Entram em Corozaim, quando a aurora já se transformou em pleno dia. Não há nenhum ramo de erva que não esteja brilhando, salpicado pelas gemas do orvalho. Os passarinhos cantam por toda parte. O ar é puro e fresco, e parece ter um cheiro de leite, de um leite mais vegetal do que animal. É o cheiro dos grãos, que se formam nas espigas e nas amendoeiras carregadas de frutas… é um cheiro que eu já senti nas frescas manhãs dos campos férteis da planície de Pádua.
Logo chegam à casa de Elias. Mas em Corozaim muitos estão sabendo que o Mestre chegou e, quando Jesus põe o pé na soleira de uma casa, uma mulher corre para Ele, gritando:
– Jesus, Filho de Davi, tem dó de minha filha!
Ela vem trazendo nos braços uma menina com cerca de dez anos, já cor de cera e magríssima. Mais do que cor de cera, ela está toda amarelada.
– Que é que tem tua filha?
– É a febre. Ela pegou a febre nas pastagens ao longo do Jordão. Porque nós somos pastores de um homem rico. Eu fui chamada pelo pai para ficar perto da doente. Ele voltou para os montes. Mas Tu sabes que com esta doença não se pode ficar em lugares altos. Como, então, vou poder ficar aqui? Até agora o patrão me deixou neste lugar. Mas eu cuido da lã e dos partos. Está chegando o tempo de trabalho para os pastores. Seremos mandados embora, ou separados, se eu tiver que ficar. E verei morrer minha filha, se eu tiver que ir para o Hermon.
– Tens fé no meu poder?
– Eu falei com Daniel, pastor de Eliseu. Ele me disse: “O nosso Menino cura todos os males. Vai ao Messias.” Eu vim do lado de lá do Meron, com esta menina nos braços, à tua procura. Eu não teria parado de caminhar, enquanto não te encontrasse…
– Pois agora não caminhes mais, a não ser para voltares para a tua casa, para o trabalho tranquilo. A tua filha está curada, porque Eu assim quero. Vai em paz.
A mulher olha para a filha, e olha para Jesus. Talvez ela esteja esperando ver a filha, gorda e corada no mesmo instante. Também a menina arregala diante de Jesus seus olhos cansados, que antes ela conservava fechados, e sorri.
– Não tenhas medo, mulher. Eu não te engano. A febre desapareceu para sempre. De dia para dia ela se irá tornando mais viçosa. Deixa que ela ande. Ela não cambaleará mais, nem sentirá canseira.
A mãe põe no chão a menina, que já fica de pé, bem firme e cada vez mais alegre. Por fim, ela gorjeia com sua voz de prata:
– Bendize o Senhor, minha mãe! Eu estou bem sã. Eu o sinto –e, em sua simplicidade de pastorinha e de menina, ela se lança ao pescoço de Jesus e o beija. A mãe, reservada, como o exige a idade, prostra-se, e beija a veste do Senhor, bendizendo-o.
– Ide. Lembrai-vos do benefício recebido de Deus, e sede boas. A paz esteja convosco.