falas de amor de segunda potência? –pergunta Judas Tadeu.

– Meu irmão, há muitos amores e de diversas potências. Há um amor de primeira potência: é o que se dá a Deus. Depois, o amor de segunda potência: é esse amor materno, ou paterno, porque, se o primeiro é todo espiritual, este é espiritual em duas partes, e carnal por uma. É verdade que no homem se mistura, sim, o sentimento afetivo humano, mas sempre predomina o superior, porque um pai e uma mãe, sadia e santamente tais, não dão somente alimento e carícias à carne de seu filho, mas também alimento e amor à mente e ao espírito dele. E, tanto é verdade o que digo que quem se dedica à infância, ainda que seja apenas para instruí-la, acaba por amá-la como sua carne.

– De fato, eu amava muito aos meus discípulos –diz João de Endor.

– Já compreendi que devias ter sido um bom mestre, ao ver como tratas Jabé.

O homem de Endor se inclina, e beija a mão de Jesus, sem dizer nada.

– Continua, por favor, a tua classificação dos amores –pede-lhe Zelotes.

– Existe o amor pela companheira: é um amor de terceira potência, porque é feito — falo sempre dos sadios e santos amores — pela metade de espírito e pela metade de carne. O homem para a esposa é um mestre e um pai, além de esposo. e a mulher, para o esposo, é um anjo e uma mãe, além de esposa. Estes são os três amores mais elevados.

196.5

– E o amor ao próximo? Não estás enganado? Ou terás esquecido dele? –pergunta Iscariotes.

Os outros olham espantados para ele e ameaçadores por causa da observação que ele fez.

Mas Jesus, placidamente, responde:

– Não, Judas. Mas presta atenção. Deus há de ser amado porque é Deus e, por isso, não há necessidade de explicação para persuadir a prestar esse amor. Ele é o que é, ou seja: o Tudo; e o homem é o nada, que se torna participante do Tudo pela alma que nele foi infundida pelo Eterno — sem a alma, o homem seria um dos muitos animais brutos, que vivem na terra, nas águas e no ar — e que deve adorá-lo por dever, e para merecer sobreviver no Tudo, isto é, para merecer fazer parte do Povo santo de Deus no Céu, cidadão da Jerusalém, que não conhecerá profanações e destruições, nunca mais.

O amor do homem, e especialmente o da mulher, aos filhos, é indicado como uma ordem nas palavras de Deus a Adão e Eva, depois de tê-los abençoado, vendo que havia feito “coisa boa”, naquele longínquo sexto dia, o primeiro sexto dia da criação. E Ele lhes disse: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra…”

Vejo a tua não formulada objeção e respondo assim dado que na criação, antes da culpa, tudo era regulado e baseado no amor, essa multiplicação dos filhos teria sido amor, um amor santo, puro, poderoso e perfeito. E Deus o deu como primeira ordem, ao homem: “Crescei e multiplicai-vos.” Amai, pois, depois de Mim, aos vossos filhos. O amor, como agora existe, esse amor atual gerador de filhos, antes não existia. A malícia não existia e não existia a execrável fome da sensualidade. O homem amava a mulher, e a mulher ao homem, de um modo natural, não natural segundo a natureza como nós a entendemos, ou melhor, como vós homens a entendeis, mas segundo a natureza de filhos de Deus: sobrenaturalmente[3].

Que doces os primeiros dias de amor entre os dois, que eram irmãos, porque nascidos do mesmo Pai, e que, no entanto, eram esposos, e que, ao se amarem, olhavam um para o outro com os olhos inocentes de dois gêmeos no berço; e o homem sentia um amor de pai para com sua companheira “osso de seus ossos e carne de sua carne”, assim como é o filho em relação a seu pai. E a mulher conhecia a alegria de ser filha, isto é, protegida por um amor bem alto, porque sentia ter em si alguma coisa daquele maravilhoso homem que a amava, com inocência e angélico ardor, nos belos prados do Éden!

Depois, na ordem dos mandamentos dados por Deus, com um sorriso para os seus queridos pequeninos, vem aquilo que o próprio Adão, dotado pela Graça de uma inteligência, que só era menor que a de Deus, decreta, falando da companheira do homem, e nela, de todas as mulheres, o decreto do pensamento de Deus, que se refletia nítido no tenro espelho do espírito de Adão, e florescia no pensamento e na palavra: “O homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne.”

Se não houvesse os três pilares dos três amores acima referidos, teríamos podido ter o amor ao próximo? Não. Não o teríamos podido. O amor a Deus torna Deus amigo, e ensina o amor. Quem não ama a Deus, que é bom, com toda a certeza não pode amar ao próximo que, em sua maior parte, é defeituoso. Se não houvesse amor conjugal e paternidade no mundo, não teríamos o próximo, porque os próximos são os filhos nascidos dos homens. Estás persuadido disso?

– Sim, Mestre. Eu não havia refletido.

– De fato, é difícil voltar atrás, subindo para as nascentes. O homem já está pregado, há muitos séculos e milênios, na lama, e aquelas nascentes estão bem lá nos cumes! A primeira delas é uma nascente que vem de um abismo de altura: É Deus… Mas Eu vos tomo pela mão e vos levo às nascentes. Eu sei onde elas estão…

196.6

– E os outros amores? –perguntam juntos Simão Zelotes e o homem de Endor.

– O primeiro da segunda série, é o do próximo. Na realidade, é o quarto em potência. Segue o amor à ciência. Depois vem o amor ao trabalho.

– E basta?

– E basta.

– Mas há ainda muitos outros amores! –exclama Judas Iscariotes

– Não. Há outras fomes. Mas não são amores. São desamores. São a negação de Deus e a negação do homem. Por isso, não podem ser amores, visto que são negações, e a negação é o ódio.

Detalhe

Os diferentes poderes do amor.

Anotação

Ele é Aquele que é, ou seja, o Todo; e o homem é o nada que se torna parte do Todo graças à alma que lhe é infundida pelo Eterno. "Parte" foi corrigido (de acordo com a explicação dada na nota em EMV 167.9) para "participante" numa cópia datilografada; acrescenta no final da página: "Se a alma sabe permanecer em estado de graça, assim deificada, não por identidade de substância, mas por elevação à ordem sobrenatural. "

Nota da EMV 167: "Parcela de Deus" parece ter sido alterado para parcela nascida de Deus por uma correção pouco clara de Maria Valtorta numa cópia dactilografada, à qual acrescentou a seguinte nota: A palavra "parcela" não deve ter o significado de "parte de Deus" infundida em nós, mas de "lugar do trono", "assento" infundido ou "espirado" (pelo "sopro de vida" de que fala o Génesis 2,7) por Deus, ou seja, coisa de Deus vinda de Deus para o homem. São Tomás de Aquino chama-lhe "uma capacidade de Deus" que Deus enche de si mesmo, para que todos possamos participar na sua vida divina".

Esta explicação de Maria Valtorta (e o texto deEMV 10.9) deve ser tida em conta sempre que a obra fala da alma como "parte" ou "partícula" de Deus.

Pode ser relacionado com as notas de EMV 4.6, EMV 54.5, EMV 165.4, EMV 170.4, EMV 365.16, EMV 444.4, EMV 463.4, EMV 524.7, EMV 537.11.

"Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra... "Segundo o Génesis 1:28.

O homem amou a mulher e a mulher amou o homem, naturalmente, não naturalmente segundo a natureza como nós a entendemos, ou melhor, como vós homens a entendeis, mas segundo a natureza dos filhos de Deus: sobrenaturalmente. "Sobrenaturalmente": Maria Valtorta anota numa cópia dactilografada: sem que a desordem da malícia se una ou mesmo "se substitua" às leis ordenadas de Deus, inerentes à multiplicação e ao povoamento da terra. Acrescenta à margem: Enquanto o homem permaneceu nesta ordem, não nasceu nele o veneno da tríplice concupiscência que o tornou delirante, depois rebelde, finalmente caído.

O homem sentia o amor de um pai pela sua companheira "osso dos seus ossos e carne da sua carne", como uma criança sente pelo seu pai. Segundo o Génesis 2, 23.

"O homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à sua mulher, e os dois serão uma só carne. "Segundo Génesis 2, 24.

Livro do Génesis 1, 28

Gn 1, 28: Deus abençoou-os e disse-lhes: "Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a, dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os seres vivos que se movem sobre a terra".

Livro do Génesis 2, 23-24

Gn 2, 23-24 : E o homem disse: "Esta é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Esta chamar-se-á mulher, porque foi tirada do homem. Por isso, o homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à sua mulher, e eles serão uma só carne.

EMF 196.4.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Há muitos amores e de diversas potências. Há um amor de primeira potência: é o que se dá a Deus. Depois, o amor de segunda potência: é esse amor materno, ou paterno, porque, se o primeiro é todo espiritual, este é espiritual em duas partes, e carnal por uma. É verdade que no homem se mistura, sim, o sentimento afetivo humano, mas sempre predomina o superior, porque um pai e uma mãe, sadia e santamente tais, não dão somente alimento e carícias à carne de seu filho, mas também alimento e amor à mente e ao espírito dele. E, tanto é verdade o que digo que quem se dedica à infância, ainda que seja apenas para instruí-la, acaba por amá-la como sua carne. (...) Existe o amor pela companheira: é um amor de terceira potência, porque é feito — falo sempre dos sadios e santos amores — pela metade de espírito e pela metade de carne. O homem para a esposa é um mestre e um pai, além de esposo. e a mulher, para o esposo, é um anjo e uma mãe, além de esposa. Estes são os três amores mais elevados. (...) O primeiro da segunda série, é o do próximo. Na realidade, é o quarto em potência. Segue o amor à ciência. Depois vem o amor ao trabalho.

Detalhe

Resumo dos diferentes poderes do amor (explicados em pormenor na presente nota).

EMF 197.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

« Eu não sei como é que ele sabe a Lei, o Hagadã e o Midrashot. Jesus diz que ele sabe bem…

– Ora! mas se é Jesus quem o diz! Não tenhas medo!»

Detalhe

Pedro fala de Marziam. Ver a anotação.

Anotação

Para salvaguardar a Lei, a base religiosa e jurídica da comunidade judaica, os rabinos, após o exílio, rodearam-na de uma exegese chamada Midrash (Interpretação). Os midrashim são comentários sobre passagens das Escrituras. Entre os autores de renome destas tradições midráshicas contam-se Hillel, Schammei e Gamaliel.

Midrash também se refere ao ramo do conhecimento rabínico que lida com as regras da lei tradicional (escrita), em oposição à Mishnah (tradição oral). Esta interpretação da Lei Mosaica deu origem a novas prescrições, regras de conduta a seguir no culto e na lei (as Halâkoth). A interpretação das partes históricas do Pentateuco deu origem a histórias e lendas(a Haggadah). No entanto, por respeito à Lei mosaica, estes midrashim só podiam ser transmitidos oralmente de geração em geração, embora a sua autoridade fosse praticamente igual à da Lei.

EMF 197.5 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

A manhã inicia o dia. E é bom que o homem bendiga ao Senhor, para ser abençoado durante o dia, em todos os seus trabalhos. Mas a tarde é ainda mais solene. A luz diminui, cessa o trabalho, a noite vem chegando. A luz que diminui faz lembrar a queda no mal e de fato as ações pecaminosas realizam-se quase sempre de noite. E porque? Porque o homem, não estando mais ocupado com o trabalho, mais facilmente se deixa rodear pelo Maligno com seus chamarizes e pesadelos. Por isso, é bom, depois de termos dado graças a Deus, por ter-nos protegido durante o dia, que lhe supliquemos para que se afastem de nós os fantasmas da noite e as tentações. A noite, o sono… símbolo da morte. Mas, felizes daqueles que, tendo vivido com a bênção do Senhor, adormecem, não nas trevas, mas em uma luminosa aurora.

EMF 198.1 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Através da sombreada estrada, que liga o Monte das Oliveiras a Betânia, — e eu poderia dizer que o monte chega com suas ramificações verdes até às campinas de Betânia — Jesus com os seus vai caminhando solícito, para a cidade de Lázaro. Ele ainda não entrou, mas já está sendo reconhecido, e os estafetas voluntários vão correndo por todos os lados, a fim de darem notícia de sua chegada. Por causa deles, eis que, por um lado, vão-se pondo em movimento Lázaro com Maximino, Isaac com Timoneo e José do outro; em terceiro lugar vem vindo Marta com Marcela e esta levanta seu véu para curvar-se e beijar a veste de Jesus e logo depois vão chegando Maria de Alfeu com Maria Salomé, que prestam sua veneração ao Mestre e depois abraçam seus filhos e, enquanto o pobre Jabé sempre levado pela mão de Jesus, agitado por todos estes que chegam de todos os lados, observa espantado e João de Endor, sentindo-se um estranho, vai para trás do grupo e fica separado, eis que vem se aproximando pelo caminho que conduz à casa de Simão, a mãe.

Jesus abandona a mão de Jabé e, delicadamente, vai deixando para trás os amigos, apressando-se em ir ao encontro dela. As conhecidas palavras rasgam os ares, e ressoam, como um solo de amor, pelo meio do murmúrio da multidão: “Filho!”; “Mamãe!” E se beijam, mas no beijo de Maria vê-se a ânsia de quem ficou temendo por muito tempo e agora — desfazendo-se o terror que a infernizou —, sente o cansaço pelo esforço feito, mede em toda a sua extensão o perigo em que incorreu…

Jesus a acaricia, Ele que compreende e diz:

– Além do meu anjo, Eu tinha o teu, mãe, a velar sobre Mim. Assim, nada de mal me podia acontecer.

Palavras-chave

EMF 199.8-9 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Sim. Pedro é muito bom. Por ele Eu faria qualquer coisa, pois ele o merece.

– Se ele te ouvisse, diria com aquele seu sorriso bom e sincero: “Ah! Senhor, isso não é verdade!” E teria razão.

– Por quê, mãe?

Mas Jesus está sorrindo porque já compreendeu.

– Porque Tu o não contentas, dando-lhe um filho. Ele me contou todas as suas esperanças, os seus desejos… e as tuas recusas.

– E não te disse as razões com que as justifiquei?

– Sim, ele as disse, e acrescentou: “É verdade… mas eu sou um homem, um pobre homem. Jesus teima em querer ver em mim um grande homem. Mas eu sei que não sou mais do que um ser mesquinho e, por isso… me poderia dar um menino. Eu me casei para ter um… e vou morrer sem ter.” E, mostrando o menino que, feliz pela veste para ele comprada por Pedro, o havia beijado, dizendo-lhe: “Meu pai amado”, disse-me: “Vê, quando este pequenino que, há somente dez dias, eu nem conhecia ainda, fala-me assim, eu me sinto mais maleável do que manteiga, e mais doce do que o mel, e até choro porque… cada dia que passa, ele quer me levar embora este menino…”

Maria se cala, observando Jesus, estudando-lhe o semblante, esperando uma palavra… Mas Jesus colocou o cotovelo sobre o joelho, a cabeça encostada na palma da mão e está também calado, olhando para a grande extensão verde do pomar.

Maria pega a mão dele e a acaricia, dizendo:

– Simão tem esse seu grande desejo… Enquanto eu ia andando com ele, não parou de falar-me nisso, e com razões tão justas, que… eu não pude dizer nada para fazê-lo calar-se. Eram as mesmas razões, nas quais pensamos todas nós, mulheres e mães. O menino não é robusto. Se ele tivesse sido como eras Tu… Oh! então teria podido ir ao encontro da vida, como um discípulo sem medo. Mas é tão fraquinho!… Muito inteligente, muito bom… e nada mais. Quando um pombinho é delicado, não se pode lançá-lo ao vôo logo, como se faz com os fortes. Os pastores são bons… mas são sempre homens. Os meninos precisam das mulheres. Por que não o deixas com Simão? Enquanto lhe negas um filho nascido dele, eu compreendo o motivo. Um pequenino nosso é para nós como uma âncora. E Simão, destinado a tão grande sorte, não pode ter âncoras que o detenham. Contudo, deves convir que ele deva ser o ‘pai’ de todos os filhos que Tu lhe deixarás. E, como haveria ele de ser pai, se não tiver treinado com um menino? Um pai deve ser manso. E Simão é bom, mas manso, não. Ele é impulsivo e intransigente. Não há nada como uma criaturinha, que lhe possa ensinar a arte sutil da compaixão para com quem é fraco… Pensa nesta sorte de Simão… Afinal, é o teu sucessor! Oh! tenho afinal que dizer esta palavra cruel! Mas, pela grande dor que me custa dizê-la escuta-me. Eu nunca te aconselharia uma coisa que não fosse boa. Margziam… Tu queres fazer dele um perfeito discípulo… Mas ele ainda é um menino. Tu… Terás que ir embora, antes que ele se torne um homem. A quem, então, o entregarás para completar sua formação, senão a Simão? Afinal, pobre Simão, Tu sabes quanto tem sofrido, também por causa de Ti, da parte de sua sogra Contudo ele não recuperou nem um grãozinho do seu passado, da liberdade que tinha, há um ano, para ser deixado em paz pela sogra, que nem Tu pudeste mudar. E aquela pobre criatura, que é a mulher dele? Oh! Ela tem um grande desejo de amar e de ser amada. A mãe… Oh! O marido? Um amável prepotente. Nunca um afeto que lhe seja dado sem tantas exigências… Pobre mulher!… Deixa-lhe o menino. Escuta, Filho. Por enquanto, o levamos conosco. Eu também virei para a Judeia. Tu me levarás contigo à casa de minha companheira no Templo e quase nossa parenta, porque é descendente de Davi. Ela mora em Betsur. Eu a irei ver de boa vontade, se é que ainda vive. Depois, ao voltarmos para a Galileia, o daremos à Púrpura. Quando estivermos nas vizinhanças de Betsaida, Pedro o tomará. E, quando viermos para longe, o menino ficará com ela. Ah! Mas Tu agora estás sorrindo! Então contentarás à tua mamãe. Obrigada, meu Jesus.

– Sim. Seja feito como Tu queres.

199.9

Jesus se levanta, e grita com força:

– Simão de Jonas, vem aqui.

Pedro dá um salto, e vai correndo pelos degraus.

– Que queres, Mestre?

– Vem aqui, homem usurpador e corruptor!

– Eu? Por quê? Que foi que eu fiz, Senhor?

– Tu corrompeste minha mãe. Para isso é que querias estar sozinho. Que devo te fazer?

Mas Jesus está sorrindo e Pedro fica mais tranquilo.

– Oh! –diz ele–, me fizeste ficar com medo! Mas agora estás rindo… Que queres de mim, Mestre? A vida? É só o que tenho, pois me tomaste tudo… Mas, se a queres, eu a dou.

– Eu não quero tirar-te nada. Mas quero te dar. Mas não fiques te gloriando pela vitória e não contes o segredo aos outros, ó homem matreiríssimo, que vences o Mestre com a arma da palavra materna. Tu ficarás com o menino, mas…

Jesus não fala mais, porque Pedro, que se havia ajoelhado, põe-se rapidamente de pé e beija Jesus com tanto ímpeto, que lhe embargou a palavra.

– Agradece a ela, não a Mim. Mas, lembra-te que isso te deve servir de ajuda e não de estorvo…

– Senhor, não terás que arrepender-te por este presente… Oh! Maria! Que Tu sejas sempre bendita, santa e boa…

E Pedro, que de novo caiu de joelhos, está chorando de verdade e beijando a mão de Maria.

Anotação

199.9 Jesus levanta-se e chama em alta voz

"Simão, filho de Jonas, vem cá!"

Pedro ficou assustado e subiu as escadas a correr:

"O que é que queres, Mestre?

- Vem cá, usurpador e corruptor!

- Eu? Porquê? O que é que eu fiz, Senhor?

- Tu corrompeste a minha Mãe. Foi por isso que quiseste ficar sozinho. Que te hei-de fazer?

Mas Jesus sorriu e Pedro ficou tranquilo.

Oh", diz ele, "pregaste-me um susto! Mas agora estás a rir... O que queres de mim, Mestre?

JESUS AGRADÁVEL: Esta passagem causou polémica entre algumas pessoas:

- Alguns não conseguem imaginar Jesus a brincar como se faz com os melhores amigos (parecendo acusá-los da antítese do que obviamente são).

- Os outros fazem uma leitura parcial que interpreta a corrupção isolada como uma prática indigna e chocante.

MARIA MEDIANEIRA DE TODAS AS GRAÇAS :

Relativamente ao primeiro ponto, a anedota, é de notar que Jesus não usa a vulgaridade habitualmente associada a este tipo de anedota, mas tira dela uma lição sagrada: Maria, Medianeira de todas as graças. Ele está a "evangelizar" a nossa humanidade.

Quanto à outra, uma leitura do contexto elimina qualquer dúvida sobre a intenção de Pedro quando, vendo negado o seu desejo mais profundo, pede a ajuda e a mediação de Maria.

EMF 200.3 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Aglaé se separa da sacola que trazia nas costas e, em seguida se ajoelha aos pés de Jesus, em meio a uma grande explosão de choro. Ela se estende no chão, chorando, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre a terra.

– Não chores assim. Já não é mais tempo disso. Tu devias chorar, quando estavas com ódio de Deus. Mas não agora que o amas e por Ele és amada.

Mas Aglaé continua a chorar…

– Não acreditas que é assim?

Sua voz está procurando um caminho, por entre os soluços:

– Eu o amo, é verdade, como sei e como posso. Mas, por mais que eu saiba e creia que Deus é Bondade, não ouso esperar de obter o seu amor. Eu pequei demais… Talvez eu o terei um dia… Mas preciso chorar muito ainda… Por enquanto, estou sozinha no meu amor. Estou sozinha… mas já não é a solidão desesperada dos anos passados. É uma solidão cheia do desejo de Deus e, por isso nem é mais desesperada… mas é tão triste, tão triste…

– Aglaé, como tu ainda conheces mal o Senhor! Este desejo dele te serve de prova de que Deus corresponde ao teu amor, de que Ele é teu amigo, que te chama e te convida, que te quer. Deus é incapaz de permanecer inerte, diante do desejo de uma criatura sua, porque aquele desejo foi inspirado àquele coração por Ele, o Criador e Senhor de toda criatura. Ele o inspirou, porque amou com um amor privilegiado a alma que agora o deseja. O desejo de Deus vem sempre antes do desejo da criatura, porque Ele é Perfeitíssimo e, por isso, o seu amor é bem mais habilidoso e abrasado do que o amor da criatura.

– Mas, como Deus pode amar-me, se eu sou lama?

– Não fiques procurando entender isso com a tua inteligência. É um abismo de misericórdia, incompreensível para a mente humana. Mas onde a inteligência do homem não pode compreender, compreende a inteligência do amor, o amor do espírito. Este compreende e penetra firmemente no mistério que é Deus e no mistério dos relacionamentos da alma com Deus. Entra, Eu te digo. Entra, porque Deus o quer.

– Oh! não, Senhor! Tudo o que me disseste[1] em Hebron se realizou.

Tu me salvaste, como o teu Nome diz. Tu procuraste a mim pobre alma perdida. Tu deste a vida a esta alma que eu trazia morta em mim. Tu me disseste que, se eu tivesse te procurado teria te encontrado. E foi verdade. Tu me disseste que estás por toda parte, onde o homem está precisando de médico e de remédio. E é verdade tudo, tudo o que disseste à pobre Aglaé, desde aquelas palavras daquela manhã de junho, até as outras ditas em Águas Belas…

– Então, deves crer também nestas.

– Sim, eu creio, eu creio. Mas, Tu me dirás: “Eu te perdôo!”

– Eu te perdôo em nome de Deus e de Jesus.

– Obrigada…

Detalhe

Aglaia, uma antiga pecadora, encontra-se com o Senhor e chora diante dele. Jesus toma a palavra e diz-lhe que não chore.

Anotação

Tudo o que me disseste em Hebron tornou-se realidade. Em EMV 77.

EMF 200.4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– E, quem me falará ainda de Deus?

– A tua alma ressuscitada, por enquanto.

– Não te verei nunca mais?

– Sobre a terra, nunca mais. Mas, daqui a pouco, terei te redimido completamente e, então, virei ao teu espírito a fim de preparar-te para subires a Deus.

– Como vai acontecer a minha completa redenção, se eu não vou te ver mais? Como a darás?

– Morrendo por todos os pecadores.

– Oh! Não! Tu, morreres!

– Para dar-vos a vida, devo dar-me a morte. É para isso que Eu vim em forma humana. Não chores… Tu te encontrarás comigo logo, onde Eu estiver, depois do meu sacrifício e do teu.

– Meu Senhor! Também eu haverei de morrer por Ti?

– Sim. Mas de outro modo. Tua carne irá morrendo, hora por hora, e pelo desejo da tua vontade. Há quase uma ano que ela já vem morrendo. Quando estiver completamente morta, eu te chamarei.

Detalhe

Jesus fala a Aglaia, uma antiga pecadora convertida, que se vai isolar de tudo.