EMF 199.7 · Volume 3
O Evangelho como me foi revelado
Citação
A inocência fala… porque ela vê pelos olhos do seu anjo.
Detalhe
Sobre as crianças.
Notas do tema
Conforto de leitura
EMF 199.7 · Volume 3
A inocência fala… porque ela vê pelos olhos do seu anjo.
Sobre as crianças.
EMF 199.8-9 · Volume 3
– Sim. Pedro é muito bom. Por ele Eu faria qualquer coisa, pois ele o merece.
– Se ele te ouvisse, diria com aquele seu sorriso bom e sincero: “Ah! Senhor, isso não é verdade!” E teria razão.
– Por quê, mãe?
Mas Jesus está sorrindo porque já compreendeu.
– Porque Tu o não contentas, dando-lhe um filho. Ele me contou todas as suas esperanças, os seus desejos… e as tuas recusas.
– E não te disse as razões com que as justifiquei?
– Sim, ele as disse, e acrescentou: “É verdade… mas eu sou um homem, um pobre homem. Jesus teima em querer ver em mim um grande homem. Mas eu sei que não sou mais do que um ser mesquinho e, por isso… me poderia dar um menino. Eu me casei para ter um… e vou morrer sem ter.” E, mostrando o menino que, feliz pela veste para ele comprada por Pedro, o havia beijado, dizendo-lhe: “Meu pai amado”, disse-me: “Vê, quando este pequenino que, há somente dez dias, eu nem conhecia ainda, fala-me assim, eu me sinto mais maleável do que manteiga, e mais doce do que o mel, e até choro porque… cada dia que passa, ele quer me levar embora este menino…”
Maria se cala, observando Jesus, estudando-lhe o semblante, esperando uma palavra… Mas Jesus colocou o cotovelo sobre o joelho, a cabeça encostada na palma da mão e está também calado, olhando para a grande extensão verde do pomar.
Maria pega a mão dele e a acaricia, dizendo:
– Simão tem esse seu grande desejo… Enquanto eu ia andando com ele, não parou de falar-me nisso, e com razões tão justas, que… eu não pude dizer nada para fazê-lo calar-se. Eram as mesmas razões, nas quais pensamos todas nós, mulheres e mães. O menino não é robusto. Se ele tivesse sido como eras Tu… Oh! então teria podido ir ao encontro da vida, como um discípulo sem medo. Mas é tão fraquinho!… Muito inteligente, muito bom… e nada mais. Quando um pombinho é delicado, não se pode lançá-lo ao vôo logo, como se faz com os fortes. Os pastores são bons… mas são sempre homens. Os meninos precisam das mulheres. Por que não o deixas com Simão? Enquanto lhe negas um filho nascido dele, eu compreendo o motivo. Um pequenino nosso é para nós como uma âncora. E Simão, destinado a tão grande sorte, não pode ter âncoras que o detenham. Contudo, deves convir que ele deva ser o ‘pai’ de todos os filhos que Tu lhe deixarás. E, como haveria ele de ser pai, se não tiver treinado com um menino? Um pai deve ser manso. E Simão é bom, mas manso, não. Ele é impulsivo e intransigente. Não há nada como uma criaturinha, que lhe possa ensinar a arte sutil da compaixão para com quem é fraco… Pensa nesta sorte de Simão… Afinal, é o teu sucessor! Oh! tenho afinal que dizer esta palavra cruel! Mas, pela grande dor que me custa dizê-la escuta-me. Eu nunca te aconselharia uma coisa que não fosse boa. Margziam… Tu queres fazer dele um perfeito discípulo… Mas ele ainda é um menino. Tu… Terás que ir embora, antes que ele se torne um homem. A quem, então, o entregarás para completar sua formação, senão a Simão? Afinal, pobre Simão, Tu sabes quanto tem sofrido, também por causa de Ti, da parte de sua sogra Contudo ele não recuperou nem um grãozinho do seu passado, da liberdade que tinha, há um ano, para ser deixado em paz pela sogra, que nem Tu pudeste mudar. E aquela pobre criatura, que é a mulher dele? Oh! Ela tem um grande desejo de amar e de ser amada. A mãe… Oh! O marido? Um amável prepotente. Nunca um afeto que lhe seja dado sem tantas exigências… Pobre mulher!… Deixa-lhe o menino. Escuta, Filho. Por enquanto, o levamos conosco. Eu também virei para a Judeia. Tu me levarás contigo à casa de minha companheira no Templo e quase nossa parenta, porque é descendente de Davi. Ela mora em Betsur. Eu a irei ver de boa vontade, se é que ainda vive. Depois, ao voltarmos para a Galileia, o daremos à Púrpura. Quando estivermos nas vizinhanças de Betsaida, Pedro o tomará. E, quando viermos para longe, o menino ficará com ela. Ah! Mas Tu agora estás sorrindo! Então contentarás à tua mamãe. Obrigada, meu Jesus.
– Sim. Seja feito como Tu queres.
199.9
Jesus se levanta, e grita com força:
– Simão de Jonas, vem aqui.
Pedro dá um salto, e vai correndo pelos degraus.
– Que queres, Mestre?
– Vem aqui, homem usurpador e corruptor!
– Eu? Por quê? Que foi que eu fiz, Senhor?
– Tu corrompeste minha mãe. Para isso é que querias estar sozinho. Que devo te fazer?
Mas Jesus está sorrindo e Pedro fica mais tranquilo.
– Oh! –diz ele–, me fizeste ficar com medo! Mas agora estás rindo… Que queres de mim, Mestre? A vida? É só o que tenho, pois me tomaste tudo… Mas, se a queres, eu a dou.
– Eu não quero tirar-te nada. Mas quero te dar. Mas não fiques te gloriando pela vitória e não contes o segredo aos outros, ó homem matreiríssimo, que vences o Mestre com a arma da palavra materna. Tu ficarás com o menino, mas…
Jesus não fala mais, porque Pedro, que se havia ajoelhado, põe-se rapidamente de pé e beija Jesus com tanto ímpeto, que lhe embargou a palavra.
– Agradece a ela, não a Mim. Mas, lembra-te que isso te deve servir de ajuda e não de estorvo…
– Senhor, não terás que arrepender-te por este presente… Oh! Maria! Que Tu sejas sempre bendita, santa e boa…
E Pedro, que de novo caiu de joelhos, está chorando de verdade e beijando a mão de Maria.
199.9 Jesus levanta-se e chama em alta voz
"Simão, filho de Jonas, vem cá!"
Pedro ficou assustado e subiu as escadas a correr:
"O que é que queres, Mestre?
- Vem cá, usurpador e corruptor!
- Eu? Porquê? O que é que eu fiz, Senhor?
- Tu corrompeste a minha Mãe. Foi por isso que quiseste ficar sozinho. Que te hei-de fazer?
Mas Jesus sorriu e Pedro ficou tranquilo.
Oh", diz ele, "pregaste-me um susto! Mas agora estás a rir... O que queres de mim, Mestre?
JESUS AGRADÁVEL: Esta passagem causou polémica entre algumas pessoas:
- Alguns não conseguem imaginar Jesus a brincar como se faz com os melhores amigos (parecendo acusá-los da antítese do que obviamente são).
- Os outros fazem uma leitura parcial que interpreta a corrupção isolada como uma prática indigna e chocante.
MARIA MEDIANEIRA DE TODAS AS GRAÇAS :
Relativamente ao primeiro ponto, a anedota, é de notar que Jesus não usa a vulgaridade habitualmente associada a este tipo de anedota, mas tira dela uma lição sagrada: Maria, Medianeira de todas as graças. Ele está a "evangelizar" a nossa humanidade.
Quanto à outra, uma leitura do contexto elimina qualquer dúvida sobre a intenção de Pedro quando, vendo negado o seu desejo mais profundo, pede a ajuda e a mediação de Maria.
EMF 199.8 · Volume 3
Enquanto lhe negas um filho nascido dele, eu compreendo o motivo. Um pequenino nosso é para nós como uma âncora. E Simão, destinado a tão grande sorte, não pode ter âncoras que o detenham.
Maria fala de Simão Pedro e diz
EMF 200.1 · Volume 3
Jesus torna a entrar sozinho em casa de Zelotes. A tarde já está chegando plácida e serena, depois de um dia de muito sol. Jesus aparece à porta da cozinha, saúda, e depois sobe para o quarto superior, já preparado para a ceia, a fim de lá meditar. Não parece estar muito alegre o Senhor. Ele está suspirando repetidas vezes, e andando para lá e para cá, lançando, de vez em quando, um olhar por sobre a campina vizinha, que pode ser vista através das muitas portas desta vasta sala, que tem a forma de um cubo, colocado sobre o térreo. Ele sai, também para passear sobre o terraço, fazendo a volta ao redor da casa, e para no lado detrás dela, a fim de olhar para João de Endor que, de modo cortês, está tirando água de um poço, para oferecê-la à atarefada Salomé. Jesus olha, sacode a cabeça e suspira.
A força do seu olhar atrai João, que se volta para ver o que há, e pergunta:
– Mestre, estás precisando de mim?
– Não. Eu somente estava olhando para ti.
– João é bom. Ele me ajuda –diz Salomé.
– Também por essa ajuda, Deus lhe darà recompensa.
Jesus, depois destas palavras, entra de novo no quarto e se assenta.
EMF 200.2 · Volume 3
Está tão absorto, que nem percebe o barulho das muitas vozes e do tropel dos muitos passos pelo corredor da entrada, e depois, de dois passos mais leves de alguém que sobe pela escadinha externa e que se aproxima do salão. Só quando Maria o chama é que Ele levanta a cabeça.
– Meu Filho, chegou a Susana de Jerusalém com a família, e logo Aglaé me acompanhou. Queres atendê-la, enquanto estamos sós?
– Sim, mãe. Vou atendê-la já. E que ninguém suba, enquanto não terminar tudo. Espero ter acabado, antes da volta dos outros. Mas Eu te peço que cuides para que não haja curiosidades indiscretas… em ninguém… e especialmente em Judas de Simão.
– Estarei atenta, e cuidarei disso…
Maria sai, para voltar pouco depois, segurando Aglaé pela mão, não mais embrulhada em seu manto cinzento e com o seu véu caído para a frente, não mais com suas sandálias altas e cheias de fivelas e fitas, que ela antes usava, mas totalmente transformada como mulher hebreia, pelas sandálias planas e baixas, muito simples como as de Maria, com a veste de um azul escuro, sobre a qual está posta o manto, e com um véu branco, colocado como fazem as mulheres hebreias do povo, isto é, posto simplesmente na cabeça, com uma parte jogada para as costas, de modo que o rosto fica coberto por ele, mas não completamente. O hábito comum, como é usado por muitíssimas mulheres, e estando ela no meio de um grupo de galileus, tudo isso tornava possível que Aglaé deixasse de ser reconhecida.
Ela entra de cabeça inclinada, enrubescendo a cada passo que dá, e acho que, se Maria não a fosse puxando docemente para Jesus, ela se teria ajoelhado na soleira.
– Aqui está, meu Filho, aquela que vinha te procurando há tanto tempo. Escuta-a –diz Maria, ao chegar perto de Jesus, e depois se retira, abaixando os toldos sobre as portas escancaradas e fechando a que estava mais perto da escadinha.
EMF 200.2-6 · Volume 3
Está tão absorto, que nem percebe o barulho das muitas vozes e do tropel dos muitos passos pelo corredor da entrada, e depois, de dois passos mais leves de alguém que sobe pela escadinha externa e que se aproxima do salão. Só quando Maria o chama é que Ele levanta a cabeça.
– Meu Filho, chegou a Susana de Jerusalém com a família, e logo Aglaé me acompanhou. Queres atendê-la, enquanto estamos sós?
– Sim, mãe. Vou atendê-la já. E que ninguém suba, enquanto não terminar tudo. Espero ter acabado, antes da volta dos outros. Mas Eu te peço que cuides para que não haja curiosidades indiscretas… em ninguém… e especialmente em Judas de Simão.
– Estarei atenta, e cuidarei disso…
Maria sai, para voltar pouco depois, segurando Aglaé pela mão, não mais embrulhada em seu manto cinzento e com o seu véu caído para a frente, não mais com suas sandálias altas e cheias de fivelas e fitas, que ela antes usava, mas totalmente transformada como mulher hebreia, pelas sandálias planas e baixas, muito simples como as de Maria, com a veste de um azul escuro, sobre a qual está posta o manto, e com um véu branco, colocado como fazem as mulheres hebreias do povo, isto é, posto simplesmente na cabeça, com uma parte jogada para as costas, de modo que o rosto fica coberto por ele, mas não completamente. O hábito comum, como é usado por muitíssimas mulheres, e estando ela no meio de um grupo de galileus, tudo isso tornava possível que Aglaé deixasse de ser reconhecida.
Ela entra de cabeça inclinada, enrubescendo a cada passo que dá, e acho que, se Maria não a fosse puxando docemente para Jesus, ela se teria ajoelhado na soleira.
– Aqui está, meu Filho, aquela que vinha te procurando há tanto tempo. Escuta-a –diz Maria, ao chegar perto de Jesus, e depois se retira, abaixando os toldos sobre as portas escancaradas e fechando a que estava mais perto da escadinha.
200.3
Aglaé se separa da sacola que trazia nas costas e, em seguida se ajoelha aos pés de Jesus, em meio a uma grande explosão de choro. Ela se estende no chão, chorando, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre a terra.
– Não chores assim. Já não é mais tempo disso. Tu devias chorar, quando estavas com ódio de Deus. Mas não agora que o amas e por Ele és amada.
Mas Aglaé continua a chorar…
– Não acreditas que é assim?
Sua voz está procurando um caminho, por entre os soluços:
– Eu o amo, é verdade, como sei e como posso. Mas, por mais que eu saiba e creia que Deus é Bondade, não ouso esperar de obter o seu amor. Eu pequei demais… Talvez eu o terei um dia… Mas preciso chorar muito ainda… Por enquanto, estou sozinha no meu amor. Estou sozinha… mas já não é a solidão desesperada dos anos passados. É uma solidão cheia do desejo de Deus e, por isso nem é mais desesperada… mas é tão triste, tão triste…
– Aglaé, como tu ainda conheces mal o Senhor! Este desejo dele te serve de prova de que Deus corresponde ao teu amor, de que Ele é teu amigo, que te chama e te convida, que te quer. Deus é incapaz de permanecer inerte, diante do desejo de uma criatura sua, porque aquele desejo foi inspirado àquele coração por Ele, o Criador e Senhor de toda criatura. Ele o inspirou, porque amou com um amor privilegiado a alma que agora o deseja. O desejo de Deus vem sempre antes do desejo da criatura, porque Ele é Perfeitíssimo e, por isso, o seu amor é bem mais habilidoso e abrasado do que o amor da criatura.
– Mas, como Deus pode amar-me, se eu sou lama?
– Não fiques procurando entender isso com a tua inteligência. É um abismo de misericórdia, incompreensível para a mente humana. Mas onde a inteligência do homem não pode compreender, compreende a inteligência do amor, o amor do espírito. Este compreende e penetra firmemente no mistério que é Deus e no mistério dos relacionamentos da alma com Deus. Entra, Eu te digo. Entra, porque Deus o quer.
– Oh! não, Senhor! Tudo o que me disseste[1] em Hebron se realizou.
Tu me salvaste, como o teu Nome diz. Tu procuraste a mim pobre alma perdida. Tu deste a vida a esta alma que eu trazia morta em mim. Tu me disseste que, se eu tivesse te procurado teria te encontrado. E foi verdade. Tu me disseste que estás por toda parte, onde o homem está precisando de médico e de remédio. E é verdade tudo, tudo o que disseste à pobre Aglaé, desde aquelas palavras daquela manhã de junho, até as outras ditas em Águas Belas…
– Então, deves crer também nestas.
– Sim, eu creio, eu creio. Mas, Tu me dirás: “Eu te perdôo!”
– Eu te perdôo em nome de Deus e de Jesus.
– Obrigada…
200.4
Mas agora… Agora que devo fazer? Dize-me, Salvador meu, que é que eu devo fazer para ter a vida eterna? Os homens se corrompem só ao olhar para mim… Eu não posso viver com esse calafrio contínuo de pensar que vou ser descoberta e tentada… Nesta viagem, eu vinha tremendo, diante dos olhares dos homens… Eu não quero mais pecar, nem fazer pecar. Dize-me que caminho devo seguir. Seja qual for, eu o seguirei. Tu estás vendo que eu sou forte até nos sofrimentos. E, mesmo que por grandes sofrimentos eu encontrasse a morte, não tenho medo dela. Eu até a chamarei de “minha amiga”, porque me tirará dos perigos. Fala, meu Salvador.
– Vai para um lugar deserto.
– Onde, Senhor?
– Onde quiseres. Aonde te levar o teu espírito.
– Será capaz de fazer isso o meu espírito, só agora formado?
– Sim, porque Deus vai te conduzir.
– E, quem me falará ainda de Deus?
– A tua alma ressuscitada, por enquanto.
– Não te verei nunca mais?
– Sobre a terra, nunca mais. Mas, daqui a pouco, terei te redimido completamente e, então, virei ao teu espírito a fim de preparar-te para subires a Deus.
– Como vai acontecer a minha completa redenção, se eu não vou te ver mais? Como a darás?
– Morrendo por todos os pecadores.
– Oh! Não! Tu, morreres!
– Para dar-vos a vida, devo dar-me a morte. É para isso que Eu vim em forma humana. Não chores… Tu te encontrarás comigo logo, onde Eu estiver, depois do meu sacrifício e do teu.
– Meu Senhor! Também eu haverei de morrer por Ti?
– Sim. Mas de outro modo. Tua carne irá morrendo, hora por hora, e pelo desejo da tua vontade. Há quase uma ano que ela já vem morrendo. Quando estiver completamente morta, eu te chamarei.
– Terei eu a força de destruir minha carne culpada?
– Na solidão em que vais estar e onde satanás te assaltará com a violência do seu ódio, quanto mais tu fores sendo dos Céus, mas encontrarás um meu apóstolo, que foi pecador e depois foi redimido.
– Esse, então, não será aquele bendito, que me falava de Ti? Ele é muito honesto para ter sido pecador.
– Não é aquele. É um outro. Ele te encontrará na hora certa. E te dirá tudo o que ainda não podes saber. Vai em paz. A bênção de Deus esteja sobre ti.
200.5
Aglaé, que todo aquele tempo tinha ficado de joelhos, curva-se para beijar os pés do Senhor. Não tem coragem para mais do que isso. Depois, agarra sua sacola, vira-a de boca para baixo. E dela caem vestes simples, um saquinho que retine e uma ânfora de um fino alabastro róseo.
Aglaé recoloca as vestes, apanha o saquinho e diz:
– Isto é para teus pobres. É o resto das minhas jóias. Reservei somente algumas moedas para as despesas durante a viagem… mesmo que Tu não me tivesses dito, eu teria ido para algum lugar afastado. E isto é para Ti. É menos suave que o perfume da tua santidade. Mas é tudo o que pode dar de melhor a terra. E eu me servia disto para fazer o pior… Aí está. Deus me conceda exalar perfume, pelo menos como este, na tua presença, no Céu –e destampa a ânfora, tirando-lhe a rolha preciosa e derramando o conteúdo no chão.
Um perfume fino de rosas se levanta, em ondas, dos ladrilhos, que ficaram impregnados com aquela essência de alto preço.
Aglaé recolhe a ânfora vazia.
– Para lembrança desta hora –diz ela, e depois se curva para tornar a beijar os pés de Jesus, levanta-se e vai saindo dali, andando para trás. Acaba de sair e fecha a porta.
Ouvem-se os seus passos, que vão-se afastando em direção da escada e sua voz que troca algumas palavras com Maria. Depois o rumor das sandálias que vão descendo pela escada e, por fim, nada mais. De Aglaé só resta o saquinho aos pés de Jesus e o aroma penetrante, que se espalhou por todo o quarto.
Jesus se levanta… apanha o saquinho e o põe no peito, vai até uma abertura virada para a estrada e sorri, ao ver a mulher que vai indo, sozinha, no seu manto de hebreia, a caminho de Belém. Ele faz um gesto de bênção, depois vai ao terraço e chama:
– Mamãe.
Maria sobe prontamente pela escada.
– Tu a fizeste feliz, meu Filho. Ela lá se foi, cheia de fortaleza e de paz.
– Sim, mãe. Quando André voltar, manda-o a Mim, por primeiro.
200.6
O tempo passa… Ouvem-se as vozes dos apóstolos, que estão de volta… André chega correndo:
– Mestre, precisas de mim?
– Sim. Vem cá. Ninguém precisará saber disso, mas a ti é justiça que se o diga. André, obrigado em nome de Deus e de uma alma.
– Obrigado? Por quê?
– Não estás sentindo este perfume? É a lembrança da Mulher Velada. Ela veio. Está salva.
André fica vermelho como um morango, cai de joelhos e não acha palavras… Por fim, ele diz:
– Agora, estou contente. Bendito seja o Senhor!
– Sim. Levanta-te. Não digas aos outros que ela veio.
– Guardarei silêncio, Senhor.
– Agora vai. Escuta: está aí ainda Judas de Simão?
– Sim, ele quis vir conosco… contando… muitas mentiras. Por que é que ele faz assim, Senhor?
– Porque é um jovem viciado. Dize-me a verdade: vós brigastes com ele?
– Não. O meu irmão se sente feliz demais com o seu menino, para ter vontade de brigar. E os outros… Tu sabes… são mais prudentes. Com certeza, em nossos corações ficamos muito aborrecidos. Mas depois da ceia ele vai embora… Outros amigos… diz ele. Oh! e despreza as meretrizes!…
– Sê bom, André. Tu também deves estar feliz esta tarde…
– Sim, Mestre. Eu também tenho a minha invisível, mas doce paternidade. Eu já me vou.
André só aparece em 200.6. Aglaia menciona-o em 200.4. Como o destino de Aglaia era importante para o irmão de Pedro, incluímos toda a discussão que Aglaia teve com Jesus.
Tudo o que me disseste em Hebron tornou-se realidade. Em EMV 77.
Encontrarás um dos meus apóstolos que já foi pecador e depois redimido. Provavelmente Mateus.
Então não era o apóstolo abençoado que me estava a falar de ti? André.
Eu também tenho a minha invisível, mas doce paternidade. Vou-me embora. Referência à paternidade de Pedro em relação a Marziam. Jesus concedeu-lhe ser o seu pai adotivo em EMV 199.
EMF 200.3 · Volume 3
Este desejo dele te serve de prova de que Deus corresponde ao teu amor, de que Ele é teu amigo, que te chama e te convida, que te quer. Deus é incapaz de permanecer inerte, diante do desejo de uma criatura sua, porque aquele desejo foi inspirado àquele coração por Ele, o Criador e Senhor de toda criatura. Ele o inspirou, porque amou com um amor privilegiado a alma que agora o deseja. O desejo de Deus vem sempre antes do desejo da criatura, porque Ele é Perfeitíssimo e, por isso, o seu amor é bem mais habilidoso e abrasado do que o amor da criatura.
Sobre o desejo de Deus.
EMF 200.3 · Volume 3
Aglaé se separa da sacola que trazia nas costas e, em seguida se ajoelha aos pés de Jesus, em meio a uma grande explosão de choro. Ela se estende no chão, chorando, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre a terra.
– Não chores assim. Já não é mais tempo disso. Tu devias chorar, quando estavas com ódio de Deus. Mas não agora que o amas e por Ele és amada.
Mas Aglaé continua a chorar…
– Não acreditas que é assim?
Sua voz está procurando um caminho, por entre os soluços:
– Eu o amo, é verdade, como sei e como posso. Mas, por mais que eu saiba e creia que Deus é Bondade, não ouso esperar de obter o seu amor. Eu pequei demais… Talvez eu o terei um dia… Mas preciso chorar muito ainda… Por enquanto, estou sozinha no meu amor. Estou sozinha… mas já não é a solidão desesperada dos anos passados. É uma solidão cheia do desejo de Deus e, por isso nem é mais desesperada… mas é tão triste, tão triste…
– Aglaé, como tu ainda conheces mal o Senhor! Este desejo dele te serve de prova de que Deus corresponde ao teu amor, de que Ele é teu amigo, que te chama e te convida, que te quer. Deus é incapaz de permanecer inerte, diante do desejo de uma criatura sua, porque aquele desejo foi inspirado àquele coração por Ele, o Criador e Senhor de toda criatura. Ele o inspirou, porque amou com um amor privilegiado a alma que agora o deseja. O desejo de Deus vem sempre antes do desejo da criatura, porque Ele é Perfeitíssimo e, por isso, o seu amor é bem mais habilidoso e abrasado do que o amor da criatura.
– Mas, como Deus pode amar-me, se eu sou lama?
– Não fiques procurando entender isso com a tua inteligência. É um abismo de misericórdia, incompreensível para a mente humana. Mas onde a inteligência do homem não pode compreender, compreende a inteligência do amor, o amor do espírito. Este compreende e penetra firmemente no mistério que é Deus e no mistério dos relacionamentos da alma com Deus. Entra, Eu te digo. Entra, porque Deus o quer.
– Oh! não, Senhor! Tudo o que me disseste[1] em Hebron se realizou.
Tu me salvaste, como o teu Nome diz. Tu procuraste a mim pobre alma perdida. Tu deste a vida a esta alma que eu trazia morta em mim. Tu me disseste que, se eu tivesse te procurado teria te encontrado. E foi verdade. Tu me disseste que estás por toda parte, onde o homem está precisando de médico e de remédio. E é verdade tudo, tudo o que disseste à pobre Aglaé, desde aquelas palavras daquela manhã de junho, até as outras ditas em Águas Belas…
– Então, deves crer também nestas.
– Sim, eu creio, eu creio. Mas, Tu me dirás: “Eu te perdôo!”
– Eu te perdôo em nome de Deus e de Jesus.
– Obrigada…
Aglaia, uma antiga pecadora, encontra-se com o Senhor e chora diante dele. Jesus toma a palavra e diz-lhe que não chore.
Tudo o que me disseste em Hebron tornou-se realidade. Em EMV 77.
EMF 200.4 · Volume 3
– Terei eu a força de destruir minha carne culpada?
– Na solidão em que vais estar e onde satanás te assaltará com a violência do seu ódio, quanto mais tu fores sendo dos Céus, mas encontrarás um meu apóstolo, que foi pecador e depois foi redimido.
– Esse, então, não será aquele bendito, que me falava de Ti? Ele é muito honesto para ter sido pecador.
– Não é aquele. É um outro. Ele te encontrará na hora certa. E te dirá tudo o que ainda não podes saber. Vai em paz. A bênção de Deus esteja sobre ti.
Aglaé isola-se do resto do mundo e questiona Cristo.
Encontrareis um dos meus apóstolos que foi pecador e depois redimido. Provavelmente Mateus.
Então esse não é o apóstolo abençoado que me estava a falar de si? Andrew.
EMF 200.4 · Volume 3
– E, quem me falará ainda de Deus?
– A tua alma ressuscitada, por enquanto.
– Não te verei nunca mais?
– Sobre a terra, nunca mais. Mas, daqui a pouco, terei te redimido completamente e, então, virei ao teu espírito a fim de preparar-te para subires a Deus.
– Como vai acontecer a minha completa redenção, se eu não vou te ver mais? Como a darás?
– Morrendo por todos os pecadores.
– Oh! Não! Tu, morreres!
– Para dar-vos a vida, devo dar-me a morte. É para isso que Eu vim em forma humana. Não chores… Tu te encontrarás comigo logo, onde Eu estiver, depois do meu sacrifício e do teu.
– Meu Senhor! Também eu haverei de morrer por Ti?
– Sim. Mas de outro modo. Tua carne irá morrendo, hora por hora, e pelo desejo da tua vontade. Há quase uma ano que ela já vem morrendo. Quando estiver completamente morta, eu te chamarei.
Jesus fala a Aglaia, uma antiga pecadora convertida, que se vai isolar de tudo.