EMF 167.5
O Evangelho como me foi revelado
Tradução em curso
Notas da palavra-chave
Conforto de leitura
EMF 167.5
Tradução em curso
EMF 167.10-11
Tradução em curso
EMF 176.2 · Volume 3
Descem, enquanto os adormecidos vão acordando em número cada vez maior. As crianças, alegres como passarinhos, já estão tagarelando, correndo e saltando entre os campos, tomando um bom banho de orvalho, o que provoca repreensões, acompanhadas de consequente choro. Depois, as crianças correm até Jesus, que as acaricia, reencontrando com isso o seu sorriso, como se reproduzisse em si aquelas alegrias inocentes.
Uma menina quer colocar na sua cintura um ramalhete de flores, elaapanhadas nos prados, “porque tua veste fica mais bonita assim”, diz ela, e Jesus a deixa fazer, apesar dos apóstolos resmungarem e Jesus diz:
– Ficai contentes porque elas me amam! E o amor das crianças tira as tristezas do meu coração.
EMF 177.1 · Volume 3
Vindo das campinas, Jesus entra em Cafarnaum. Estão com Ele somente os doze, ou melhor, os onze apóstolos, porque João não está. As saudações costumeiras do povo são de uma gama muito variada em suas expressões, desde aquelas que guardam toda a simplicidade das crianças, àquelas um pouco tímidas das mulheres, aquela extasiada dos miraculados até aquelas dos curiosos ou irônicos. Há delas para todos os gostos. Jesus responde a todos, conforme é saudado: com carícias às crianças; bênçãos às mulheres; sorrisos aos miraculados e com respeito profundo pelos outros.
EMF 178.3.5 · Volume 3
Jesus põe-se de novo em movimento e, atraído por dois olhos estãovoltados para Ele, diz a um jovem alto e robusto, que tinha parado para deixar passar o cortejo, mas parece estar se dirigindo para outra parte:
– Segue-me.
O jovem leva um susto, muda de cor, pisca os olhos como ofuscado por uma luz e depois abre a boca para falar, não encontrando-o logo resposta para dar. Enfim diz:
– Eu Te seguirei. Mas meu pai morreu em Corozaim, e preciso ir sepultá-lo. Deixa que eu vá fazer isso e depois virei.
– Segue-me. Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu já sentes um forte desejo da Vida. Há tempo que tens esse desejo. Não fiques chorando, por ter a Vida criado um vácuo ao redor de ti, a fim de ter-te como seu discípulo. As mutilações do afeto são raízes das asas que nascem no homem, que se transformou em servo da Verdade. Deixa que a corrupção siga os seus rumos. Levanta-te para o Reino do que é incorrupto. Nele encontrarás também a pérola incorruptível do teu pai. Deus chama e passa. Amanhã não encontrarás mais o coração que tens hoje e o convite de Deus. Vem. Vai anunciar o Reino de Deus.
O homem, encostado a um pequeno muro, está com os braços caídos, e neles estão penduradas algumas bolsas, cheias de unguentos e de tiras; sua cabeça está inclinada, mergulhada na dúvida entre dois amores: o devido a Deus e o devido a seu pai.
Jesus fica esperando e olhando para ele, depois segura uma criança e a aperta ao coração, dizendo:
– Fala comigo: “Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco a tua luz para aqueles que choram nas névoas da vida. Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco a tua força para quem é como uma criança, necessitada de ser carregada. Eu Te bendigo, ó Pai, e invoco o teu amor para que se esqueçam de tudo que não sejas Tu, todos aqueles que em Ti encontrariam, todo o seu bem aqui e no Céu, mas não sabem crer.”
E o menino, um inocente de quatro anos, repete com sua vozinha, as palavras santas, com suas mãozinhas juntas e postas em posição de oração pela mão direita de Jesus, que as segura pelo pulso gorducho como talos de flores.
O homem, então se decide. Dá a um companheiro os seus embrulhos e vai até Jesus, que põe no chão o menino, abraça depois o jovem, fazendo isso para animá-lo e ajudá-lo no esforço que está fazendo.
(...) Chegaram à beira do lago. Jesus sobe para a barca de Pedro, ao qual, em voz baixa, diz algumas palavras. Vejo que Jesus está sorrindo e Pedro fica muito admirado. Mas não diz nada. Sobe também para a barca o homem que deixou de ir sepultar o seu pai para acompanhar a Jesus.
EMF 184.1-9 · Volume 3
O milagre deve ter acontecido há pouco, pois dele os apóstolos estão falando, e também os moradores da cidade o estão comentando e mostrando uns aos outros o Mestre que vai saindo, bem aprumado e severo, para a periferia da cidade, a parte dos pobres.
Ele para junto a uma casinha, da qual sai pulando um menino, seguido por sua mãe.
– Mulher, deixas-me entrar no teu jardim e parar um pouco nele, até que o sol perca um pouco a força do seu calor?
– Entra, Senhor. Até para a cozinha, se quiseres. Eu Te trarei água e alguma coisa para comer.
– Não te incomodes. Basta-me ficar neste jardim sossegado.
Mas a mulher quer oferecer água misturada com não sei o quê, e depois fica dando uns giros pelo jardim, como se estivesse desejosa de falar, mas sem coragem. Ela está olhando suas verduras, mas é uma simulação. Na realidade, ela está olhando é para o Mestre, e fica aborrecida com o menino que, com os seus gritos, quando consegue apanhar uma borboleta ou outro inseto, não lhe permite ouvir o que Jesus está dizendo. Ela fica inquieta com isso e chega a dar um tapa no menino que, então, grita ainda mais forte. Jesus, que estava respondendo ao Zelotes — (que lhe fizera a pergunta: “Achas que Maria tenha ficado abalada com isso?”) — com estas palavras: “Bem mais do que pode vos parecer…”, vira-se e chama para perto de si o menino, que vem correndo para chorar sobre os joelhos de Jesus.
A mãe o chama:
– Benjamim, vem cá. Não fiques incomodando os outros!
Mas Jesus diz:
– Deixa-o, deixa-o. Ele se comportará bem e te deixará sossegada.
Depois, diz ao menino:
– Não chores. A mamãe não te fez mal. Somente te fez obedecer, ou melhor, queria te fazer obedecer. Por que é que ficavas gritando, quando ela queria silêncio? Talvez ela se sinta mal, pois os teus gritos a incomodam.
O menino, muito esperto, e com aquela insuperável sinceridade dos meninos, que é o desespero dos grandes, diz:
– Não. Não se sente mal. Mas queria ouvir o que estavas dizendo… Ela o disse a mim. Mas eu, que queria vir até perto de Ti, fazia aquele barulho de propósito, para que Tu olhasses para mim.
Todos se riem, e a mulher fica muito corada.
– Não te enrubesças, mulher.
184.2
Vem cá. Tu querias me ouvir falar. Por quê?
– Porque és o Messias. Não podes ser senão o Messias, com o milagre que fizeste… E eu tinha um grande desejo de ouvir-te. Eu nunca posso ir para fora de Magdala, porque eu… tenho um marido difícil, e cinco crianças. O mais novo está com quatro meses… e Tu nunca vens aqui.
– Eu vim, e justamente à tua casa. Como estás vendo.
– Por isso é que eu queria ouvir-te.
– Onde está o teu marido?
– No mar, Senhor. Se não se pesca, não se tem o que comer. Eu tenho apenas esta pequena horta: ela dá para sete pessoas? Mas, assim mesmo, Zaqueu ainda quereria dizer que desse…
– Tem paciência, mulher. Todos têm a sua cruz.
– Ah! Não! As que são sem vergonha só têm o prazer. Já viste o que fazem as sem-vergonhas? Elas gozam, e fazem sofrer. Elas não despedaçam os seus rins com o trabalho e gerar filhos, não criam bolhas manuseando a enxada, nem esfolam suas mãos com a potassa da lixívia. Elas são bonitas, viçosas. E não são atingidas pela condenação que Eva recebeu. Antes, são a nossa condenação, porque os homens… Tu compreendes…
– Sim, Eu te compreendo. Mas, fica sabendo que elas também têm uma cruz pesada. E é a mais pesada. Pois é uma cruz que não se vê. É a cruz da consciência que as reprova, do mundo, que escarnece delas, dos que são do seu sangue, pois eles as repudiam, e de Deus que as amaldiçoa. Elas não são felizes, podes crer. Não despedaçam seus rins na procriação, nem no trabalho, nem ficam com feridas nas mãos por trabalhar. Mas sentem-se despedaçadas da mesma forma, e com vergonha. O coração delas é uma chaga viva. Não tenhas inveja da aparência delas, do seu frescor, da sua aparente serenidade. Tudo isso é um véu cobrindo uma ruína, que remorde e não dá paz. Não tenhas inveja do sono delas, tu, ó mãe honesta, que sonhas com os teus inocentes… Elas têm o pesadelo em seus travesseiros. E amanhã, quando estiverem na agonia ou na velhice, terão o remorso e o terror.
– É verdade. Perdoa-me…
184.3
Deixas-me ficar aqui?
– Fica. Vamos contar uma bela parábola ao Benjamim, e aqueles que já não são crianças a aplicarão a si mesmos e à Maria de Magdala. Escutai.
Em vós há uma dúvida sobre a conversão de Maria para o Bem. Nenhum sinal nela dá a entender que ela queira dar passos nesse sentido. Descarada e desavergonhada, ela, consciente de sua posição e de seu poder, já ousou até desafiar as pessoas, como quando foi até à soleira de uma porta, onde se estava chorando por causa dela. A uma censura de Pedro, ela respondeu ainda com uma risada. Ao meu olhar, que a convida, respondeu com uma atitude de soberba. Vós talvez teríeis querido, uns por amor para com Lázaro, outros por amor para comigo, que Eu falasse a ela diretamente, numa conversa demorada com ela, para dominá-la com o meu poder e mostrando assim a minha força de Messias Salvador. Não. Não é preciso tudo isso. Eu o disse[1] a uma pecadora, há muitos meses. As almas devem agir por si mesmas. Eu passo, jogando a semente. Em segredo, a semente trabalha. E a alma fica respeitada nesse trabalho. Se a primeira semente não vingar, semeia-se uma segunda, depois outra… e só nos retiramos dali, quando tivermos provas suficientes de que o semear ali é inútil. E se reza. A oração é como um orvalho sobre as glebas: ela as conserva fofas e nutridas, a fim de que a semente possa germinar. Não fazes assim, mulher, com as tuas verduras?
184.4
Agora escutai a parábola do trabalho de Deus nos corações, para fundar neles o seu Reino. Porque cada coração é um pequeno Reino de Deus na terra. Mais tarde, depois da morte, todos esses pequenos reinos se aglutinarão em um só, no incomensurável, santo e eterno Reino dos Céus.
O Reino de Deus nos corações é criado pelo Divino Semeador. Ele vai aos seus terrenos, — pois o homem é de Deus e, por isso, cada homem inicialmente, é dele — e ali espalha a sua semente. Depois vai para outros terrenos, para outros corações. Os dias vêm depois das noites, e as noites depois dos dias. Os dias trazem sol ou chuvas e, neste caso, raios do amor divino e a efusão da Divina Sabedoria, que fala ao espírito. As noites trazem estrelas e silêncio repousantes: em nosso caso são os chamados luminosos de Deus e o silêncio para o nosso espírito, a fim de que a alma possa entrar em recolhimento e medite.
A semente, nessa sucessão de atos providenciais, imperceptíveis e poderosos, se incha, se fende, lança raízes, firma-se no terreno, solta as primeiras folhinhas, e cresce. Tudo isso ela faz sem ajuda do homem. A terra, espontaneamente, faz nascer da semente a erva, depois a erva se torna forte e capaz de sustentar a espiga que já vem saindo; depois essa espiga se ergue, se entumece, endurece, torna-se loira, perfeita e bem granada. Quando fica de todo madura, o semeador volta para passar-lhe a foice, porque para aquela semente chegou o tempo da perfeição. Não poderia ela evoluir mais, e por isso é colhida.
Nos corações minha palavra faz esse mesmo trabalho. Eu falo dos corações que dão acolhida à semente. Mas o trabalho neles é lento. É preciso não estragar tudo pelo atabalhoamento. Que esforço faz a pequena semente para fender-se e para fincar suas raízes na terra! Até para um coração duro e selvagem, é penoso um trabalho destes. Ela precisa abrir-se, deixa-se revirar, acolher coisas novas, cansar-se em alimentá-las, ter aparências diferentes, porque está coberta só com coisas humildes, mas úteis, e não com as mais atraentes, pomposas e exuberantes, que a cobriam antes. Deve contentar-se em trabalhar com humildade, sem atrair a admiração, mas sim para o que for útil dentro do Plano divino. Deve fazer uso de todas as suas capacidades, para crescer e formar a espiga. Deve abrasar-se de amor, para tornar-se grão. E quando, depois de ter superado os respeitos humanos, que são tão molestos, depois de ter-se cansado e sofrido, depois de ter-se acostumado à sua nova veste, ei-la precisando despojar-se dela, por meio de um corte sem piedade. É dar tudo para ter tudo. Ficar despojada para ser revestida no Céu com a estola dos Santos. A vida do pecador, que se torna santo, é o mais longo, o mais heróico e glorioso dos combates. Eu vo-lo digo.
184.5
Por tudo o que Eu vos disse, compreendei que Eu tinha que agir para com Maria, como faço. Por ventura, foi de modo diferente que Eu agi contigo, Mateus?
– Não, meu Senhor.
– E, dize-me a verdade: o que te persuadiu foi a minha paciência, ou os ralhos severos dos fariseus?
– Foi a tua paciência, tanto que eu aqui estou. Os fariseus, com seus desprezos e seus anátemas, me tornavam desdenhoso e, por desdém, eu fazia ainda mais mal, do que tudo o que eu havia feito até então. Isto é o que acontece. Ficamos mais enrijecidos quando, estando em pecado, ouvimos que nos chamam de pecadores. Mas quando, em vez de um insulto, recebemos uma carícia, ficamos atordoados e depois choramos… e, quando se chora, a couraça do pecado cede e se desfaz. Ficamos, então, nus diante da Bondade, e suplicamos, com todo o coração, que nos cubra com Sua veste.
– Disseste bem.
184.6
Benjamim, gostaste da história? Sim? Muito bem. E a mamãe onde está?
Quem responde é Tiago de Alfeu:
– Ela saiu, no fim da parábola, e foi correndo por aquela estrada.
– Terá ido ao mar, para ver se vem vindo o seu esposo –diz Tomé.
– Não. Ela foi à casa da vovó buscar meus irmãozinhos. Mamãe os leva para lá, a fim de poder trabalhar –diz o menino, que está apoiado, muito confiadamente, nos joelhos de Jesus.
– E tu estás aqui, homem? Deves ser uma bela víbora, para estares aqui sozinho –observa Bartolomeu.
– Eu sou o mais velho, e já a ajudo…
– Tu a ajudas a ganhar o Paraíso, coitada dela! Quantos anos tens? –pergunta Pedro.
– Dentro de três anos, serei filho da Lei –diz, todo ufano, o menino.
– Sabes ler? –pergunta Tadeu.
– Sim… mas leio devagar, porque… porque o mestre me põe para fora todos os dias…
– Bem que eu dizia –diz Bartolomeu.
– Mas eu faço assim, porque o mestre é velho e feio, e diz sempre as mesmas coisas, e faz a gente dormir! Se fosse como Ele (e mostra Jesus), eu prestaria atenção. Tu também bates em quem está dormindo ou brincando?
– Eu não bato em ninguém. Mas digo aos meus alunos: “Ficai bem atentos, para o vosso bem e por amor de Mim” –responde Jesus.
– Aí. Assim, sim. Por amor, sim. Mas não por medo.
– Mas, se tu te tornares bom, o mestre te quererá bem.
– Tu só queres bem a quem é bom? Há pouco disseste que tiveste paciência com este aqui, que não era bom…
A lógica do menino é muito exigente.
– Eu sou bom para com todos. Mas, quem procura tornar-se bom é muito, muito amado por Mim e com ele Eu sou bom, muito bom.
O menino fica pensando… depois levanta a cabeça e pergunta a Mateus:
– Como foi que fizeste para te tornares bom?
– Eu quis bem a ele.
184.7
O menino pensa ainda, depois olha os doze, e diz a Jesus:
– Todos estes são bons?
– Certamente que o são.
– Tens certeza disso? Algumas vezes eu quero passar por bom, mas é quando quero “aprontar” alguma arte bem grande.
Todos soltam uma fragorosa risada. Ri-se também o homenzinho, que está quase se confessando. Ri-se também Jesus, que o aperta contra o coração e o beija.
O menino, já muito amigo de todos, quer brincar, e diz:
– Agora eu vou dizer-te quem aqui é bom –e começa a sua escolha.
Olha para todos, e vai direto a João e André, que estão mais perto dele, e diz:
– Tu e tu. Vinde cá.
Depois, separa os dois Tiagos e os ajunta aos dois já separados. Em seguida separa Tadeu. Fica muito tempo pensativo, diante de Zelotes e de Bartolomeu, e diz:
– Sois velhos, mas sois bons –e os ajunta aos outros.
Olha para Pedro, que está passando por aquele exame e está fazendo uns esgares com os olhos, e o acha bom. Também Mateus passa pelo exame, e assim Filipe. A Tomé ele diz:
– Você ri muito. Eu estou falando sério. Não sabes que meu mestre diz que quem fica sempre rindo, erra na hora da prova?
Mas, afinal, Tomé também passa, com nota baixa, mas passa no exame. Depois o menino volta para Jesus.
– Ei, moleque. Aqui estou eu. Eu não sou uma árvore. Sou jovem e belo. Por que não me examinas? –diz Iscariotes.
– Porque não me agradas. Mamãe diz que, quando uma coisa não nos agrada, não devemos tocar nela. Deixamo-la sobre a mesa, e que a apanhem outros, que talvez gostem dela. E ela diz também que, se alguém nos oferece uma coisa de que não gostamos, não se deve dizer: “Não me agrada”, mas se diz: “Obrigado, não estou com fome.” Eu não tenho fome de ti.
– Mas, como? Olha, se disseres que eu sou bom, eu te darei esta moeda.
– Que é que eu vou fazer com ela? Que é que eu vou comprar com uma mentira? Mamãe diz que o dinheiro, conseguido com enganos, vira palha. Uma vez eu consegui, com uma mentira, que minha avó me desse uma didracma para eu comprar umas fogaças com mel, e de noite a moeda virou palha. Eu a tinha colocado ali naquele buraco, por baixo da porta, para apanhá-la no outro dia, pela manhã, mas lá só encontrei um punhado de palha.
– Mas, porque é que não sou bom? Que é que eu tenho? O pé rachado? Serei tão feio assim?
– Não. Tu me causas medo.
– Mas, por quê? –pergunta Iscariotes, aproximando-se dele.
– Eu não sei. Deixa-me. Não me toques ou eu vou te arranhar.
– Que porco espinho! Está louco.
Judas ri mal.
– Não louco. Tu és mau –e o menino vai refugiar-se no colo de Jesus, que o acaricia sem dizer nada.
Os apóstolos conversam sobre o acontecido, que não é de bom augúrio para Iscariotes.
184.8
Nesse ínterim, vem vindo uma mulher com uma dúzia de pessoas, e depois vêm chegando outras, e mais outras.
Já serão umas cinquenta. Todas pobres.
– Falarias a estas pessoas? Pelo menos um pouquinho. Esta é a mãe do meu marido, e estes são os meus filhos. Aquele homem ali é o meu marido. Fala uma palavra, Senhor –suplica-lhe a mulher.
– Sim. Para agradecer-te a hospitalidade, Eu a direi.
A mulher entra em casa, onde seu filhinho de peito está reclamando dela o que precisa, e ela se assenta sobre a soleira da casa para dar-lhe de mamar.
– Ouvi. Aqui sobre os meus joelhos, estou com um menino, que falou, há pouco, com muita sabedoria. Ele disse: “Todas as coisas obtidas por meio de enganos se tornam palha.” Foi sua mamãe que lhe ensinou esta verdade.
Não é fábula. É verdade eterna. Nunca se sai bem quem age sem honestidade. Porque a mentira nas palavras, nos atos, na religião, é sempre sinal de aliança com satanás, mestre da mentira. Não acrediteis que as obras feitas para conseguir o Reino dos Céus sejam obras espetacularmente vistosas. Mas são atos contínuos e comuns, feitos com um fim sobrenatural de amor. O amor é a semente da planta que, nascendo em vós, cresce até o Céu, e na sombra dela nascem todas as outras virtudes. Eu a compararei a um pequenino grão de mostarda. Como é pequenino! É uma das menores sementes que o homem semeia. E, no entanto, olhai como, depois que a planta cresceu, se torna forte e viçosa, e quantos frutos produz. Não cem por cento, mas cem por um. É a menor. Mas é a mais diligente para trabalhar. Quantas vantagens ela vos traz.
Assim é o amor. Se vós encerrásseis em vosso seio uma semente de amor para com o vosso Santíssimo Deus e para com o vosso próximo e, sob a guia do amor, fizesseis as vossas orações, nunca ficaríeis contra nenhum preceito do Decálogo. Não mentiríeis a Deus com uma falsa religião de práticas e não de espírito. Não mentiríeis ao próximo com uma conduta de filhos ingratos, de esposos adúlteros, ou também exigentes demais, de ladrões nos negócios, de mentirosos na vida, de violentos para com quem é vosso inimigo. Olhai, nesta hora de calor, quantos passarinhos vieram refugiar-se por entre os ramos deste jardim. Daqui a pouco, aquele sulco de mostardas, que por enquanto estão pequenas, será um chilreio só. Todos os passarinhos virão para a proteção e a sombra daquelas plantas tão viçosas e agasalhadoras, e os filhotes dos passarinhos aprenderão a treinar suas asas, justamente no meio daquela ramalhada, que lhes serve de escada e de rede, para subirem e para não caírem. Assim é o amor, a base do Reino de Deus.
Amai e sereis amados. Amai e tereis compaixão. Amai e não sereis cruéis, querendo mais do que é lícito de quem depende de vós. Amor e sinceridade para obter a paz e a glória dos Céus. Do contrário, como disse Benjamim, toda a vossa ação praticada, enquanto estais mentindo ao amor e à verdade, mudar-se-à para vós em palha para ser a vossa cama no Inferno. Não vos digo outras coisas. Só vos digo isto: tende sempre presente o grande preceito do amor e sede fiéis a Deus Verdade e à verdade em todas as vossas palavras, atos e sentimentos, porque a verdade é filha de Deus. Um contínuo trabalho em vosso aperfeiçoamento, assim como a semente continuamente cresce, até chegar à sua perfeição. É um trabalho feito no silêncio, na humildade, com paciência. Ficai certos de que Deus vê as vossas lutas e vos premia mais por um egoísmo vencido, por uma palavra profana retida, por uma exigência não imposta, do que se estivésseis numa batalha, matando o inimigo. O Reino dos Céus, do qual sereis possuidores, se viverdes como justos, é construído com as pequenas coisas de cada dia. Com a bondade, com a moderação, com a paciência, com o contentar-vos com o que tendes, com a tolerância recíproca, com o amor, o amor, o amor.
Sede bons. Vivei em paz uns com os outros. Não murmureis. Não julgueis. Deus, então estará convosco. Eu vos dou a minha paz, como bênção e como agradecimento pela fé que tendes em Mim.
184.9
Depois, Jesus se vira para a mulher, e diz:
– Deus abençoe particularmente a ti, porque és uma santa mulher e uma santa mãe. Persevera na virtude. Adeus, Benjamim. Sê sempre amante da verdade, e obedece à tua mãe. Abençôo a ti e aos teus irmãozinhos, e a ti, mãe.
Um homem vem para a frente. Ele está confuso, e gagueja.
– Mas, mas… estou comovido por tudo o que disseste de minha mulher… Eu não sabia.
– Não tens olhos e intelecto, talvez?
– Tenho.
– Por que não fazes uso deles? Queres que Eu os desanuvie?
– Já fizeste isso, Senhor. Mas eu quero bem a ela, sabes? É que a gente se habitua… e… e…
– E pensa que seja permitido pretender demais, porque o outro é melhor do que nós. Não faças mais isso. Estás sempre em perigo com o teu ofício. Não tenhas medo de tempestades, se Deus estiver contigo. Mas, se for a injustiça que está contigo teme fortemente. Compreendeste?
– Mais do que disseste. Eu vou procurar obedecer-te… Eu não sabia… –e olha para a sua mulher, como se a estivesse vendo pela primeira vez.
Jesus abençoa e sai pela pequena estrada. E toma o caminho que vai para a campina.
Na AMI 183, Jesus encontra-se com Maria de Magdala e faz um milagre para salvar um homem adúltero.
Esta lição foi dada no dia 10 de junho de 1945, terceiro domingo depois de Pentecostes. A liturgia do dia (missal de São Pio V) celebrava a ovelha perdida e a dracma recuperada (Lucas 15). O episódio anuncia a conversão de Maria Madalena.
Há alguns meses, disse o mesmo a propósito de um outro pecador. Para Aglaé, a mulher velada de Belle-Eau. Ver EMV 79.6.
Uma vez, uma avó deu-me, à custa de uma mentira, uma didrachma. Duas dracmas. Ver nota sobre as moedas.
EMF 194.2-5 · Volume 3
Eis uma nova subida muito íngreme, porque a comitiva, deixando a estrada mestra, poeirenta e cheia de gente, preferiu entrar por um atalho, que vai pelo meio do mato. E, tendo chegado ao alto, vêem brilhar, lá ao longe, mas bem visível, um mar que resplende, suspenso sobre um aglomerado branco, que talvez sejam casas alvejadas pela cal.
– Jabé –chama-o Jesus–, vem cá. Estás vendo aquele ponto de ouro? É a Casa do Senhor. Lá tu vais jurar obediência à Lei. Tu a conheces bem?
– Mamãe me falou dela e meu pai me ensinou os preceitos. Eu sei ler… e acho que sei o que “eles” me ensinaram antes de morrer.
O menino, que correra sorrindo para atender ao chamado de Jesus, agora está chorando, com a cabeça baixa e a mão tremendo na mão de Jesus.
– Não chores. Escuta. Sabes onde estamos? Aqui é Betel. Foi aqui que o santo Jacó teve o seu sonho angélico. Tu o conheces? Lembras-te dele?
– Sim, Senhor. Ele viu uma escada que ia da terra ao Céu e por ela, para baixo e para cima, iam e vinham os anjos. E a mamãe me dizia que, na hora da morte, se tivermos sido sempre bons, veremos a mesma coisa e se poderia ir, por aquele escada, até a Casa de Deus. Muitas coisas dizia-me minha mãe… Mas agora não me dirá mais nada… eu as tenho todas aqui e é tudo o que tenho dela…
As lágrimas descem daquele rostinho triste.
– Não chores assim! Escuta, Jabé. Eu também tenho uma mãe, que se chama Maria, e que é santa e boa e sabe dizer muitas coisas. É mais sábia do que um mestre, melhor e mais bela do que um anjo. Agora nós estamos indo à casa dela. Ela vai gostar muito de ti. Vai dizer-te muitas coisas. E, depois, com ela está a mãe de João, que também é boa e também se chama Maria. E a mãe do meu irmão Judas, também ela doce como um pão de mel e também chamada Maria. Elas gostarão muito de ti. Muito mesmo. Porque tu és um bom menino e por amor de Mim, porque te amo tanto. Depois, tu crescerás com elas e, quando cresceres, serás um santo de Deus, pregarás como um doutor sobre Jesus, que te deu de novo uma mãe aqui e que abrirá as portas do Céu para tua falecida mãe, para o teu pai, e que as abrirá também para ti, quando chegar a tua hora. Tu nem terás necessidade de subir pela comprida escada dos Céus, na hora da tua morte. Já terás subido por ela, durante a tua vida, procurando ser um bom discípulo, e te encontrarás lá, à porta aberta do Paraíso, e Eu também lá estarei, e te direi: “Vem, meu amigo e filho de Maria”, e estaremos juntos.
O sorriso luminoso de Jesus, que vai caminhando um pouco inclinado, para ficar mais perto do rostinho levantado do menino, que caminha ao lado com sua mãozinha na dele, e aquela história maravilhosa enxugam as lágrimas do menino, e fazem despontar um sorriso.
194.3
O menino, que está bem longe de ser um tolo, mas que somente está atordoado pela grande dor e privação que sofreu, interessado por aquela história, pergunta:
– Mas, Tu dizes que abrirás as portas dos Céus. Não estão elas fechadas pelo grande Pecado? A mamãe me dizia que ninguém podia entrar, enquanto não tivesse vindo o perdão, e que os justos o estavam esperando no Limbo.
– É isto mesmo. Mas depois Eu irei para o Pai, depois de ter pregado a palavra de Deus e… ter obtido para vós o perdão, e Eu direi “Pai meu, agora Eu cumpri toda a tua vontade. Agora quero o meu prêmio pelo meu sacrifício. Que venham os justos, que estão esperando o teu Reino.” E o Pai me dirá: “Que seja como Tu queres.” E, então, Eu descerei para chamar todos os justos e o Limbo abrirá as suas portas, ao som da minha voz, e sairão exultantes os santos Patriarcas, luminosos Profetas, as mulheres abençoadas de Israel e depois, sabes quantos meninos? Será como um prado florido de meninos de todas as idades! E, cantando, eles virão atrás de Mim, subindo para o belo Paraíso.
– E lá estará também a minha mamãe?
– Com toda a certeza!
– Tu não me disseste que ela estará lá contigo na porta do Céu, quando eu também tiver morrido…
– Ela, e com ela o teu pai não terão necessidade de estar junto àquela porta. Como anjos fulgentes, eles alçarão sempre seus vôos do Céu para a terra, de Jesus até o pequeno Jabé e, quando tu estiveres para morrer, eles farão como estão fazendo aqueles dois passarinhos ali, naquela sebe. Estás vendo-os?
Jesus toma o menino nos braços, para que ele veja melhor:
– Estás vendo como eles estão sobre os seus pequenos ovos? Estão esperando que os ovos se abram, e depois estenderão as asas sobre sua ninhada para protegê-la de todo mal e, em seguida, quando ela já tiver crescido e estiver pronta para o vôo, eles os sustentarão com suas fortes asas, levando-os para cima, para cima, ainda mais para acima… rumo ao sol. Os teus pais farão assim contigo.
– Será assim mesmo?
– Assim mesmo.
– Mas, Tu dirás a eles que se lembrem de vir?
– Não haverá necessidade disso, porque eles te amam. Mas Eu lhes direi.
– Oh! Como eu te quero bem!
O menino, ainda nos braços de Jesus, abraça-se ao pescoço dele e o beija com uma expansão de tanta alegria, que causa comoção a quem vê. Jesus retribui o beijo, e o põe no chão.
194.4
– Oh! Está bem. Agora, vamos para a frente. Para a Cidade Santa. Devemos chegar amanhã pela tarde. Por que tanta pressa? Sabes me dizer? Por que não depois de amanhã?
– Não. Não seria a mesma coisa. Porque amanhã é Parasceve e, depois do pôr do sol, não se pode andar mais do que seis estádios. Além disso não se pode, porque já começou o sábado e seu repouso.
– Portanto, no sábado se fica à toa.
– Não. Faz-se a oração ao Senhor Altíssimo.
– Como ele se chama?
– Adonai. Mas os santos podem dizer o seu nome.
– Também os meninos bons. Dize-o, se o sabes.
– Jaave –(O pequeno o pronuncia com um J suave e um A muito longo).
– E por que se faz a oração do Senhor Altíssimo no sábado?
– Porque Ele assim ordenou a Moisés, quando lhe deu as tábuas da Lei.
– Ah! Sim? E que foi que Ele disse?
– Ele ordenou que se santificasse o sábado: “Trabalharás durante seis dias, mas no sétimo dia repousarás, e farás repousar, porque assim fiz Eu também depois da criação.”
– Como? O Senhor descansou? Ter-se-á cansado ao criar? E Ele criou mesmo? Como o sabes? Eu sei que Deus não se cansa nunca.
– Ele não se cansa , porque Deus não caminha, nem move os braços. Mas assim fez para ensinar a Adão, e a nós, e para ter um dia em que pensemos nele. E Ele criou tudo, com toda a certeza, Assim o diz o Livro do Senhor.
– Mas, o Livro foi escrito por Ele?
– Não. Mas é a verdade. É preciso crer nele, para não ir para a companhia de Lúcifer.
– Disseste-me que Deus não caminha, nem move os braços. Como foi, então, que Ele criou? Como é Ele? É uma estátua?
– Não é um ídolo. É Deus. E Deus é… deixa-me pensar e recordar como dizia minha mamãe, e, melhor ainda do que ela, aquele homem que vai em teu nome ao encontro dos pobres em Esdrelon… A mamãe me dizia, para fazer-me compreender a Deus: “Deus é como o meu amor por ti. Não tem corpo, mas existe.” E aquele homenzinho, com um sorriso muito doce, dizia: “Deus é um espírito Eterno, Uno e Trino e a Segunda Pessoa se fez carne por amor de nós pobres e tem o nome de…” Oh! Meu Senhor! Agora é que eu penso nisso… és Tu!
E o menino, assombrado, prostra-se por terra, adorando.
Correm todos para perto dele, pensando que ele tivesse caído, mas Jesus faz um sinal de silêncio, pondo o dedo sobre os lábios, depois diz:
– Levanta-te, Jabé. Os meninos não devem ter medo de Mim!
O menino levanta a cabeça, e fica olhando para Jesus com uma expressão diferente, como de medo Mas Jesus sorri, e lhe estende a mão, dizendo:
– Tu és um sábio, ó pequeno israelita.
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Continuemos o exame entre nós. Agora que Me reconheceste, sabes se no Livro se fala de Mim?
– Oh! Senhor! Do princípio até aqui. Ele todo fala de Ti. Tu és o Salvador prometido. Agora compreendo porque é que abrirás as portas do Limbo. Ah! Senhor! Senhor! E me quererás bem mesmo?
– Sim, Jabé.
– Não. Não mais Jabé, Dá-me um nome que queira dizer que Tu me amaste, que Tu me salvaste…
– Eu vou escolher o nome junto com minha mãe. Está bem?
– Mas que queira dizer justamente isso. E o tomarei, a partir do dia em que me tornar filho da Lei.
– Tomá-lo-às, a partir daquele dia.
Betel foi superada e, em um pequeno vale fresco e de água boa, fazem uma parada para tomarem a refeição.
Jabé ficou meio aturdido pela revelação, e está comendo em silêncio, aceitando com veneração, todos os bocados que Jesus lhe vai oferecendo. Mas, pouco a pouco, ele se reanima e, especialmente depois de ter jogado uma bela partida com João, enquanto os outros estão descansando sobre a erva verde, volta a Jesus, junto com o sorridente João e os três fazem um pequeno e lindo grupo.
– Não me disseste quem fala de Mim no Livro.
– Os Profetas, Senhor. E, antes ainda, fala disso o Livro, desde quando Adão foi expulso do Paraíso, e depois a Jacó, e a Abraão e a Moisés… Oh! Meu pai me dizia que tinha ido a João — não a este, mas ao outro João, o do Jordão — e que ele, o grande profeta, te chamava de cordeiro… agora, sim, eu compreendo que o cordeiro de Moisés… que a Páscoa és Tu!
João o estimula:
– Mas qual Profeta que profetizou melhor do que ele?
– Isaías e Daniel. Mas… eu gosto mais de Daniel, agora que eu Te amo como a meu pai. Posso dizer uma coisa? Dizer que Te amo como a meu pai? Sim? Pois bem; agora eu prefiro Daniel.
– Por quê? Quem fala muito de Cristo é Isaías.
– Sim. Mas ele fala das dores de Cristo. Daniel, ao contrário, fala do belo anjo e da tua vinda. É verdade… ele também diz que o Cordeiro será imolado. Mas eu penso que o Cordeiro era imolado com um golpe só. Não como dizem Isaías e Davi. Eu chorava sempre quando os ouvia ler e mamãe não me falou mais neles.
O menino está quase chorando, ainda agora, enquanto acaricia a mão de Jesus.
– Não penses por hora. Escuta. Sabes os preceitos?
– Sim, Senhor. Acho que os sei. No bosque eu os ficava repetindo, para não me esquecer deles e para ouvir as palavras de mamãe e de papai. Mas agora não choro mais (na verdade, sua pupilas já estão brilhando muito), porque agora eu tenho a Ti.
João sorri e se abraça a Jesus, dizendo:
– São as minhas próprias palavras! Todos os pequenos de coração falam a mesma coisa.
– Sim. Porque as palavras deles vêm de uma única Sabedoria.