EMF 200.7 · Volume 3
O Evangelho como me foi revelado
Citação
A humildade sustém o amor e o torna perfeito.
Notas do tema
Conforto de leitura
EMF 200.7 · Volume 3
A humildade sustém o amor e o torna perfeito.
EMF 201.4 · Volume 3
Entram na sala em que Jesus, quando chegou a sua vez, também entrou. Um jovem, que estava escrevendo a um canto, levanta-se num salto ao ver José e se dobra até o chão.
– Deus esteja contigo, Zacarias. Vai depressa chamar Asrael e Jacó.
O jovem sai para voltar quase em seguida, com dois rabinos, sinagogos ou escribas, eu não sei. São dois personagens carrancudos, que depõem essa máscara só diante de José. Atrás deles, entram outros oito, menos imponentes. Eles se assentam, deixando de pé os postulantes, inclusive o de Arimateia.
– Que queres José? –pergunta o mais velho.
– Apresentar à vossa sagacidade este filho de Abraão, que completou o tempo prescrito para entrar na Lei e reger-se sozinho por ela.
– É teu parente? –e olham todos, admirados.
– Em Deus somos todos parentes. Mas o menino é órfão, e este homem, de cuja honestidade eu me faço fiador, tomou-o para si, a fim de que o seu tálamo não fique privado de descendência.
– Quem é esse homem? Que ele responda por si mesmo.
– Simão de Jonas, de Betsaida na Galileia, casado sem filhos, pescador pelo mundo, filho da Lei pelo Altíssimo.
– E tu, galileu, queres assumir essa paternidade, por quê?
– Está dito[1] na Lei que devemos amar ao órfão e à viúva. Eu o faço.
– Por acaso, poderá esse aí conhecer a Lei, a ponto de merecer que… Mas tu, menino, responde. Quem és?
– Jabé Margziam de João, das campinas de Emaús, nascido há doze anos.
– Portanto, és judeu. É permitido que um galileu cuide dele? Vamos ver o que dizem as leis.
– Mas, que é que eu sou? Um leproso, ou um amaldiçoado?
O Sangue de Pedro começa a ferver.
– Cala-te, Simão. Eu falo por ele. Eu vos disse que me faço fiador deste homem. Eu o conheço, como se fosse de minha família. O Ancião José não proporia nunca uma coisa contrária à Lei, nem às leis. Procurai examinar o menino, com justiça e presteza. O pátio está cheio de meninos, que estão esperando o exame. Não sejais lentos, pelo amor de todos.
– Mas, quem prova que este menino tem doze anos e que foi resgatado do Templo?
– Tu o podes provar com as escrituras. E uma busca se pode fazer. Menino, disseste que és o primogênito?
– Sim, Senhor. Podes vê-lo, porque fui consagrado ao Senhor e resgatado com os devidos dízimos.
– Vamos procurar esses apontamentos… –diz José.
– Não adianta! –respondem secamente os dois caviladores–.
Marziam passa no exame de maioridade.
A Lei diz para termos amor ao órfão e à viúva. A Lei diz: Êxodo 22,21-23 | Deuteronómio 14,28-29 | Deuteronómio 16,11 | Deuteronómio 24,17-21 | Deuteronómio 26,12-13 | Deuteronómio 27,19 | Isaías 1,17.
O dever de amar e ajudar as viúvas e os órfãos é recordado várias vezes na obra de Maria Valtorta, por exemplo em EMV 229.3 e EMV 557.6.
A prescrição do Êxodo é citada textualmente em EMV 335.14.
Livro do Êxodo 22, 21-23
Ex 22, 21-23: Não afligirás a viúva nem o órfão. Se os afligirdes, eles clamarão a mim, e eu ouvirei o seu clamor; a minha cólera acender-se-á, e eu destruir-vos-ei à espada, e as vossas mulheres ficarão viúvas e os vossos filhos órfãos.
Livro do Deuteronómio 14, 28-29
Dt 14,28-29: No fim de cada terceiro ano, separarás todos os dízimos do teu produto desse ano e depositá-los-ás dentro das tuas portas. Então o levita, que não tem parte nem herança convosco, o estrangeiro, o órfão e a viúva entrarão nas vossas portas, comerão e ficarão satisfeitos, para que o Senhor vosso Deus vos abençoe em todas as obras que fizerdes com as vossas mãos.
Livro do Deuteronómio 16, 11
Dt 16, 11 : Regozijar-te-ás diante de Javé teu Deus, no lugar que Javé teu Deus escolheu para aí fazer habitar o seu nome, tu, o teu filho e a tua filha, o teu servo e a tua serva, o levita que está dentro das tuas portas, o estrangeiro, o órfão e a viúva que estão no meio de ti.
Livro do Deuteronómio 26, 12-13
Dt 26,12-13: Quando acabares de dar o dízimo de todos os dízimos da tua produção ▼ no terceiro ano, o ano do dízimo, e o deres ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para comerem dentro das tuas portas e ficarem satisfeitos, dirás diante de Javé teu Deus: "Tirei as coisas santas da minha casa e dei-as ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, segundo todos os teus preceitos que me deste; não transgredi nem me esqueci de nenhum dos teus preceitos.
Livro do Deuteronómio 27, 19
Dt 27, 19: Maldito o homem que violar os direitos do estrangeiro, do órfão e da viúva! - E todo o povo dirá: Amém!
Livro de Isaías, 1, 17
Is 1, 17: Aprendeia fazer o bem; procurai a justiça, corrigi o opressor, amparai o órfão, defendei a viúva.
EMF 203.1-13 · Volumen 3
Jesus sai com os seus de uma casa perto dos muros, e creio que sempre no bairro de Bezeta, a fim de sair para fora dos muros, devendo passar primeiro diante da casa de José, que está próxima da Porta, que eu ouvi ser chamada Porta de Herodes. A cidade está semi-deserta, nesta noite plácida e enluarada. Compreendo que já foi consumada a Páscoa em uma das casas de Lázaro que, contudo, não é, de modo algum, a casa do Cenáculo. Esta é realmente como uma antípoda daquela. Uma está ao norte, a outra ao sul de Jerusalém.
Na porta da casa, Jesus se despede, com garbo gentil, de João de Endor, que Ele deixa como proteção para as mulheres, e a quem agradece por essa proteção. Beija Margziam, que também veio até à porta, e depois põe-se a caminho para fora da Porta chamada Porta de Herodes.
– Aonde vamos, Senhor?
– Vinde comigo. Eu vos levo comigo, para coroarmos a Páscoa com uma pérola rara e desejada. Por isso é que Eu quis estar somente convosco. Os meus apóstolos! Obrigado, amigos, pelo vosso grande amor por Mim. Se pudésseis ver como isso me consola, ficaríeis admirados. Vede: Eu vivo entre contínuos atritos e desilusões. Desilusões para vós. Para Mim, persuadi-vos disso, Eu não tenho nenhuma desilusão, pois não me foi concedido o dom de ignorar… Também por isso, Eu vos aconselho a deixar-vos guiar por Mim. Se Eu permito isto ou aquilo, não crieis obstáculos. Se Eu não intervenho para pôr fim a uma coisa, não penseis em fazê-lo vós. Cada coisa a seu tempo. Tende confiança, sobretudo em Mim.
Estão no canto nordeste do recinto murado. Eles vão contornando os muros e rodeando o Monte Mória, até o ponto em que, por uma pequena ponte, já podem atravessar o Cedron.
– Vamos indo para o Getsêmani? –pergunta Tiago de Alfeu.
– Não. Mais acima. Sobre o Monte das Oliveiras.
– Oh! Será belo! –diz João.
– Seria agradável também para o menino –murmura Pedro.
– Oh! Para aqui viremos muitas outras vezes. Ele já estava cansado. Afinal, é um menino. Eu quero dar-vos uma grande coisa, porque agora é justo que a tenhais.
203.2
Vão subindo por entre as oliveiras, deixando à direita o Getsêmani, e subindo ainda pelo monte, até chegarem ao cume, sobre o qual as oliveiras, com suas frondes, formam um pente, que cicia, ao soprar do vento.
Jesus para, e diz:
– Paremos… Meus caros, tão caros como discípulos e como meus continuadores no futuro, vinde para perto de Mim. Um dia, e não foi um dia só, vós me dissestes[1]: “Ensina-nos a rezar como Tu rezas. Ensina-nos, como João ensinou aos dele, a fim de que nós, discípulos, possamos rezar com as mesmas palavras com que o Mestre reza.” E Eu sempre vos respondi: “Eu farei isso, quando vir em vós um mínimo de preparação suficiente, a fim de que vossa oração não seja uma fórmula vazia, com palavras humanas, mas uma verdadeira conversa com o Pai.” A este ponto já chegamos. Vós já sois possuidores do que basta, para poderdes conhecer as palavras dignas de serem ditas a Deus. Eu vo-las quero ensinar nesta tarde, na paz e no amor que existem entre nós, na paz e no amor de Deus e com Deus, porque nós já cumprimos o preceito pascal, como verdadeiros israelitas, e à ordem divina sobre o amor para com Deus e para com o próximo.
203.3
Um entre vós sofreu muito nestes dias. Sofreu por um ato não merecido, e sofreu pelo esforço que fez sobre si mesmo, para conter a indignação que aquele ato provocou. Sim, Simão de Jonas, vem aqui. Não houve nenhum frêmito do teu coração honesto, que por Mim tenha ficado desconhecido, e não houve sofrimento teu de que Eu não tenha participado contigo. Eu e os teus companheiros…
– Mas Tu, Senhor, foste muito mais ofendido do que eu! E esse era para mim um sofrimento muito maior, não, muito mais sensível… nem mesmo… mais… mais… Eis: que Judas tenha tido nojo de participar da minha festa me fez mal a mim, como homem. Mas ter que ver que estavas entristecido, aí é que sofri o dobro… Mas devo dizer e, se o faço por soberba, dize-o a mim, devo dizer que sofri com minha alma… e isso faz que soframos mais.
– Não é soberba, Simão. Sofreste espiritualmente, porque Simão de Jonas, pescador da Galileia, se está transformando no Pedro de Jesus, Mestre do espírito, pelo qual também os seus discípulos se tornam ativos e sábios no espírito. É por esse teu progresso na vida do espírito, e por esse vosso progredir, que Eu vos quero esta noite ensinar a oração. Quanto estais mudados, desde aquela parada solitária[2] para cá!
– Todos Senhor? –pergunta Bartolomeu, um pouco incrédulo.
– Compreendo o que queres dizer… Mas Eu falo agora a vós onze, não a outros.
– Mas, que tem Judas de Simão, Mestre? Nós não o compreendemos mais. Ele parecia tão mudado e agora, desde que nós deixamos o lago… –diz desolado André.
– Cala-te, meu irmão. A chave do mistério eu a tenho. Nele se apegou um pedacinho de Belzebu. Ele foi procurá-lo na caverna de Endor, para maravilhar-se, e… ficou servido. O Mestre disse naquele dia… Em Gamala os demônios entraram nos porcos… Em Endor, os demônios saídos daquele infeliz, que era João, entraram nele… Compreende-se… compreende-se… Deixa-me dizê-lo, Mestre! Já está aqui em cima, na garganta, e se eu não o disser, ele não sai e eu vou envenenar-me com ele…
– Simão, sê bom!
– Sim, Mestre… eu te garanto que não serei indelicado com ele. Mas digo e penso que, sendo Judas um viciado, — todos nós já entendemos isso — é um pouco semelhante ao porco… e compreende-se que os demônios escolheram de boa vontade os porcos para serem… as casas para as quais se mudaram. Eis, já o disse.
– Tu dizes que é assim? –pergunta Tiago de Zebedeu.
– E que outra coisa queres que seja? Não houve nenhuma razão para se tornar tão intratável. Pior do que em Águas Belas! Lá eu ainda podia pensar que era o lugar e a estação que o fizessem ficar nervoso. Mas agora…
203.4
– Há uma outra razão, Simão…
– Dize qual é, Mestre. Eu ficarei contente se puder mudar de opinião a respeito do companheiro.
– Judas é ciumento. É inquieto por ciúme.
– Ciumento? De quem? Não tem mulher e, mesmo que a tivesse, e ainda que fosse com as mulheres, eu creio que nenhum de nós teria desprezo para com o condiscípulo…
– É ciumento de Mim. Considera: Judas se alterou depois de Endor e depois de Esdrelon. Ou seja, quando viu que Eu me ocupei com João e Jabé. Mas agora João, principalmente João, vai-se afastar, passando de Mim para Isaac e verás que ele voltará a ficar alegre e bom.
– É… Está bem. Mas, não me quererás dizer que ele não está tomado por algum demoniozinho… E, sobretudo… Não, o digo! E mais que tudo, não me quererás dizer que ele melhorou nos últimos meses. Ciumento eu também era no ano passado… Eu não teria querido ninguém mais além de nós seis, — os primeiros seis, — Te recordas? Agora… Agora… deixa-me invocar a Deus somente uma vez, como testemunha do meu pensamento. Agora digo que me sinto feliz, quanto mais aumentam os discípulos ao redor de Ti. Oh! eu quereria ter todos os homens para trazê-los a Ti, e todos os meios para poder acudir a quem tem necessidade de Ti, a fim de que não seja a miséria que crie obstáculos a quem quiser vir a Ti. Deus está vendo se eu estou dizendo a verdade. Mas, por que sou assim agora? Porque eu me deixei mudar por Ti. Ele… não mudou. Pelo contrário… olha lá, Mestre… Um demoniozinho tomou conta dele…
– Não o digas. Não o penses. Reza para que ele sare. O ciúme é uma doença…
– Doença que, a teu lado se cura, se o quisermos. Ah! Eu vou suportá-lo, por causa de Ti… Mas, que fadiga!…
– Por ela te dei como prêmio o menino. E agora vou te ensinar a rezar…
– Oh! Sim, meu irmão. Vamos falar disso… e o meu homônimo seja lembrado só como alguém que tem necessidade disso. Parece-me que ele já está recebendo o seu castigo: Neste momento ele não está conosco! –diz Judas Tadeu.
203.5
– Ouví. Quando rezardes! dizei assim: “Pai nosso, que estás no Céu, santificado seja o teu Nome, venha o teu Reino na Terra, como o é no Céu e, na Terra, como no Céu, seja feita a tua Vontade. Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia, perdoa-nos as nossas dívidas, como nós perdoamos aos nossos devedores, não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Maligno.”
Jesus se levantou para dizer a oração, e todos o imitaram, atentos e comovidos.
– Não é preciso nada mais, meus amigos. Nestas palavras está contido como num anel de ouro tudo quanto é necessário ao homem para o espírito, a carne e o sangue. Com isto pedis o que é útil para aquele e para estes. E, se fizerdes o que pedis, conseguireis a vida eterna. É uma oração tão perfeita, que os vagalhões das heresias e o curso dos séculos não conseguirão embotá-la. O cristianismo será esmigalhado pela mordedura de satanás, e muitas partes da minha carne mística serão arrancadas, separadas, formando células por si mesmas, no vão desejo de criar para si um corpo perfeito como será o Corpo místico de Cristo, ou seja, o que é formado por todos os fiéis unidos na Igreja apostólica, que será, enquanto existir a terra, a única verdadeira Igreja. Mas estas pequenas partes separadas, privadas por isso dos dons que eu deixarei à Igreja mãe para nutrir os meus filhos, continuarão a se chamar sempre de cristãos, prestando culto ao Cristo, e sempre se recordarão, mesmo em seu erro, de que vieram do Cristo. Pois bem. Elas também rezarão com esta oração universal. Lembrai-vos bem dela. Meditai nela continuamente. Aplicai-a às vossas ações. Não há necessidade de mais nada para que vos santifiqueis. Se alguém estivesse sozinho, num lugar de pagãos, sem igrejas, sem livros, teria tudo que se pode saber para meditar, nesta oração, e uma igreja aberta em seu coração por esta oração. Teria uma regra e uma santificação segura.
203.6
“Pai nosso.”
Eu o chamo “Pai.” Pai, Ele é do Verbo, Pai é do Encarnado. Assim quero que o chameis, porque vós sois Um comigo, se permanecerdes em Mim. Houve um tempo em que o homem devia jogar-se de rosto no chão, para suspirar, por entre temores de espanto: “Deus!” Quem não crê em Mim e em minha palavra, ainda está neste temor paralisante… Observai no Templo. Não Deus, mas até a lembrança de Deus está escondida aos olhos dos fiéis, atrás de um tríplice véu. Separações por distância, separações por véus, tudo foi usado e aplicado para dizer a quem reza: “Tu és barro. Ele é Luz. Tu és abjecto. Ele é Santo. Tu és escravo. Ele é Rei.”
Mas agora!… Levantai-vos! Aproximai-vos! Eu sou o Sacerdote Eterno. Eu posso tomar-vos pela mão e dizer: “Vinde.” Eu posso agarrar os véus da tenda e abri-las, escancarando as portas do lugar inacessível, e até agora fechado. Fechado? Por quê? Fechado pela culpa, sim. Mas, mais fechado ainda pelo pensamento aviltado dos homens. Por que fechado, se Deus é Amor, se Deus é Pai? Eu posso, Eu devo, Eu quero levar-vos não para o pó, mas para o azul; não para longe, mas para perto; não em vestes de escravos, mas de filhos, sobre o coração de Deus. “Pai! Pai”, vós dizeis. E não vos canseis de dizer esta palavra. Não sabeis que, cada vez que a dizeis, o Céu cintila pela alegria de Deus? Não diríeis que nesta oração, feita com verdadeiro amor, já teríeis feito a oração agradável ao Senhor? “Pai! Meu Pai! dizem os pequenos a seu pai. É a palavra que aprendem a dizer primeiro: “Mãe, pai.” Vós sois os pequeninos de Deus. Eu vos gerei do velho homem que éreis e que Eu destruí com meu amor, para fazer nascer o homem novo, o cristão. Chamai, pois, com a primeira palavra que os pequeninos conhecem e falam, ao Pai Altíssimo, que está nos Céus.
203.7
“Santificado seja o teu Nome.”
Oh! O nome mais santo e suave que qualquer outro nome. Nome que o terror do culpado vos ensinou a esconder debaixo de um outro. Não, não mais digais Adonai, não mais. É Deus. É Deus que, num excesso de amor, criou a Humanidade. A Humanidade de agora em diante, com os lábios purificados pelo banho que Eu preparo, que ela o chame por seu Nome, reservando-o para a hora de compreender com plenitude da sabedoria o verdadeiro significado deste Incompreensível, quando intimamente unida com Ele, a Humanidade, em seus filhos melhores, tiver sido elevada ao Reino que Eu vim estabelecer[3].
203.8
“Venha o teu Reino assim na terra como no Céu.”
Desejai com todas as vossas forças este advento. Seria a alegria sobre toda a terra, se ele viesse. O Reino de Deus nos corações, nas famílias, entre os cidadãos, entre as nações. Sofrei, fatigai-vos, sacrificai-vos por este Reino. Seja a terra um espelho que reflita em cada um a vida dos Céus. Ele virá. Um dia tudo isso virá. Séculos e séculos de lágrimas e sangue, de erros, de perseguições, de escuridão rompida por raios de luz, que irradiam do Farol místico da minha Igreja — que, se é uma barca, que não será submersa, é também uma rocha irremovível, frente a todos os vagalhões, e alta vai conservar a Luz, a minha Luz, a Luz de Deus — aqueles séculos precederão o momento no qual a terra possuirá o Reino de Deus. E será então como o flamejar intenso de um astro que, tendo chegado ao ponto mais perfeito de sua existência, se desagrega, como uma flor descomunal dos jardins etéreos, para exalar, em palpitações rutilantes, a sua existência e o seu amor aos pés do seu Criador. Mas, que virá, virá. Depois disso, será o Reino Perfeito, feliz e eterno no Céu.
203.9
“E na terra como no Céu seja feita a tua Vontade.”
A anulação da própria vontade pela de outra pessoa só se pode fazer, quando se alcançou o perfeito amor para com aquela criatura. O anulamento da própria vontade pela de Deus somente se pode fazer quando se alcançou a posse das virtudes teologais, em grau heróico. No Céu, onde tudo é sem defeitos, faz-se a vontade de Deus. Sabei, pois, vós filhos do Céu, fazer o que se faz no Céu.
203.10
“Dá-nos o pão nosso de cada dia.”
Quando estiverdes no céu, vós vos nutrireis somente de Deus. A felicidade será o vosso alimento. Mas aqui ainda tendes necessidade de pão. E sois os pequeninos de Deus. Portanto, é justo dizer: “Pai, dá-nos o pão.” Tendes medo de não serdes ouvidos? Oh! Não! Considerai. Se um de vós tem um amigo e, dando-se conta de que está sem pão para matar a fome de um outro amigo ou de um parente, que chegou à casa dele, lá pelo fim da segunda vigília da noite, e for ao amigo, e lhe disser: “meu amigo, empresta-me três pães, porque um hóspede chegou lá em casa, e eu não tenho nada para dar-lhe de comer”, poderá acontecer que ele ouça esta resposta, que vem lá de dentro da casa: “Não me aborreças, porque a porta já está fechada, as aldravas já estão trancadas, os meus filhos já estão dormindo ao meu lado. Não posso levantar-me para dar-te o que queres”? Não. Se ele recorreu a um verdadeiro amigo, e se insiste, receberá o que está pedindo. E o receberia também, mesmo que tivesse recorrido a um amigo não muito bom. Ele receberia por causa de sua insistência, porque o solicitado de tal favor ia se apressar em dar-lhe tudo o que ele quisesse, contanto que não o importunasse mais.
Mas vós, orando ao Pai, não estais recorrendo a um amigo da terra, e sim, ao Amigo Perfeito, que é o Pai do Céu. Por isso, Eu vos digo: “Pedi, e vos será dado; procurai, e encontrareis; batei, e se vos abrirá.” De fato, a quem pede, é dado, quem procura, acaba por encontrar, e a quem bate, a porta se abre. Quem, entre os filhos dos homens, é visto pondo uma pedra na mão de quem está pedindo ao pai um pão? E quem é visto dar uma cobra, em vez de um peixe assado? Seria um delinquente o pai que assim fizesse com seus filhos. Eu já o disse[4], e o repito, para persuadir-vos e terdes sentimentos de bondade e confiança. Assim como ninguém, de são juízo, daria um escorpião em lugar de um ovo, assim, com quanto maior bondade Deus não vos dará o que pedis? Porque Ele é bom, enquanto que vós, uns mais, outros menos, sois maus. Pedi, pois, com um amor humilde e filial o vosso pão ao Pai.
203.11
“Perdoa-nos as nossas dívidas como nós as perdoamos aos nossos devedores.”
Há dívidas materiais, e dívidas espirituais. E há também as dívidas morais. É dívida material a moeda ou a mercadoria que, tomada emprestada, não foi restituída. É dívida moral a estima tirada e não devolvida, O amor querido e não dado. É dívida espiritual a obediência a Deus, do qual muito se exigiria, e ao qual se dá bem pouco, e o amor para com Ele. Ele nos ama e deve ser amado, assim como se ama uma mãe, uma esposa, um filho, do qual se exigem tantas coisas. O egoísta quer ter e não dar. Mas o egoísta está entre os antípodas do céu. Temos dívidas com todos. Desde Deus até o parente, e deste até o amigo, do amigo até o próximo, ao criado e ao escravo, sendo todos eles seres como nós. Ai de quem não perdoa! Não será perdoado. Deus não pode, por justiça, perdoar a dívida que o homem tem para com ele que é Santíssimo, se o homem não perdoa a seu semelhante.
203.12
“Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Maligno.”
O homem, que não sentiu necessidade de participar conosco da Ceia da Páscoa, me perguntou, há menos de um ano; “Como? Tu pedistes para não seres tentado, e para seres ajudado na tentação, contra ela mesma?” Nós dois estávamos sozinhos… e Eu respondi[5]. Depois, éramos quatro em um lugar solitário, e Eu ainda respondi. Mas ainda não adiantou, porque em um espírito muito resistente é preciso insinuar-se, demolindo a má fortaleza de sua obstinação. E, por isso, o direi ainda uma, dez, cem vezes, até que tudo chegue ao fim.
Mas vós, não encouraçados em infelizes doutrinas e em paixões ainda mais infelizes, rezai com humildade para que Deus impeça as tentações. Oh! A humildade! Conhecer-se pelo que se é. Sem aviltar-se, mas procurando conhecer-se. Dizer: “Eu poderia ceder, mesmo que não me pareça poder fazê-lo, porque eu sou um juiz imperfeito de mim mesmo. Portanto, Pai meu, se for possível, liberta-me das tentações conservando-me perto de Ti, para não permitir ao Maligno fazer-me mal.” Porque, recordai-vos disso, não é Deus que tenta para o Mal, mas é o Mal que tenta. Rezai ao Pai para que Ele ajude a vossa fraqueza, a tal ponto, que ela não possa ser induzida em tentação pelo Maligno.
203.13
Já o disse, meus queridos. Esta é a minha segunda Páscoa entre vós. No ano passado, partimos somente o pão e o cordeiro. Neste ano vos dou a oração. Outros presentes terei para as outras minhas Páscoas entre vós, para que, quando Eu tiver ido para onde o Pai quer, vós tenhais uma lembrança de Mim, Cordeiro, em todas as festas do Cordeiro de Moisés.
Levantai-vos e vamos. Entraremos de novo na cidade, ao amanhecer. Em tempo: amanhã, tu, Simão e tu, meu irmão (indica Judas) ireis buscar as mulheres e o menino. Tu, Simão de Jonas, e vós outros, ficareis comigo, até que estes voltem. Depois, iremos juntos para Betânia.
E descem até o Getsêmani, em cuja casa entram para descansar.
Lição sobre a oração do Pai-Nosso. Adiamos o capítulo inteiro, porque, ao longo do caminho, Jesus insiste no grande dom que está a dar aos seus apóstolos.
Disse-me, por exemplo, em EMV 62.2 | EMV 119.10 | EMV 149.3.
O meu homónimo: Judas e Jude são o mesmo nome próprio, mesmo que os franceses tenham usado formas diferentes.
EMF 203.1 · Volume 3
Obrigado, amigos, pelo vosso grande amor por Mim. Se pudésseis ver como isso me consola, ficaríeis admirados. Vede: Eu vivo entre contínuos atritos e desilusões. Desilusões para vós. Para Mim, persuadi-vos disso, Eu não tenho nenhuma desilusão, pois não me foi concedido o dom de ignorar… Também por isso, Eu vos aconselho a deixar-vos guiar por Mim. Se Eu permito isto ou aquilo, não crieis obstáculos. Se Eu não intervenho para pôr fim a uma coisa, não penseis em fazê-lo vós. Cada coisa a seu tempo. Tende confiança, sobretudo em Mim.
EMF 203.1 · Volume 3
Vede: Eu vivo entre contínuos atritos e desilusões. Desilusões para vós. Para Mim, persuadi-vos disso, Eu não tenho nenhuma desilusão, pois não me foi concedido o dom de ignorar… Também por isso, Eu vos aconselho a deixar-vos guiar por Mim. Se Eu permito isto ou aquilo, não crieis obstáculos. Se Eu não intervenho para pôr fim a uma coisa, não penseis em fazê-lo vós. Cada coisa a seu tempo. Tende confiança, sobretudo em Mim.
Jesus fala das provações por que o grupo apostólico está a passar e exorta os apóstolos a confiarem em Deus.
EMF 203.2 · Volume 3
Meus caros, tão caros como discípulos e como meus continuadores no futuro, vinde para perto de Mim. Um dia, e não foi um dia só, vós me dissestes: “Ensina-nos a rezar como Tu rezas. Ensina-nos, como João ensinou aos dele, a fim de que nós, discípulos, possamos rezar com as mesmas palavras com que o Mestre reza.” E Eu sempre vos respondi: “Eu farei isso, quando vir em vós um mínimo de preparação suficiente, a fim de que vossa oração não seja uma fórmula vazia, com palavras humanas, mas uma verdadeira conversa com o Pai.” A este ponto já chegamos. Vós já sois possuidores do que basta, para poderdes conhecer as palavras dignas de serem ditas a Deus. Eu vo-las quero ensinar nesta tarde, na paz e no amor que existem entre nós, na paz e no amor de Deus e com Deus, porque nós já cumprimos o preceito pascal, como verdadeiros israelitas, e à ordem divina sobre o amor para com Deus e para com o próximo.
Jesus fala aos apóstolos.
Disse-me, por exemplo, em EMV 62.2 | EMV 119.10 | EMV 149.3.
EMF 203.4 · Volume 3
– Há uma outra razão, Simão…
– Dize qual é, Mestre. Eu ficarei contente se puder mudar de opinião a respeito do companheiro.
– Judas é ciumento. É inquieto por ciúme.
– Ciumento? De quem? Não tem mulher e, mesmo que a tivesse, e ainda que fosse com as mulheres, eu creio que nenhum de nós teria desprezo para com o condiscípulo…
– É ciumento de Mim. Considera: Judas se alterou depois de Endor e depois de Esdrelon. Ou seja, quando viu que Eu me ocupei com João e Jabé. Mas agora João, principalmente João, vai-se afastar, passando de Mim para Isaac e verás que ele voltará a ficar alegre e bom.
– É… Está bem. Mas, não me quererás dizer que ele não está tomado por algum demoniozinho… E, sobretudo… Não, o digo! E mais que tudo, não me quererás dizer que ele melhorou nos últimos meses. Ciumento eu também era no ano passado… Eu não teria querido ninguém mais além de nós seis, — os primeiros seis, — Te recordas? Agora… Agora… deixa-me invocar a Deus somente uma vez, como testemunha do meu pensamento. Agora digo que me sinto feliz, quanto mais aumentam os discípulos ao redor de Ti. Oh! eu quereria ter todos os homens para trazê-los a Ti, e todos os meios para poder acudir a quem tem necessidade de Ti, a fim de que não seja a miséria que crie obstáculos a quem quiser vir a Ti. Deus está vendo se eu estou dizendo a verdade. Mas, por que sou assim agora? Porque eu me deixei mudar por Ti. Ele… não mudou. Pelo contrário… olha lá, Mestre… Um demoniozinho tomou conta dele…
– Não o digas. Não o penses. Reza para que ele sare. O ciúme é uma doença…
– Doença que, a teu lado se cura, se o quisermos. Ah! Eu vou suportá-lo, por causa de Ti… Mas, que fadiga!…
– Por ela te dei como prêmio o menino. E agora vou te ensinar a rezar…
– Oh! Sim, meu irmão. Vamos falar disso… e o meu homônimo seja lembrado só como alguém que tem necessidade disso. Parece-me que ele já está recebendo o seu castigo: Neste momento ele não está conosco! –diz Judas Tadeu.
Pedro ficou surpreendido com a atitude de Judas e Jesus explicou que ele tinha ciúmes. Simão de Jonas disse então que também ele tinha tido ciúmes no ano passado, mas que agora tinha mudado.
EMF 203.4 · Volume 3
« Reza para que ele sare. O ciúme é uma doença…
– Doença que, a teu lado se cura, se o quisermos. Ah! Eu vou suportá-lo, por causa de Ti… Mas, que fadiga!… »
Jesus está a falar de alguém que é invejoso.
EMF 203.5-13
Tradução em curso
EMF 203.5 · Volume 3
É uma oração tão perfeita, que os vagalhões das heresias e o curso dos séculos não conseguirão embotá-la. O cristianismo será esmigalhado pela mordedura de satanás, e muitas partes da minha carne mística serão arrancadas, separadas, formando células por si mesmas, no vão desejo de criar para si um corpo perfeito como será o Corpo místico de Cristo, ou seja, o que é formado por todos os fiéis unidos na Igreja apostólica, que será, enquanto existir a terra, a única verdadeira Igreja. Mas estas pequenas partes separadas, privadas por isso dos dons que eu deixarei à Igreja mãe para nutrir os meus filhos, continuarão a se chamar sempre de cristãos, prestando culto ao Cristo, e sempre se recordarão, mesmo em seu erro, de que vieram do Cristo. Pois bem. Elas também rezarão com esta oração universal. Lembrai-vos bem dela. Meditai nela continuamente. Aplicai-a às vossas ações. Não há necessidade de mais nada para que vos santifiqueis. Se alguém estivesse sozinho, num lugar de pagãos, sem igrejas, sem livros, teria tudo que se pode saber para meditar, nesta oração, e uma igreja aberta em seu coração por esta oração. Teria uma regra e uma santificação segura.
Jesus está a falar da oração do Pai Nosso.