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Notas do tema

As virtudes divinas e as caraterísticas de Jesus Cristo

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EMF 60.1-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

60.1 Pedro fala a Jesus:

– Mestre, eu queria pedir-te que vás à minha casa. Não tive coragem de dizer isso no sábado passado. Mas… queria que fosses.

– Em Betsaida?

– Não, aqui… na casa de minha mulher, quero dizer, a casa nativa.

– Por que tens esse desejo, Pedro?

– Ah!… por muitas razões… e, além disso, hoje me disseram que minha sogra está doente. Se quisesses curá-la, talvez te…

– Acaba de falar, Simão.

– Eu queria dizer… se Tu te aproximasses, ela acabaria… sim, em suma, Tu sabes, uma coisa é ouvir falar de alguém e outra é vê-lo e ouvi-lo e, se essa pessoa depois fica sã, então…

– Então, também o ódio se acaba, queres dizer.

– Não, ódio não. Mas Tu sabes… o povoado está dividido em muitos pareceres e ela… não sabe a quem dar razão. Vai, Jesus.

– Eu vou. Vamos. Avisarás aos que estão esperando que da tua casa falarei a eles.

60.2 Vão até uma casa baixa, mais baixa ainda do que a de Pedro em Betsaida e ainda mais próxima ao lago. Está separada deste por uma pequena faixa da margem e creio que nas borrascas as ondas ve­nham a morrer contra as paredes da casa que, se é baixa, é em compensação bem espaçosa, como se fosse habitada por mais pessoas.

Na horta-pomar, que está à frente da casa, perto do lago, nada mais há do que uma videira já velha e nodosa que se estende em uma rústica parreira e uma velha figueira que os ventos do lago curvaram em direção à casa. A fronde despenteada da árvore roça as paredes e bate contra as venejiadas das janelinhas que estão fechadas para servirem de proteção contra o sol forte que bate sobre a baixa casa. Nada mais há além desta figueira e desta videira e de um poço raso com um muro esverdeado.

– Entra, Mestre.

Algumas mulheres estão na cozinha, umas ocupadas em consertar as redes, outras em preparar a comida. Elas saúdam a Pedro e depois se inclinam confusas diante de Jesus; entretanto, olham-no de soslaio, com curiosidade.

– A paz esteja nesta casa. Como vai a doente?

– Fala, tu que és a nora mais velha –dizem três mulheres a uma que está enxugando as mãos na barra da veste.

– A febre está forte, muito forte. Nós fizemos com que o médico a visse, mas ele disse que ela está velha para sarar e que quando aquele mal dos ossos chega ao coração e dá febre, especialmente naquela idade, o doente morre. Ela não está comendo mais… Eu procuro fazer-lhe comidas boas, mesmo agora, vê Simão? Eu lhe estava preparando aquela sopa de que ela gostava tanto. Escolhi o peixe melhor que peguei com os cunhados. Mas acho que ela não vai poder comer. E depois… está tão inquieta! E se lamenta, grita, chora, pragueja…

– Tende paciência, como se fosse vossa mãe e tereis merecimento diante de Deus.

60.3 Levai-me a ela.

– Rabi… Rabi… não sei se ela irá querer te ver. Não quer ver a ninguém. Eu nem tenho coragem de dizer-lhe: “Agora vou te trazer o Rabi.”

Jesus sorri sem perder a calma. Depois se vira para Pedro:

– Cabe a ti, Simão. Tu és homem, e o mais velho dos genros, como me disseste. Vai.

Pedro faz uma careta muito significativa mas obedece. Ele atravessa a cozinha, entra em um quarto; através da porta fechada atrás dele, eu o ouço conversar com uma mulher. Depois, põe a cabeça e uma mão fora da porta e diz:

– Vem, Mestre. Anda depressa!

E acrescenta, em voz mais baixa, só o tanto necessário para ser entendido:

– Antes que ela mude de idéia.

Jesus atravessa rápido a cozinha e abre a porta toda. De pé, à porta, Ele diz a sua doce e solene saudação:

– A paz esteja contigo.

Em seguida, entra, não obstante não tenha recebido resposta. Vai para perto da enxerga sobre a qual está estendida uma pequena mulher toda grisalha, descarnada e ofegante pela forte febre que lhe torna corado o rosto abatido.

Jesus se inclina para o pequeno leito e sorrindo para a velhinha, diz:

– Que estás sentindo?

– Eu estou morrendo!

– Não. Não estás morrendo. Podes crer que Eu te posso curar?

– E por que irias fazer isso? Não me conheces.

– Por causa de Simão, que pediu a mim… e também por causa de ti, para dar tempo à tua alma de ver e amar a Luz.

– Simão? Ele faria melhor em… Como Simão foi capaz de pensar em mim?

– Porque ele é melhor do que pensas. Eu o conheço e sei. Eu o conhe­ço e estou contente por vir atendê-lo.

– E, então, tu me curarias? Não vou mais morrer?

– Não, mulher. Por enquanto não morrerás. Podes crer em Mim?

– Creio, creio. Basta-me não morrer!

60.4 Jesus sorri ainda. E a pega pela mão. A mão enrugada e de veias inchadas desaparece na mão juvenil de Jesus que se endireita e toma aquele aspecto de quando faz um milagre; exclama:

– Sê curada! Eu quero! Levanta-te!

Solta-lhe a mão que recai sem que a velha se lamente, enquanto que antes, mesmo tendo-a Jesus pegado com muita delicadeza, só de tê-la movido já tinha sido causa de um lamento por parte da enferma.

Houve um breve tempo de silêncio. Depois a velha exclama com voz forte:

– Oh! Deus de nossos pais! Mas eu não tenho mais nada! Estou curada! Vinde! Vinde!

Acorrem as noras.

– Mas olhai! –dizia a velha–. Eu me movo, e não sinto mais dor! E não tenho mais febre! Vede como estou com saúde. E o coração não se parece mais com o martelo do ferreiro. Ah! Não vou mais morrer!

E não tem nenhuma palavra para o Senhor!

Mas Jesus não leva isso em consideração. Ele diz à mais velha das noras:

– Vesti-a para que se levante. Ela já pode levantar-se.

E vai-se encaminhando para sair.

Simão, mortificado, se vira para a sogra:

– O Mestre te curou. E não lhe dizes nada?

– Está certo! Não pensei nisso. Obrigada. Que posso fazer para mostrar-te o meu agradecimento?

– Ser boa, muito boa. Porque o Eterno foi bom para contigo. E, se não te for muito incômodo, deixa-me repousar hoje em tua casa. Percorri nesta semana todos os povoados vizinhos e cheguei ao despertar desta manhã. Estou cansado.

– Certo! Certo! Fica, sim, se assim te agrada.

Mas não existe muito entusiasmo em suas palavras.

60.5 Jesus, com Pedro, André, Tiago e João vai sentar-se no pomar.

– Mestre!…

– Que há, meu Pedro?

– Eu estou mortificado.

Jesus faz um gesto, como se dissesse: “Deixa para lá.” Depois, diz:

– Não é esta a primeira nem será a última que não sinto um reconhecimento imediato. Mas Eu não peço reconhecimento. Basta-me dar às almas o modo de se salvarem. Faço o meu dever. A elas cabe fazer o delas.

– Ah! Então já houve outros assim? Onde?

– Simão curioso! Mas Eu quero te contentar, embora não goste de curiosidades inúteis. Foi em Nazaré. Lembras-te da mãe de Sara? Estava muito doente quando chegamos a Nazaré e nos disseram que a menina estava chorando. Para não fazer dela, que é boa e dócil, uma órfã e amanhã uma enteada, fui procurar a mulher… Eu queria curá-la. Mas, ainda não tinha posto os pés na casa dela, quando o seu marido e um irmão me expulsaram, dizendo: “Vai embora, vai embora! Não queremos aborrecimentos com a sinagoga.” Para eles, para muitos, Eu já sou um rebelde… mas Eu a curei do mesmo jeito… por causa de seus filhos. E à Sara, que estava na horta, Eu disse, acariciando-a: “Eu curo tua mãe. Vai para casa. Não chores mais.” E a mulher ficou curada no mesmo instante; a menina foi dizer isso a ela, e também ao pai e ao tio… E foi castigada por ter falado Comigo. Eu sei, porque a menina veio correndo atrás de Mim, quando Eu já ia deixando o povoado… Mas não importa.

– Eu faria com que ela ficasse doente de novo!

– Pedro!

Jesus está severo:

– É isso que Eu ensino a ti e aos outros? Que foi que ouviste dos meus lábios desde a primeira vez que me ouviste? De que é que Eu tenho sempre falado como primeira condição para serdes meus verdadeiros discípulos?

– É verdade, Mestre. Eu sou um verdadeiro animal. Perdoa-me. Mas… não posso suportar que não te amem!

– Ó Pedro, verás um desamor bem maior! Quantas surpresas terás, Pedro! Há pessoas que o mundo chamado “santo” despreza como publicanos, e que, ao invés, serão exemplos para o mundo, e um exemplo não seguido por aqueles que as desprezam. Há gentios que estarão entre os meus maiores fiéis. Há meretrizes que se tornam puras, por vontade e por penitência. Pecadores que se emendam…

– Escuta, que se emende um pecador… ainda pode ser. Mas uma meretriz e um publicano!…

– Tu não acreditas?

– Eu não.

– Estás errado, Simão.

60.6 Mas, eis tua sogra que está vindo a nós.

– Mestre… eu te peço que te assentes à minha mesa.

– Obrigado, mulher. Deus te recompense por isto.

Entram na cozinha e se assentam à mesa e a velha serve aos homens com grande distribuição de peixe ensopado e assado.

– Não há mais do que isso –ela se desculpa.

E, para não perder o costume, diz a Pedro:

– Os teus cunhados fazem até demais, sozinhos como ficaram, desde quando foste para Betsaida! E ao menos se prestasses a fazer mais rica a minha filha… Mas ouço dizer que freqüentemente estás ausente e que não vais pescar.

– Eu sigo o Mestre. Estive com Ele em Jerusalém e aos sábados estou com Ele. Não perco o tempo em farras.

– Mas não ganhas nada com isso. Farias melhor, já que queres ser o servo do Profeta, que venhas para cá de novo. Pelo menos aquela pobre criatura, que é a minha filha, enquanto tu ficas aí te fazendo de santo, terá os parentes que lhe matem a fome.

– Mas, não te envergonhas de falar assim diante Dele que te curou?

– Eu não o critico. Ele faz o seu trabalho. Eu critico é a ti, que vives como um mandrião. Afinal, tu não serás nunca um profeta, nem um sacerdote. És um ignorante e um pecador, és um bom para nada.

– Tens razão, porque Ele está aqui, senão…

– Simão, tua sogra te deu um ótimo conselho. Podes pescar também aqui. Pescavas também antes em Cafarnaum, pelo que ouço. Podes voltar até agora.

– E morar aqui de novo? Mas Mestre, Tu não…

– Bom, meu Pedro, se ficares aqui estarás no barco sobre o lago, ou Comigo. Por isso, para ti que diferença há entre estar ou não estar nesta casa?

Jesus pôs a mão sobre o ombro de Pedro e parece que a calma de Jesus passa para Pedro que já estava fervendo.

– Tens razão. Sempre tens razão. É assim que eu vou fazer. Mas… e estes? –e mostra João e Tiago, seus sócios.

– Não poderão vir eles também?

– Oh! O nosso pai, e principalmente a nossa mãe, estarão sempre mais felizes, se souberem que estamos Contigo, do que com eles. Eles não criarão obstáculos.

– Talvez também Zebedeu virá –diz Pedro.

– É mais que provável. E com eles outros. Viremos, Mestre. Viremos sem falta.

Detalhe

Nota: Há dois milagres neste extrato, o da sogra de Pedro e o da mãe de Sara em Nazaré (cf. 60.5).

Anotação

Mateus 8:14-15

Quando Jesus entrou em casa de Pedro, viu a sogra dele deitada na cama com febre. Ele tocou-lhe na mão e a febre deixou-a. Ela levantou-se e serviu-o. Ela levantou-se e serviu-o.

Marcos 1, 29-31

Depois de terem saído da sinagoga, foram com Tiago e João a casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama com febre. Eles contaram imediatamente a Jesus sobre ela. Jesus veio, pegou-lhe na mão e levantou-a. A febre deixou-a, e ela passou a servir os outros. A febre deixou-a, e ela passou a servi-los.

Lucas 4:38-39

Jesus saiu da sinagoga e entrou em casa de Simão. A sogra de Simão estava com febre alta, e eles pediram a Jesus que fizesse alguma coisa por ela. Ele inclinou-se sobre ela, ameaçou a febre, e esta deixou-a. Imediatamente a mulher levantou-se e serviu-os.

EMF 61.1-2

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus subiu a um monte de cestas e cordas que está à entrada do pomar da casa da sogra de Pedro. O pomar está apinhado de gente. Também há gente junto à margem do lago, uns sentados, outros sobre os barcos que foram puxados para a terra. Parece que Ele já vinha falando por algum tempo, porque seu discurso já vai bem adiantado. Eu o ouço:

– … Certamente vós muitas vezes, em vosso coração, já tereis pensado assim. Mas não é bem assim. O Senhor não faltou à benignidade para com o seu povo, ainda que este tenha faltado à fidelidade para com Ele mil e dez mil vezes.

Ouvi esta parábola. Ela vos ajudará a entender.

Um rei tinha muitos e esplêndidos cavalos em suas estrebarias. Mas ele gostava de um deles com uma estima toda especial. Antes de possuí-lo, o rei o tinha almejado muito; depois, tendo-o adquirido, colocou-o num lugar delicioso, para onde ele se dirigia, com os olhos e o coração, só para tornar a ver aquele seu predileto, sonhando fazer dele um dia a maravilha do seu reino. E, quando o cavalo, rebelando-se contra todos os comandos, havia desobedecido e fugido para outro patrão, o rei, ainda que com dor, em seu rigor, tinha prometido ao rebelde o perdão, depois de tê-lo castigado. E, fiel a isso, mesmo de longe, velava sobre o seu predileto, mandando-lhe presentes e guardas que o conservassem com a lembrança do dono em seu coração.

Mas o cavalo, ainda que sofrendo por estar exilado do reino, não era constante, como o rei o era, em amar e desejar o perdão completo. E, se em certos tempos era bom, em outros tempos era mau; nem o bom era maior do que o mau. Pelo contrário. Contudo, o rei tinha paciência; com censuras e carícias procurava fazer do seu cavalo mais querido um dócil amigo. Quanto mais o tempo passava, mais o animal se mostrava rebelde. Invocava o seu rei, chorava sob o chicote dos outros patrões, mas não queria ser verdadeiramente do rei. Não tinha vontade de o ser. Esgotado, oprimido e gemente, não era capaz de dizer: “Por culpa minha é que estou assim”, mas acusava ao seu rei.

Este, depois de ter tentado de tudo, recorreu a uma última prova. “Até agora, disse, eu mandei mensageiros e amigos. Agora vou mandar o meu próprio filho. Ele tem o mesmo coração meu e falará com o mesmo amor que eu, terá carícias e presentes semelhantes aos que eu tinha; aliás, ainda mais doces, porque meu filho sou eu mesmo, mas sublimado no amor.” E mandou o seu filho.

Esta é a parábola.

61.2

Agora dizei-me vós: Achais que o rei amava o seu animal preferido?

O povo responde a uma só voz:

– Infinitamente o amava.

– Podia o animal lamentar-se do seu rei, por todo o mal que sofreu, por tê-lo abandonado?

– Não, não podia –responde a multidão.

– Respondei-me ainda ao seguinte: aquele cavalo, segundo o vosso parecer, como terá recebido o filho do rei, que ia para resgatá-lo, curá-lo e levá-lo novamente para o lugar de delícias?

– Com alegria, naturalmente, com reconhecimento e afeto.

– Mas, se o filho do rei tiver dito ao cavalo: “Eu vim para isto e para fazer-te isto, mas tu precisas ser bom, obediente, cheio de boa vontade e fiel a mim”, que achais que o cavalo terá respondido?

– Oh! Não é preciso perguntar! Ele terá respondido que sabia bem o que lhe custava ser expulso do reino e que queria ser como o filho do rei dizia.

– Então, segundo vós, qual era o dever daquele cavalo?

– Ser ainda melhor do que lhe estava sendo pedido, mais afetuoso, mais dócil, para ser perdoado do mal passado, em reconhecimento pelos bens obtidos.

– E se ele não tivesse feito assim?

– Seria digno de uma morte, porque seria pior do que uma fera selvagem.

– Amigos, vós julgastes bem. Mas fazei também vós como quereríeis que o cavalo fizesse. Vós, homens, criaturas prediletas do Rei dos Céus, Deus, meu Pai e vosso; vós a quem, depois dos Profetas, foi mandado por Deus o seu próprio Filho, sede, oh! sede — eu vos conjuro pelo vosso bem e porque vos amo como só um Deus pode amar, aquele Deus que está em Mim para operar o milagre da Redenção — sede, ao menos, como vós julgais que deve ser aquele animal. Ai daquele que rebaixa a si próprio, homem, a um grau inferior ao do animal! Mas, se ainda podia haver desculpa para aqueles que até o momento presente estavam pecando — porque muito tempo e muita poeira do mundo já passaram, desde quando foi dada a Lei, e sobre esta se pousou — agora já não podeis mais. Eu vim para trazer-vos de novo a palavra de Deus. O Filho do homem está entre os homens para levá-los novamente a Deus. Segui-me. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

Detalhe

Parábola do cavalo amado pelo rei. O homem é a criatura amada de Deus

EMF 61.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, então, ordena aos discípulos:

– Fazei que os pobres venham para a frente. Para eles Eu tenho a rica oferta de alguém que a eles se recomenda para obter o perdão de Deus.

Vêm avante três velhinhos esfarrapados, dois cegos e um encolhido; depois uma viúva com sete meninos macilentos.

Jesus os olha fixamente um por um, sorri para a viúva e especialmente para os orfãozinhos. Antes diz a João:

– Que essas pessoas sejam colocadas lá no pomar. Quero falar com elas.

Mas Ele se torna severo, com os olhos flamejantes, quando a Ele se apresenta um dos velhinhos. Porém, não diz nada no momento.

Jesus chama Pedro e faz com que ele lhe dê a bolsa recebida pouco antes e uma outra cheia de moedas menores, esmolas diversas recolhidas entre os bons. Despeja tudo sobre o banco que está junto ao poço, conta e divide. Faz seis partes: uma delas bem grande, toda com moedas de prata; cinco menores em dimensão, com muito bronze e só uma ou outra moeda grande. Chama os pobrezinhos doentes e lhes pergunta:

– Não tendes nada a dizer-me?

Os cegos se calam. Mas o encolhido diz:

– Que Aquele de quem vens te proteja.

E nada mais.

Jesus lhe põe a esmola na mão sã. O homem lhe diz:

– Que Deus te recompense. Mas, mais do que isto, eu de Ti queria a cura.

– Tu não a pediste.

– Sou pobre, um verme que os grandes pisam, não ousava esperar que Tu tivesses piedade de um mendigo.

– Eu sou a Piedade que se inclina sobre toda miséria que clama por Mim. Não rejeito ninguém. Não peço mais do que amor e fé, para dizer: “Eu vou te atender.”

– Oh! Meu Senhor! Eu creio! Eu te amo! Salva-me, então! Cura o teu servo!

Jesus põe a mão sobre aquele dorso curvado e a faz deslizar como que acariciando-o; diz então:

– Quero que sejas curado.

O homem se endireita, ágil e íntegro, com palavras de bênçãos infinitas.

Detalhe

Curar um corcunda.

EMF 61.3.5-6

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus, então, ordena aos discípulos:

– Fazei que os pobres venham para a frente. Para eles Eu tenho a rica oferta de alguém que a eles se recomenda para obter o perdão de Deus.

Vêm avante três velhinhos esfarrapados, dois cegos e um encolhido; depois uma viúva com sete meninos macilentos.

Jesus os olha fixamente um por um, sorri para a viúva e especialmente para os orfãozinhos. Antes diz a João:

– Que essas pessoas sejam colocadas lá no pomar. Quero falar com elas.

Mas Ele se torna severo, com os olhos flamejantes, quando a Ele se apresenta um dos velhinhos. Porém, não diz nada no momento.

Jesus chama Pedro e faz com que ele lhe dê a bolsa recebida pouco antes e uma outra cheia de moedas menores, esmolas diversas recolhidas entre os bons. Despeja tudo sobre o banco que está junto ao poço, conta e divide. Faz seis partes: uma delas bem grande, toda com moedas de prata; cinco menores em dimensão, com muito bronze e só uma ou outra moeda grande. (...)

61.5 Vem para a frente o terceiro velhinho, que parece o mais esfarrapado. Mas Jesus só tem agora o monte maior de moedas. E Ele chama em voz alta:

– Mulher, vem com os teus pequeninos.

A mulher, jovem e macilenta, vem para a frente, de cabeça inclinada. Parece uma galinha choca, entre a sua triste ninhada.

– Desde quando és viúva, mulher?

– Faz três anos, na lua de Tisri.

– Quantos anos tens?

– Vinte e sete.

– São todos filhos teus?

– Sim, Mestre, e… e não tenho mais nada. Tudo se acabou… como posso trabalhar, se ninguém me quer com todos estes pequeninos?

– Deus não abandona nem o verme que Ele criou. Ele não te abandonará, mulher. Onde moras?

– Perto do lago, a três estádios fora de Betsaida. Ele me disse que viesse… Meu marido morreu no lago, era pescador.

“Ele” é André, que ficou corado, e querendo desaparecer.

– Fizeste bem, André, em dizer à mulher que viesse a Mim.

André se anima e murmura:

– O homem era meu amigo, era bom, e morreu durante uma tempestade, perdendo também seu barco.

– Toma mulher. Isto te ajudará por muito tempo; depois virá outro sol no teu dia. Sê boa, educa na Lei os teus filhos e não te faltará a ajuda de Deus. Eu te abençôo, a ti e aos teus pequenos.

E os acaricia um por um com grande piedade.

A mulher vai-se com o seu tesouro apertado sobre o coração.

61.6 – E a mim? –pergunta o velhinho que ficou por último.

Jesus olha para ele, e se cala.

– Nada para mim? Não és justo! A ela deu seis vezes mais do que aos outros e a mim nada. Mas… e era mulher!

Jesus olha para ele e se cala.

– Olhai todos se está havendo justiça! Eu venho de longe, porque me disseram que aqui se dava dinheiro; depois, estou vendo aqui quem ganha demais e a mim não se dá nada. Um pobre velho que é doente! E quer que se creia Nele!…

– Velho, não te envergonhas de mentir assim? Estás com a morte atrás de ti, e mentes; procuras roubar de quem está com fome. Por que queres roubar dos irmãos a esmola que Eu recebi para distribuir com justiça?

– Mas eu…

– Cala-te! Deverias já ter compreendido pelo meu silêncio e pelo meu ato que Eu havia te conhecido; e,então, seguir o meu exemplo de silêncio. Por que queres que Eu te envergonhe?

– Eu sou pobre.

– Não. Tu és um avarento e um ladrão. Vives para o dinheiro e para a usura.

– Eu nunca emprestei com usura. Deus é minha testemunha.

– E isto não é usura, e da mais feroz, roubar de quem tem verdadeiramente necessidade? Vai. Arrepende-te. Para que Deus te perdoe.

– Eu te juro…

– Cala-te! Eu te ordeno. Foi dito: “Não jurarás em falso.” Se Eu não tivesse respeito pelos teus cabelos brancos, Eu daria uma busca em ti e em teu peito acharia uma bolsa cheia de ouro, que é o teu coração. Vai-te embora.

Mas agora o velhinho, envergonhado, vendo-se descoberto em seu segredo, vai-se embora sem que seja necessário o som de trovão que há na voz de Jesus.

A multidão o ameaça, o escarnece e o insulta como a um ladrão.

– Calai-vos! Se ele errou não queirais vós também errar. Ele falta com a sinceridade, é um desonesto. Vós, se o insultardes, faltais com a caridade. Ao irmão, que comete uma falta, não se insulta. Cada um tem o seu pecado. Ninguém é perfeito, a não ser Deus. Eu precisei envergonhá-lo, porque não é lícito ser ladrão e, menos ainda, ladrão que rouba dos pobres. Mas só o Pai é que sabe quanto sofri por dever fazer isso. Vós também sofrei com isso, ao verdes que um de Israel falta contra a Lei procurando defraudar o pobre e a viúva. Não sejais cobiçosos. Que o vosso tesouro seja a vossa alma, não o dinheiro. Não sejais perjuros. Que a vossa linguagem seja sincera e honesta como as vossas ações. A vida não é eterna e a hora da morte chega. Vivei de modo que na hora da morte a paz possa estar em vosso espírito. A paz de quem viveu como um justo. Ide para as vossas casas…

Detalhe

Jesus dá uma grande soma de dinheiro a uma viúva de vinte e sete anos, com sete filhos. Atrás dele está uma viúva pobre e maltrapilha.

EMF 61.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Jesus dá a esmola aos cegos, e espera um momento para despedi-los…depois os deixa ir.

Chama os velhos. Dá ao primeiro uma esmola e o conforta ajudando-o a pôr na cinta as moedas.

Jesus se interessa piedoso pelas desventuras do segundo, que lhe conta a doença de uma filha:

– Só tenho essa! E agora ela está mor­rendo. Que será de mim? Oh! Se Tu pudesses ir lá! Ela não pode vir, não se mantém em pé. Queria… Mas não pode. Mestre, Senhor, Jesus, tem piedade de nós!

– Onde moras, pai?

– Em Corozaim. Pergunta por Isaque de Jonas, chamado o Adulto. Irás mesmo? Não te vais esquecer da minha desventura? E curarás a minha filha?

– Podes crer que Eu a possa curar?

– Oh! Se eu creio! Por isso é que Te estou falando dela.

– Vai para casa, pai. Tua filha estará à porta para te saudar.

– Mas ela está de cama e não pode levantar-se há três… Ah! Compreendi! Oh! Obrigado, Rabi! Bendito és Tu e Aquele que Te enviou! Louvor a Deus e ao seu Messias!

O velho vai chorando, coxeando, o mais rápido que pode. Mas quando já está quase saindo do pomar, ele diz:

– Mestre, mas irás assim mesmo à minha pobre casa? Isaque Te espera para beijar-te os pés, lavá-los com suas lágrimas e oferecer-te o pão do amor. Vai Jesus, eu falarei de Ti aos da cidade.

– Irei. Vai em paz e sê feliz.

Detalhe

Cura da filha de um velho, que já não podia andar. O seu nome era Isaac de Jonas.

EMF 61.7

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Piedade, Senhor! Este meu filho é mudo, por causa de um demônio que o maltrata.

– E este meu irmão é semelhante a um animal imundo: ele se revolve na lama e come excrementos. E um espírito maligno o arrasta; ele, mesmo sem querer, faz coisas imundas.

Jesus se dirige para o grupo que o está implorando. Ele ergue os braços e ordena:

– Sai deles. Deixai a Deus as suas criaturas.

Entre gritos e barulho, os dois infelizes ficam curados. As mulheres que os conduziam prostram-se dando louvores a Deus.

– Ide para as vossas casas e sede reconhecidos a Deus. A paz esteja com todos. Ide.

A multidão vai-se, comentando os fatos. Os quatro discípulos colocam-se ao redor do Mestre.

– Amigos, em verdade Eu vos digo que em Israel estão todos os pecados, e os demônios aí fizeram sua morada. E não são possessões só aquelas que tornam mudos os lábios e levam os homens a viver como animais comendo sujeiras. Mas as mais verdadeiras e numerosas são aquelas que tornam os corações mudos para a honestidade e para o amor, fazendo deles um antro de vícios imundos. Oh! Meu Pai!

Jesus, abatido, se assenta.

– Estás cansado, Mestre?

– Cansado não, meu João. Mas desolado pelo estado dos corações e pela pouca vontade de se emendarem. Eu vim… mas o homem… o homem… oh! Meu Pai!…

– Mestre, eu Te amo, nós todos Te amamos.

– Eu sei disso. Mas sois tão poucos… e meu desejo de salvar é tão grande!

Jesus abraça João e mantém a cabeça dele sobre a sua. Está triste. Pedro, André, Tiago, ao redor Dele, olham-no com amor e tristeza.

E a visão cessa assim.

EMF 62.3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– (...) Queríeis alguma coisa de Mim, vós que Me andastes procurando?

– Não, Mestre. Mas há muitos que estão querendo muito de Ti. Já chegou gente que veio de perto de Cafarnaum; eram pessoas pobres, doentes, pessoas angustiadas, homens de boa vontade, com o desejo de se instruirem. Nós lhes dissemos, visto que nos perguntavam de Ti: “O Mestre está cansado e dormindo. Ide-vos embora. Voltai no próximo sábado.”

– Não, Simão. Isto não se diz. Não existe só um dia para a piedade. Eu sou o Amor, a Luz, a Salvação todos os dias da semana.

– Mas… até agora, falaste só aos sábados.

– Porque Eu era ainda desconhecido. Mas, à medida que Eu for ficando conhecido, todos os dias serão de efusão de Graça e de graças. Em verdade, Eu te digo que virá um tempo em que nem o espaço de tempo, que é concedido a um pássaro para repousar sobre um ramo e saciar-se de grãozinhos, será dado ao Filho do homem para o seu repouso e sua alimentação.

– Mas assim ficarás doente! Nós não permitiremos isso. Tua bondade não deve fazer-te infeliz.

– E tu achas que Eu possa me tornar infeliz por isso? Oh! Mas se o mundo todo viesse a Mim para me ouvir, para chorar os seus pecados e as suas dores sobre o meu coração, para ser curado na alma e no corpo, e Eu me consumisse em falar-lhe, em perdoá-lo, em derramar sobre ele o meu poder, aí sim, então Eu seria muito feliz, Pedro, a ponto de nem mais recordar com saudade do Céu, no qual Eu estava no Pai!

EMF 63.1-5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

63.1 Com a precisão de uma fotografia perfeita, tenho diante de minha­ vista espiritual, desde esta manhã, antes até da aurora, um pobre leproso.

Este é verdadeiramente um farrapo humano. Eu não saberia dizer que idade ele pode ter, de tão devastado está pelo mal. Definhado, seminu, mostra o seu corpo reduzido ao estado de uma múmia corroída, com as mãos e os pés retorcidos, e já lhe faltando algumas partes, de tal modo que aquelas pobres extremidades nem parecem mais ser de um corpo humano. As mãos, como garras e retorcidas, mais parecem patas de algum monstro alado; os pés parecem quase cascos de boi, de tão decepados e desfigurados.

E a cabeça, então!… Eu creio que só alguém que tivesse ficado insepulto e mumificado pelo sol e pelo vento é que poderia ter ficado com uma cabeça semelhante a esta. Poucos fios de cabelo ainda lhe restam, espalhados aqui e ali, agarrados a uma pele amarelenta e cheia de crostas, parecendo poeira seca sobre uma caveira. Olhos apenas entreabertos e muito encovados, lábios e nariz roídos pelo mal, mostrando já as cartilagens e as gengivas; as orelhas são dois embrionários pavilhões em ruínas e sobre tudo isto, está uma pele ressequida, amarela como certos caulins, sob a qual os ossos penetram. Parece que recebeu a incumbência de reunir esses pobres ossos dentro do seu saco sujo, todo cheio de remendos de cicatrizes ou dilacerações de feridas já apodrecidas. Uma ruína!

Penso até em uma Morte que esteja vagante pela terra e recoberta por uma pele mirrada sobre o esqueleto, envolvida em um manto sujo todo em tiras e tendo na mão, não a foice, mas um bastão cheio de nós, certamente arrancado de alguma árvore.

Ele está à porta de uma caverna afastada da estrada, uma verdadeira espelunca, tão desmoronada que nem sei dizer se no princípio foi um sepulcro, ou uma cabana de lenhadores, ou os restos de alguma casa demolida. Ele olha para a estrada, que está a uns cento e poucos metros do seu antro, uma estrada mestra poeirenta e ainda cheia de sol. A perder de vista, sol, poeira e solidão reinam sobre a estrada. Muito mais acima, a noroeste, deve haver um povoado, ou cidade. Vejo as primeiras casas. Estará à distância de pelo menos um quilômetro.

O leproso olha e suspira. Depois, pega uma tigela quebrada, enche-a com água de um córrego e bebe. Entra em um emaranhado de sarças, atrás do antro, inclina-se, arranca do chão umas raízes selvagens. Volta ao córrego, limpa-as da poeira mais grossa com a sua água escassa, e as come devagar, levando-as até à boca com dificuldade por causa de suas mãos arruinadas. As raízes devem estar duras como uns gravetos. Custa a mastigá-las e muitas ele até cospe, sem as poder engolir embora procure ajudar-se bebendo uns goles de água.

63.2 – Onde estás, Abel? –grita uma voz.

O leproso estremece e tem algo sobre os lábios parecido com um sorriso. Mas estão de tal modo reduzidos aqueles lábios, que é também informe esta sombra de sorriso. Responde com uma voz estranha, estridente (me faz pensar no grito de certos pássaros dos quais ignoro o nome exato):

– Estou aqui! Eu pensei que tu não viesses mais! Pensei que tivesse te acontecido algum mal; fiquei triste… Se tu também me faltares, que restará ao pobre Abel?

Ao dizer isso, ele caminha em direção à estrada até o ponto em que, segundo a Lei, ele podia chegar e, por isso, a uma certa distância, ele se detém.

Pela estrada vem vindo um homem, quase correndo, de tão rápido que vem.

– Mas és tu mesmo, Samuel? Oh! Se não és tu, a quem eu espero, sejas lá quem fores, não me faças mal!

– Sou eu, Abel, sou eu mesmo. E são. Olha como eu corro. Estou atrasado, eu sei. E já estava com pena de ti. Mas, quando souberes… Oh! Tu ficarás feliz! E aqui te trago, não só os costumeiros pedaços de pão, mas um pão inteiro, fresco e bom, todo para ti; trago também um bom peixe e um queijo. Tudo para ti. Quero que faças festa, meu pobre amigo, para preparar-te para uma festa maior.

– Mas, como é que estás assim tão rico? Eu não entendo…

– Agora vou te contar.

– E estás são. Nem pareces mais Tu!

63.3 – Então escuta. Eu soube que em Cafarnaum estava aquele Rabi que é santo, e para lá fui…

– Pára, pára, eu estou infeccionado.

– Oh! Não tem importância! Não tenho mais medo de nada.

O homem, que outro não é senão aquele pobre encolhido curado e ajudado por Jesus no pomar da sogra de Pedro, chegou de fato com o seu passo rápido a poucos passos do leproso; falou, caminhando e rindo feliz.

Mas o leproso lhe diz ainda:

– Pára, em nome de Deus. Se alguém te vê…

– Eu vou parar. Olha, vou colocar aqui as provisões. Come, enquanto eu falo.

Ele põe sobre uma pedra grande um pequeno embrulho e o abre. Depois, dá um passo atrás, enquanto o leproso avança e se atira sobre o alimento inusitado.

– Oh! Quanto tempo faz que eu não comia assim! Como é bom! E eu pensando que iria dormir com o estômago vazio. Não veio hoje um piedoso… nem mesmo tu… Eu mastiguei algumas raízes…

– Pobre Abel! Eu estava pensando. Mas dizia: “Bom. Agora, ele deve estar triste, mas depois ficará feliz!”

– Feliz, sim, por esta comida tão boa. Mas depois…

– Não! Serás feliz para sempre.

O leproso sacode a cabeça.

– Escuta, Abel. Se puderes ter fé, serás feliz.

– Mas fé em quem?

– No Rabi. No Rabi que me curou.

– Mas eu sou leproso e estou no fim! Como poderá me curar?

– Oh! Ele pode. É santo.

– Sim. Também Eliseu curou Naamã, o leproso… eu sei… Mas eu… Eu não posso ir ao Jordão.

– Tu serás curado, sem precisar de água. Escuta: este Rabi é o Messias, entendes? O Messias! É o Filho de Deus. E cura todos aqueles que têm fé. Ele diz: “Eu quero”, e os demônios fogem, e os membros se endireitam, e os olhos cegos vêem.

– Oh! Se eu tivesse fé! Mas como posso ver o Messias?

– Eis-me aqui… eu vim para isso. Ele está lá, naquele povoado. Sei onde estará nesta tarde. Se quiseres… Eu disse: “Eu falo a Abel, e se Abel sente que tem fé o conduzo ao Mestre.”

– Estás louco, Samuel? Se eu me aproximar das casas, serei apedrejado.

– Não nas casas. A tarde está para cair. Eu te levarei até aquele pequeno bosque e depois irei chamar o Mestre. Eu te levarei…

– Vai, vai logo! Eu vou por mim mesmo até aquele ponto. Cami­nha­rei no fosso, entre a sebe, mas tu vai, vai… Oh! vai, meu bom amigo! Se soubesses o que é ter este mal e o que é esperar sarar!… O leproso não pensa em mais nada, nem em comer. Ele chora e gesticula, implorando ao amigo.

– Eu vou, e tu vais.

O ex-encolhido vai embora correndo.

63.4 Abel desce com dificuldade no fosso que costeia a estrada, todo cheio de sarças que cresceram no fundo seco. Ali há apenas um fio de água ao centro. A tarde desce enquanto o infeliz escorrega por entre as sarças, sempre alerta se ouve qualquer passo. Duas vezes agacha-se no fundo: a primeira, por causa de um cavaleiro que percorre a trote a estrada; a segunda, por causa de três homens que vão levando cargas de feno para o povoado. Depois ele prossegue.

Mas Jesus e Samuel chegam antes dele ao pequeno bosque.

– Daqui a pouco ele estará aqui. Ele anda devagar por causa das feridas. Tem paciência!

– Não tenho pressa.

– Tu o curarás?

– Ele tem fé?

– Oh!… Ele estava morrendo de fome e estava vendo aquele alimento depois de anos de abstinência; no entanto, depois de ter comido poucos bocados, deixou tudo para correr aqui.

– Como tu o conheceste?

– Sabes… eu vivia de esmolas, depois da minha desventura, percorrendo os caminhos, indo de um lugar para outro. Por aqui eu passava cada sete dias quando conheci aquele pobrezinho… num dia em que, constrangido pela fome, ele impeliu-se, sob um temporal, que teria posto em fuga até os lobos, indo até o caminho que leva ao povoado, a procura de alguma coisa. Buscava entre as imundícies, como um cão. Eu tinha­ pão seco no alforje, donativo de pessoas boas; dividi ao meio com ele. Desde então, somos amigos e cada semana eu o reabasteço. Com aquilo que tenho… se tenho muito, dou muito; se pouco, pouco. Faço o que posso, como se fosse meu irmão. E é desde aquela tarde em que me curaste, bendito sejas Tu, que eu venho pensando nele… e em Ti.

– Tu és bom, Samuel; por isso a graça te visitou. Quem ama merece tudo de Deus.

63.5 Mas eis ali qualquer coisa entre as ramagens…

– És tu, Abel?

– Sou eu.

– Vem. O Mestre está te esperando aqui, debaixo da nogueira.

O leproso emerge do fosso, sobe para a borda, atravessa-a e entra pelo prado. Jesus, com as costas apoiadas em uma nogueira muito alta, o espera.

– Mestre, Messias, Santo, tem piedade de mim!

E se lança todo entre a relva, aos pés de Jesus. Com o rosto no chão, diz ainda:

– Ó meu Senhor! Se queres, podes limpar-me!

Depois, toma coragem para pôr-se de joelhos, estende os braços esqueléticos, com aquelas mãos retorcidas e ergue o rosto ossudo e devastado… As lágrimas descem das órbitas doentes para os lábios corroídos.

Jesus o olha com muita piedade. Olha para aquela sombra de homem que o mal horrendo devora, que só uma verdadeira caridade pode suportar perto de si de tão repugnante e mal cheiroso que ele está. Contudo, eis que Jesus lhe estende uma mão, a sua sã e bonita mão direita, como que para acariciar o pobrezinho.

Este, sem se levantar, afasta-se sobre seus calcanhares, e grita:

– Não me toques! Tem piedade de Ti!

Mas Jesus dá um passo à frente. Solene, bom, suave, Ele pousa os seus dedos sobre aquela cabeça carcomida pela lepra e diz, com voz baixa e cheia de amor, mas imperiosa:

– Eu quero! Fica limpo!

A mão ainda permanece, por alguns minutos, sobre a pobre cabeça.

– Levanta-te. Vai ao sacerdote. Cumpre tudo o que a Lei prescreve. E não fales do que Eu te fiz: somente sê bom. Não peques mais. Eu te abençôo.

– Oh! Senhor! Abel! Mas tu estás curado!

Samuel, que vê a metamorfose do amigo, grita de alegria.

– Sim. Está são. Ele o mereceu por sua fé. Adeus. A paz esteja contigo.

– Mestre! Mestre! Mestre! Eu não te deixo! Não posso te deixar.

– Faze tudo o que a Lei quer. Depois nos veremos ainda. Pela segunda vez esteja sobre ti a minha bênção.

Jesus se põe a caminho, fazendo sinal a Samuel para que fique. E os dois amigos choram de alegria, enquanto, à luz de um quarto de lua, voltam à caverna para uma última parada naquele antro de desventura.

Assim cessa a visão.

Detalhe

Cura de um leproso.

Samuel chega em 63.2. O milagre tem lugar em 63.4. Para compreender o contexto completo, é aconselhável reler MTS 61.3 e todo o MTS 62.

Anotação

Evangelho de Marcos 1, 40-45

Mc 1,40-45 : Um leproso aproximou-se dele, suplicou-lhe, pôs-se de joelhos e disse: "Se quiseres, podes tornar-me limpo". Tomado de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: "Quero; fica limpo". Imediatamente a lepra o deixou e ele ficou limpo. Jesus mandou-o embora com firmeza, dizendo-lhe: "Tem cuidado, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e dá pela tua purificação o que Moisés prescreveu na Lei: será um testemunho para o povo. Depois de se ter ido embora, o homem começou a proclamar e a espalhar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar abertamente numa cidade, mas mantinha-se afastado em lugares desertos. Mas as pessoas vinham ter com ele de todo o lado.

Evangelho de Lucas 5, 12-14

Lc 5,12-14 : Jesus estava numa cidade, quando apareceu um homem coberto de lepra que, ao ver Jesus, se prostrou com o rosto em terra e lhe implorou: "Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. Jesus estendeu a mão e tocou-o, dizendo: "Eu quero; fica limpo. A lepra deixou-o imediatamente. Então Jesus ordenou-lhe que não contasse a ninguém: "Em vez disso, vai mostrar-te ao sacerdote e dá pela tua purificação o que Moisés ordenou; isso será um testemunho para todos."

EMF 64.1.3-4.5

O Evangelho como me foi revelado

Citação

64.1 Vejo as margens do lago de Genezaré. E vejo os barcos dos pescadores, arrastados para a margem. Junto a eles estão Pedro e André, ocupados em consertar as redes, que os empregados levam, gotejantes, depois de as terem enxaguado no lago, para limpá-las dos detritos que nelas ficaram presos. À distância de uns dez metros, João e Tiago, encurvados sobre seu barco, estão ocupados a pô-lo em ordem, ajudados por um empregado e por um homem de seus cinqüenta a ciqüenta e cinco anos, que eu penso ser Zebedeu, porque o empregado o chama de “patrão”, e porque ele é muito parecido com Tiago.

Pedro e André, de costas para o barco, trabalham em silêncio para reatar os fios e as bóias de sinal. De vez em quando, trocam algumas palavras, a respeito do trabalho deles que, pelo que eu pude entender, foi infrutífero.

Pedro se queixa, não pela bolsa vazia, nem pelo trabalho inútil, mas diz:

– Isso me aborrece porque… como faremos para alimentar aqueles pobrezinhos? A nós só são feitas raras ofertas, e aquelas dez moedas e sete dracmas que recolhemos nestes quatro dias, nelas eu não toco. Só o Mestre me deve indicar a quem e como vão ser dadas aquelas moedas. E até o sábado Ele não volta! Se eu tivesse feito uma boa pesca!… O peixe mais miúdo, eu o cozinharia, e o daria àqueles pobres… e, se alguém em casa resmungasse, eu não daria importância a isso. Os sãos podem ir procurá-lo. Mas os doentes!…

– Aquele paralítico, por exemplo!… Andaram tanto para trazê-lo aqui… –diz André.

(...) [Jesus volta para junto dos seus discípulos e o Mestre profere um sermão na casa do seu apóstolo.]

O povo se aglomera na grande sala posterior, destinada às redes, cabos, cestas, remos, velas e provisões. Vê-se que Pedro a colocou à disposição de Jesus, amontoando tudo em um canto, para dar mais espaço. O lago não se vê daqui. Ouve-se dele apenas o marulho lento. O que se vê é só o muro esverdeado do pomar, onde está a velha videira e a figueira frondosa. As pessoas estão até na estrada, transbordando da sala para o pomar, e deste para a estrada.

64.4 Jesus começa a falar. Na primeira fila — tendo aberto caminho com gestos prepotentes e graças ao temor que deles tem o povo — estão cinco pessoas… influentes. Paludamentos, vestes ricas e soberba, os denunciam como fariseus e doutores. (...)

64.5 – Mestre! – grita Pedro do meio da multidão–, aqui estão os doentes. Dois podem esperar que Tu saias, mas este está comprimido por esta multidão e, além disso, não se aguenta mais… E nós não podemos passar. Devo mandá-lo de volta?

– Não. Descei-o pelo telhado.

– Está bem. Vamos fazer isso já.

Ouve-se o barulho dos pés sobre o telhado baixo da sala que não sendo propriamente uma parte da casa não tem por cima nenhum assentamento com argamassa, mas somente um telhadinho de madeira coberto de cascalhos semelhantes a ardósia. Mas não sei que pedra era. Eles fazem uma abertura e, por meio de cordas, fazem descer a pequena padiola sobre a qual está o doente. Desce exatamente diante de Jesus. O povo se aglomera mais ainda para ver.

– Tiveste grande fé, e contigo também quem te trouxe.

– Oh! Senhor! Como não ter fé em Ti?

– Portanto, Eu te digo: filho (o homem é muito jovem) são-te perdoados todos os teus pecados.

O homem o olha chorando… talvez se sinta um pouco decepcionado, porque esperava a cura do corpo.

Os fariseus e os doutores cochicham entre si, torcendo o nariz, a fronte e a boca, com desdém.

– Por que estais murmurando, e mais ainda com o coração do que com os lábios? Segundo vós é mais fácil dizer ao paralítico: “Estão perdoados os teus pecados”, ou dizer-lhe: “Levanta-te, pega a tua cama e anda”? Vós pensais que só Deus pode perdoar os pecados. Mas não sabeis responder o que é mais importante, porque este, tendo perdido a tal ponto a saúde do corpo, gastou seus haveres para recuperá-la, sem nada conseguir. Não o pode, a não ser por Deus. Ora, para que saibais que tudo Eu posso, para que saibais que o Filho do homem tem poder sobre a carne e sobre a alma, na terra e no Céu, Eu digo a este: “Levanta-te, toma a tua cama e anda. Vai para a tua casa e sê santo.”

O homem sente um choque, dá um grito, põe-se de pé, lança-se aos pés de Jesus, beija-os e os acaricia, chora e ri; com ele os parentes e a multidão que, depois, se abre para deixá-lo passar, como se fosse em triunfo, e o segue toda festiva. A multidão, não os cinco invejosos, que vão-se embora, altivos e duros como estacas.

Anotação

Mateus 9:1-8

Jesus entrou num barco, fez a travessia de novo e foi para a sua cidade natal, Cafarnaum.

Trouxeram-lhe um homem paralítico, deitado numa maca. Vendo a fé deles, Jesus disse ao paralítico: "Acredita, meu filho, os teus pecados estão perdoados. E eis que alguns dos escribas diziam entre si: "Este homem blasfema.

Mas Jesus, conhecendo os seus pensamentos, perguntou-lhes: "Porque pensais mal? O que é que é mais fácil? Dizer: "Os teus pecados estão perdoados", ou dizer: "Levanta-te e anda"? Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados... - Então Jesus disse ao paralítico: "Levanta-te, pega na tua maca e vai para casa". Ele levantou-se e foi para casa.

Quando as multidões viram isto, ficaram aterrorizadas e deram glória a Deus, que tinha dado tal poder aos homens.

Marcos 2, 1-12

Alguns dias depois, Jesus regressou a Cafarnaum e chegou a notícia de que estava em casa. Tinha-se juntado tanta gente que não havia lugar nem mesmo diante da porta, e ele estava a pregar-lhes a Palavra.

Chegaram algumas pessoas e trouxeram-lhe um homem paralítico, transportado por quatro homens. Como não podiam aproximar-se dele por causa da multidão, abriram o teto por cima dele, fizeram uma abertura e baixaram a maca onde estava deitado o paralítico. Vendo a fé deles, Jesus disse ao paralítico: "Filho, os teus pecados estão perdoados.

Mas alguns dos escribas estavam ali sentados e pensavam: "Porque é que este homem fala assim? Ele blasfema. Quem é que pode perdoar os pecados senão Deus? Jesus viu imediatamente o que eles estavam a pensar e disse-lhes: "Porque é que vocês estão a pensar assim? O que é que é mais fácil? Dizer a este paralítico: "Os teus pecados estão perdoados", ou dizer-lhe: "Levanta-te, pega na tua maca e anda"? Pois bem! Para que saibam que o Filho do Homem tem autoridade para perdoar pecados na terra... - Jesus disse ao paralítico: "Digo-te que te levantes, pegues na tua maca e vás para casa". Ele levantou-se, pegou imediatamente na maca e saiu à frente de toda a gente. Todos ficaram admirados e deram glória a Deus, dizendo: "Nunca vimos nada assim.

Lucas 5:17-26

Um dia, quando Jesus estava a ensinar, estavam presentes fariseus e doutores da Lei, vindos de todas as aldeias da Galileia e da Judeia, e também de Jerusalém; e o poder do Senhor actuava para que ele fizesse curas.

Chegaram algumas pessoas que traziam numa maca um homem paralítico e procuravam trazê-lo para o colocar diante de Jesus. Mas, como não viam como o fazer por causa da multidão, subiram ao telhado e, afastando as telhas, baixaram-no com a maca mesmo em frente de Jesus. Quando Jesus viu a fé deles, disse: "Homem, os teus pecados te são perdoados. Os escribas e os fariseus começaram a discutir: "Quem é este homem? Ele diz blasfémias! Quem é que pode perdoar os pecados senão Deus? Mas Jesus, compreendendo os seus pensamentos, respondeu-lhes: "Porque estão estes pensamentos nos vossos corações? O que é mais fácil? Dizer: "Os vossos pecados estão perdoados", ou dizer: "Levanta-te e anda"? Pois bem! Para que saibam que o Filho do Homem tem na terra autoridade para perdoar pecados", Jesus dirigiu-se ao paralítico: "Eu digo-te: levanta-te, pega na tua maca e volta para tua casa.

Jesus disse ao paralítico: "Levanta-te, pega na tua maca e vai para tua casa. Imediatamente ele se levantou à frente deles, pegou na sua cama e foi para casa, dando glória a Deus. Todos ficaram admirados e deram glória a Deus. Cheios de medo, diziam: "Hoje vimos coisas extraordinárias!

EMF 64.4

O Evangelho como me foi revelado

Citação

“O meu dileto desceu ao seu jardim, ao canteiro dos aromas, a apascentar por entre os jardins e a colher lírios… ele que se deleita entre os lírios”, diz Salomão de Davi, do qual Eu venho, Eu, o Messias de Israel.

O meu jardim! Qual jardim mais bonito e mais digno de Deus e do Céu, onde as flores são os anjos criados pelo Pai? Contudo, não. Um outro jardim quis o Filho unigênito do Pai, o Filho do homem, porque pelo homem Eu tenho a carne, sem a qual Eu não poderia redimir as culpas da carne do homem. Um jardim que poderia ser pouca coisa inferior ao celeste, se do Paraíso terrestre se tivessem espalhados, como mansas abelhas de uma colméia, os filhos de Adão, os filhos­ de Deus, para povoar a terra com uma santidade toda destinada ao Céu. Mas o Inimigo semeou abrolhos e espinhos no coração de Adão e os abrolhos e os espinhos desse coração extravasaram sobre a terra. Agora, já não há jardim, mas um mato áspero e cruel, no qual mora a febre e se aninha a serpente.

Mas o Dileto do Pai também tem ainda um jardim nesta terra, sobre a qual impera Mamon. O jardim no qual Ele vai nutrir-se do seu celeste alimento: amor e pureza; o canteiro do qual Ele colhe as flores que lhe são caras, no qual não há mancha de sensualidade, de cobiça, de soberba. Estes. (Jesus acaricia o maior número de crianças que pode, passando sua mão sobre aquela coroa de cabecinhas atentas, uma única carícia que os toca de leve e os faz sorrir de alegria). Eis os meus lírios.

Não teve Salomão, em sua riqueza, veste mais bonita do que o lírio que perfuma o vale, nem diadema de graça mais delicado e esplêndido do que aquele que tem o lírio em seu cálice de pérola. No entanto, para o meu coração, não há lírio que valha o que vale um destes. Não há canteiro, não há jardim de ricos, todo cultivado com lírios, que Me valha o que vale um só destes puros, inocentes, sinceros, simples pequeninos.