O homem, que caminha próximo a Jesus, e que se sente cansado sob o seu saco, atrai a curiosidade de Pedro.
– Mas, que há de tão pesado aí dentro? –ele pergunta.
– Minhas roupas… e alguns livros… Os meus amigos, depois dos frangos. Não pude separar-me. E pesam.
– É, a ciência pesa! E se pesa! E a quem ela agrada, então!
– Foram os livros que não deixaram que eu ficasse doido.
– É! Deves mesmo querer-lhes bem. Mas, que livros são?
– Filosofia, história, poesia grega e romana…
– Bonitos, bonitos. Devem ser bonitos. Mas achas que vais poder andar com eles nas costas?
– Talvez eu consiga até separar-me deles. Mas, tudo de uma vez, não se pode fazer, não é mesmo, Messias?
– Chama-me Mestre. Sim. Não se pode. Mas Eu vou arrumar um lugar onde poderás dar abrigo aos teus amigos, os livros. Eles te poderão servir para discutires com os pagãos sobre Deus.
– Oh! Como tens o pensamento livre de toda restrição!
Jesus sorri, e Pedro exclama:
– Mas, sem dúvida alguma. Ele é a própria Sabedoria!
– E a Bondade, podes crer. E tu és culto?
– Eu? Oh! Sou muito culto. Eu já distingo uma carpa de uma sardinha e a minha cultura para ai. Eu sou pescador, meu amigo!
E Pedro se ri, humilde e sincero.
– Sê um homem honesto. Esta é uma ciência que cada um por si aprende. Mas é muito difícil de se conseguir. Tu me agradas.
– Tu também me agradas. Porque és sincero. Até em te acusares. Eu perdôo tudo, ajudo a todos. Mas sou um inimigo desapiedado dos falsos. Eles me dão arrepios.
– Tens razão. O falso é um delinquente.
– Um delinquente. Assim disseste. Dize-me, não terás confiança em mim, para me entregares um pouco esse saco? E, fica certo de que eu não vou fugir com os livros… Tu me pareces estar muito cansado.
– Vinte anos de trabalho na mina acabam com a gente. Mas, por que queres cansar-te tu?
– Porque o Mestre nos ensinou a amar-nos como irmãos. Dá aqui. E segura estes meus trapos. O meu é leve. Nele não há história, nem poesia. A minha história, a minha poesia é diferente do que falaste: é Ele, o meu Jesus, o nosso Jesus.