O Reino dos Céus é a casa do esposalício feito entre Deus e as almas. O Momento da entrada nele é o dia das bodas.
Agora, escutai, então. Entre nós há o costume de que as virgens acompanhem o esposo, quando ele chega, para levá-lo, entre luzes e cânticos, até à casa nupcial, junto com a sua amada esposa. Quando o cortejo deixa a casa da esposa, que vai coberta com um véu e que, comovida, sai, dirigindo-se para o seu lugar de rainha, em uma casa que não é a dela, mas que vai tornar-se dela, desde o momento em que ela se torna uma só carne com o seu esposo, o cortejo das virgens, que em sua maior parte são amigas da esposa, corre ao encontro dos dois felizes esposos, para rodeá-los com um halo de luzes.
Aconteceu, pois, que em um lugar celebraram-se esponsais. Enquanto os esposos, com os parentes e amigos, estavam sapateando na casa da esposa, dez virgens foram para o seu lugar, no vestíbulo da casa do esposo, prontas para saírem ao encontro dele, quando um longínquo som de címbalos e de cânticos estivesse avisando que os esposos já tinham saído da casa da esposa para irem para a casa do esposo. Mas o banquete na casa dos esponsais se prolongou muito, e assim chegou a noite. As virgens, como sabeis, seguram sempre as lâmpadas acesas, para não ficarem perdendo tempo no momento principal. Pois bem. Entre estas dez virgens, que deviam segurar as lâmpadas acesas e bem luzentes, havia cinco sábias e cinco estultas. As sábias, cheias de prudência, tinham-se munido de pequenos vasos cheios de azeite, para poderem alimentar suas lâmpadas, se a duração da espera fosse mais longa do que era previsível. Enquanto que as estultas se limitaram só a encher, quando muito, suas pequenas lâmpadas.
Uma hora passou, e mais outra hora. Alguns discursos, histórias e palavras jocosas foram alegrando o tempo de espera. Mas depois, não sabiam mais o que dizer, nem o que fazer. E, aborrecidas, ou também simplesmente cansadas, as dez moças resolveram sentar-se mais comodamente, com as lâmpadas acesas e bem próximas e, pouco a pouco, pegaram no sono.
206.3
Quando chegou a meia noite, ouviu-se um grito: “Eis o esposo chegando, ide-lhe ao encontro!” Àquela ordem, as dez moças se levantaram, puseram os véus e as grinaldas e correram depois para a pequena mesa, onde estavam as lâmpadas. Cinco destas já se estavam apagando. O pavio, não encontrando mais azeite, pois este se havia acabado, estava já soltando fumaça, com uns lampejos cada vez mais fracos e pronto para apagar-se, ao menor sopro de vento. Mas as outras cinco lâmpadas, alimentadas antes do sono pelas virgens prudentes, estavam com suas chamas ainda bem vivas e mais vivas ainda ficaram pela nova quantidade de azeite que colocaram sobre o pavio.
“Oh!”, imploravam as estultas, “dai-nos um pouco do vosso azeite, porque senão as nossas lâmpadas se apagam, só ao movê-las daqui. As vossas já estão bonitas…” Mas as prudentes responderam: “Fora há o vento da noite e o orvalho está caindo em grossas gotas. O azeite nunca é bastante para formar uma chama forte, capaz de resistir aos ventos e à umidade. E, se nós vos dermos do nosso, vai acontecer que nossas luzes também possam começar a vacilar. E bem triste ficaria o cortejo das virgens, sem o palpitar daquelas chamazinhas! Ide, pois, ide correndo ao vendedor mais perto, pedi, batei à porta, fazei que ele se levante para vos vender.”
E elas, apressadas, amarrotando os véus, sujando as vestes, perdendo as grinaldas, por terem que esbarrar uma na outra, correndo, procuravam seguir o conselho das companheiras.
Mas, enquanto iam indo comprar o azeite, eis que já aparecem, lá no começo da rua, o esposo e a esposa. As cinco virgens, tendo nas mãos suas lâmpadas acesas, correram ao encontro deles e, no meio delas, os esposos entraram na casa, para o fim da cerimônia, momento este em que as virgens deveriam acompanhar a esposa até a câmara nupcial. A porta, então, foi fechada, depois da entrada dos esposos, e quem fora estava, fora permaneceu. E assim para as cinco estultas que, chegadas enfim com o azeite, encontraram a porta fechada. Inutilmente bateram nela, machucando as mãos e gemendo: “Senhor, senhor abre-nos. Nós somos do cortejo das núpcias. Somos as virgens propiciatórias, escolhidas para trazer honra e fortuna ao teu tálamo.” Mas o esposo, lá do alto da casa, deixando por um momento os convidados mais íntimos, dos quais ele se despedia, enquanto a esposa entrava na câmara nupcial, disse: “Em verdade, eu vos digo que não vos conheço. Não sei quem sois. Os vossos rostos não estavam presentes ao redor da minha amada, festejando-a. Vós sois umas usurpadoras. Que sejais, pois, deixadas fora da casa das núpcias.” E as cinco estultas, chorando, foram-se embora, pelas estradas escuras, com suas lâmpadas já inúteis, com suas vestes amarrotadas, os véus rasgados, as grinaldas desmanchadas ou perdidas…
206.4
E agora, ouvi a admoestação encerrada na parábola.
Eu vos disse, no princípio, que o Reino dos Céus é casa dos esponsais feitos entre Deus e as almas. Para as núpcias celestes, são chamados todos os fiéis, porque Deus ama todos os seus filhos. Uns antes, outros depois, chegam ao momento dos esponsais, e chegar a esse momento é uma grande sorte.
Mas agora escutai ainda. Vós sabeis como as moças consideram uma honra e uma sorte serem chamadas para ficarem como servas, ao redor da esposa. Apliquemos ao nosso caso o papel dos personagens e compreendereis melhor. O esposo é Deus. A esposa é a alma de um justo que, tendo passado o período do noivado na casa do Pai, isto é, na dependência e obediência da e à doutrina de Deus vivendo segundo a justiça, é levada à casa do Esposo para as núpcias. As servas virgens são as almas dos fiéis que, segundo o exemplo deixado pela esposa, — ter sido escolhida pelo esposo por suas virtudes é sinal de que ela era um exemplo vivo de santidade — procuram chegar àquela mesma honra, santificando-se.
206.5
Elas estão com veste branca, limpa e nova, em brancos véus, coroadas de flores. Elas têm lâmpadas acesas nas mãos. As lâmpadas estão bem limpas, tendo um pavio alimentado com azeite do mais puro, para que não seja mal-cheiroso.
Com veste branca. A justiça firmemente praticada, produz uma veste cândida e bem depressa chegará o dia em quê será candidíssima, sem nenhuma lembrança, nem de longe, de mancha, com um candor sobrenatural, um candor angélico.
Em veste limpa. É preciso, junto com a humildade, ter sempre limpa a veste. É muito fácil embaçar a pureza do coração. E quem não é puro de coração não pode ver a Deus. A humildade é como uma água que lava. O humilde se dá conta logo, porque tem olhos não embaçados pelas fumaças do orgulho, de estar com suas vestes enodoadas, e corre para o Senhor, e diz: “u tirei a limpeza deste meu coração. Eu choro para limpar-me. A teus pés venho chorar. E tu, ó meu Sol, alveja com os teus benignos perdões, com os teus paternos amores, esta minha veste!”
Em veste nova. Oh! O frescor do coração! As crianças o possuem por um dom de Deus. Os justos o têm por dom de Deus e por sua própria vontade. E os santos o têm por dom de Deus e por sua vontade elevada até o grau de heroísmo. Mas os pecadores, com uma alma dilacerada, queimada, envenenada, emporcalhada, será que não poderão nunca mais ter uma veste nova? Oh! Sim, que podem ter. Começam a tê-la desde o momento em que olham para si mesmos com aversão, depois a aumentam, quando se decidem a mudar de vida e a aperfeiçoam quando se lavam com a penitencia, e se desintoxicam, e se medicam, e recompõem a sua pobre alma e, com a ajuda de Deus, que não nega socorro a quem lhe pede uma santa ajuda, e com a própria vontade, elevada ao super-heroismo, — porque neles o necessário não é ficar tomando conta do que eles têm, mas de reconstruir o que eles demoliram e para isso há uma dupla, tripla e sétupla fadiga — e, finalmente, com uma penitência incansável e implacável para com o eu que foi pecador, fazem voltar sua alma a um novo frescor como na infância, frescor precioso pela experiência que os faz mestres de outros, que são[1] agora como eram eles há tempo, ou seja, pecadores.
Em brancos véus. A humildade! Eu disse[2]: “Quando rezais ou fazeis penitência, procurai que o mundo não o perceba.” Nos livros sapiênciais está escrito: “Não é bom revelar o segredo do Rei.” A humildade é o véu cândido posto como defesa do bem que se faz e do bem que Deus nos concede. Não é a glória pelo amor ao privilégio que Deus concede, nem é a estulta glória humana. O dom seria imediatamente retomado. Mas é um canto interior do coração ao seu Deus: “Minha alma canta a tua grandeza, ó Senhor… porque Tu voltaste o teu olhar para a baixeza da Tua serva.”
Jesus faz uma breve pausa, e lança um olhar para sua mãe que, por debaixo do seu véu, se ruboriza e se inclina profundamente, como para compor os cabelos do menino que está sentado aos seus pés, mas, na verdade, o faz para ocultar uma sua comovida lembrança…
– Coroada de flores. A alma deve entretecer para si sua grinalda diária de atos virtuosos porque, ao conspecto do Altíssimo, não se devem apresentar coisas murchas, nem se deve estar com aspecto desmazelado. Diária, Eu disse. Porque a alma não sabe quando Deus-Esposo pode aparecer para dizer-lhe: “Vem.” Por isso não nos cansemos nunca de renovar a coroa. Não tenhais medo As flores ficam murchas. Mas as flores das coroas virtuosas não murcham. O Anjo de Deus, que cada homem tem ao seu lado, recolhe estas grinaldas de cada dia e as leva para o Céu. E lá elas servem como um trono ao novel bem-aventurado, quando ele entrar, como esposa, na casa nupcial.
206.6
Tem as lâmpadas acesas. E é para honrar o esposo, e para se guiarem no caminho. Como é fulgente a fé, e que doce amiga ela é! Produz uma chama brilhante, como uma estrela, uma chama que ri, porque tem segurança em sua certeza, uma chama que torna luminoso até o instrumento que a rege. Até a carne do homem, nutrido pela fé, parece, desde esta terra, tornar-se mais luminosa e espiritual e imune de uma murchidão precoce. Porque quem crê, se rege pelas palavras e pelas ordens de Deus, para chegar a possuir a Deus, que é o seu fim e, por isso, foge de toda corrupção, não sofre perturbações, nem temores, nem remorsos, e não é obrigado a nenhum esforço, para recordar-se de suas mentiras, ou para esconder suas más ações, e se conserva belo e jovem pela bela incorrupção de santo. Uma carne e um sangue, uma mente e um coração limpos de toda luxúria, para conterem o azeite da fé e para produzirem uma luz sem fumaça. Uma constante vontade para alimentar sempre esta luz. A vida de cada dia, com as suas desilusões, verificações, contatos, tentações, atritos, tende a diminuir a fé. Não. Não deve acontecer. Ide cada dia às fontes do azeite suave, do azeite espiritual, do azeite de Deus.
Lâmpada pouco alimentada pode ser apagada pelo menor vento, pode ser apagada pelo pesado orvalho da noite. A noite… A hora das trevas, do pecado e da tentação, chega para todos. É a noite para a alma. Mas, se esta se conserva a si mesma cheia de fé, não pode a chama ser apagada pelo vento do mundo, pela caligem da sensualidade.
Enfim, vigilância, vigilância, vigilância. Quem for imprudente, e fiar-se em si mesmo, dizendo: “Oh! Deus virá em tempo, enquanto eu estiver lúcido”, quem se põe a dormir, em vez de vigiar e for dormir, desprovido de tudo o que é necessário para poder levantar-se prontamente, ao primeiro chamado, quem deixa para o último momento o trabalho de ir prover-se do azeite da fé, ou do pavio forte da boa vontade, incorre no perigo de ter que ficar fora, quando o Esposo chegar. Vigiai, pois, com prudência, com constância, com pureza, com confiança, para estardes sempre prontos para o chamado de Deus, porque, na realidade, não sabeis quando Ele virá.
206.7
Meus caros discípulos, Eu não quero induzir-vos a tremer por causa de Deus, mas, antes, a terdes fé em sua bondade. Tanto vós que ficais, como vós que ides, pensai que, se fizerdes o que fizeram as virgens sábias, sereis chamados, não somente para fazer o cortejo ao Esposo, mas, como a jovem Ester, que foi feita rainha[3] no lugar de Vasti, sereis escolhidos e eleitos como esposas, tendo o Esposo “encontrado em vós toda graça e favor, mais do que em todos os outros.” Eu vos abençôo, a vós que ides. Levai em vós e para vossos companheiros esta minha palavra. A paz do Senhor esteja sempre convosco.