O funeral vai saindo para fora dos muros. Seja o que for que estiver no caixão, que vai sustentado no alto sobre os ombros dos portadores, é o que não se pode ver. Presume-se que lá esteja um corpo estendido, com suas faixas, e coberto com um lençol, pois pelo que as saliências revelam pode-se compreender que é o corpo de alguém que já tinha chegado ao ponto mais alto de seu crescimento, porque é um corpo do comprimento do caixão.
Ao lado do caixão, uma mulher de véu, amparada por parentas ou amigas, vai caminhando e chorando. É o único choro verdadeiro, no meio dessa comédia de choronas. E, quando uma pedra faz que um dos portadores tropece, ou um ressalto do solo faz que se sacuda o caixão, a mãe geme: “Oh! Não! Ide devagar! Sofreu tanto este meu menino!”, e levanta sua mão trêmula para acariciar a beira do caixão, — fazer mais que isso ela não pode — e, não podendo fazer nada mais, ela beija os véus ondulantes e as fitas, que o vento de vez em quando agita, e que passam rolando por aquele vulto imóvel.
– Aquela é a mãe –diz Pedro, todo compungido e já com o brilho de uma lágrima em seus olhos atentos e bons.
Mas ele não é o único que está com lágrimas nos olhos por causa daquela tristeza. Também Zelotes, André e João, e até o sempre alegre Tomé, estão com os olhos brilhando. Todos, todos mesmo, estão comovidos. Judas Iscariotes murmura:
– Se fosse eu! Oh! Pobre de minha mãe…
189.2
Jesus, cujos olhos são de uma doçura perturbadora, de tão profundos que são, vai indo para perto do caixão.
A mãe, que já está soluçando mais forte, porque o cortejo já está quase chegando junto ao sepulcro aberto, O afasta com violência, ao ver que Jesus procura tocar no caixão. No seu delírio, quem saberia de que ela está com medo? Ela grita:
– É meu! –e, com uns olhos de louca, olha para Jesus.
– Eu sei, mãe. É teu.
– É o meu filho único. Por que logo ele é que foi morrer, ele que era bom e querido e a minha alegria de viúva? Por quê?
Aí a multidão das carpideiras aumenta o seu choro pago, para fazerem coro com a mãe, que continua a dizer:
– Por que ele, e não eu? Não é justo que quem gerou veja perecer a sua semente. A semente precisa viver, porque senão, para que terá servido que estas vísceras se tenham rasgado para darem à luz um homem? –e bate em seu próprio ventre, feroz e desatinada.
– Não faças assim! Não chores, mãe.
Jesus a segura pelas mãos, com um forte aperto, e as prende com sua esquerda, enquanto, com a direita, toca no caixão, dizendo aos portadores:
– Parai e ponde o caixão no chão.
Os portadores obedecem, abaixando a caminha, que fica apoiada no chão por seus quatro pés.
Jesus agarra o lençol, que está cobrindo o morto e o joga para trás, deixando descoberto o cadáver. A mãe externa sua dor, gritando o nome de seu filho e parece-me que ela está dizendo:
– Daniel!
Jesus, sempre conservando as mãos maternas na sua, se endireita, mostra-se imponente, no fulgor de seus olhares como quando Ele opera seus maiores milagres, e, abaixando a mão direita, ordena, com toda a força de sua voz:
– Jovenzinho, Eu te digo: Levanta-te!
189.3
O morto, do jeito que estava enfaixado, levanta-se e se assenta sobre a caminha e chama:
– Mamãe!
Ele a chama com a voz gaguejante e assustada de uma criança espavorida.
– Ele é teu, mulher. Eu o entrego em nome de Deus. Ajuda-o a livrar-se da mortalha. E sede felizes.
E Jesus dá sinais de que vai retirar-se dali. Mas, como? A multidão o detém junto ao catre, sobre o qual está inclinada a mãe, que está enfiando os dedos por entre as faixas, para ir mais depressa, porque o lamento de seu menino continua a implorar-lhe:
– Mamãe! Mamãe!
Por fim, a mortalha foi desfeita, desfeitas foram as faixas, já a mãe e o filho podem abraçar-se, e o fazem sem dar atenção aos bálsamos que se vão colando neles, e que a mãe vai tendo que tirar do querido rosto, das queridas mãos, usando as faixas, e depois, não tendo com que revesti-lo, a mãe tira o seu próprio manto e o envolve nele, e tudo o que ela faz vai servindo ao mesmo tempo para acariciá-lo…
189.4
Jesus olha para ela… olha para este quadro de amor que se formou ao lado da caminha, que agora já não é mais fúnebre, e chora.
Judas Iscariotes vê esse pranto e pergunta:
– Por que estás chorando, Senhor?
Jesus vira o rosto para ele, e diz:
– Estou pensando em minha mãe…