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EMF 173.2-4 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

173.2 – A paz esteja com todos vós!

Ontem Eu falei da oração, do juramento, do jejum. Hoje quero instruir-vos sobre outras perfeições, que também são oração, confiança, sinceridade, amor, religião.

A primeira, de que hoje falo é sobre o justo uso das riquezas, a serem transformadas, pela boa vontade do servo fiel, em muitos outros tesouros no Céu. Os tesouros da terra não duram. Mas os tesouros do Céu são eternos. Vós amastes o que é vosso? Ficais tristes por terdes que morrer, e não poderdes mais cuidar de vossos bens, tendo que deixá-los? Então, transportai-os para o Céu! Vós dizeis: “No Céu não entra o que é da terra, e Tu nos ensinas que o dinheiro é a coisa mais suja da terra. Como, então poderemos transportá-lo para o Céu?” Não. Não podeis transportar as moedas, que são coisas materiais, para o Reino, onde tudo é espiritual. Mas podeis levar convosco o fruto das moedas. Quando dais a um banqueiro o vosso ouro, por que o fazes? Para que possa produzir frutos. Certamente não quereis privar-vos dele, nem mesmo momentaneamente, nem quereis que o banqueiro vo-lo entregue tal qual o recebeu. Mas vós quereis que sobre dez talentos ele vos entregue dez mais um, ou até mais. Se for assim, ficais felizes, e falais bem do banqueiro. Se não for assim, vós dizeis: “Ele é um homem honesto, mas é um tolo.” E, se acontecer que, em vez de dez mais um, ele vos entregue nove, dizendo “Eu perdi o resto”, vós o denunciais, e o colocais na cadeia.

Donde provém o fruto do dinheiro? Por acaso o banqueiro semeia o vosso dinheiro para fazê-lo crescer? Não. O fruto provém de um acertado manejo dos negócios, de tal modo que, por meio de hipotecas ou empréstimos a juros, o dinheiro aumente no ágio justo pedido em favor do ouro emprestado. Não é assim? Pois bem. Então ouvi: Deus vos dá riquezas terrenas. A alguns dá muitas, a outros dá somente aquelas de que precisam para viver, e vos diz: Agora é contigo. Eu as dei. Usa delas como meio para chegares a um fim, como o meu amor o deseja, para o teu bem. Eu as confio a ti. Não para que delas faças um mal. Pela estima que tenho por ti, por reconheceres os meus dons, faze que os teus bens frutifiquem para a verdadeira Pátria.

173.3 E está aí o método para se chegar a esse fim.

Não queirais acumular os vossos tesouros na terra, vivendo por eles, sendo cruéis, malditos pelo próximo e por Deus por causa deles. Não vale a pena. Eles estão sempre sem segurança na terra. Os ladrões sempre podem roubar-vos. O fogo pode destruir vossas casas. As doenças nas plantas e nos rebanhos podem acabar com o vosso gado e os vossos pomares. Quantas coisas perseguem os vossos bens. Ainda que eles sejam imóveis e inatacáveis, como as casas e ouro, podem estar sujeitos a se deteriorarem, como todos os seres vivos, os vegetais e os animais. Por mais que sejam estofos preciosos, estão sujeitos à desvalorização. Um raio que cai nas casas, o fogo e a água. Os ladrões, a ferrugem, a seca, os roedores, os insetos nas lavouras; a vertigem dos cavalos, as febres, os desconjuntamentos das pernas e a peste dos animais, traças e camundongos nos tecidos preciosos e nos móveis de estimação; a erosão produzida pela oxidação das vasilhas, dos lustres e grades artísticas; tudo, tudo está sujeito a deteriorização.

Mas, se vós fazeis um bem sobrenatural, de todos estes bens terrenos, logo ele fica a salvo de toda a deteriorização do tempo, dos homens e das intempéries. Fazei para vós tesouros no Céu, lá onde não entram ladrões, e onde não acontecem desventuras. Trabalhai com amor misericordioso com todas as misérias da terra. Acariciai as vossas moedas, e até beijai-as, se quiserdes, alegrando-vos com as colheitas que melhoram, com os vinhedos carregados de cachos, com as oliveiras que se inclinam sob o peso de numerosíssimas azeitonas, com as ovelhas de seios fecundos e mamas cheias. Fazei tudo isso. Mas, não de modo estéril, não de modo humano. Fazei-o com amor e admiração, com gozo e com a mentalidade sobrenatural.

“Obrigado, meu Deus pelas moedas, colheitas, plantas, pelas ovelhas, pelos negócios. Obrigado, ovelhas, plantas, prados, negócios, que me servis tão bem. Sede benditos todos, porque por tua bondade, ó Eterno, e por vossa bondade, ó coisas, é que eu posso fazer tanto bem a quem tem fome, a quem está nu, a quem não tem casa, a quem está doente, sozinho…. No ano passado eu fiz o bem por dez. Neste ano — mesmo que eu tenha dado muito em esmolas, tenho ainda mais dinheiro e minhas colheitas foram mais gordas e os meus rebanhos, mais numerosos — eu, então, darei duas, três vezes o que eu dei no ano passado. Do mesmo modo que todos, até os privados de seus próprios bens, participem da minha alegria, e gozem e bendigam comigo a Ti, Senhor Eterno.” Esta é a oração do justo. A oração unida à ação, que transporta os vossos bens para o Céu. Não só vo-los conserva para sempre, mas vos faz encontrá-los, aumentados pelos frutos santos do amor.

Tende o vosso tesouro no Céu, para que tenhais o vosso coração além do perigo, pois não somente o ouro, as casas os campos e os rebanhos podem passar por desventuras, mas o vosso coração pode ser insidiado, despojado, queimado e morto pelo espírito do mundo. Se assim fizerdes, tereis vosso tesouro em vosso coração, porque tereis Deus em vós, até o feliz dia no qual estareis n’Ele.

173.4 Mas, para não diminuir o fruto da caridade, tomai cuidado em serdes caridosos, com espírito sobrenatural. Como Eu disse da oração e do jejum, assim digo da beneficência e de todas as outras boas obras que possais fazer.

Conservai o bem que fazeis longe da violação pela sensualidade do mundo, conservai-o virgem dos louvores humanos. Não profaneis a rosa perfumada pela vossa caridade e boas obras, verdadeiro turíbulo de perfumes agradáveis ao Senhor. O que profana o bem é o espírito de soberba, o desejo de serdes vistos fazendo o bem e a procura de elogios. A rosa da caridade fica contaminada e corroída pelas grandes lesmas viscosas do orgulho satisfeito, e no turíbulo caem palhas fedorentas da liteira na qual o soberbo se pavoneia, como um animal bem alimentado.

Oh! Aquelas beneficiências feitas só para dar o que falar! Pois, melhor mesmo, teria sido não fazê-las! Quem não as faz, peca por dureza de coração. E quem as faz, querendo que seja conhecida a importância que deu e o nome de quem a recebeu, está pedindo a esmola de um louvor, e peca por soberba, tornando conhecida a sua oferta, como se dissesse: “Estais vendo quanto eu posso?”; peca por falta de caridade, porque humilha o beneficiado, tornando o seu nome conhecido; e peca por avareza espiritual, querendo acumular elogios humanos… que são palhas, palhas, nada mais do que palhas Fazei que Deus e os seus anjos vos louvem.

Vós, quando derdes esmola, não fiqueis tocando a trombeta em vossa frente, para chamar a atenção dos que estão passando e para serdes elogiados, como os hipócritas que querem ser aplaudidos pelos homens e por isso só dão esmolas onde possam ser vistos por muitos. Estes já receberam a sua recompensa, e não receberão a de Deus. Não incorrais na mesma culpa e na mesma presunção. Mas, quando derdes esmola, que não saiba a vossa mão esquerda o que a direita está fazendo, porque a vossa esmola escondida e discreta há de ser. e, depois esquecei-vos dela. Não fiqueis olhando continuamente para vós mesmos, depois de terdes feito aquele ato, inchando-vos com ele, como faz o sapo, que se olha nas águas do brejo, com olhos anuviados, e vendo refletidos na água parada as nuvens, as árvores e o carro parado perto da margem, vendo-se tão pequeno, diante de todas aquelas coisas, começa a encher-se de ar, até estourar. Também a caridade que fizestes não é nada, em comparação com a infinita Caridade de Deus. E, se quisésseis tornar-vos semelhante a Ele e tornar grande a vossa pequena caridade, para igualar-se à dele, vos encheríeis do vento do orgulho, e acabaríeis perecendo.

Esquecei-vos disso. Até do ato em si mesmo, esquecei-vos. Estará sempre presente uma luz, uma voz, um mel, e vos tornará o dia luminoso, doce e feliz. Porque aquela luz será o sorriso de Deus, aquele mel será paz espiritual, que também é Deus, e aquela voz é a voz de Deus-Pai que vos dirá “Obrigado.” Ele vê o mal oculto e vê o bem escondido, e vos dará a recompensa,

EMF 173.7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

E por isso vos digo: não vos preocupeis por receio de terdes pouco. Vós tereis sempre o necessário. Não fiquem preocupados, pensando no futuro. Ninguém sabe quanto de futuro tem ainda à sua frente. Não fiqueis pensando no que havereis de comer para sustentar-vos na vida, nem com que vos vestireis para esquentar o vosso corpo. A vida do vosso espírito é bem mais preciosa do que o ventre e os membros e vale muito mais do que o alimento e as vestes. E o vosso Pai sabe disso. Que vós também o saibais. Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem acumulam nos celeiros e, no entanto, não morrem de fome, porque o Pai do Céu as nutre. Vós, homens, criaturas prediletas do Pai, valeis muito mais do que elas.

Quem de vós, com toda a vossa inteligência, seria capaz de aumentar um côvado em vossa altura? Se não conseguis aumentar a vossa altura nem um palmo, como podeis pensar em mudar as vossas condições futuras, aumentando as vossas riquezas, para garantir uma longa e próspera velhice? Podeis dizer à morte “Tu só me virás buscar quando eu quiser?” Não o podeis. Para que então, viver preocupados com o amanhã? Por que ficar tristes por medo de não ter o que vestir? Olhai como crescem os lírios do campo: eles não se cansam, não fiam, nem tecem, não visitam os vendedores de tecidos para suas compras, no entanto, Eu vos asseguro que nem mesmo Salomão, com toda a sua glória, nunca se vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva, que hoje existe e amanhã irá servir para aquecer o forno, ou para a pastagem do rebanho, terminando sempre em cinza, ou esterco, quanto mais não proverá para vós, que sois seus filhos?

Não sejais pessoas de pouca fé. Não vos angustieis, porque o futuro é incerto, nem dizei: “Quando eu ficar velho, que é que vou comer? Que é que vou beber? Com que vou me vestir?” Deixai essas preocupações para os pagãos, que não têm a sublime certeza da paternidade divina. Vós a tendes e sabeis que o Pai conhece as vossas necessidades, e vos ama. Confiai, pois, nele. Procurai primeiro as coisas verdadeiramente necessárias: a fé, a bondade, a caridade, a humildade, a misericórdia, a pureza, a justiça, a mansidão, as três e as quatro virtudes principais, e todas as outras também, de modo que possais ser amigos de Deus com direito ao seu Reino: Eu vos asseguro que tudo o mais vos será dado em acréscimo, sem que vós o peçais. Não há rico mais rico nem seguro mais seguro do que o santo. Deus está com ele. E o santo está com Deus. Para o seu corpo não pede nada e Deus o provê do necessário. Mas ele trabalha para o seu espírito, e Deus se dá a Si Mesmo a ele aqui neste mundo, e lhe dá o Paraíso, depois desta vida.

Não fiqueis sofrendo por algo que não merece o vosso sofrimento. Afligi-vos, sim, por serdes imperfeitos, mas não por terdes poucos bens terrenos. Não vos preocupeis com o dia de amanhã. O dia de amanhã pensará a por si mesmo, e vós pensareis nele quando o estiverdes vivendo. Por que pensar nele desde hoje? A vida já não está bem cheia das lembranças tristes de ontem e dos pensamentos desagradáveis de hoje, para sentirdes ainda necessidade de viver com o pesadelo do dia de amanhã? Deixai para cada dia os seus problemas! Existirão sempre mais sofrimentos, do que nós quereríamos nesta vida, sem que precisemos aumentar os sofrimentos presentes com o pensamento do futuro! Dizei sempre a grande palavra de Deus: “Hoje.” Sede seus filhos à sua semelhança. Dizei, pois com Ele: “Hoje.”

Anotação

Amanhã ele pensará em si mesmo. Este pensamento, que se tornou proverbial, está registado em Mateus 6:34. É novamente mencionado por Jesus em EMV 584.15.

EMF 174.13 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Ai de vós, ricos e gozadores! Porque é justamente em vós que fermenta a maior impureza, para a qual o ócio e o dinheiro servem de cama e travesseiro! Agora vós estais fartos. O alimento das concupiscências vos chega até a garganta e vos sufoca. Mas havereis de ter fome. Uma fome tremenda, insaciável, sem atenuação e para sempre. Agora estais ricos. Quanto bem poderieis fazer com vossa riqueza! Mas, com ela, fazeis grande mal a vós mesmos e aos outros. Havereis de conhecer uma pobreza atroz, durante um dia que não terá fim. Agora estais rindo. Pensais que sois triunfadores. Mas as vossas lágrimas encherão os tanques da Geena para sempre.

EMF 174.19 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Tudo se pode superar, quando o espírito é reto. Tudo, porém serve de motivo para satisfazer-se a sensualidade, quando o espírito é luxurioso: a frigidez feminina, a lentidão dela, a incapacidade no que se refere aos serviços da casa, a língua desenfreada, o amor ao luxo, tudo isso se suporta, até as doenças, até a irascibilidade, quando os dois se amam santamente.

EMF 180.6 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Os campos espinhosos são aqueles nos quais o descuido deixou penetrar os espinhosos enredos dos interesses pessoais, que sufocam a boa semente. É preciso que se vigie sempre, sempre, sempre. Não digas nunca: “Oh! Eu já estou formado, semeado, e por isso, posso ficar tranquilo, que hei de dar semente de vida eterna.” É preciso que se vigie: a luta entre o Bem e o Mal é continua. Já tereis observado uma tribo de formigas que quer fazer seu ninho em uma casa? Ora, elas estão em cima do fogão. A mulher não deixa mais as comidas lá, mas as coloca na mesa; e elas, então, farejam o ar, e vão dar um assalto à mesa. A mulher põe as comidas no guarda-comida, e elas, pelo buraco da fechadura, passam para dentro do guarda-comida. A mulher pendura no forro as suas provisões. e elas fazem um comprido trilho ao longo das paredes e dos sarrafos, descem pela corda e comem. A mulher as queima, escalda, envenena. Depois disso fica sossegada, pensando ter acabado com elas. Oh! Se não vigiar, que surpresa! Aí vêm vindo as últimas que nasceram, e vamos começar tudo de novo. Assim é, enquanto se vive. É preciso que se vigie para extirpar as plantas daninhas, logo que germinam. Caso contrário, elas formam uma coberta de espinheiros e sufocam o trigo. Os cuidados com as coisas do mundo e o engano das riquezas criam o enredo, sufocam a planta da semente de Deus, e não deixam que ela produza espiga.

EMF 184.2 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Tem paciência, mulher. Todos têm a sua cruz.

– Ah! Não! As que são sem vergonha só têm o prazer. Já viste o que fazem as sem-vergonhas? Elas gozam, e fazem sofrer. Elas não despedaçam os seus rins com o trabalho e gerar filhos, não criam bolhas manuseando a enxada, nem esfolam suas mãos com a potassa da lixívia. Elas são bonitas, viçosas. E não são atingidas pela condenação que Eva recebeu. Antes, são a nossa condenação, porque os homens… Tu compreendes…

– Sim, Eu te compreendo. Mas, fica sabendo que elas também têm uma cruz pesada. E é a mais pesada. Pois é uma cruz que não se vê. É a cruz da consciência que as reprova, do mundo, que escarnece delas, dos que são do seu sangue, pois eles as repudiam, e de Deus que as amaldiçoa. Elas não são felizes, podes crer. Não despedaçam seus rins na procriação, nem no trabalho, nem ficam com feridas nas mãos por trabalhar. Mas sentem-se despedaçadas da mesma forma, e com vergonha. O coração delas é uma chaga viva. Não tenhas inveja da aparência delas, do seu frescor, da sua aparente serenidade. Tudo isso é um véu cobrindo uma ruína, que remorde e não dá paz. Não tenhas inveja do sono delas, tu, ó mãe honesta, que sonhas com os teus inocentes… Elas têm o pesadelo em seus travesseiros. E amanhã, quando estiverem na agonia ou na velhice, terão o remorso e o terror.

– É verdade. Perdoa-me…

EMF 184.8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Ficai certos de que Deus vê as vossas lutas e vos premia mais por um egoísmo vencido, por uma palavra profana retida, por uma exigência não imposta, do que se estivésseis numa batalha, matando o inimigo. O Reino dos Céus, do qual sereis possuidores, se viverdes como justos, é construído com as pequenas coisas de cada dia. Com a bondade, com a moderação, com a paciência, com o contentar-vos com o que tendes, com a tolerância recíproca, com o amor, o amor, o amor.

EMF 191.8 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

Eu desejaria ajudar-vos a todos até com bens materiais, mas não posso, e esta é a minha dor. Eu só posso mostrar-vos o Céu. Não posso senão ensinar-vos a grande sabedoria da resignação e prometer-vos o Reino futuro. (...) É melhor serdes Lázaros do que Epulões, podeis acreditar. Procurai chegar a crer nisto e sereis bem-aventurados.

EMF 205.3-7 · Volume 3

O Evangelho como me foi revelado

Citação

– Ouvi. É uma bela parábola, que vos guiará com sua luz, em muitos casos.

Um homem tinha dois filhos. O mais velho era sério, trabalhador, amoroso, obediente. O segundo era mais inteligente que o mais velho, pois este na verdade tinha pouca acuidade de espírito, e se deixava guiar para não ter que se cansar ao tomar decisões. Em compensação, porém, o mais jovem era rebelde, dado a passatempos, amante do luxo e do prazer, dissipador e preguiçoso. A inteligência é um grande dom de Deus. Mas é um dom que precisa ser usado com sabedoria. Se assim não for, ele se torna como certos remédios que, quando são mal usados, não curam, mas matam. O pai estava no seu direito e no seu dever, e o exortava sempre a levar uma vida de um modo mais ajuizado. Mas isso não adiantava nada, ao contrário, provocava da parte dele más respostas e um maior enrijecimento em suas próprias más ideias.

Afinal, um dia, depois de uma discussão mais violenta, o filho mais novo disse: “Dá-me a minha parte nos bens. Assim não precisarei mais ficar ouvindo tuas repreensões, nem os queixumes do irmão. Cada um com o que é seu e fica tudo acabado.” “Olha bem,” respondeu o pai, “que tu logo ficarás arruinado. E então, que farás? Pensa bem, que eu não irei ser injusto, procurando ficar a teu favor, e não tomarei um vintém do teu irmão para te dar.” “Não irei pedir nada. Fica certo disso. E dá-me a minha parte.”

O pai mandou avaliar as terras e os objetos de valor e, visto que o dinheiro e as jóias valiam tanto como as terras, deu ao mais velho os campos e os vinhedos, os rebanhos e as oliveiras, e ao mais novo o dinheiro e as jóias, que o jovem logo vendeu, transformando tudo em dinheiro. E, tendo feito isso, dentro de poucos dias, foi-se embora para um lugar muito distante, onde passou a viver como um ricaço, esbanjando tudo o que possuía em farras e patuscadas de toda espécie, querendo passar por filho de um rei, pois ele se envergonhava de dizer: “Eu sou um camponês”, renegando assim a condição de seu pai. Festinhas, amigos e amigas, boas vestes, vinho, jogatina…uma vida dissoluta… Bem depressa ele percebeu que o dinheiro ia diminuindo e que a miséria ia chegando. E, com a miséria, para torná-la mais penosa, sobreveio àquele lugar uma grande carestia, que acabou com o resto do dinheiro que ele ainda tinha.

205.4

Ele teria querido voltar para o pai. Mas era orgulhoso, e não quis. Foi, então, a um dos ricos do lugar, que tinha sido seu amigo nos bons tempos, e lhe suplicou: “Recebe-me entre os teus servos, lembrando-te de quando gozavas com as minhas riquezas.” Agora, vede vós como o homem é estulto! Ele prefere ir colocar-se debaixo do chicote de um patrão, a ir dizer ao seu pai “Perdoa-me! Eu errei!” Aquele jovem havia aprendido tantas coisas inúteis, com sua inteligência perspicaz, mas não tinha querido aprender aquela palavra[1] do Eclesiástico: “Como é infame aquele que abandona o seu pai, e como é maldito por Deus aquele que faz sua mãe ficar preocupada.” O rapaz era inteligente, mas não sábio.

O homem a quem ele havia se dirigido, em compensação pelo muito que ele havia gozado às custas do estulto jovem, mandou este estulto ir tomar conta de seus porcos — pois lá era terra de pagãos, onde havia muitos porcos — mandou que ele fosse apascentar em suas propriedades umas manadas de porcos. Imundo, esfarrapado, fedorento e esfomeado, — pois a comida estava escassa para todos os servos, especialmente para os empregados menos classificados, como era ele, um estrangeiro e, além disso, um porqueiro que era tratado como objeto de zombaria, — ele via como os porcos se saciavam com as bolotas de carvalho, e suspirava: “Ah! Se eu pudesse, pelo menos, encher a barriga com esses frutos! Mas eles são muito amargos! Nem a fome faz com que eles pareçam bons.” E chorava, pensando nos festins feitos pouco tempo atrás, por entre risadas, cantos e danças… depois pensava nas refeições honestas, mas bem nutritivas, de sua casa, que agora estava tão longe: …Pensava nas porções que o pai imparcialmente distribuía a todos, reservando sempre o menos para si, alegre por ver o apetite sadio de seus filhos… Pensava também nas partes que eram distribuídas aos servos por aquele justo, e suspirava: “Os empregados de meu pai, até os menos classificados, têm pão em abundância, e eu fico aqui morrendo de fome…”

Um grande trabalho de reflexão, uma longa luta para acabar com aquele orgulho…

205.5

E, afinal, chegou o dia em que, tendo renascido para a humildade e para a sabedoria, ele se pôs de pé, e disse: “Eu vou voltar para o meu pai! É uma estultice minha este orgulho, que me mantém aqui preso. E por quê? Por que ficar sofrendo assim no corpo, e mais ainda no coração, quando eu posso obter o perdão e ter alívio? Eu vou voltar para o meu pai. Está dito. E, que lhe direi eu? Ah! Sim. Direi o que nasceu aqui dentro, nesta baixeza, no meio destas sujeiras, sofrendo as mordeduras da fome! E eu lhe direi: ‘Meu pai, eu pequei contra o Céu e contra ti e não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me, pois, como o último dos teus empregados, mas tolera-me debaixo do teu teto. Que eu possa te ver passando…’ Eu não poderei dizer-lhe: ‘porque eu te amo’. Ele não acreditaria. Mas eu o direi com minha vida e ele compreenderá e, antes de morrer, ainda me abençoará. Oh! Isso eu espero. Porque meu pai me ama.” E, ao voltar de tarde para o povoado, ele foi despedir-se do patrão e depois, pedindo esmola pelo caminho, voltou para sua casa. Já se vêem os campos do pai… e a casa… e o pai, que estava dirigindo os trabalhos, já envelhecido, emagrecido pelos sofrimentos, mas sempre bom… O culpado, olhando aquilo que tinha sido causado por ele, parou atemorizado… mas o pai, correndo o olhar ao redor de si, o viu, e correu ao seu encontro, pois o filho ainda estava longe e, chegando perto dele, lançou-lhe os braços ao pescoço e o beijou. Somente o pai havia reconhecido naquele mendigo aviltado o seu filho, e só mesmo ele é que tinha tido um movimento de amor.

O filho, apertado entre aqueles braços, com a cabeça sobre o ombro paterno, murmura, por entre soluços: “Pai, deixa que eu me jogue aos teus pés.” “Não, meu filho! Aos pés, não! Mas sobre o meu coração, que tanto sofreu na tua ausência e que precisa reviver, ao sentir o teu calor sobre o meu peito.” E o filho, chorando ainda mais fortemente, disse: “Oh! meu pai! Eu pequei contra o Céu e contra ti, e já não sou digno de ser chamado por ti de filho. Mas, permite-me viver entre os teus servos, debaixo do teu telhado, vendo-te, comendo o teu pão, servindo-te, sentindo o teu hálito. A cada bocado de pão, a cada teu respiro, irá se reformando o meu coração, tão corrompido, e me tornarei honesto…”

Mas o pai, segurando-o sempre abraçado, o levou até onde estavam os servos, que se haviam aglomerado à distancia, e que de lá estavam observando, e lhes diz: “Depressa, trazei aqui a túnica mais bonita, os frascos com água de cheiro, dai-lhe um banho, perfumai-o, vesti-lhe a túnica, ponde-lhe sandálias novas e um anel no dedo. Depois, ide pegar um vitelo gordo, e matai-o. E que se prepare um banquete. Porque este meu filho estava morto e agora ressuscitou, estava perdido e foi reencontrado. Eu quero que agora ele também reencontre aquele seu simples amor de quando era pequeno. Que o meu amor e a festa da casa pela sua volta o façam reencontrar. Ele precisa compreender que para mim ele é sempre o querido caçula, como o era em sua longínqua infância, quando ele caminhava ao meu lado, fazendo-me ser feliz com o seu sorriso e o seu balbuciar.” E, como o patrão mandou, assim fizeram os servos.

205.6

O filho mais velho estava no campo e não estava sabendo de nada, enquanto não voltou. À tarde, voltando para casa, viu que ela estava toda iluminada, e ouviu o som dos instrumentos de música e das danças, que saía da casa. Chamou, então, um dos servos, que ia correndo muito atarefado, e lhe disse: “Que é que está acontecendo?” E o servo respondeu: “O teu irmão voltou! E teu pai fez matar o vitelo gordo, porque pôde reaver o filho com saúde, curado do seu grande mal, e mandou que se preparasse um banquete. Só estamos te esperando para começar.” Mas o primogênito, encolerizado, porque lhe parecia uma injustiça toda aquela festa para o mais jovem que, além de ser mais jovem, ainda tinha sido mau, não quis entrar, e até estava querendo afastar-se de casa.

Mas o pai, avisado disso, saiu correndo para fora, e o alcançou, tentando convencê-lo a entrar e pedindo-lhe que não tornasse amarga a sua alegria. O primogênito respondeu a seu pai: “E não queres que eu fique descontente? Tu estás fazendo uma injustiça, e tratando com desprezo ao teu primogênito. Eu, desde que pude trabalhar, sempre te servi, e isto há muitos anos. Eu nunca desobedeci a uma ordem tua, nem mesmo a um teu desejo. Eu sempre estive perto de ti e te amei por dois, para fazer-te ficar curado da ferida feita por meu irmão. E tu não me deste nem um cabrito para eu fazer uma festa com os meus amigos. E, para este, que te ofendeu, que te abandonou, que foi um preguiçoso e um esbanjador, e que agora está de volta, porque veio impelido pela fome, tu o cobres de honrarias, e matas para ele o vitelo mais bonito. Vale a pena sermos trabalhadores e sem vícios! Isto tu não devias fazer!” O pai disse-lhe, então, apertando-o contra o seu seio: “Oh! Meu filho! Poderás tu crer que eu não te amo, porque não estendi uma faixa festiva em honra de tuas boas ações? As tuas ações já são santas por si mesmas, e por elas o mundo te elogia. Mas este teu irmão, pelo contrário, precisa ser realçado na estima do mundo e em sua própria estima. Acreditarás tu que eu não te amo, só porque não te dei um prêmio visível? Mas, de manhã e de tarde, em todos os meus respiros e pensamentos, tu estás presente em meu coração e, a cada momento, eu te abençôo. Tu tens o prêmio contínuo de estares sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era justo que nos banqueteássemos e fizéssemos uma festa, por este teu irmão, que estava morto ressuscitou para o Bem, que estava perdido voltou ao nosso amor.” E o primogênito deu-se por vencido.

205.7

Assim, meus amigos, é que acontece na Casa do Pai. E quem sabe que está como o filho mais novo da parábola pense também que, se o imitar, voltando para o Pai, o Pai lhe dirá: “Não aos meus pés. Mas sobre o meu coração, que sofreu pela tua ausência, e que agora está feliz pela tua volta.” Quem está na condição de filho primogênito e sem culpa com o Pai, não seja ciumento da alegria paterna, mas participe dela, dando amor ao irmão redimido.

Anotação

Livro de Sirach 3, 16

Si 3, 16: O que abandona seu pai é como um blasfemo; o que provoca a ira de sua mãe é maldito do Senhor.

Evangelho de Lucas 15, 11-32

Lc 15, 11-32 : Jesus disse ainda: "Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: "Pai, dá-me a minha parte dos bens". E o pai dividiu os seus bens entre eles. Passados alguns dias, o filho mais novo juntou tudo o que tinha e partiu para um país distante, onde esbanjou a sua fortuna, levando uma vida desregrada. Já tinha gasto tudo, quando houve uma grande fome nesse país e ele começou a passar necessidade. Foi trabalhar para um habitante desse país, que o mandou tratar dos porcos nos seus campos. Ele teria gostado de encher a barriga com as vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada.

Então, entrou em casa e disse para consigo: "Quantos trabalhadores do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui a passar fome! Vou levantar-me, vou ter com o meu pai e digo-lhe: "Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus trabalhadores". Levantou-se e foi ter com o pai. Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, compadecido, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, enchendo-o de beijos. O filho disse-lhe: "Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho". Mas o pai disse aos seus servos: "Trazei depressa a melhor roupa para o vestir, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés, ide buscar o vitelo gordo, matai-o, comamos e festejemos, porque o meu filho, que estava morto, reviveu; estava perdido e foi encontrado." E começaram a banquetear-se.

Mas o filho mais velho estava no campo. Quando voltou e estava perto da casa, ouviu música e danças. Chamou um dos criados e perguntou-lhe o que se passava. O servo respondeu: "O teu irmão chegou, e o teu pai matou o vitelo gordo, porque encontrou o teu irmão de boa saúde". Então o filho mais velho zangou-se e recusou-se a entrar. O pai saiu para lhe pedir. Mas ele respondeu ao pai: "Há tantos anos que estou ao teu serviço sem nunca quebrar as tuas ordens, e nunca me deste um cabrito para me banquetear com os meus amigos. Mas quando este teu filho voltou de devorar os teus bens com prostitutas, mandaste matar o vitelo gordo para ele!" O pai respondeu: "Tu, meu filho, estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Havia necessidade de festejar e de se alegrar, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi encontrado!"""