– Tem paciência, mulher. Todos têm a sua cruz.
– Ah! Não! As que são sem vergonha só têm o prazer. Já viste o que fazem as sem-vergonhas? Elas gozam, e fazem sofrer. Elas não despedaçam os seus rins com o trabalho e gerar filhos, não criam bolhas manuseando a enxada, nem esfolam suas mãos com a potassa da lixívia. Elas são bonitas, viçosas. E não são atingidas pela condenação que Eva recebeu. Antes, são a nossa condenação, porque os homens… Tu compreendes…
– Sim, Eu te compreendo. Mas, fica sabendo que elas também têm uma cruz pesada. E é a mais pesada. Pois é uma cruz que não se vê. É a cruz da consciência que as reprova, do mundo, que escarnece delas, dos que são do seu sangue, pois eles as repudiam, e de Deus que as amaldiçoa. Elas não são felizes, podes crer. Não despedaçam seus rins na procriação, nem no trabalho, nem ficam com feridas nas mãos por trabalhar. Mas sentem-se despedaçadas da mesma forma, e com vergonha. O coração delas é uma chaga viva. Não tenhas inveja da aparência delas, do seu frescor, da sua aparente serenidade. Tudo isso é um véu cobrindo uma ruína, que remorde e não dá paz. Não tenhas inveja do sono delas, tu, ó mãe honesta, que sonhas com os teus inocentes… Elas têm o pesadelo em seus travesseiros. E amanhã, quando estiverem na agonia ou na velhice, terão o remorso e o terror.
– É verdade. Perdoa-me…