Não queirais acumular os vossos tesouros na terra, vivendo por eles, sendo cruéis, malditos pelo próximo e por Deus por causa deles. Não vale a pena. Eles estão sempre sem segurança na terra. Os ladrões sempre podem roubar-vos. O fogo pode destruir vossas casas. As doenças nas plantas e nos rebanhos podem acabar com o vosso gado e os vossos pomares. Quantas coisas perseguem os vossos bens. Ainda que eles sejam imóveis e inatacáveis, como as casas e ouro, podem estar sujeitos a se deteriorarem, como todos os seres vivos, os vegetais e os animais. Por mais que sejam estofos preciosos, estão sujeitos à desvalorização. Um raio que cai nas casas, o fogo e a água. Os ladrões, a ferrugem, a seca, os roedores, os insetos nas lavouras; a vertigem dos cavalos, as febres, os desconjuntamentos das pernas e a peste dos animais, traças e camundongos nos tecidos preciosos e nos móveis de estimação; a erosão produzida pela oxidação das vasilhas, dos lustres e grades artísticas; tudo, tudo está sujeito a deteriorização.
Mas, se vós fazeis um bem sobrenatural, de todos estes bens terrenos, logo ele fica a salvo de toda a deteriorização do tempo, dos homens e das intempéries. Fazei para vós tesouros no Céu, lá onde não entram ladrões, e onde não acontecem desventuras. Trabalhai com amor misericordioso com todas as misérias da terra. Acariciai as vossas moedas, e até beijai-as, se quiserdes, alegrando-vos com as colheitas que melhoram, com os vinhedos carregados de cachos, com as oliveiras que se inclinam sob o peso de numerosíssimas azeitonas, com as ovelhas de seios fecundos e mamas cheias. Fazei tudo isso. Mas, não de modo estéril, não de modo humano. Fazei-o com amor e admiração, com gozo e com a mentalidade sobrenatural.
“Obrigado, meu Deus pelas moedas, colheitas, plantas, pelas ovelhas, pelos negócios. Obrigado, ovelhas, plantas, prados, negócios, que me servis tão bem. Sede benditos todos, porque por tua bondade, ó Eterno, e por vossa bondade, ó coisas, é que eu posso fazer tanto bem a quem tem fome, a quem está nu, a quem não tem casa, a quem está doente, sozinho…. No ano passado eu fiz o bem por dez. Neste ano — mesmo que eu tenha dado muito em esmolas, tenho ainda mais dinheiro e minhas colheitas foram mais gordas e os meus rebanhos, mais numerosos — eu, então, darei duas, três vezes o que eu dei no ano passado. Do mesmo modo que todos, até os privados de seus próprios bens, participem da minha alegria, e gozem e bendigam comigo a Ti, Senhor Eterno.” Esta é a oração do justo. A oração unida à ação, que transporta os vossos bens para o Céu. Não só vo-los conserva para sempre, mas vos faz encontrá-los, aumentados pelos frutos santos do amor.
Tende o vosso tesouro no Céu, para que tenhais o vosso coração além do perigo, pois não somente o ouro, as casas os campos e os rebanhos podem passar por desventuras, mas o vosso coração pode ser insidiado, despojado, queimado e morto pelo espírito do mundo. Se assim fizerdes, tereis vosso tesouro em vosso coração, porque tereis Deus em vós, até o feliz dia no qual estareis n’Ele.