EMF 21.3-4.6
O Evangelho como me foi revelado
Citação
Maria desce do burrinho e se aproxima do portão. Olha por entre as barras. Não vê ninguém. Então, procura fazer-se ouvir. Uma pequena senhora, mais curiosa do que as outras, a tinha acompanhado e mostra-lhe um utensílio muito especial, que faz as vezes de uma campainha. São dois pedaços de metal, colocados em equilíbrio sobre uma barra: sacudindo-se esta barra, ao puxar-se uma corda, as duas peças batem uma na outra, produzindo o som de um sino, ou de um gongo.
Maria puxa a corda, mas de um modo tão delicado, que o som produzido é um levíssimo tinido, que ninguém ouve. Então, a mulherzinha, uma velhota do nariz e queixo grande, com uma língua imensa, agarra a corda e puxa muitas vezes em seguida. O barulho que ela fez com isso dava para ressuscitar um morto.
– É assim que se faz, mulher. Pois, de outro modo, como vos poderiam ouvir? Ficai sabendo que Isabel está velha, e Zacarias também está velho. Além disso, agora ele, além de mudo, está também surdo. Os dois criados estão velhos também, sabes? Nunca viestes aqui? Conheceis Zacarias? Sereis vós talvez…
Para livrar Maria de um dilúvio de notícias e de perguntas, apareceu um velhinho decidido, que deve ser o jardineiro, ou um agricultor, pois traz na mão um sacho e, amarrada à cintura, uma podadeira. Ele abre o portão, Maria entra, agradecendo à mulherzinha, mas… deixando-a sem resposta. Que desilusão para a curiosa!
Logo que entrou, Maria disse:
– Sou Maria de Joaquim e de Ana, de Nazaré. Prima de teus patrões.
21.4 O velhinho se inclina e a saúda, e depois em voz alta, chama:
– Sara! Sara!
E torna a abrir o portão para fazer entrar o burrinho, que tinha ficado de fora, porque Maria, para ver-se livre da pegajosa velhinha, tinha escapado rapidamente para dentro, e o jardineiro, tão rápido como Maria, tinha fechado o portão no nariz da importuna. Enquanto está fazendo o jumento passar, ele diz:
– Ah! que grande felicidade e que grande desgraça aconteceram a esta casa! Pois o céu concedeu um filho à estéril, bendito seja o Altíssimo! Mas Zacarias, já há sete meses, voltou mudo de Jerusalém! E ele só se faz entender por acenos, ou escrevendo. Teríeis vós sabido disso? Minha patroa desejou ter-te aqui, em sua alegria e em sua dor. Ela sempre falava de vós com Sara, e dizia: “Se eu tivesse a minha pequena Maria aqui comigo! Se ela tivesse ficado ainda no Templo! Eu teria mandado Zacarias ir buscá-la. Mas agora o Senhor quis que ela se casasse com José de Nazaré. Só ela é que poderia me confortar nesta dor e ajudar-me a orar a Deus, pois ela é tão boa. No Templo todos sentem saudades dela. Na festa passada, quando fui com Zacarias a Jerusalém, para agradecer a Deus por me ter dado um filho, ouvi as mestras dela que diziam: ‘O Templo parece estar sem os querubins da glória, desde que a voz de Maria deixou de ser ouvida por estas paredes’.” Sara! Sara! Minha mulher é um pouco surda. Mas vem, vem que eu mesmo te guio.
[Entretanto, Isabel chega e a Visitação tem lugar.]
21.6 O criado que prudentemente tinha tratado de desaparecer dali, logo que percebeu que Isabel não estava passando mal, mas que estava confidenciando o seu pensamento a Maria, volta do pomar com um imponente ancião vestido de branco, de barba e cabelos completamente brancos, e que, com grandes gestos, e emitindo sons guturais, saúda de longe Maria.
– Zacarias vem chegando –diz Isabel, tocando no ombro da virgem, que está absorta em oração–. O meu Zacarias está mudo.
[...]
É uma veste muito ampla, presa em seu lugar na cintura por um galão grosso e bordado.
Zacarias, por meio de gestos, dá as boas vindas a Maria e os dois, em companhia de Isabel, entram todos em um salão térreo, vasto e bem arrumado, onde fazem com que Maria se assente, e lhe oferecem uma taça de leite tirado na hora, ainda espumante, com uns pãezinhos.
Isabel dá ordens à criada, que afinal também apareceu, com as mãos enfarinhadas e com os cabelos ainda mais brancos, também por causa da farinha que está por cima deles. Talvez ela estivesse fazendo o pão. Dá ordens também ao criado, que percebi chamar-se Samuel, para que ele leve o baú de Maria para um quarto que ela lhe está mostrando. Cumprem-se todos os deveres de uma dona de casa para com a sua hóspede.
Detalhe
Este capítulo descreve um servo de Zacarias e Isabel, marido da idosa Sara, que era também servo dos pais de João Batista. Era provavelmente um jardineiro.